Ventos do Apocalipse: Ecos passados de um futuro a evitar

Os Ventos do Apocalipse são ventos da destruição trazida pela guerra, que Paulina Chiziane vai narrar com grande crueza e lealdade para com as vítimas desse sofrimento desmedido. Nesta história, o apocalipse vai ser trazido pelas lutas de poder dos homens, figuras mundanas mas simultaneamente manifestações terrenas dos míticos quatro guerreiros do Apocalipse.

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Na dedicatória inicial do livro a autora refere o Grupo Especial de Trabalho nas Unidades de Produção, “um grupo de jovens lutadores pela liberdade que a história se esqueceu de registar.” É uma dedicatória que aponta para uma visão crítica da História em que uma narrativa oficial se sobrepõe às múltiplas narrativas que compõem a realidade, as histórias. 

Assumida contadora de histórias, Paulina Chiziane vai chamar a si a responsabilidade de nos contar uma história que entretém, como qualquer história contada à volta da fogueira, mas que também visibiliza o verdadeiro rosto da guerra: famélico, doente, violento.

A edição inicial data de 1993, sendo que foi nessa altura, no início da década de 90, que começaram a esmorecer os ataques das forças anti-governamentais, a RENAMO, podendo a população começar a fechar as feridas de guerra. A obra surge, pontual, como testemunho dessa ferida.

A epígrafe vai reforçar a ideia de construção de um momento de encontro e de escuta, “vinde todos e ouvi, vinde todos com as vossas mulheres”, realçando o convite alargado às mulheres, habitualmente elementos secundários da história oficial, já que é a partir das vivências delas, sobretudo na figura de Minosse, que esta narrativa se vai organizar. 

Não é uma história sobre guerreiros, régulos e demais autoridades políticas. É uma história dos sobreviventes da imposição de autoridade e de poder, sobretudo a história das mulheres, das crianças e dos velhos. A chamada é para que nos reunamos a ouvir uma história que não vai agradar aos ouvidos mais patrióticos. Vamos ouvir contar sobre as pessoas em cujo sofrimento mudo assenta a narrativa heróica de um país.

O prólogo está dividido em três narrativas curtas, cada uma abordando dimensões da expressão humana que estarão presentes na narrativa principal: a crueldade, o trauma, a ambição, todas elas ingredientes e consequências do movimento destrutivo do apocalipse proporcionado pela guerra. Termina com uma constatação e um aviso, “KARINGANA WA KARINGANA”, “a terra gira e gira, a vida é uma roda” (p. 23) e a história é feita de repetições.

A autora recorre às três narrativas curtas, “O marido cruel”, “Mata, que amanhã faremos outro” e “A ambição da Massupai” para introduzir os temas a serem desenvolvidos. A primeira fala-nos da fome e de um marido que deixa mulher e filhos à míngua. Uma família já não é uma família, é uma luta pela sobrevivência, cada comensal é um potencial rival. A segunda relata o sacrifício de uma criança em nome da segurança do grupo – em tempos de sobrevivência a vida de uma criança deixa de ter o seu valor assegurado. Svetlana Alexievich relata em “A guerra não tem rosto de mulher” uma situação semelhante testemunhada por uma soldado soviética durante a Segunda Guerra Mundial. A guerra toma formas semelhantes em diferentes pontos do globo. A terceira história remete para o caráter destrutivo da ambição, neste caso a de uma mulher capaz de assassinar os seus próprios filhos, em nome de uma paixão por um homem poderoso. Chiziane vai recuperar uma versão desta personagem na narrativa principal, mas também nos faz aqui refletir em como a guerra é isso mesmo, o sacrifício de todos – pais contra filhos, irmãos chacinando irmãos – na disputa perversa do poder.

A narrativa principal está dividida em duas partes. A primeira tem um provérbio tsonga por epígrafe (“Nasceste tarde! Verás o que eu não vi.”) e a segunda um excerto de uma canção popular changane (“Cada dia tem a sua história.”).
Ambas as citações remetem para a passagem do tempo e para a forma como se constrói a história – alertam para a diversidade de histórias dentro da grande história. O livro tem 25 capítulos e no final é-nos apresentado um glossário das palavras de diferentes línguas africanas que são utilizadas no texto.

A contadora de histórias

“Quando eu nasci –conta Paulina Chiziane– os meus pais temeram pela minha vida. Vim ao mundo com um peso muito baixo, a minha saúde era muito frágil. Então houve necessidade de consultar sacerdotes e adivinhos para descobrir o que é que eu tinha. Estes concluíram que havia um espírito importante que queria encarnar em mim. Foi necessário um ritual muito complicado para celebrar a encarnação do dito espírito importante. O tratamento que eu tenho ainda hoje, dentro do clã, apesar de estar a viver na cidade, quando eu regresso a Gaza, à minha aldeia natal, é um tratamento especial, porque tenho o nome do grande antepassado”.

Paulina Chiziane é, sem dúvida, uma autora especial, o que podemos confirmar pelas várias entrevistas disponíveis em texto e em vídeo. É uma mulher contadora de histórias, que escreve numa língua que não é a sua língua nativa, mas que adotou, de modo a contar num só idioma estas histórias plurilingues. Ser contadora de histórias é dar continuidade à teia ancestral que a liga à avó, também ela contadora.

Nos seus textos reflete uma abordagem que não alinha com posições simplistas: fala da situação da mulher, apresentando as suas contradições, e com a guerra faz o mesmo. O lado bom e mau da narrativa heróica está diluído. Em Mananga, a aldeia onde decorre o massacre relatado em “Ventos do Apocalipse”, são os próprios filhos da terra que concertam a destruição daqueles com quem cresceram. 

As histórias de Moçambique são depositárias de muitas intervenções: o colonialismo português, o regime marxista-leninista do pós-independência, a guerra civil, e, sob todas estas camadas mais lineares da história recente do território, a imensa diversidade cultural que compõe Moçambique, composta por diferentes costumes e diferentes formas de a população se relacionar com a história, a que vem de cima, do poder colonial, estatal e tradicional.

A escrita de Paulina Chiziane tem um ritmo e uma musicalidade poéticas. É uma escrita que pede emprestado à tradição oral o ritmo da história contada e sobre ele elabora e reescreve a língua portuguesa. Em Paulina Chiziane há um encontro com a musicalidade, que será herdeira da tradição oral, mas possivelmente também da tradição da poesia narrativa que em tempos se propagou pela costa oriental de África. As culturas locais estão presentes nas palavras que pede emprestadas a outras línguas africanas, nos provérbios e, sobretudo, na sabedoria ancestral, a chave-mestra de toda a história que aqui conta, KARINGANA WA KARINGANA, a história é uma repetição. Esta é uma história entre as várias histórias de Moçambique, esta é uma guerra que ecoa outras guerras pelo mundo – é a história interminável do sofrimento humano. 

O trauma

“Ninguém se lembra de amparar a viúva recente. Minosse, que assistiu a tudo de olhos bem abertos, luta contra o desfalecimento que a abate. Grita, mas a sua voz não se escuta, faz coro com as vozes desvairadas das gentes. Rebola. Pede ao chão que a sepulte mas este recusa-a. Levanta-se. Cai. Grita. Chora. Torna a levantar-se e sofre nova recaída. Estende-se no regaço da terra-mãe com os braços em cruz contemplando o céu, única alternativa ao seu alcance.” (p. 136). 

Um trauma do tipo do que é traduzido ao longo desta narrativa – físico e emocional, onde a perda é tão devastadora que se torna incomensurável – vai exigir outros recursos narrativos à autora. Paulina Chiziane recorre ao corpo e ao gesto para traduzir diferentes dimensões do que está a acontecer àquelas pessoas, vítimas de uma destruição sem precedentes, da qual não conhecem a origem nem o contexto. Nesta cena, o eco dessa devastação concentra-se no corpo de Minosse, a principal figura feminina que vai atravessar todos os períodos narrados. A pontuação utilizada remete para a cadência de ações que recaem sobre o corpo de Minosse (“Cai. Grita. Chora.”), como se o sofrimento provocado fossem pancadas que embatem contra si, que a invadem e que dela saem em rasgos de desespero. O sofrimento torna-se palpável e, por isso, muito próximo. O movimento circular e repetitivo (“Levanta-se. Cai. (…) Torna a levantar-se e sofre nova recaída”) parece apontar para aquilo que já está assente desde o início da narrativa: a história repete-se e o ser humano parece, segundo a perspetiva de Chiziane, estar preso nesta roda giratória de sofrimento. 

“A diversão do homem consiste em destruir e construir desde o princípio do mundo. As guerras existirão sempre.” (p. 145).

A redenção possível parece estar contida no próprio ato de contar histórias. Chiziane dá voz a personagens, mas é também uma escutadora de histórias. Diz que é por intermédio das histórias que ouve pela rua que surgem muitas das personagens e histórias de acaba por escrever. É uma ouvinte compassiva, o que lhe permite criar personagens que falam para lá dos limites que o poder lhes impõe. Falam a partir do lugar da fragilidade e da sobrevivência, da manutenção ou da redescoberta da humanidade – como é o caso de Minosse, que se recupera a si mesma ao adotar crianças orfãs de guerra. A redenção possível vem desses momentos de reconstrução de humanidade e de solidariedade – quando feridos e crianças são recolhidos à passagem do grupo em êxodo, apesar de todas as dificuldades. São momentos que revelam o frágil equilíbrio moral da natureza humana, sempre apanhada em contradição entre diferentes impulsos. 

“Temos que vingar os nossos mortos, gente – declara o chefe. Vingança, vingança – clama o povo.” (p.132). 

E a roda continua a girar.

O final da primeira parte está escrito como se do final de uma primeira parte de uma peça de teatro se tratasse. O sofrimento de Minosse faz referência aos momentos de desespero de Jesus Cristo crucificado, “Deus do Céu e da Terra, espíritos do Mathe e dos Mausse, por que me abandonaram?” (p. 150), um desespero que interpela todas as divindades disponíveis, quer as trazidas pela colonização, quer as ancestrais. 

A estas pessoas sobra apenas a dor como força unificadora. Esse sofrimento partilhado vai permitir que os habitantes de Mananga, a aldeia de Minosse, se unam aos refugiados que previamente haviam chegado à aldeia, e que a aldeia havia rejeitado, e que juntos partam numa massa humana comum, em busca da sobrevivência.

A fome

Se procurarmos inocentes e culpados nesta história, a fome seria certamente uma das principais protagonistas. “Chegou o tempo de comer as crostas da nossa lepra” (p. 30), diz-se logo no início da narrativa. A fome extrema anuncia o desespero da população e incentiva à desconfiança em relação ao vizinho. Mas não a justifica. “Para quê tratá-lo bem se ele não é do nosso clã? É um estrangeiro, e se se sente mal que regresse à sua origem” (p. 41). Logo no início da narrativa uma das personagens é apresentada como sendo marginalizada por não ter os mesmos elos de pertença étnica do que os restantes habitantes da aldeia. Mais tarde, os refugiados de um ataque a outra aldeia vão igualmente ser ostracizados e vistos como adversários num mundo de poucos recursos. A população ressente-se da atenção que estes recebem do poder estatal. 

“Os foragidos são tipos cheios de sorte. Recebem maior atenção das autoridades e não entendemos porquê. Desde que aqui estão, só assistimos à chegada de carros trazendo comidas, roupas, alimentos, mantas, tendas, ou para evacuar um doente para o hospital das cidade, e nós, donos da terra, que lhes damos abrigo e conforto, sofrendo tanto como eles, não recebemos sequer um pedaço de consolação. Se não fosse por temer as autoridades, já os teríamos expulso à pedrada.” (p. 119). 

É curioso como os argumentos utilizados ecoam tiradas xenófobas que ouvimos atualmente, no contexto da sociedade portuguesa contemporânea, em relação a refugiados sírios, por exemplo. No caso de Mananga, a noção de pertença está circunscrita à aldeia, mas as noções de pertença que operam a nível político são mais alargadas – Moçambique é um país com fronteiras definidas (ainda que artificialmente, sem que tenham sido valorizadas coerências linguísticas ou culturais) e é dentro dessa conceção de país que vai decorrer a guerra civil, entre forças que procuram apropriar-se do poder do Estado. Para os habitantes de Mananga, o seu país era a sua aldeia. A guerra vai obrigá-los a descobrir uma realidade muito mais ampla.

A escrita e o feminino

A autora vai recorrer a uma personagem feminina para dar conta dos sofrimentos impostos pela guerra e pela opressão resultante da luta pelo poder entre os homens. 

“O tribunal estreou-se com o julgamento das mulheres. Quer as velhas quer as jovens sofreram um julgamento dramático. Havia argumentos de sobra: a mulher é a causa de todos os males do mundo; é do seu ventre que nascem os feiticeiros, as prostitutas. É por elas que os homens perdem a razão. É o sangue impuro por elas espalhado que faz fugir as nuvens aumentando a fúria do sol. Os juízes instigados pelos homens do Sianga flagelam impiedosos as mulheres desprotegidas”. (p. 97).

É de notar como os papeis de género vão ser abordados também noutras circunstâncias narrativas, refletindo sobre a associação do feminino à fraqueza e àquilo que se deve reprimir e controlar. Quando a aldeia é atacada, o chefe da aldeia (representante governamental) reage com emoção perante a devastação que observa. Chiziane escreve: “As lágrimas do chefe são de amargura, de solidariedade, as mulheres fazem coro e choram com ele. O povo sente-se reconfortado mas inseguro. Se o mais alto chora, quem nos dará a coragem?” (p.130). As mulheres choram com ele, porque é a elas que é permitido e a quem compete chorar. A demonstração de vulnerabilidade é recebida com uma dualidade de sentimentos, “o povo sente-se reconfortado mas inseguro”, o papel de liderança não combina com a demonstração de humanidade por parte do chefe; ao mesmo tempo que o povo é vítima da extrema violência da milícia – manifestação de uma masculinidade deturpada – continua a exigir ao líder que não se associe com o que é tido como do foro feminino – a vulnerabilidade e a emoção.

Uma outra expressão do feminino que surge na obra é a do feminino selvagem: a mulher louca (de sofrimento), na figura de Minosse, depois de escapar ao êxodo e à doença, e a mulher louca (de paixão e ambição), em Emelina, a mulher que a enfermeira encontra nas últimas páginas do livro. Esta última faz eco de Massupai, a personagem que surge no prólogo, estando ambas dispostas a sacrificar tudo e todos em nome da paixão por um homem poderoso.

“Levanta a capulana rota, curva a coluna vertebral deixando o traseiro nu e mostra o cu aos quatro cantos do mundo como forma de insultar o marido onde quer que esteja e expulsá-lo definitivamente dos sonhos.” p. (223).

Na viagem pela loucura, Minosse trilha também um caminho de regeneração – a loucura da mulher é expressão de um movimento interno face à repressão que sofreu nas mãos do marido, muito antes de que o sofrimento partilhado da guerra atingisse Mananga: 

A mestria da escritora consiste em apresentar todas estas variações de personagens femininas, dando-lhes espaço para serem, não boas ou más mulheres, mas mulheres, muitas delas sobreviventes, e produto das suas circunstâncias.

Ventos do Apocalipse data de 1993, mas apresenta-se desoladamente relevante no panorama internacional de 2019. “A guerra é a guerra” e vem contagiando territórios mundo afora – recentemente o Iraque e a Síria, e paira agora a sombra da ameaça sobre a região do Irão. 

Paulina Chiziane, a partir dos eventos em Moçambique, conta-nos tudo o que precisamos de saber: a guerra é injustificável perante a história; a guerra assenta e corrói o corpo dos mais frágeis; a guerra apenas responde às ambições dos poderosos. 

Num mundo tão cheio de guerras presentes e passadas esperar-se-ia que as lições fossem mais bem aprendidas. Se estamos presos nessa roda de sofrimento, como parece defender Chiziane, resta-nos agradecer à literatura, que em esforços de memória como este, não permite que nos escudemos no conforto do esquecimento.

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Texto escrito por:

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Mortas secundárias

«O fio da vida é tão forte como o tendão de um boi.
Por isso, mesmo depois de te perder, a vida teve de continuar.
Tive de me forçar a comer, a trabalhar, a empurrar cada dia para baixo, como se fosse uma bola de arroz frio,
mesmo que me ficasse entalado na garganta.»
Atos Humanos, Han Kang

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Dreamstime

Conseguimos tolerar ler sobre a perda. A perda pode ter uma aura romântica: depois de cada perda, imaginamos o estado de regeneração que se segue, em que novos ganhos se acumulam. A tempestade e a bonança.

Mais raro é querermos demorar-nos nos corpos que vão perdendo a vida na cadência lenta da doença, ou nos corpos que vimos mortos, e com quem, por isso, assinámos um pacto de impossível esquecimento.

Mortas secundárias


Há corpos que rapidamente se viram fantasmas, nomes repetidos em jornais, coletados de quando em vez, em nome da memória.  É o caso de Andrea, María Luisa, e Sarita, as “Raparigas Mortas”, que Selva Almada nunca pôde esquecer. São fantasmas que a acompanham desde a adolescência, desde a primeira vez que escutou ecos das suas histórias. Apesar de todo o espalhafato mediático que, na Argentina, os acompanhou, são nomes que representam três crimes por resolver. Acontece que, das idas décadas de 80 para cá, o ódio às mulheres continuou fácil de tolerar.

Apesar de todo o protagonismo que estas três histórias a seu tempo tiveram, foi demasiado fácil abandonar estes nomes à fantasmagoria, torná-los meros mitos urbanos, que assombram as noites de uma ou outra jovem, a caminho de uma saída noturna ou de um encontro sexual – “vê lá, lembra-te do que a aconteceu a Andrea”, ou a María Luisa, ou a Sarita.

Mortes periféricas

Lá longe, na raia transmontana, percebe-se que caminhamos entre e além fronteiras – a rede de telemóvel, a da televisão, tudo oscila entre o português e o espanhol. Foram terras de partida, mas em “Agora e na Hora da Nossa Morte” são estradas e povoações percorridas, acompanhando uma equipa de cuidados paliativos, no Planalto Mirandês. São histórias dos que regressaram, e dos que por lá quiseram ficar, dos dias que se vão subtraindo, e dos últimos usos dos corpos – os abraços e a teimosia de aguentar um pouco mais; a escuta de gente que, gradualmente, se foi esquecendo de si e das suas dores.

A jornalista Susana Moreira Marques presta testemunho do quanto serve um corpo e do valor daqueles de dele cuidam. “E depois, o amor, grande sobrevivente do desastre”.

Mortos em revolta

Atos Humanos” são atos violentos, é a crueldade, decartável, sacudida de cima de ombros militares, dos microfones de políticos. Registada uma e outra vez pela imprensa estrangeira, que se escandaliza. Atos humanos são uma história que se repete, repete, e continua imutável.

Han Kang regressa à sua cidade natal, Gwangju, na Coreia do Sul, para um ajuste de contas com o massacre de 1980, em que estudantes foram torturados e mortos, em nome da obediência ao Estado. Este confronto faz-se a várias vozes, num acumular de corpos, como o daquele 18 de maio. «Quando morreste, não pude fazer-te um funeral e assim, a minha vida tornou-se um funeral. Quando foste envolto numa lona e levado num camião do lixo. Quando jatos de água reluzentes brotavam imperdoavelmente da fonte.».


Dia 25 de novembro marca o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. A data foi escolhida em homenagem às irmãs Mirabal, três dominicanas que se opuseram à ditadura de Rafael Leónidas Trujillo. Foram presas e torturadas várias vezes, até que Trujillo decidiu assassiná-las. A 25 de novembro de 1960, enviou vários homens para intercetar as três mulheres, a caminho de uma visita aos seus maridos, que se encontravam presos. Las Mariposas, como ficaram conhecidas, estavam desarmadas. Foram levadas para uma plantação de cana-de-açúcar, sendo aí espancadas e estranguladas.

Todos os anos se acumulam nomes de mulheres assassinadas por companheiros e maridos, os quais nós, feministas, tendemos a repetir em manifestações de repúdio. Até ao ano seguinte. Dia 25 de novembro é dia de dizer, mais uma vez, que não aceitamos tantos corpos acumulados.

A morte é inevitável, mas estas não.

Texto escrito por Sara Leão
A Sara Leão gosta de ler e escrever,
ó terrim, tim, tim e passear na rua.
Partilha o que sentepensa num blog que tem uma citação da Agnés Varda.
Modo de estar na vida: feminismo para viver bem.


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Paulina Chiziane – contadora de histórias e memórias

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«José percorre a magia luminosa das aparências. Na cegueira perseguindo os caminhos do abismo. Colonizar é mesmo isto.»

O alegre canto da perdiz, Paulina Chiziane

Quando entrevistada, Paulina Chiziane apresenta-se frequentemente como contadora de histórias. Essa é a classificação que aceita e que lhe assenta.

«Sem sangue o império é anémico, sem vida nem grandeza. O sangue se bebe e rejuvenesce. Quando não se bebe canta-se. O hino nacional.»

O alegre canto da perdiz, Paulina Chiziane

No capítulo III do Decreto-Lei nº 39 666, do Ministério do Ultramar, datado de 20 de Maio de 1954, “Da extinção da condição indígena e da aquisição da cidadania”, o artigo 56.º estabelece as condições para a aquisição da cidadania pelos indígenas, estabelecendo que o indivíduo, entre condições de idade e “bom comportamento e ter adquirido a ilustração e os hábitos pressupostos”, deve, alínea b, “falar correctamente a língua portuguesa” (sublinhado meu).

Falar corretamente a língua portuguesa

Mais do que na escrita, é na oralidade que subjaz a garantia da metamorfose do indigenato para a cidadania. Aos olhos do Estado português, o indígena, objeto delimitado e de desconfiança, torna-se sujeito pela fala, pelo uso do português – não um português qualquer, o português correto. Ainda hoje, o acesso à cidadania portuguesa por cidadãos estrangeiros assenta na capacidade de fazer uso da língua portuguesa em moldes determinados. Para o Estado Novo, os indígenas – pessoas negras e mestiças naturais dos territórios africanos colonizados – não eram estrangeiros, mas uma espécie de produto da terra, tornados cidadãos portugueses pela performance de costumes preconizados, acompanhada de uma língua civilizada – a língua portuguesa.

N’O alegre canto da perdiz a sombra da assimilação ao mundo do português branco vai preencher grande parte da narrativa.
«Pediu ao pai para ser assimilado, a fim de ter acesso à escola oficial, onde as professoras eram mulheres normais e não freiras esquizofrénicas. Mas o pai disse que não. Porque os assimilados eram assassinos. O pai de Delfina disse que não à assimilação, sem saber que a libertação da pátria seria na língua dos brancos e sem imaginar que os filhos dos assimilados iriam assumir o protagonismo da História.» (p. 78).

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Chiziane refere que “A literatura pode funcionar como catarse coletiva e também como registo da memória. A nova geração tem de saber o que se passou ontem, mas infelizmente há muito poucos relatos.” O livro que escreveu traz à tona várias vozes duma história a que os ouvidos portugueses são avessos. «Não vimos, não sabemos, nunca ouvimos falar, não demos por nada.» escreve Isabela Figueiredo, na introdução do seu Cadernos de memórias coloniais. Também para Paulina Chiziane, que prefaciou essa obra, as palavras estão aí para nomear, são destemidas e não evitam feridas pessoais e coletivas. «Quem não se ajoelha perante o poder do império não poderá ascender ao estatuto de cidadão. Se não conhece as palavras da nova fala jamais se poderá afirmar. Vamos, jura por tudo que não dirás mais uma palavra nessa língua bárbara. Jura, renuncia, mata tudo, para nasceres outra vez. Mata a tua língua, a tua tribo, a tua crença.» (p. 117).
Mata-te. Em tempos coloniais falar português era afirmação de uma renúncia a todas as outras formas de ser.

Demorei muito tempo a terminar este livro e percebi que foi uma exigência da cadência das palavras. O português é instrumento de escrita, é tradução de estados de alma alheios e não configurados por esta língua e é uma longa homenagem à literatura de tradição oral. As palavras estão escritas mas são sobretudo voz. Vozes contraditórias, por vezes difíceis de digerir.

“A minha relação é de conflito. Não há dúvida que eu aprendi a ler e a escrever em português, socializei-me com a literatura de língua portuguesa. Mas existem alguns aspetos culturais que a língua portuguesa não tem capacidade para cobrir. Para além de que, sendo uma língua de dominação, a língua portuguesa é também uma língua de segregação. Quando escrevo e vou pegando das palavras, de vez em quando fico chocada: os curandeiros são o centro do saber africano. Mas o que é um curandeiro na língua portuguesa? Vai ver no dicionário e a explicação que vai achar é redutora e simplista e serve simplesmente para colocar o curandeiro de lado. Para eles, é um indivíduo que deve ser banido e eliminado.”

curandeiro | s. m.
cu·ran·dei·ro
1. Pessoa que trata de doenças sem título legal.
2. [Figurado]  Charlatão; impostor.

O português vai pedir emprestado às demais línguas locais palavras para descrever o que não conhece. A escritora vai fazer uso de um língua de dominação para contar histórias que os falantes e ouvintes dessa língua precisam conhecer. O dicionário continua a atribuir um lugar central ao português correto, em que certas palavras, certas vivências, não têm lugar.

“Como aliar a pobreza a uma raça? Encontro vários aspetos de supremacia de uma cultura sobre a outra. As palavras no dicionário são alguns. Algumas vezes que eu quero retratar uma realidade (eu falo do Sul), quero escrever um ditado e uma forma de pensar, mas tenho de fazer uma tradução e uma aproximação de significado. O que vai resultar não é propriamente a identidade deste povo, mas é uma construção, e as coisas não chegam a ser realmente como deviam ser. Mas os próprios escritores atuais ainda não fizeram muito exercício cultural. Eu penso que talvez com tempo vamos dar um espaço àquilo que é a nossa própria cultura. É lógico que vamos servir-nos da língua portuguesa por muito tempo, porque é a língua através da qual comunicamos.”

O português não é a língua da realidade desta escrita, é tradução.

«Homem não, Delfina. Que Deus nos dê, sim, a benção de um filho mulher.» Não é filha, é filho mulher, porque a experiência recriada é uma realidade bantu.

Prevê-se que dentro de algumas décadas a quantidade de falantes de português em Angola e Moçambique ultrapasse o número de falantes em qualquer outra região do globo (Oliveira, 2016). O português será uma língua africana. Este português falado por milhões de africanos não poderá ser o português correto da cidadania de outros tempos, nem o português que declara que uma vivência africana culturalmente significativa é, sem delongas, impostura.

Franco, leal, apesar de rude

Segundo Maria Helena Mira Mateus (2003) «(…) o termo “Português”, que cobre as variedades sociolectais, dialectais e nacionais que convivem em Portugal e no Brasil, deve ser entendido como importante instrumento de coesão entre povos e como afirmação política e económica num contexto envolvente transnacional. A presença nestes ambientes de grupos de interesses unidos por falarem “a mesma língua” potencia a tomada de posição desses grupos, sobretudo quando se trata de comunidades de menor força no campo económico.». E acrescenta, «É na realidade um factor de identificação cultural, mas no uso, e pelo uso, que dela faz o indivíduo e não apenas por pertencer a uma das várias comunidades que a utilizam como materna.»

O português torna-se pluricêntrico pelo uso. Aceitar esse pluricentrismo implica abrir caminho a uma reapropriação da língua, uma combinação de referências, de sonoridades.

português | adj. | s. m. por·tu·guês (latim tardio portucalensis, -e, de Portucale, topónimo, Portugal)
1. Relativo ou pertencente a Portugal. = LUSITANO, LUSO
2. []  Relativo ao português enquanto sistema linguístico.
3. [Figurado]  Franco, leal, apesar de rude.
4. Natural, habitante ou cidadão de Portugal. = LUSITANO, LUSO
5. []  Língua de origem românica, que é a língua oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e da Região Administrativa Especial de Macau.
6. []  Antiga moeda de ouro.
Feminino: portuguesa. Plural: portugueses.

É me hoje difícil pensar sem interferências do inglês, a querer intrometer-se até na sintaxe. Da mesma forma, o meu português de lusa está saturado de influências do português do Brasil que ouço. Vou recorrendo ao dicionário para descobrir se ainda falo português correto. Agrada-me ver que o meu português se expande na medida das kizombas, telenovelas e toda a rápida circulação de palavras. O Brasil dos memes da internet. Novas formas de reclamar a língua.
A língua está viva e a construir o mundo.

A escrita de Paulina Chiziane empurra-nos, com mestria, para lugares que precisamos de visitar: que memória é a desta língua partilhada? Uma memória de violências mas também de vida. Que palavras ainda não cabem no nosso dicionário?

Falta-nos ouvir mais e melhor.
“Fora escrever e pensar em novos projetos, o que é que você gosta de fazer? Sentar na minha varanda, olhar o vazio e tomar o meu copo de cerveja. (Risos).
Ao ritmo certo.

✄ O alegre canto da perdiz  estão disponíveis na LIVRARIA. 

…………………………………………………………………………………………………[1] http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/os-anjos-de-deus-sao-brancos-ate-hoje-entrevista-a-paulina-chiziane
[2] http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/os-anjos-de-deus-sao-brancos-ate-hoje-entrevista-a-paulina-chiziane
[3] “curandeiro”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/curandeiro [consultado em 26-12-2017].
[4] “português”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/portugu%C3%AAs [consultado em 26-12-2017].
[5] Entrevista à revista Bastião #18 https://issuu.com/revistabastiao/docs/bastiao18issu

A comunidade é o aconchego e a forma e é também a mão que asfixia.

“Não sou um campo. Sou um campo, como? Plano. Molhado. Preto de Chuva. Não sou um campo.”

                                 Facas nas galinhas, David Harrower 

 

Inabitado, inculto, terreno inabitado. Despovoada, estéril. Ventre sáfaro, diz Saramago de Blimunda.

Foto: Birgit Jürgenssen. Nest, 1979. Black and white photograph. 17.8 x 24 cm.

Em Maio de 2017, Fátima marcou a expressão mediática em Portugal. O nome Fátima vem do persa Fatimat, do árabe Faatima e quer dizer “mulher que desmama seus filhos”. No meio de “El cielo oblícuo”, de Belén García Abia e de “After Birth”, de Elisa Albert, com paragem ainda para uma releitura de “Yerma”, de Federico García Lorca, todo o fenómeno de Fátima se enredava na leitura das (não) maternidades.

Vários livros que marcaram no meus vintes foram escritos por escritores homens sobre personagens mulheres. Não propriamente sobre mulheres mas sobre versões mitificadas do ser mulher. “Yerma” é um deles. Um dos melhores. A maternidade está crivada na noção de mulher. Nesta cultura ibérica, de formatação católica, crescer mulher é navegar entre referências mitificadas, mais ou menos localizadas. Fátima está a 200 quilómetros do Porto. A ruralidade andaluza de “Yerma” é transfronteiriça e infiltra-se no solo, mesmo que seco, mesmo que baldio.

Passei muito tempo com a minha avó materna, ainda antes de entrar para a escola, e o Avé Maria da rádio ficou a ecoar nas memórias de tardes no quintal, a arranjar com o que me entreter. A comunidade é o aconchego e a forma e é também a mão que asfixia.

Tanto Maria como Yerma são mães extremas, mães platónicas. A fertilidade toma formas estranhas . Yerma deseja. Yerma mata. Também em “A Morte da mãe”, de Isabel Barreno, mães e mulheres, corpos surgem em catadupa, no caos a que está sujeita a criação original. O equilíbrio é frágil entre os arquétipos e a agência, que nos sobra. Não me parece que seja inteligente fechar os olhos a estruturas ancestrais, muito menos será ficar delas refém.

Disponível na biblioteca da Confraria Vermelha

Fátima é pagã, é gente a ser instinto e é também a manipulação sacramentada dessa ideia suja e animalesca de procriação – procriar sim mas sem sexo, sem sangue, e, depois, ser mãe, isto é, viver e sofrer 33 anos por um filho. E vê-lo morrer.

Em espírito, logo indefinidamente, ser mãe do mundo e conceder benesses a quem reza muito e se mortifica mais. Uma mãe eternamente ouvinte, eventualmente intermediária – o seu papel é interceder, não tem a decisão final nas mãos. A figura de Maria é uma criação cuidadosamente lunática e, talvez por isso, pega como fogo. Um fogo alvo e puro, já sabemos, sem características humanas que o possam corromper.

«Lo tendré porque lo tengo que tener. O no entiendo el mundo. A veces, cuando ya estoy segura de que jamás, jamás…, me sube como una oleada de fuego por los pies y se me quedan vacías todas las cosas, y los hombres que andan por la calle y los toros y las piedras me parecen como cosas de algodón. Y me pregunto: ¿para qué estarán ahí puestos?»

Yerma, presa à terra, pensa que morre por dentro. Yerma é a mais vivas das mulheres.

“El cielo oblícuo”, de Belén García Abia“Yerma”, de Federico García Lorca e “After Birth”, de Elisa Albert estão disponíveis na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente, um desconto 10% Código: nãomaternidades

Que raio está a acontecer aqui.

Ler, discutir, confrontar medos, retirar o quotidiano da esfera da normalidade e perguntar o que raio está a acontecer aqui.

O Antes – esta cultura que temos

Emma O’Donovan, 18 anos recém-feitos. A culpa é minha é um livro a ler pelo tema que trata. Violação é a palavra que não pode ser dita, aquilo que só acontece às outras, e mesmo quando lhes acontece, se calhar pode não ter sido, tens a certeza, não estarás confusa, não tinhas bebido um bocado? A ler por raparigas adolescentes, assim como por rapazes adolescentes, e depois, por adultos, nós, os que perpetuamos a cultura da violação, recebida dos nossos pais. E reler, para poder estar mais atentos ao livro e não tanto a pensamentos de como esta rapariga é familiar, ou como aqui isto não aconteceria, não o meu filho, nunca com a minha filha, nunca comigo. Eu não riria, eu não omitiria. A culpa é insidiosa.

Os méritos deste livro assentam no abordar o tema sem subterfúgios e na forma como a personagem principal, Emma, é construída. Esta foi talvez a dimensão da leitura que me deixou mais angustiada (entre as várias angústias que o livro oferece). A Emma da primeira parte do livro, do “Antes”, vive numa constante exteriorização de si, parece apenas materializar-se no espaço em que a sua pele encontra o olhar dos outros. Sobretudo o olhar de desejo, por parte dos homens, e de inveja, por parte das mulheres. De aprovação por parte da mãe (“estás linda esta manhã, Emmie”) e de devoção por parte do pai (“és a minha princesa”). A Emma da primeira parte parece ser uma observadora que observa como a observam, só. É difícil de suportar, esse vácuo. “Sou a Emma O’Donovan”, repete.

A única coisa que compreende bem, que a preenche, é a culpa.

A Emma do “Depois” não consegue atribuir sentido a essa palavra que lhe aconteceu. É isolada, marginalizada, torturada lentamente nas redes sociais. Os risos, apenas de crueldade. O inferno são os outros. Os agressores seguem livres, aceites. Como atribuir um sentido se o mundo inteiro – aquela comunidade, a casa – lhe cospe na cara o contrário?

A única coisa que compreende bem, que a preenche, é a culpa. A Emma do “Depois”, que diz não ter mais identidade própria, ser um corpo-coisa reclamado por outros, “a Rapariga de Ballinatoom”, tem um olhar seu, discorre internamente sobre si e sobre os outros. E isto perturbou-me. Emma O’Donovan parece ser mais pessoa por causa daquilo que lhe aconteceu. Emma O’Donovan deixa de ser objecto de desejo e passa a ser alvo de asco e, de repente, tem voz própria. Perturbou-me porque foi uma opção da autora e perturbou-me porque poderia ser verdade. E eu não quero que seja. Que nenhuma Emma tenha como único poder o poder de agradar, que nenhuma Emma tenha de ser estilhaçada para se ouvir.

O Depois – educar é preciso

Ler, discutir, confrontar medos, retirar o quotidiano da esfera da normalidade e perguntar o que raio está a acontecer aqui. Para lá da culpa tem de haver a responsabilidade, nossa, colectiva.

A educação também se faz na rua, temos de ser humanos o suficiente para trazer esta discussão para o espaço público, mulheres o suficiente para nos solidarizarmos, homens o suficiente para não aceitar, nunca, a inevitabilidade da violência sexual.

No passado dia 25 de Maio, no Porto, em Braga, Coimbra, Lisboa e Faro, muitas de nós – que podemos, que já fomos vítimas da palavra inominável (violação), que não fomos mas estivemos lá perto, que percebemos, que ainda não compreendemos mas queremos aprender – gritámos bem alto «que não há nós e elas, aquilo que existe são mulheres que todos os dias enfrentam uma sociedade prenhe de violência machista. Elas somos nós. Mexeu com uma, mexeu com todas.» 

Mexeu com uma, mexeu com todas, Emma.

#Mexeucomtodas 

 

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O prazer dos sons

texto escrito por Sara Leão

N. K. Jemisin cria um universo caleidoscópico, rico em detalhes, perspectivas e uma linguagem própria, que prende, com todo o consentimento do mundo.

O prazer dos sons. A leitura de “The Killing Moon” cativa exactamente como o resvalar para um sonho. As palavras que não reconhecemos afagam os sentidos e criam cidades para lá dos limites do conhecido. Kisuati, Gujaareh. À estranheza inicial sobrepõe-se uma vaga sensação de familiaridade – afinal, visitamos a cidade dos sonhos todos os dias. Demora algum tempo a sabermo-nos orientar neste mundo. Os primeiros capítulos são pórticos, pelos quais passamos rapidamente retendo impressões, a acção desenrola sem cessar porque todas as noites há almas equivocadas que devem ser penhoradas e a benção da vida oferecida aos doentes, aos necessitados, aos incorruptíveis. Porque deles, de todos, é o reino dos sonhos. Ina-Karekh.

As palavras que não reconhecemos afagam os sentidos e criam cidades para lá dos limites do conhecido.

Ehiru é sacerdote e guardião da incorruptibilidade do reino. Tem em si toda a crença do mundo. É em torno desta personagem que vamos compreender a cidade-estado de Gujaareh. Mais ainda, pela forma cuidadosa como o sacerdote-aprendiz Nijiri o observa. A lei de Hananja, a deusa dos sonhos, é implacável e requer uma entrega sem precedentes, assim na vida, como no sono. Sunandi é a representante do reino vizinho de Kisuati, a portadora dos velhos costumes, mais flexíveis, mais humana, muito mais terrena, uma razão multicolor que a rectidão da lei de Hananja rejeita. É no encontro destas três personagens que as complexidades de novos e velhos mundos tomam forma e se disputam. A guerra está sempre latente, a paz é uma possibilidade apenas se for praticável soletrar a verdade  em várias línguas.

N. K. Jemisin cria um universo caleidoscópico, rico em detalhes, perspectivas e uma linguagem própria, que prende, com todo o consentimento do mundo. Vai buscar alimento ao inconsciente colectivo de Jung, à história ancestral partilhada, para esculpir a terra dos sonhos e oferecer uma leitura que plana, horas a fio, na noite imensa que é esta história.

Este é também um processo de descolonização da ficção fantástica. Toda a criação e os seus referentes históricos – a civilização de Núbia e o antigo Egipto – distanciam-se do protótipo da fantasia medieval europeia e das suas personagens brancas e, sobretudo, dos seus heróis brancos. A brancura da pele indica relação com as castas mais baixas, com os bárbaros do norte. A civilização pertence à casa mãe, uma África não nomeada mas omnipresente.

“The Killing Moon” é o volume #1 da série Dreamblood, que conta, para já, com apenas mais um livro, “The Shadowed Sun”, e não está traduzido para português. As expectativas para este volume #2 estão muito elevadas, por isso há que, de coração puro, confrontá-las em breve.

 ✄ The Killing Moon  de K. Jemisin, Orbit Books está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres»» caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente: Código de desconto prazerdossons

texto escrito por Sara Leão

Não há amor sem humor

texto escrito por Sara Leão

A história começa com um parto. E depois, há a capa. Porque haveria eu de resistir a esta capa? O parto acontece nas traseiras de uma oficina, em plena fuga para a frente, entre mundos em guerra. O pai do novo ser sem nome corta o cordão umbilical com os dentes. Hazel é agora, em nome próprio, a narradora desta história. Esta é  a sua autobiografia.

Não há amor sem humor e “Saga” tem ambos, em abundância.

São muitos começos: nasce uma nova família, que sela o corte com o passado e com a guerra infindável travada entre os planetas de Alana e Marko. Alana tem asas, Marko tem cornos e Hazel tem tudo, e é tudo, pelo menos, para os dois. Abandonam as filiações planetárias, lutam apenas em defesa de si e do recém-chegado terceiro elemento – querem permitir-se uma nova forma de viver. São guerreiros em reforma antecipada, que as circunstâncias não querem facilitar.

Leiam. É muito, muito bom. E, quanto mais não fosse, há robôs. Já me têm dito que é um ponto a favor de qualquer história. Se me permitem, prefiro apostar em guerreiras intergalácticas que amamentam.

As ânsias familiares são partilhadas por diferentes espécies, desde robôs aristocráticos, cujo  sexo decorre em corpos plenamente antropomórficos (salvo pela cabeça-monitor), a mercenários letais mas sujeitos a arrebates de ternura, quando confrontados com a escravidão sexual de uma menina de 6 anos. Não sabemos, ainda, ao que vão. Procuram a continuidade duma linhagem de robôs de sangue azul? A ternura foi revolta contra outras orfandades? O livro explora as raízes emocionais que, bem ou mal, nos seguram, e que conseguem ser mais sinuosas do que as plantas dos Bosques Sem Fim. «Que género de idiotas têm um filho num mundo como este?». “Saga” responde que vários.

Os desenhos de Fiona Staples são sedutores e profundamente expressivos. Sabe bem ao meu eu adulto continuar a perder-se nas imagens de um livro. Brian K. Vaughan é um estrela dos comics, tendo escrito para a Marvel, assim como para televisão e cinema. Há ainda outras personagens memoráveis, como uma gata que não tolera mentiras, ou uma baby-sitter adolescente de gorro e tripas ao dependuro, por baixo da t-shirt. Não há amor sem humor e “Saga” tem ambos, em abundância.

Leiam. É muito, muito bom. E, quanto mais não fosse, há robôs. Já me têm dito que é um ponto a favor de qualquer história. Se me permitem, prefiro apostar em guerreiras intergalácticas que amamentam.

 ✄  Brian k. Vaughan e Fiona Staples FloyStudio está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres»» caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente: Código de desconto mais(hu)amor