Que raio está a acontecer aqui.

Ler, discutir, confrontar medos, retirar o quotidiano da esfera da normalidade e perguntar o que raio está a acontecer aqui.

O Antes – esta cultura que temos

Emma O’Donovan, 18 anos recém-feitos. A culpa é minha é um livro a ler pelo tema que trata. Violação é a palavra que não pode ser dita, aquilo que só acontece às outras, e mesmo quando lhes acontece, se calhar pode não ter sido, tens a certeza, não estarás confusa, não tinhas bebido um bocado? A ler por raparigas adolescentes, assim como por rapazes adolescentes, e depois, por adultos, nós, os que perpetuamos a cultura da violação, recebida dos nossos pais. E reler, para poder estar mais atentos ao livro e não tanto a pensamentos de como esta rapariga é familiar, ou como aqui isto não aconteceria, não o meu filho, nunca com a minha filha, nunca comigo. Eu não riria, eu não omitiria. A culpa é insidiosa.

Os méritos deste livro assentam no abordar o tema sem subterfúgios e na forma como a personagem principal, Emma, é construída. Esta foi talvez a dimensão da leitura que me deixou mais angustiada (entre as várias angústias que o livro oferece). A Emma da primeira parte do livro, do “Antes”, vive numa constante exteriorização de si, parece apenas materializar-se no espaço em que a sua pele encontra o olhar dos outros. Sobretudo o olhar de desejo, por parte dos homens, e de inveja, por parte das mulheres. De aprovação por parte da mãe (“estás linda esta manhã, Emmie”) e de devoção por parte do pai (“és a minha princesa”). A Emma da primeira parte parece ser uma observadora que observa como a observam, só. É difícil de suportar, esse vácuo. “Sou a Emma O’Donovan”, repete.

A única coisa que compreende bem, que a preenche, é a culpa.

A Emma do “Depois” não consegue atribuir sentido a essa palavra que lhe aconteceu. É isolada, marginalizada, torturada lentamente nas redes sociais. Os risos, apenas de crueldade. O inferno são os outros. Os agressores seguem livres, aceites. Como atribuir um sentido se o mundo inteiro – aquela comunidade, a casa – lhe cospe na cara o contrário?

A única coisa que compreende bem, que a preenche, é a culpa. A Emma do “Depois”, que diz não ter mais identidade própria, ser um corpo-coisa reclamado por outros, “a Rapariga de Ballinatoom”, tem um olhar seu, discorre internamente sobre si e sobre os outros. E isto perturbou-me. Emma O’Donovan parece ser mais pessoa por causa daquilo que lhe aconteceu. Emma O’Donovan deixa de ser objecto de desejo e passa a ser alvo de asco e, de repente, tem voz própria. Perturbou-me porque foi uma opção da autora e perturbou-me porque poderia ser verdade. E eu não quero que seja. Que nenhuma Emma tenha como único poder o poder de agradar, que nenhuma Emma tenha de ser estilhaçada para se ouvir.

O Depois – educar é preciso

Ler, discutir, confrontar medos, retirar o quotidiano da esfera da normalidade e perguntar o que raio está a acontecer aqui. Para lá da culpa tem de haver a responsabilidade, nossa, colectiva.

A educação também se faz na rua, temos de ser humanos o suficiente para trazer esta discussão para o espaço público, mulheres o suficiente para nos solidarizarmos, homens o suficiente para não aceitar, nunca, a inevitabilidade da violência sexual.

No passado dia 25 de Maio, no Porto, em Braga, Coimbra, Lisboa e Faro, muitas de nós – que podemos, que já fomos vítimas da palavra inominável (violação), que não fomos mas estivemos lá perto, que percebemos, que ainda não compreendemos mas queremos aprender – gritámos bem alto «que não há nós e elas, aquilo que existe são mulheres que todos os dias enfrentam uma sociedade prenhe de violência machista. Elas somos nós. Mexeu com uma, mexeu com todas.» 

Mexeu com uma, mexeu com todas, Emma.

#Mexeucomtodas 

 

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Sónia Serrano na Confraria ♥

foto de Nuno Fangueiro

O livro “Mulheres Viajantes” de Sónia Serrano, aborda a Obra e a Vida de dezoito mulheres que desafiaram as convenções e se aventuraram pelo Mundo.

Contrariaram estereótipos, fizeram as malas e partiram sozinhas à descoberta do mundo. Do século IV aos nossos dias, estas mulheres viajantes disfarçaram-se com calças e cabelos curtos, comeram gafanhotos, estudaram tribos e marcaram a literatura de viagens.

Sónia Serrano arranca do esquecimento sexista as mulheres viajantes, evocando histórias admiráveis, como a de Alexandra David Néel, que tentou tornar-se na primeira ocidental a entrar em Lhasa, ou a de Freya Starck, que mapeou o nordeste do Irão enquanto buscava os castelos da histórica seita dos assassinos. Um A a Z historicamente contextualizado, apoiado em excertos de textos, que inclui pioneiras como Mencia de Calderón, ou aventureiras como Karen Blixen.

“Mulheres Viajantes” não é apenas uma viagem pela vida de 18 mulheres viajantes é também uma aproximação à literatura de viagem, percebendo as possibilidades de narrativa – ficcionada ou não-, a liberdade e a subjectividade que a narrativa literária comporta.

Uma das coisas que mais gostei em Mulheres Viajantes foi aproximar-me do corpo. O primeiro veículo que usamos para viajar é o corpo, ele vai sempre na mala, e é a mala!!  Nele guardamos as experiências vividas antes, durante e depois da viagem.

Com as mulheres viajantes que a Sónia Serrano nos apresenta vemos comos as viagens atravessam o corpo da viajante. Não era raro, em tempos mais recuados, pelo menos até ao início do século XX, a mulher que era autora de livros de viagem querer esconder o seu género. Um dos mais notáveis exemplo será o de Mary Kingsley que pretendia que o seu nome aparecesse apenas como M. H. Kingsley, não revelando assim que era uma mulher que vivia aquelas aventuras.

“Não interessa ao público em geral quem eu sou desde que lhe conte a verdade o melhor que posso”. M. H. Kingsley

Havia um desejo de legitimação, claro, as pessoas tendiam a acreditar mais que tais aventuras só podiam ser vividas por um homem. Fruto da discriminação a que era sujeita a mulher, em certos casos, escondia a sua condição, ou então fazia o oposto e assumia que jamais poderia viajar e escrever como um homem.

Sinto esta aproximação com o corpo como livro de viagens logo na primeira parte do livro, onde Sónia Serrano nos fala dos preparativos de viagem. E começamos a construir na nossa cabeça a forma como as mulheres viajavam antigamente – higiene, saúde, as dificuldades e perigos aos que estão expostas por serem mulheres, etc.

Terminamos de imaginar os preparativos e Sónia Serrano começa a apresentação das suas Mulheres Viajantes, sem obedecera a outro critério que o seu gosto.

O livro é um catálogo de existências, um convívio com as mulheres que desafiaram as convenções e se aventuraram pelo mundo.

A  AUTORA

Sónia Serrano é lisboeta com ascendência espanhola. Formada em Direito, também trabalha com literatura (hispano-america e espanhola), como jornalista e, vale destacar, foi co-comissária na exposição no museu Berardo sobre a viajante (jornalista e escritora) AnneMarie Schwarzenbach. Do seu trabalho nesta exposição começa a história deste livro.

livreira e escritora /foto de Sara Leão

Foi um prazer conhecer a Sónia Serrano, e gostaria de lhe agradecer a sua visita e a gentileza de ter conversado connosco. E, mais que isso, por escrever este livro.

Também quero agradecer à Elisabete Monteiro por aceitar o convite para orientar esta conversa e à Maria dos Prazeres Rovisco por tecer pontes. À Sara Leão por fazer o directo para o facebook e ao Nuno Fangueiro pelas fotos catitas. #juntasfazemosacontecer

Agora só me resta agradecer-te a ti por me deixares entrar no teu mundo e despedir-me, dizendo que espero poder reler Mulheres Viajantes na minha próxima viagem pois adorei o livro. E claro, não posso deixar de te recomendar esta leitura e desejar que seja uma óptima “viagem” caso te animes a comprá-lo.

Tenho a ideia de criar um book nook para mim há muito tempo.

Hábitos de Leitura

Tens algum lugar específico para ler em tua casa?

Para já não, mas estou a mudar de casa e vou criar um cantinho de leitura, com sofá e boa luz, almofadas e mantas. Tenho a ideia de criar um book nook para mim há muito tempo.

Utilizas marcador de livros ou um papel ao azar?

Uso marcadores quase sempre, tenho imensos e faço colecção.

Podes parar a leitura ou tens que parar em momentos concretos como o fim de um capítulo ou um número determinado de páginas?

Paro a qualquer momento, como normalmente leio nos transportes e enquanto tomo o pequeno almoço, costumo ter que parar quando chego ao trabalho e (infelizmente) tenho que parar de ler para trabalhar. Não tenho obsessão nem faço questão de terminar capítulos ou ler X nº de página.

Comes ou bebes durante a leitura?

Só quando estou a tomar o pequeno almoço, antes do trabalho. Se estiver só a ler não preciso de comer nem beber. Tenho aquela ideia bonita de estar a ler com um copo de vinho ou de chá mas depois nunca me lembro de o fazer.

Vês televisão ou ouves musica durante a leitura?

Se for nos transportes posso ir a ouvir música enquanto leio mas normalmente tento que seja numa língua diferente daquela em que estou a ler ou que a música não me interrompa. Se o livro me motivar o suficiente consigo estar a ler com TV ligada também.

Um livro de cada vez ou vários ao mesmo tempo?

É muito frequente eu pegar e começar vários livros ao mesmo tempo mas depois na prática acabo a ficar mais com um e largar os outros. Por isso diria que um de cada vez se for ficção. Não ficção normalmente leio sempre acompanhado com mais algum, mas também depende de quanto me absorve a leitura.

Ler em casa ou em qualquer lugar?

Leio normalmente fora de casa, o lugar onde mais leio são transportes públicos. Quero poder criar espaços e tempos para ler mais em casa e também em jardins 8. ler sempre na minha cabeça

Ler em voz alta ou na tua cabeça?

Ler sempre na minha cabeça.

Alguma vez lês páginas posteriores ou saltas algumas?

Sim, faço isso constantemente. Ando para trás para ler uma passagem que já li ou porque quero recordar, ou porque ouve alguma palavra que me ficou, ou porque quero só aquela frase ou ideia de novo, ou porque como escrevo preciso de sentir aquela passagem, não sei. Ando também muitas vezes para a frente. Eu sou uma pessoa que não se importa nada com spoilers e saber o que acontece mais à frente tem o efeito de me fazer querer ler ainda mais e por isso às vezes salto páginas e depois volto atrás e leio de seguida ou muitas vezes vou ver o fim do livro, a última frase, e depois leio até lá.
Vincar a lombada ou deixar o livro como novo?

Vincar, andar com ele na mala, andar com ele por todo o lado, os meus livros quando os acabo parece que andaram na guerra e eu não me importo. Adoro um livro com ar lido, com ar de que foi lido, amado, emprestado, repassado, eu sei lá. Um livro lido é completamente diferente de um novo nunca lido. Fica com uma parte de nós, conseguimos ver o quanto foi gostado por nós quando o olhamos na estante. Sei que há leitores que odeiam isto – o meu irmão mostra o seu profundo amor aos livros deixando-os imaculados depois de os ler, eu faço o oposto, os dois amamos livros.

Escreves ou sublinhas os livros que lês?

O meu livro preferido está todo sublinhado, páginas dobradas na ponta, notas de lado, enfim, tudo. Mas foi porque também escrevi sobre ele, fiz um trabalho sobre ele. Se estiver só a ler ficção não tendo tanto a sublinhar, mas nos livros de não ficção sou incapaz de não sublinhar. Ficção consigo, mas se às vezes gosto de uma citação, faço dog ear (dobra o cantinho do livro) à página em cima.

 

Inês Rolo a ler desde 1992. A Inês também escreve podes lê-la aqui ou segui-la no Goodreads.

Não há amor sem humor

texto escrito por Sara Leão

A história começa com um parto. E depois, há a capa. Porque haveria eu de resistir a esta capa? O parto acontece nas traseiras de uma oficina, em plena fuga para a frente, entre mundos em guerra. O pai do novo ser sem nome corta o cordão umbilical com os dentes. Hazel é agora, em nome próprio, a narradora desta história. Esta é  a sua autobiografia.

Não há amor sem humor e “Saga” tem ambos, em abundância.

São muitos começos: nasce uma nova família, que sela o corte com o passado e com a guerra infindável travada entre os planetas de Alana e Marko. Alana tem asas, Marko tem cornos e Hazel tem tudo, e é tudo, pelo menos, para os dois. Abandonam as filiações planetárias, lutam apenas em defesa de si e do recém-chegado terceiro elemento – querem permitir-se uma nova forma de viver. São guerreiros em reforma antecipada, que as circunstâncias não querem facilitar.

Leiam. É muito, muito bom. E, quanto mais não fosse, há robôs. Já me têm dito que é um ponto a favor de qualquer história. Se me permitem, prefiro apostar em guerreiras intergalácticas que amamentam.

As ânsias familiares são partilhadas por diferentes espécies, desde robôs aristocráticos, cujo  sexo decorre em corpos plenamente antropomórficos (salvo pela cabeça-monitor), a mercenários letais mas sujeitos a arrebates de ternura, quando confrontados com a escravidão sexual de uma menina de 6 anos. Não sabemos, ainda, ao que vão. Procuram a continuidade duma linhagem de robôs de sangue azul? A ternura foi revolta contra outras orfandades? O livro explora as raízes emocionais que, bem ou mal, nos seguram, e que conseguem ser mais sinuosas do que as plantas dos Bosques Sem Fim. «Que género de idiotas têm um filho num mundo como este?». “Saga” responde que vários.

Os desenhos de Fiona Staples são sedutores e profundamente expressivos. Sabe bem ao meu eu adulto continuar a perder-se nas imagens de um livro. Brian K. Vaughan é um estrela dos comics, tendo escrito para a Marvel, assim como para televisão e cinema. Há ainda outras personagens memoráveis, como uma gata que não tolera mentiras, ou uma baby-sitter adolescente de gorro e tripas ao dependuro, por baixo da t-shirt. Não há amor sem humor e “Saga” tem ambos, em abundância.

Leiam. É muito, muito bom. E, quanto mais não fosse, há robôs. Já me têm dito que é um ponto a favor de qualquer história. Se me permitem, prefiro apostar em guerreiras intergalácticas que amamentam.

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O direito nunca foi neutro.

texto escrito por Sara Leão

Há dias dei com este artigo e fiquei imobilizada até o terminar. Descobri uma tarefa urgente para a semana: ler a “Introdução às Teorias Feministas do Direito”, de Rita Mota Sousa. «E o facto do criminoso padrão ser um homem torna a mulher criminosa duplamente desviante.»

Queria saber se este era um livro capaz de criar acessibilidades, face à linguagem hermética do direito, e fui também à procura de uma leitura formadora – confirmo que o é e agradeço à autora por isso. «Acreditamos que este breve périplo pelas origens do direito moderno português não pode deixar de produzir, em todas as mulheres, uma marcada sensação de humilhação porque ilustra e demonstra o discurso oficial e declarado, que remetia a mulher a um estatuto que pouco a distanciava do de um animal de companhia, não fossem as suas utilidades domésticas e procriativas».

Nesta “Introdução…” a autora faz uma apresentação de diferentes correntes feministas aplicadas ao direito (feminismo liberal, cultural, radical e pós-moderno), do seu desenvolvimento teórico, assim como da sua expressão em diferentes casos legais.

No segundo capítulo do livro, o foco está na prática de métodos jurídicos feministas. Esta secção revelou-se particularmente valiosa na resposta às minhas angústias, perante um sistema judicial conservador, onde a culpabilização das vítimas ainda faz parte da sua zona de conforto.

No passado dia 30 de Março, no âmbito do Festival Feminista do Porto, a Associação Portuguesa de Mulheres Juristas dinamizou uma simulação de um julgamento de violação. Após a simulação, foi aberto o debate, estando assente que a simulação procurava caricaturar viéses perpetrados pelos tribunais, partindo da experiência real de quem os vive. Os julgamentos de crime de violação são aqueles em que «a versão das vítimas (…) é particularmente escrutinada e desacreditada» e a sua conduta perscrutada, por isso a autora vai optar por analisar a aplicação de métodos jurídicos feministas ao crime de violação e ao assédio sexual.

Foi reconfortante saber que, também no direito, o feminismo surge enquanto prática transformadora, que questiona a neutralidade, mimetizando um movimento presente nas ciências em geral, pela abordagem das epistemologias feministas.

Rita Mota Sousa recorre também a vários casos de tribunal para ilustrar a forma como as práticas jurídicas são o resultado daquilo que informa a abordagem ao direito de quem o pratica. Foi reconfortante saber que, também no direito, o feminismo surge enquanto prática transformadora, que questiona a neutralidade, mimetizando um movimento presente nas ciências em geral, pela abordagem das epistemologias feministas.

Junto-me a quem afirma que «a realização plena da mulher só se fará com uma alteração de paradigma, que remova o masculino do centro do mundo e altere as suas polaridades». O direito nunca foi neutro. O universal naturalizou as «experiências de vida de homens, poderosos e brancos», criando o direito à sua imagem. Felizmente, não faltam mulheres juristas prontas a questionar a “ordem natural das coisas”, fazendo «a pergunta do Outro», e aqui, concretamente, «a pergunta da mulher».

Nota colectiva para Abril: foram já demasiados séculos de um direito silenciador das perspectivas de mulheres e de outros grupos excluídos. O «direito é um poderoso instrumento de operatividade social, e a radicalidade da sua intervenção andará a par e passo com a radicalidade da mudança que se logre alcançar».

 Introdução às Teorias Feministas do Direito de Rita Mota Sousa está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres»» caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente: Código de desconto direitospraviverbem

vamos celebrar o dia do LIVRO (2017)

Tendo por objectivo promover e incentivar a leitura e a edição de livros, o Dia Mundial do Livro celebra-se todos os anos a 23 de Abril.

Dia do Livro no Porto

Para celebrar este dia, a Confraria Vermelha, no Porto, preparou algumas atividades  (de 21 a 30 de Abril), como a Deus me livro! – edição dia do livro da no Mercado Porto Belo (22 de Abril),  o evento Silent Reading Party (dia 23 de Abril) e a Feira do Livro Vozes de Mulheres (28-30 Abril).

Dia do Livro Online

Para as Confreiras e amigues online  temos um presente.

Na compra dos vossos livros preferidos (de 18 a 23 de Abril) temos uma caneca HerStory de presente!

NOTA: Em compras iguais ou superiores a 35€ (limitado ao stock existente).

O título deste livro, A ilha e os demónios, resume as duas forças que guiam o narrador desta obra de Carmen Laforet: a paisagem da ilha (Gran Canaria), maravilhosamente apresentada em diferentes momentos do relato, e o enredo das paixões humanas, que Laforet chama de “demónios”. «Mais informação»

Em cada conto de Pássaros na boca a escritora Samanta Schweblin brinca com a estranheza e a fantasia. «Mais informação»

O Gerânio – Contos Dispersos de Flannery O’Connor é um livro para ler e pensar no que se lê. «Mais informação»

NADA de Carmen Laforet é TUDO «Mais informação»

Arte, sexo, amor e morte = Castelos de Cartão de Almudena Grandes «Mais informação»

As Raparigas de Emma Cline

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Por onde começar a escrever sobre este livro!?!?

Podia partilhar, por exemplo, o quanto achei interessante a beleza que reside no facto de narrar uma história desde a periferia, desde o olhar das personagens secundárias, das raparigas e não do Manson, as mulheres e não os homens. Ou da decisão política implícita no gesto: de não haver uma historia central. Tudo é margem.

Mas vou optar por escrever sobre o amor em As Raparigas. Na verdade, quero escrever sobre a ténue fronteira entre amor e erotismo, ou sobre a perigosa concepção do amor como entrega.

Emma Cline tece delicadamente a voz de Evie, uma jovem de 14 anos, uma personagem fictícia colocada na comuna da família Manson em 1969, antes e durante os assassinatos. Do outro lado encontramos a voz mais velha de Evie, afastada do fervor hippie dos 70’s e de um destino de reclusão mas com as marcas de um passado que não se pode esquecer.

Evie conhece na sua adolescência, por mera coincidência, as raparigas. Mas é Suzanne, a que provoca nela uma fascinação luminosa e cega. Tão cega como a que Russel (talvez a personificação de Manson) provoca no seu séquito: “É diferente de toda a gente. À serio. Estar com ele é como uma trip natural sem químicos. Como o sol ou parecido. Assim uma cena grande e certa.”

Em As Raparigas de Emma Cline mostra-nos como o ser humano é descontínuo e como de alguma maneira, através do erotismo aspira à continuidade. É a existência da proibição e das suas consequentes transgressões o que confere à sexualidade humana a particularidade do erotismo. O erotismo como gosto pela transgressão. Neste sentido, a violência, ou mais concretamente a morte, como transgressão última, é um campo fértil para suscitar fascinação. O espaço idóneo para a projecção do ser na continuidade.

As Raparigas fala sobre a força erótica, Russel atrai as suas aduladoras, Suzanne atrai Evie, Evie atrai a seu púbere vizinho… Fala sobre a escuridão insondável sobre a qual gravita a força de vontade dos que desejam. O magnetismo sinistro do mistério, aquilo que apenas se vê, o impossível ao alcance da mão. Um livro de profundidade erótica mas não profundamente erótico.

Suzanne é, para Evie, um buraco negro. Suzanne tem um papel fundamental, quer por ser o motivo e a causa pela qual Evie se aproxima da quinta e permanece nela até aos fatídicos acontecimentos (é possível que Suzanne esteja inspirada em Susan Atkins), contudo Suzanne não é uma personagem inacabada, Cline não a desenvolve e fiquei com a sensação de me faltar alguma coisa. Nunca chegas a ver as personagens na sua totalidade. O seu lado oculto funciona, acima de tudo, como um campo velado que me suscita, até certo ponto, uma atracção erótica.

Página a página o erotismo como força escura que utilizam – Russell, Suzanne – como forma para exercer, junto com o medo, poder sobre os seus amantes. Eles são, para os seduzidos, limites móveis, e é nesta dinâmica, que os sujeitos amados tecem fios de poder sobre os seduzidos.

O declive do eu como forma de dar continuidade ao ser. Ou como estes personagens o entendem: a dissolução do eu individual para dar espaço ao colectivo, na entrega total e absoluta como acto de amor. A dissolução da culpa no grupo. O leve peso do mal.

A protagonista, uma jovem em pleno processo de exploração, de abertura. Na idade na qual nos distanciamos das amizades da infância, na idade que desmitificamos os nossos pais e na qual se procura, desesperadamente, referentes no exterior. Num mundo aberto. Longe dos limitados papéis de menina que nos são atribuídos. Evie, longe da pulcritude do seu quarto, da sua casa, da sua trivial amiga Connie, abre-se. E no mundo, no qual Evie, tenta construir a sua identidade de mulher, de adulta, onde todas as possibilidades parecem possíveis, ela abre-se sem limites: “Eu queria isso. (…) Queria esse mundo sem fim”.

Emma Cline, consegue em As Raparigas uma estrutura limpa, um estilo impregnado de imagens poéticas. A narrativa tem um esqueleto de partes perfeitamente orquestradas, com o cenário de fundo dos assassinatos que funciona como data dramática mas que não chegam a ser expostos nem usados para contar a história das personagens, funciona apenas, como a pedra que nos mantém em tensão aberta até as ultimas páginas.

A recriação da cena da morte na casa de Sharon Tate é o fim do trance de amor, talvez para Evie mas não para as raparigas, mas não se torna objeto da narrativa. Cline não se detém para dar mais detalhes nem para desenvolver morbidamente as violentas execuções, na verdade, já foram descritas na cultura popular norte-americana montes de vezes.

A personagem de Evie não assiste, não vê os detalhes do horror, porque o horror acontece à margem. Ela apenas evoca ou imagina os motivos que sua adorada Suzanne tem no momento de negritude final hasteando a faca. A dilatação do ódio. A insistência da faca nos corpos. A transgressão da última proibição. Matar. Matar para dar continuidade ao ser conjuntamente com os outros. Mais que uma ampliação de ódio, para eles, era uma oferenda de amor radical. Tão terrível como podia ter sido o que a protagonista podia ter feito se tivesse tido a oportunidade. É exactamente disto que fala As Raparigas de Emma Cline, das perversas práticas do amor como entrega do ser.

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Texto publicado no blog Compreende o teu ciclo

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