A comunidade é o aconchego e a forma e é também a mão que asfixia.

“Não sou um campo. Sou um campo, como? Plano. Molhado. Preto de Chuva. Não sou um campo.”

                                 Facas nas galinhas, David Harrower 

 

Inabitado, inculto, terreno inabitado. Despovoada, estéril. Ventre sáfaro, diz Saramago de Blimunda.

Foto: Birgit Jürgenssen. Nest, 1979. Black and white photograph. 17.8 x 24 cm.

Em Maio de 2017, Fátima marcou a expressão mediática em Portugal. O nome Fátima vem do persa Fatimat, do árabe Faatima e quer dizer “mulher que desmama seus filhos”. No meio de “El cielo oblícuo”, de Belén García Abia e de “After Birth”, de Elisa Albert, com paragem ainda para uma releitura de “Yerma”, de Federico García Lorca, todo o fenómeno de Fátima se enredava na leitura das (não) maternidades.

Vários livros que marcaram no meus vintes foram escritos por escritores homens sobre personagens mulheres. Não propriamente sobre mulheres mas sobre versões mitificadas do ser mulher. “Yerma” é um deles. Um dos melhores. A maternidade está crivada na noção de mulher. Nesta cultura ibérica, de formatação católica, crescer mulher é navegar entre referências mitificadas, mais ou menos localizadas. Fátima está a 200 quilómetros do Porto. A ruralidade andaluza de “Yerma” é transfronteiriça e infiltra-se no solo, mesmo que seco, mesmo que baldio.

Passei muito tempo com a minha avó materna, ainda antes de entrar para a escola, e o Avé Maria da rádio ficou a ecoar nas memórias de tardes no quintal, a arranjar com o que me entreter. A comunidade é o aconchego e a forma e é também a mão que asfixia.

Tanto Maria como Yerma são mães extremas, mães platónicas. A fertilidade toma formas estranhas . Yerma deseja. Yerma mata. Também em “A Morte da mãe”, de Isabel Barreno, mães e mulheres, corpos surgem em catadupa, no caos a que está sujeita a criação original. O equilíbrio é frágil entre os arquétipos e a agência, que nos sobra. Não me parece que seja inteligente fechar os olhos a estruturas ancestrais, muito menos será ficar delas refém.

Disponível na biblioteca da Confraria Vermelha

Fátima é pagã, é gente a ser instinto e é também a manipulação sacramentada dessa ideia suja e animalesca de procriação – procriar sim mas sem sexo, sem sangue, e, depois, ser mãe, isto é, viver e sofrer 33 anos por um filho. E vê-lo morrer.

Em espírito, logo indefinidamente, ser mãe do mundo e conceder benesses a quem reza muito e se mortifica mais. Uma mãe eternamente ouvinte, eventualmente intermediária – o seu papel é interceder, não tem a decisão final nas mãos. A figura de Maria é uma criação cuidadosamente lunática e, talvez por isso, pega como fogo. Um fogo alvo e puro, já sabemos, sem características humanas que o possam corromper.

«Lo tendré porque lo tengo que tener. O no entiendo el mundo. A veces, cuando ya estoy segura de que jamás, jamás…, me sube como una oleada de fuego por los pies y se me quedan vacías todas las cosas, y los hombres que andan por la calle y los toros y las piedras me parecen como cosas de algodón. Y me pregunto: ¿para qué estarán ahí puestos?»

Yerma, presa à terra, pensa que morre por dentro. Yerma é a mais vivas das mulheres.

“El cielo oblícuo”, de Belén García Abia“Yerma”, de Federico García Lorca e “After Birth”, de Elisa Albert estão disponíveis na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente, um desconto 10% Código: nãomaternidades

Que raio está a acontecer aqui.

Ler, discutir, confrontar medos, retirar o quotidiano da esfera da normalidade e perguntar o que raio está a acontecer aqui.

O Antes – esta cultura que temos

Emma O’Donovan, 18 anos recém-feitos. A culpa é minha é um livro a ler pelo tema que trata. Violação é a palavra que não pode ser dita, aquilo que só acontece às outras, e mesmo quando lhes acontece, se calhar pode não ter sido, tens a certeza, não estarás confusa, não tinhas bebido um bocado? A ler por raparigas adolescentes, assim como por rapazes adolescentes, e depois, por adultos, nós, os que perpetuamos a cultura da violação, recebida dos nossos pais. E reler, para poder estar mais atentos ao livro e não tanto a pensamentos de como esta rapariga é familiar, ou como aqui isto não aconteceria, não o meu filho, nunca com a minha filha, nunca comigo. Eu não riria, eu não omitiria. A culpa é insidiosa.

Os méritos deste livro assentam no abordar o tema sem subterfúgios e na forma como a personagem principal, Emma, é construída. Esta foi talvez a dimensão da leitura que me deixou mais angustiada (entre as várias angústias que o livro oferece). A Emma da primeira parte do livro, do “Antes”, vive numa constante exteriorização de si, parece apenas materializar-se no espaço em que a sua pele encontra o olhar dos outros. Sobretudo o olhar de desejo, por parte dos homens, e de inveja, por parte das mulheres. De aprovação por parte da mãe (“estás linda esta manhã, Emmie”) e de devoção por parte do pai (“és a minha princesa”). A Emma da primeira parte parece ser uma observadora que observa como a observam, só. É difícil de suportar, esse vácuo. “Sou a Emma O’Donovan”, repete.

A única coisa que compreende bem, que a preenche, é a culpa.

A Emma do “Depois” não consegue atribuir sentido a essa palavra que lhe aconteceu. É isolada, marginalizada, torturada lentamente nas redes sociais. Os risos, apenas de crueldade. O inferno são os outros. Os agressores seguem livres, aceites. Como atribuir um sentido se o mundo inteiro – aquela comunidade, a casa – lhe cospe na cara o contrário?

A única coisa que compreende bem, que a preenche, é a culpa. A Emma do “Depois”, que diz não ter mais identidade própria, ser um corpo-coisa reclamado por outros, “a Rapariga de Ballinatoom”, tem um olhar seu, discorre internamente sobre si e sobre os outros. E isto perturbou-me. Emma O’Donovan parece ser mais pessoa por causa daquilo que lhe aconteceu. Emma O’Donovan deixa de ser objecto de desejo e passa a ser alvo de asco e, de repente, tem voz própria. Perturbou-me porque foi uma opção da autora e perturbou-me porque poderia ser verdade. E eu não quero que seja. Que nenhuma Emma tenha como único poder o poder de agradar, que nenhuma Emma tenha de ser estilhaçada para se ouvir.

O Depois – educar é preciso

Ler, discutir, confrontar medos, retirar o quotidiano da esfera da normalidade e perguntar o que raio está a acontecer aqui. Para lá da culpa tem de haver a responsabilidade, nossa, colectiva.

A educação também se faz na rua, temos de ser humanos o suficiente para trazer esta discussão para o espaço público, mulheres o suficiente para nos solidarizarmos, homens o suficiente para não aceitar, nunca, a inevitabilidade da violência sexual.

No passado dia 25 de Maio, no Porto, em Braga, Coimbra, Lisboa e Faro, muitas de nós – que podemos, que já fomos vítimas da palavra inominável (violação), que não fomos mas estivemos lá perto, que percebemos, que ainda não compreendemos mas queremos aprender – gritámos bem alto «que não há nós e elas, aquilo que existe são mulheres que todos os dias enfrentam uma sociedade prenhe de violência machista. Elas somos nós. Mexeu com uma, mexeu com todas.» 

Mexeu com uma, mexeu com todas, Emma.

#Mexeucomtodas 

 

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O prazer dos sons

texto escrito por Sara Leão

N. K. Jemisin cria um universo caleidoscópico, rico em detalhes, perspectivas e uma linguagem própria, que prende, com todo o consentimento do mundo.

O prazer dos sons. A leitura de “The Killing Moon” cativa exactamente como o resvalar para um sonho. As palavras que não reconhecemos afagam os sentidos e criam cidades para lá dos limites do conhecido. Kisuati, Gujaareh. À estranheza inicial sobrepõe-se uma vaga sensação de familiaridade – afinal, visitamos a cidade dos sonhos todos os dias. Demora algum tempo a sabermo-nos orientar neste mundo. Os primeiros capítulos são pórticos, pelos quais passamos rapidamente retendo impressões, a acção desenrola sem cessar porque todas as noites há almas equivocadas que devem ser penhoradas e a benção da vida oferecida aos doentes, aos necessitados, aos incorruptíveis. Porque deles, de todos, é o reino dos sonhos. Ina-Karekh.

As palavras que não reconhecemos afagam os sentidos e criam cidades para lá dos limites do conhecido.

Ehiru é sacerdote e guardião da incorruptibilidade do reino. Tem em si toda a crença do mundo. É em torno desta personagem que vamos compreender a cidade-estado de Gujaareh. Mais ainda, pela forma cuidadosa como o sacerdote-aprendiz Nijiri o observa. A lei de Hananja, a deusa dos sonhos, é implacável e requer uma entrega sem precedentes, assim na vida, como no sono. Sunandi é a representante do reino vizinho de Kisuati, a portadora dos velhos costumes, mais flexíveis, mais humana, muito mais terrena, uma razão multicolor que a rectidão da lei de Hananja rejeita. É no encontro destas três personagens que as complexidades de novos e velhos mundos tomam forma e se disputam. A guerra está sempre latente, a paz é uma possibilidade apenas se for praticável soletrar a verdade  em várias línguas.

N. K. Jemisin cria um universo caleidoscópico, rico em detalhes, perspectivas e uma linguagem própria, que prende, com todo o consentimento do mundo. Vai buscar alimento ao inconsciente colectivo de Jung, à história ancestral partilhada, para esculpir a terra dos sonhos e oferecer uma leitura que plana, horas a fio, na noite imensa que é esta história.

Este é também um processo de descolonização da ficção fantástica. Toda a criação e os seus referentes históricos – a civilização de Núbia e o antigo Egipto – distanciam-se do protótipo da fantasia medieval europeia e das suas personagens brancas e, sobretudo, dos seus heróis brancos. A brancura da pele indica relação com as castas mais baixas, com os bárbaros do norte. A civilização pertence à casa mãe, uma África não nomeada mas omnipresente.

“The Killing Moon” é o volume #1 da série Dreamblood, que conta, para já, com apenas mais um livro, “The Shadowed Sun”, e não está traduzido para português. As expectativas para este volume #2 estão muito elevadas, por isso há que, de coração puro, confrontá-las em breve.

 ✄ The Killing Moon  de K. Jemisin, Orbit Books está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres»» caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente: Código de desconto prazerdossons

texto escrito por Sara Leão

Não há amor sem humor

texto escrito por Sara Leão

A história começa com um parto. E depois, há a capa. Porque haveria eu de resistir a esta capa? O parto acontece nas traseiras de uma oficina, em plena fuga para a frente, entre mundos em guerra. O pai do novo ser sem nome corta o cordão umbilical com os dentes. Hazel é agora, em nome próprio, a narradora desta história. Esta é  a sua autobiografia.

Não há amor sem humor e “Saga” tem ambos, em abundância.

São muitos começos: nasce uma nova família, que sela o corte com o passado e com a guerra infindável travada entre os planetas de Alana e Marko. Alana tem asas, Marko tem cornos e Hazel tem tudo, e é tudo, pelo menos, para os dois. Abandonam as filiações planetárias, lutam apenas em defesa de si e do recém-chegado terceiro elemento – querem permitir-se uma nova forma de viver. São guerreiros em reforma antecipada, que as circunstâncias não querem facilitar.

Leiam. É muito, muito bom. E, quanto mais não fosse, há robôs. Já me têm dito que é um ponto a favor de qualquer história. Se me permitem, prefiro apostar em guerreiras intergalácticas que amamentam.

As ânsias familiares são partilhadas por diferentes espécies, desde robôs aristocráticos, cujo  sexo decorre em corpos plenamente antropomórficos (salvo pela cabeça-monitor), a mercenários letais mas sujeitos a arrebates de ternura, quando confrontados com a escravidão sexual de uma menina de 6 anos. Não sabemos, ainda, ao que vão. Procuram a continuidade duma linhagem de robôs de sangue azul? A ternura foi revolta contra outras orfandades? O livro explora as raízes emocionais que, bem ou mal, nos seguram, e que conseguem ser mais sinuosas do que as plantas dos Bosques Sem Fim. «Que género de idiotas têm um filho num mundo como este?». “Saga” responde que vários.

Os desenhos de Fiona Staples são sedutores e profundamente expressivos. Sabe bem ao meu eu adulto continuar a perder-se nas imagens de um livro. Brian K. Vaughan é um estrela dos comics, tendo escrito para a Marvel, assim como para televisão e cinema. Há ainda outras personagens memoráveis, como uma gata que não tolera mentiras, ou uma baby-sitter adolescente de gorro e tripas ao dependuro, por baixo da t-shirt. Não há amor sem humor e “Saga” tem ambos, em abundância.

Leiam. É muito, muito bom. E, quanto mais não fosse, há robôs. Já me têm dito que é um ponto a favor de qualquer história. Se me permitem, prefiro apostar em guerreiras intergalácticas que amamentam.

 ✄  Brian k. Vaughan e Fiona Staples FloyStudio está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres»» caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente: Código de desconto mais(hu)amor

 

O direito nunca foi neutro.

texto escrito por Sara Leão

Há dias dei com este artigo e fiquei imobilizada até o terminar. Descobri uma tarefa urgente para a semana: ler a “Introdução às Teorias Feministas do Direito”, de Rita Mota Sousa. «E o facto do criminoso padrão ser um homem torna a mulher criminosa duplamente desviante.»

Queria saber se este era um livro capaz de criar acessibilidades, face à linguagem hermética do direito, e fui também à procura de uma leitura formadora – confirmo que o é e agradeço à autora por isso. «Acreditamos que este breve périplo pelas origens do direito moderno português não pode deixar de produzir, em todas as mulheres, uma marcada sensação de humilhação porque ilustra e demonstra o discurso oficial e declarado, que remetia a mulher a um estatuto que pouco a distanciava do de um animal de companhia, não fossem as suas utilidades domésticas e procriativas».

Nesta “Introdução…” a autora faz uma apresentação de diferentes correntes feministas aplicadas ao direito (feminismo liberal, cultural, radical e pós-moderno), do seu desenvolvimento teórico, assim como da sua expressão em diferentes casos legais.

No segundo capítulo do livro, o foco está na prática de métodos jurídicos feministas. Esta secção revelou-se particularmente valiosa na resposta às minhas angústias, perante um sistema judicial conservador, onde a culpabilização das vítimas ainda faz parte da sua zona de conforto.

No passado dia 30 de Março, no âmbito do Festival Feminista do Porto, a Associação Portuguesa de Mulheres Juristas dinamizou uma simulação de um julgamento de violação. Após a simulação, foi aberto o debate, estando assente que a simulação procurava caricaturar viéses perpetrados pelos tribunais, partindo da experiência real de quem os vive. Os julgamentos de crime de violação são aqueles em que «a versão das vítimas (…) é particularmente escrutinada e desacreditada» e a sua conduta perscrutada, por isso a autora vai optar por analisar a aplicação de métodos jurídicos feministas ao crime de violação e ao assédio sexual.

Foi reconfortante saber que, também no direito, o feminismo surge enquanto prática transformadora, que questiona a neutralidade, mimetizando um movimento presente nas ciências em geral, pela abordagem das epistemologias feministas.

Rita Mota Sousa recorre também a vários casos de tribunal para ilustrar a forma como as práticas jurídicas são o resultado daquilo que informa a abordagem ao direito de quem o pratica. Foi reconfortante saber que, também no direito, o feminismo surge enquanto prática transformadora, que questiona a neutralidade, mimetizando um movimento presente nas ciências em geral, pela abordagem das epistemologias feministas.

Junto-me a quem afirma que «a realização plena da mulher só se fará com uma alteração de paradigma, que remova o masculino do centro do mundo e altere as suas polaridades». O direito nunca foi neutro. O universal naturalizou as «experiências de vida de homens, poderosos e brancos», criando o direito à sua imagem. Felizmente, não faltam mulheres juristas prontas a questionar a “ordem natural das coisas”, fazendo «a pergunta do Outro», e aqui, concretamente, «a pergunta da mulher».

Nota colectiva para Abril: foram já demasiados séculos de um direito silenciador das perspectivas de mulheres e de outros grupos excluídos. O «direito é um poderoso instrumento de operatividade social, e a radicalidade da sua intervenção andará a par e passo com a radicalidade da mudança que se logre alcançar».

 Introdução às Teorias Feministas do Direito de Rita Mota Sousa está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres»» caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente: Código de desconto direitospraviverbem

um casamento, um amor e um livro

texto escrito por Sara Leão

Preparei-me para ler sobre casamento e, eventualmente, sobre o amor.

Preferi a contenção de Mathilde à luz do seu companheiro e globalmente amado Lotto. Mas, antes de mais, a contextualização. Lauren Groff estruturou Destinos e Fúrias em dois volumes, que acabaram unidos no mesmo livro. Cada um deles remete para uma personagem – Lotto e Mathilde. Cada (quase) meio livro escuta as vozes das figuras mitológicas convidadas para a cena: primeiro, a das tecedoras de destinos de deuses e humanos, as Moiras, e depois, as guardiãs de vinganças e castigos, as Fúrias.

Continuo a ter apenas um vislumbre do que é o casamento, do amor percebo saudavelmente muito pouco, mas cada vez sei melhor o que não é.

Preparei-me para ler sobre casamento e, eventualmente, sobre o amor. Ler é um processo de aprofundamento do pouco que sabemos sobre alguma coisa, por isso, sempre gostei muito de ler. Vão-se despindo camadas de ignorância, percebe-se menos, mas de forma mais astuta e precisa. Continuo a ter apenas um vislumbre do que é o casamento, do amor percebo saudavelmente muito pouco, mas cada vez sei melhor o que não é.

Lauren Groff certamente também gosta de ler e de acumular referências, prontas a tomarem a forma de romance: ecos de tragédia grega, o que delimita a tragédia da comédia, como se intersecciona o presente com a mitologia clássica. Onde assenta a identidade, oh, ser tão definido como um mito. Aqui e ali, algum Freud.

A forma caricatural, veloz, como Mathilde surge na segunda parte do livro, nas “Fúrias”, reforça a personagem traçada na primeira, por oposição a Lotto. Sempre por oposição e em dualidade. É um casamento, um amor e um livro que funciona, mas sempre em antagonismo, há que abandonar desde logo a ideia de igualdade. As histórias dos dois, na narrativa de cada um, são feitas de silêncios e omissões, que decorrem lado a lado. Há justiça? Há privilégios, exploração de vulnerabilidades, dependência e o desejo, que tudo une.

Estou tentada a reler Destinos e Fúrias na versão original, em inglês, dadas algumas derrapagens graves de tradução. Ainda assim, a linguagem sobrevive. Lauren Groff é a escritora artífice, que, às vezes, se apaixona pelo que cria e acaba por polir demasiado certas peças. Chamam-lhe escritora ambiciosa.

«O coração de Mathilde era amargo, vingativo e rápido. [Verdade.]

O coração de Mathilde era bondoso. [Verdade.]».

Destinos e Fúrias são páginas cheias de socalcos, de palavras que são boas.

Destinos e Fúrias de Lauren Groff está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres»» caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente: Código de desconto fúria