Mortas secundárias

«O fio da vida é tão forte como o tendão de um boi.
Por isso, mesmo depois de te perder, a vida teve de continuar.
Tive de me forçar a comer, a trabalhar, a empurrar cada dia para baixo, como se fosse uma bola de arroz frio,
mesmo que me ficasse entalado na garganta.»
Atos Humanos, Han Kang

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Dreamstime

Conseguimos tolerar ler sobre a perda. A perda pode ter uma aura romântica: depois de cada perda, imaginamos o estado de regeneração que se segue, em que novos ganhos se acumulam. A tempestade e a bonança.

Mais raro é querermos demorar-nos nos corpos que vão perdendo a vida na cadência lenta da doença, ou nos corpos que vimos mortos, e com quem, por isso, assinámos um pacto de impossível esquecimento.

Mortas secundárias


Há corpos que rapidamente se viram fantasmas, nomes repetidos em jornais, coletados de quando em vez, em nome da memória.  É o caso de Andrea, María Luisa, e Sarita, as “Raparigas Mortas”, que Selva Almada nunca pôde esquecer. São fantasmas que a acompanham desde a adolescência, desde a primeira vez que escutou ecos das suas histórias. Apesar de todo o espalhafato mediático que, na Argentina, os acompanhou, são nomes que representam três crimes por resolver. Acontece que, das idas décadas de 80 para cá, o ódio às mulheres continuou fácil de tolerar.

Apesar de todo o protagonismo que estas três histórias a seu tempo tiveram, foi demasiado fácil abandonar estes nomes à fantasmagoria, torná-los meros mitos urbanos, que assombram as noites de uma ou outra jovem, a caminho de uma saída noturna ou de um encontro sexual – “vê lá, lembra-te do que a aconteceu a Andrea”, ou a María Luisa, ou a Sarita.

Mortes periféricas

Lá longe, na raia transmontana, percebe-se que caminhamos entre e além fronteiras – a rede de telemóvel, a da televisão, tudo oscila entre o português e o espanhol. Foram terras de partida, mas em “Agora e na Hora da Nossa Morte” são estradas e povoações percorridas, acompanhando uma equipa de cuidados paliativos, no Planalto Mirandês. São histórias dos que regressaram, e dos que por lá quiseram ficar, dos dias que se vão subtraindo, e dos últimos usos dos corpos – os abraços e a teimosia de aguentar um pouco mais; a escuta de gente que, gradualmente, se foi esquecendo de si e das suas dores.

A jornalista Susana Moreira Marques presta testemunho do quanto serve um corpo e do valor daqueles de dele cuidam. “E depois, o amor, grande sobrevivente do desastre”.

Mortos em revolta

Atos Humanos” são atos violentos, é a crueldade, decartável, sacudida de cima de ombros militares, dos microfones de políticos. Registada uma e outra vez pela imprensa estrangeira, que se escandaliza. Atos humanos são uma história que se repete, repete, e continua imutável.

Han Kang regressa à sua cidade natal, Gwangju, na Coreia do Sul, para um ajuste de contas com o massacre de 1980, em que estudantes foram torturados e mortos, em nome da obediência ao Estado. Este confronto faz-se a várias vozes, num acumular de corpos, como o daquele 18 de maio. «Quando morreste, não pude fazer-te um funeral e assim, a minha vida tornou-se um funeral. Quando foste envolto numa lona e levado num camião do lixo. Quando jatos de água reluzentes brotavam imperdoavelmente da fonte.».


Dia 25 de novembro marca o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. A data foi escolhida em homenagem às irmãs Mirabal, três dominicanas que se opuseram à ditadura de Rafael Leónidas Trujillo. Foram presas e torturadas várias vezes, até que Trujillo decidiu assassiná-las. A 25 de novembro de 1960, enviou vários homens para intercetar as três mulheres, a caminho de uma visita aos seus maridos, que se encontravam presos. Las Mariposas, como ficaram conhecidas, estavam desarmadas. Foram levadas para uma plantação de cana-de-açúcar, sendo aí espancadas e estranguladas.

Todos os anos se acumulam nomes de mulheres assassinadas por companheiros e maridos, os quais nós, feministas, tendemos a repetir em manifestações de repúdio. Até ao ano seguinte. Dia 25 de novembro é dia de dizer, mais uma vez, que não aceitamos tantos corpos acumulados.

A morte é inevitável, mas estas não.

Texto escrito por Sara Leão
A Sara Leão gosta de ler e escrever,
ó terrim, tim, tim e passear na rua.
Partilha o que sentepensa num blog que tem uma citação da Agnés Varda.
Modo de estar na vida: feminismo para viver bem.


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