Ainda vais a tempo de te inscreveres!

Ler em Português — formação em diálogo

Vamos questionar, ao longo de quatro sessões, a singularidade da literatura portuguesa na abordagem que faz ao tempo, ao corpo, aos espaços, à vida interior e a à vida exterior.

Vamos dialogar sobre narrativas, a sua construção, a sua fragmentação e a sua renovação.

Não será pedido às participantes que leiam os livros por mim escolhidos. No entanto, será pedido que no final apresentem um livro à sua escolha.

Vamos partilhar leituras.

14 de outubro
formação: Apresentação de uma narrativa portuguesa possível.

4 de novembro
formação + diálogo: Ema de Maria Teresa Horta e a narrativa interior.

25 de novembro
formação + diálogo: Lillias Fraser de Hélia Correia e a narrativa exterior.

16 de dezembro:
diálogo: Apresentação e cruzamento de múltiplas narrativas — pelas participantes.

.horário.

15h-17h

.inscrições.

inscrição até final de Setembro: 35€
sócias de vida: 30€

Inscrição a partir de outubro: 40€
sócias de vida: 35€

2 vagas gratuitas
VAGAS LIMITADAS
inscrições → livrariaconfraria@gmail.com

.orientação.

Diana Fontão, dinamizadora do Clube de Leitura As Leitoras de Pandora, gosta de livros, gatos e abacates. Quer visitar todos os castelos do país. E acredita na literatura antes de todas as coisas.

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A questão feminina na literatura do fim do século XIX e início do século XX [Parte 1]

Imagem relacionada
Sibilla Aleramo (14-08-1876, 13-01-1960, Itália)

A mulher na literatura do séc. XIX

Neste período da literatura encontramos obras que, talvez sem intenção, colocaram a sociedade a discutir as reivindicações que as mulheres e as “primeiras” feministas faziam na época; o direito ao voto, o direito a casar ou não casar com quem escolhessem, o direito a uma profissão… A questão feminina era um tema de actualidade e ficou reflectido na literatura da época. Os escritores,  quase todos homens, expressaram os seus pontos de vista em ensaios e romances.

A literatura da segunda metade do século XIX procurou retratar o que acontecia na sociedade por isso,  não podia ficar alheia a questão feminina. Podemos encontrar-la retratada com alguma constância na literatura realista e naturalista. O que mais interesse me suscita nestas obras, onde os direitos da mulher aparecem como pano de fundo ou como argumento central, é a escolha do autor (algumas vezes escritoras) dos argumentos no discurso das personagens e principalmente os comentários e reflexões dos narradores omniscientes.

Nas próximas semanas vou reflectir sobre diferentes pontos desta “questão feminina” na literatura do século XIX e início do século XX, acompanham-me?!?!

A questão feminina na literatura do fim do século XIX e início do século XX: A violência contra a mulher

A violência exercida contra a mulher,  não aparece muito na literatura da época,  ou pelo menos não de forma escancarada, o que nos pode levar a pensar que era tabu, que era escondida e camuflada. Os jornais da época faziam eco apenas dos casos que consideravam “extremos”, os assassinatos (toda a violência é extrema e igualmente grave e injustificável). Tinham por costume etiqueta-los como crimes passionais. Apesar das tentativas da sociedade em camuflar (justificar e naturalizar) a violência contra a mulher encontramos algumas obra que a descrevem e a deixam a  nu, como em Crime And Punishment (Crime e Castigo). Neste romance podemos encontrar  a integridade física da mulher como direito fundamental. Raskólnikov, um homem repugnante, um assediador e agressor que se defende de quem o acusa de ter batido na mulher até mata-la. Facto que nega recorrendo ao cinismo (talvez uma característica do discurso da época).


Outro romance, neste caso autobiográfico, onde podemos ver a crueza da violência contra a mulher é na obra Uma Mulher (Una Donna) da escritora Sibilla Alleramo. A forma como a violência é descrita nesta obra impactou-me pela crueza, sinceridade e actualidade, nela vemos como estes crimes não têm nada de passionais. Não há amor na violência. No romance de Alleramo descobrimos uma jovem esposa de 20 anos de idade, 2 anos de casamento e um bebé de poucos meses. Um marido igualmente jovem que trabalha para o pai dela e com o qual apenas namoriscou. A jovem esposa é culta e inteligente qualidades que o marido não suporta; a superioridade intelectual levam-no a trata-la com desprezo, assedia-la com cenas de ciúmes descabidas até lhe fazer a vida impossível e coloca-la à beira do suicídio.

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Outra obra onde podemos ver e reflectir sobre a crueza da violência contra a mulher é na The Kreutzer Sonata and Other Stories (A Sonata a Kreutzer) este romance relata o assassinato de uma mulher pelo marido. Tolstoy escrutina a consciência do assassino que apunhala a esposa.  Vemos como a personagem vestida de raiva e ciúme é completamente consciente dos seus actos e por isso responsável pelo seu acto grotesco.  Desta forma podemos ver como o autor descola o assassinato de uma mulher daquilo que os jornais e a crítica social teimavam (e ainda teima) em etiquetar de crime passional e o situa na sua verdadeira dimensão: crime violento.

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Através destas três obras, entre outras, podemos observar a moral que recai sobre a mulher pelo facto de ser mulher, ver como opera a violência misógina quando o esposo/amante/ex-amante assassina a companheira e como a resposta social, política e judicial está carregada de silêncios, justificações e/ou passividade perpetuando assim um sistema patriarcal. Vemos como os silêncios e naturalizações da violência contra a mulher são um sinal de que há muitos interesses na(s)  realidade(s) que conduzem a estás dramáticas consequências.

A literatura também nos aproxima e nos faz reflectir sobre a igualdade e a convivência amparada pelos direitos humanos.  Os livros e as suas histórias podem ser corredores que percorremos para situar a sociedade na verdade e deslocar assim a mentira e os seus argumentos ardilosos, que nos têm impedido avançar pelo caminho da igualdade e do respeito pelos direitos humanos.

Dostoiévski, Alleramo e Tolstoy expõe nestes três romances os privilégios históricos dos quais os homens sempre foram os principais (e quase sempre únicos) beneficiários, e assim manter a autoridade das suas relações, até ao ponto de normalizar e invisibilizar a violência contra a mulher e fazer-nos acreditar que o feminicídio se produz de forma natural ou por amor ou por ciúmes ou sobre a influência de alguma substância ou por um transtorno mental mas raramente porque a sociedade está estruturada num sistema patriarcal carregado de preceitos misóginos.

Brevemente parte 2

texto escrito por

 Crime e Castigo, Una Donna, A Sonata a Kreutzer, estão disponíveis na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres caso este texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente, 10% desconto || Código: questãofeminina

E tu atreves-te a viajar para outros tempos e lugares?!!?

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Dizem que a literatura de viagem começou com o primeiro diário de Cristóvão Colombo, quando nos apresentava o “novo mundo”. Depois as explorações de novas civilizações exóticas foram um “boom” e pensamos em Stevenson… viajamos a lugares distantes através dos olhos destes viajantes e descobrimos novas sensações através das palavras.

Mas há outras paragens, outras sensações, outras palavras que precisam ser resgatadas, o mundo deve ser visto e lido por todos os olhos: pelos olhos dos viajantes e das viajantes. As mulheres viajantes estiveram em lugares extraordinários que podemos descobrir através das palavras de Sónia Serrano e de Pilar Tejera.

Hoje não nos parece estranho que uma mulher embarque na aventura de viajar, mochila nas costas, ou arrastando uma moderna trolley, de um lado para o outro do mundo. Aviões, comboios, barcos, que encurtam a cada dia mais um pouco as distancias de um mundo que é cada vez mais fácil de explorar. Mas se imaginarmos essas mesmas mulheres sozinhas, com as suas roupagens femininas do século XIX ou XVIII, por exemplo, as coisas ficam bem diferentes.

Como viajavam? Que dificuldades encontravam? Que motivos as empurrava a empreender as suas aventuras?

Na história sempre existiram mulheres aventureiras, com muita vontade de conhecer o mundo, que não optaram simplesmente por uma vida extravagante para o seu tempo mas sim romperam com estereótipos da mulher dentro do lar. Elas queriam conhecer novos lugares, novas pessoas, novos costumes… Para muitas destas mulheres era muito mais do que uma aventura, era tomar a rédeas das suas vidas.

Sónia Serrano (Mulheres Viajantes) e Pilar Tejera (Viajeras de leyenda) são duas autoras que se deixaram levar pela curiosidade da investigação e nos presenteiam com dois fantásticos livros. Em cada um dos livros não só descobrimos lugares fantásticos mas principalmente histórias de mulheres (reais) que conviveram com canibais, que viveram na selva, conheceram marajás, atravessaram desertos, dormiram debaixo das estrelas…

e tu atreves-te a viajar para outros tempos e lugares?!!?

Viajeras de leyenda de Pilar Tejera

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 Mulheres Viajantes de Sónia Serrano e Viajeras de leyenda de Pilar Tejera, estão disponíveis na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres caso este texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente, 10% desconto || Código: viajamosjuntas

 

Que raio está a acontecer aqui.

Ler, discutir, confrontar medos, retirar o quotidiano da esfera da normalidade e perguntar o que raio está a acontecer aqui.

O Antes – esta cultura que temos

Emma O’Donovan, 18 anos recém-feitos. A culpa é minha é um livro a ler pelo tema que trata. Violação é a palavra que não pode ser dita, aquilo que só acontece às outras, e mesmo quando lhes acontece, se calhar pode não ter sido, tens a certeza, não estarás confusa, não tinhas bebido um bocado? A ler por raparigas adolescentes, assim como por rapazes adolescentes, e depois, por adultos, nós, os que perpetuamos a cultura da violação, recebida dos nossos pais. E reler, para poder estar mais atentos ao livro e não tanto a pensamentos de como esta rapariga é familiar, ou como aqui isto não aconteceria, não o meu filho, nunca com a minha filha, nunca comigo. Eu não riria, eu não omitiria. A culpa é insidiosa.

Os méritos deste livro assentam no abordar o tema sem subterfúgios e na forma como a personagem principal, Emma, é construída. Esta foi talvez a dimensão da leitura que me deixou mais angustiada (entre as várias angústias que o livro oferece). A Emma da primeira parte do livro, do “Antes”, vive numa constante exteriorização de si, parece apenas materializar-se no espaço em que a sua pele encontra o olhar dos outros. Sobretudo o olhar de desejo, por parte dos homens, e de inveja, por parte das mulheres. De aprovação por parte da mãe (“estás linda esta manhã, Emmie”) e de devoção por parte do pai (“és a minha princesa”). A Emma da primeira parte parece ser uma observadora que observa como a observam, só. É difícil de suportar, esse vácuo. “Sou a Emma O’Donovan”, repete.

A única coisa que compreende bem, que a preenche, é a culpa.

A Emma do “Depois” não consegue atribuir sentido a essa palavra que lhe aconteceu. É isolada, marginalizada, torturada lentamente nas redes sociais. Os risos, apenas de crueldade. O inferno são os outros. Os agressores seguem livres, aceites. Como atribuir um sentido se o mundo inteiro – aquela comunidade, a casa – lhe cospe na cara o contrário?

A única coisa que compreende bem, que a preenche, é a culpa. A Emma do “Depois”, que diz não ter mais identidade própria, ser um corpo-coisa reclamado por outros, “a Rapariga de Ballinatoom”, tem um olhar seu, discorre internamente sobre si e sobre os outros. E isto perturbou-me. Emma O’Donovan parece ser mais pessoa por causa daquilo que lhe aconteceu. Emma O’Donovan deixa de ser objecto de desejo e passa a ser alvo de asco e, de repente, tem voz própria. Perturbou-me porque foi uma opção da autora e perturbou-me porque poderia ser verdade. E eu não quero que seja. Que nenhuma Emma tenha como único poder o poder de agradar, que nenhuma Emma tenha de ser estilhaçada para se ouvir.

O Depois – educar é preciso

Ler, discutir, confrontar medos, retirar o quotidiano da esfera da normalidade e perguntar o que raio está a acontecer aqui. Para lá da culpa tem de haver a responsabilidade, nossa, colectiva.

A educação também se faz na rua, temos de ser humanos o suficiente para trazer esta discussão para o espaço público, mulheres o suficiente para nos solidarizarmos, homens o suficiente para não aceitar, nunca, a inevitabilidade da violência sexual.

No passado dia 25 de Maio, no Porto, em Braga, Coimbra, Lisboa e Faro, muitas de nós – que podemos, que já fomos vítimas da palavra inominável (violação), que não fomos mas estivemos lá perto, que percebemos, que ainda não compreendemos mas queremos aprender – gritámos bem alto «que não há nós e elas, aquilo que existe são mulheres que todos os dias enfrentam uma sociedade prenhe de violência machista. Elas somos nós. Mexeu com uma, mexeu com todas.» 

Mexeu com uma, mexeu com todas, Emma.

#Mexeucomtodas 

 

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Também podes encontrar o livro para empréstimo na biblioteca da Confraria Vermelha . Mais informação via email: osteuslivros@gmail.com

Sónia Serrano na Confraria ♥

foto de Nuno Fangueiro

O livro “Mulheres Viajantes” de Sónia Serrano, aborda a Obra e a Vida de dezoito mulheres que desafiaram as convenções e se aventuraram pelo Mundo.

Contrariaram estereótipos, fizeram as malas e partiram sozinhas à descoberta do mundo. Do século IV aos nossos dias, estas mulheres viajantes disfarçaram-se com calças e cabelos curtos, comeram gafanhotos, estudaram tribos e marcaram a literatura de viagens.

Sónia Serrano arranca do esquecimento sexista as mulheres viajantes, evocando histórias admiráveis, como a de Alexandra David Néel, que tentou tornar-se na primeira ocidental a entrar em Lhasa, ou a de Freya Starck, que mapeou o nordeste do Irão enquanto buscava os castelos da histórica seita dos assassinos. Um A a Z historicamente contextualizado, apoiado em excertos de textos, que inclui pioneiras como Mencia de Calderón, ou aventureiras como Karen Blixen.

“Mulheres Viajantes” não é apenas uma viagem pela vida de 18 mulheres viajantes é também uma aproximação à literatura de viagem, percebendo as possibilidades de narrativa – ficcionada ou não-, a liberdade e a subjectividade que a narrativa literária comporta.

Uma das coisas que mais gostei em Mulheres Viajantes foi aproximar-me do corpo. O primeiro veículo que usamos para viajar é o corpo, ele vai sempre na mala, e é a mala!!  Nele guardamos as experiências vividas antes, durante e depois da viagem.

Com as mulheres viajantes que a Sónia Serrano nos apresenta vemos comos as viagens atravessam o corpo da viajante. Não era raro, em tempos mais recuados, pelo menos até ao início do século XX, a mulher que era autora de livros de viagem querer esconder o seu género. Um dos mais notáveis exemplo será o de Mary Kingsley que pretendia que o seu nome aparecesse apenas como M. H. Kingsley, não revelando assim que era uma mulher que vivia aquelas aventuras.

“Não interessa ao público em geral quem eu sou desde que lhe conte a verdade o melhor que posso”. M. H. Kingsley

Havia um desejo de legitimação, claro, as pessoas tendiam a acreditar mais que tais aventuras só podiam ser vividas por um homem. Fruto da discriminação a que era sujeita a mulher, em certos casos, escondia a sua condição, ou então fazia o oposto e assumia que jamais poderia viajar e escrever como um homem.

Sinto esta aproximação com o corpo como livro de viagens logo na primeira parte do livro, onde Sónia Serrano nos fala dos preparativos de viagem. E começamos a construir na nossa cabeça a forma como as mulheres viajavam antigamente – higiene, saúde, as dificuldades e perigos aos que estão expostas por serem mulheres, etc.

Terminamos de imaginar os preparativos e Sónia Serrano começa a apresentação das suas Mulheres Viajantes, sem obedecera a outro critério que o seu gosto.

O livro é um catálogo de existências, um convívio com as mulheres que desafiaram as convenções e se aventuraram pelo mundo.

A  AUTORA

Sónia Serrano é lisboeta com ascendência espanhola. Formada em Direito, também trabalha com literatura (hispano-america e espanhola), como jornalista e, vale destacar, foi co-comissária na exposição no museu Berardo sobre a viajante (jornalista e escritora) AnneMarie Schwarzenbach. Do seu trabalho nesta exposição começa a história deste livro.

livreira e escritora /foto de Sara Leão

Foi um prazer conhecer a Sónia Serrano, e gostaria de lhe agradecer a sua visita e a gentileza de ter conversado connosco. E, mais que isso, por escrever este livro.

Também quero agradecer à Elisabete Monteiro por aceitar o convite para orientar esta conversa e à Maria dos Prazeres Rovisco por tecer pontes. À Sara Leão por fazer o directo para o facebook e ao Nuno Fangueiro pelas fotos catitas. #juntasfazemosacontecer

Agora só me resta agradecer-te a ti por me deixares entrar no teu mundo e despedir-me, dizendo que espero poder reler Mulheres Viajantes na minha próxima viagem pois adorei o livro. E claro, não posso deixar de te recomendar esta leitura e desejar que seja uma óptima “viagem” caso te animes a comprá-lo.

Tenho a ideia de criar um book nook para mim há muito tempo.

Hábitos de Leitura

Tens algum lugar específico para ler em tua casa?

Para já não, mas estou a mudar de casa e vou criar um cantinho de leitura, com sofá e boa luz, almofadas e mantas. Tenho a ideia de criar um book nook para mim há muito tempo.

Utilizas marcador de livros ou um papel ao azar?

Uso marcadores quase sempre, tenho imensos e faço colecção.

Podes parar a leitura ou tens que parar em momentos concretos como o fim de um capítulo ou um número determinado de páginas?

Paro a qualquer momento, como normalmente leio nos transportes e enquanto tomo o pequeno almoço, costumo ter que parar quando chego ao trabalho e (infelizmente) tenho que parar de ler para trabalhar. Não tenho obsessão nem faço questão de terminar capítulos ou ler X nº de página.

Comes ou bebes durante a leitura?

Só quando estou a tomar o pequeno almoço, antes do trabalho. Se estiver só a ler não preciso de comer nem beber. Tenho aquela ideia bonita de estar a ler com um copo de vinho ou de chá mas depois nunca me lembro de o fazer.

Vês televisão ou ouves musica durante a leitura?

Se for nos transportes posso ir a ouvir música enquanto leio mas normalmente tento que seja numa língua diferente daquela em que estou a ler ou que a música não me interrompa. Se o livro me motivar o suficiente consigo estar a ler com TV ligada também.

Um livro de cada vez ou vários ao mesmo tempo?

É muito frequente eu pegar e começar vários livros ao mesmo tempo mas depois na prática acabo a ficar mais com um e largar os outros. Por isso diria que um de cada vez se for ficção. Não ficção normalmente leio sempre acompanhado com mais algum, mas também depende de quanto me absorve a leitura.

Ler em casa ou em qualquer lugar?

Leio normalmente fora de casa, o lugar onde mais leio são transportes públicos. Quero poder criar espaços e tempos para ler mais em casa e também em jardins 8. ler sempre na minha cabeça

Ler em voz alta ou na tua cabeça?

Ler sempre na minha cabeça.

Alguma vez lês páginas posteriores ou saltas algumas?

Sim, faço isso constantemente. Ando para trás para ler uma passagem que já li ou porque quero recordar, ou porque ouve alguma palavra que me ficou, ou porque quero só aquela frase ou ideia de novo, ou porque como escrevo preciso de sentir aquela passagem, não sei. Ando também muitas vezes para a frente. Eu sou uma pessoa que não se importa nada com spoilers e saber o que acontece mais à frente tem o efeito de me fazer querer ler ainda mais e por isso às vezes salto páginas e depois volto atrás e leio de seguida ou muitas vezes vou ver o fim do livro, a última frase, e depois leio até lá.
Vincar a lombada ou deixar o livro como novo?

Vincar, andar com ele na mala, andar com ele por todo o lado, os meus livros quando os acabo parece que andaram na guerra e eu não me importo. Adoro um livro com ar lido, com ar de que foi lido, amado, emprestado, repassado, eu sei lá. Um livro lido é completamente diferente de um novo nunca lido. Fica com uma parte de nós, conseguimos ver o quanto foi gostado por nós quando o olhamos na estante. Sei que há leitores que odeiam isto – o meu irmão mostra o seu profundo amor aos livros deixando-os imaculados depois de os ler, eu faço o oposto, os dois amamos livros.

Escreves ou sublinhas os livros que lês?

O meu livro preferido está todo sublinhado, páginas dobradas na ponta, notas de lado, enfim, tudo. Mas foi porque também escrevi sobre ele, fiz um trabalho sobre ele. Se estiver só a ler ficção não tendo tanto a sublinhar, mas nos livros de não ficção sou incapaz de não sublinhar. Ficção consigo, mas se às vezes gosto de uma citação, faço dog ear (dobra o cantinho do livro) à página em cima.

 

Inês Rolo a ler desde 1992. A Inês também escreve podes lê-la aqui ou segui-la no Goodreads.

Não há amor sem humor

texto escrito por Sara Leão

A história começa com um parto. E depois, há a capa. Porque haveria eu de resistir a esta capa? O parto acontece nas traseiras de uma oficina, em plena fuga para a frente, entre mundos em guerra. O pai do novo ser sem nome corta o cordão umbilical com os dentes. Hazel é agora, em nome próprio, a narradora desta história. Esta é  a sua autobiografia.

Não há amor sem humor e “Saga” tem ambos, em abundância.

São muitos começos: nasce uma nova família, que sela o corte com o passado e com a guerra infindável travada entre os planetas de Alana e Marko. Alana tem asas, Marko tem cornos e Hazel tem tudo, e é tudo, pelo menos, para os dois. Abandonam as filiações planetárias, lutam apenas em defesa de si e do recém-chegado terceiro elemento – querem permitir-se uma nova forma de viver. São guerreiros em reforma antecipada, que as circunstâncias não querem facilitar.

Leiam. É muito, muito bom. E, quanto mais não fosse, há robôs. Já me têm dito que é um ponto a favor de qualquer história. Se me permitem, prefiro apostar em guerreiras intergalácticas que amamentam.

As ânsias familiares são partilhadas por diferentes espécies, desde robôs aristocráticos, cujo  sexo decorre em corpos plenamente antropomórficos (salvo pela cabeça-monitor), a mercenários letais mas sujeitos a arrebates de ternura, quando confrontados com a escravidão sexual de uma menina de 6 anos. Não sabemos, ainda, ao que vão. Procuram a continuidade duma linhagem de robôs de sangue azul? A ternura foi revolta contra outras orfandades? O livro explora as raízes emocionais que, bem ou mal, nos seguram, e que conseguem ser mais sinuosas do que as plantas dos Bosques Sem Fim. «Que género de idiotas têm um filho num mundo como este?». “Saga” responde que vários.

Os desenhos de Fiona Staples são sedutores e profundamente expressivos. Sabe bem ao meu eu adulto continuar a perder-se nas imagens de um livro. Brian K. Vaughan é um estrela dos comics, tendo escrito para a Marvel, assim como para televisão e cinema. Há ainda outras personagens memoráveis, como uma gata que não tolera mentiras, ou uma baby-sitter adolescente de gorro e tripas ao dependuro, por baixo da t-shirt. Não há amor sem humor e “Saga” tem ambos, em abundância.

Leiam. É muito, muito bom. E, quanto mais não fosse, há robôs. Já me têm dito que é um ponto a favor de qualquer história. Se me permitem, prefiro apostar em guerreiras intergalácticas que amamentam.

 ✄  Brian k. Vaughan e Fiona Staples FloyStudio está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres»» caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente: Código de desconto mais(hu)amor