O prazer dos sons

texto escrito por Sara Leão

N. K. Jemisin cria um universo caleidoscópico, rico em detalhes, perspectivas e uma linguagem própria, que prende, com todo o consentimento do mundo.

O prazer dos sons. A leitura de “The Killing Moon” cativa exactamente como o resvalar para um sonho. As palavras que não reconhecemos afagam os sentidos e criam cidades para lá dos limites do conhecido. Kisuati, Gujaareh. À estranheza inicial sobrepõe-se uma vaga sensação de familiaridade – afinal, visitamos a cidade dos sonhos todos os dias. Demora algum tempo a sabermo-nos orientar neste mundo. Os primeiros capítulos são pórticos, pelos quais passamos rapidamente retendo impressões, a acção desenrola sem cessar porque todas as noites há almas equivocadas que devem ser penhoradas e a benção da vida oferecida aos doentes, aos necessitados, aos incorruptíveis. Porque deles, de todos, é o reino dos sonhos. Ina-Karekh.

As palavras que não reconhecemos afagam os sentidos e criam cidades para lá dos limites do conhecido.

Ehiru é sacerdote e guardião da incorruptibilidade do reino. Tem em si toda a crença do mundo. É em torno desta personagem que vamos compreender a cidade-estado de Gujaareh. Mais ainda, pela forma cuidadosa como o sacerdote-aprendiz Nijiri o observa. A lei de Hananja, a deusa dos sonhos, é implacável e requer uma entrega sem precedentes, assim na vida, como no sono. Sunandi é a representante do reino vizinho de Kisuati, a portadora dos velhos costumes, mais flexíveis, mais humana, muito mais terrena, uma razão multicolor que a rectidão da lei de Hananja rejeita. É no encontro destas três personagens que as complexidades de novos e velhos mundos tomam forma e se disputam. A guerra está sempre latente, a paz é uma possibilidade apenas se for praticável soletrar a verdade  em várias línguas.

N. K. Jemisin cria um universo caleidoscópico, rico em detalhes, perspectivas e uma linguagem própria, que prende, com todo o consentimento do mundo. Vai buscar alimento ao inconsciente colectivo de Jung, à história ancestral partilhada, para esculpir a terra dos sonhos e oferecer uma leitura que plana, horas a fio, na noite imensa que é esta história.

Este é também um processo de descolonização da ficção fantástica. Toda a criação e os seus referentes históricos – a civilização de Núbia e o antigo Egipto – distanciam-se do protótipo da fantasia medieval europeia e das suas personagens brancas e, sobretudo, dos seus heróis brancos. A brancura da pele indica relação com as castas mais baixas, com os bárbaros do norte. A civilização pertence à casa mãe, uma África não nomeada mas omnipresente.

“The Killing Moon” é o volume #1 da série Dreamblood, que conta, para já, com apenas mais um livro, “The Shadowed Sun”, e não está traduzido para português. As expectativas para este volume #2 estão muito elevadas, por isso há que, de coração puro, confrontá-las em breve.

 ✄ The Killing Moon  de K. Jemisin, Orbit Books está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres»» caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente: Código de desconto prazerdossons

texto escrito por Sara Leão

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