Ventos do Apocalipse: Ecos passados de um futuro a evitar

Os Ventos do Apocalipse são ventos da destruição trazida pela guerra, que Paulina Chiziane vai narrar com grande crueza e lealdade para com as vítimas desse sofrimento desmedido. Nesta história, o apocalipse vai ser trazido pelas lutas de poder dos homens, figuras mundanas mas simultaneamente manifestações terrenas dos míticos quatro guerreiros do Apocalipse.

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Na dedicatória inicial do livro a autora refere o Grupo Especial de Trabalho nas Unidades de Produção, “um grupo de jovens lutadores pela liberdade que a história se esqueceu de registar.” É uma dedicatória que aponta para uma visão crítica da História em que uma narrativa oficial se sobrepõe às múltiplas narrativas que compõem a realidade, as histórias. 

Assumida contadora de histórias, Paulina Chiziane vai chamar a si a responsabilidade de nos contar uma história que entretém, como qualquer história contada à volta da fogueira, mas que também visibiliza o verdadeiro rosto da guerra: famélico, doente, violento.

A edição inicial data de 1993, sendo que foi nessa altura, no início da década de 90, que começaram a esmorecer os ataques das forças anti-governamentais, a RENAMO, podendo a população começar a fechar as feridas de guerra. A obra surge, pontual, como testemunho dessa ferida.

A epígrafe vai reforçar a ideia de construção de um momento de encontro e de escuta, “vinde todos e ouvi, vinde todos com as vossas mulheres”, realçando o convite alargado às mulheres, habitualmente elementos secundários da história oficial, já que é a partir das vivências delas, sobretudo na figura de Minosse, que esta narrativa se vai organizar. 

Não é uma história sobre guerreiros, régulos e demais autoridades políticas. É uma história dos sobreviventes da imposição de autoridade e de poder, sobretudo a história das mulheres, das crianças e dos velhos. A chamada é para que nos reunamos a ouvir uma história que não vai agradar aos ouvidos mais patrióticos. Vamos ouvir contar sobre as pessoas em cujo sofrimento mudo assenta a narrativa heróica de um país.

O prólogo está dividido em três narrativas curtas, cada uma abordando dimensões da expressão humana que estarão presentes na narrativa principal: a crueldade, o trauma, a ambição, todas elas ingredientes e consequências do movimento destrutivo do apocalipse proporcionado pela guerra. Termina com uma constatação e um aviso, “KARINGANA WA KARINGANA”, “a terra gira e gira, a vida é uma roda” (p. 23) e a história é feita de repetições.

A autora recorre às três narrativas curtas, “O marido cruel”, “Mata, que amanhã faremos outro” e “A ambição da Massupai” para introduzir os temas a serem desenvolvidos. A primeira fala-nos da fome e de um marido que deixa mulher e filhos à míngua. Uma família já não é uma família, é uma luta pela sobrevivência, cada comensal é um potencial rival. A segunda relata o sacrifício de uma criança em nome da segurança do grupo – em tempos de sobrevivência a vida de uma criança deixa de ter o seu valor assegurado. Svetlana Alexievich relata em “A guerra não tem rosto de mulher” uma situação semelhante testemunhada por uma soldado soviética durante a Segunda Guerra Mundial. A guerra toma formas semelhantes em diferentes pontos do globo. A terceira história remete para o caráter destrutivo da ambição, neste caso a de uma mulher capaz de assassinar os seus próprios filhos, em nome de uma paixão por um homem poderoso. Chiziane vai recuperar uma versão desta personagem na narrativa principal, mas também nos faz aqui refletir em como a guerra é isso mesmo, o sacrifício de todos – pais contra filhos, irmãos chacinando irmãos – na disputa perversa do poder.

A narrativa principal está dividida em duas partes. A primeira tem um provérbio tsonga por epígrafe (“Nasceste tarde! Verás o que eu não vi.”) e a segunda um excerto de uma canção popular changane (“Cada dia tem a sua história.”).
Ambas as citações remetem para a passagem do tempo e para a forma como se constrói a história – alertam para a diversidade de histórias dentro da grande história. O livro tem 25 capítulos e no final é-nos apresentado um glossário das palavras de diferentes línguas africanas que são utilizadas no texto.

A contadora de histórias

“Quando eu nasci –conta Paulina Chiziane– os meus pais temeram pela minha vida. Vim ao mundo com um peso muito baixo, a minha saúde era muito frágil. Então houve necessidade de consultar sacerdotes e adivinhos para descobrir o que é que eu tinha. Estes concluíram que havia um espírito importante que queria encarnar em mim. Foi necessário um ritual muito complicado para celebrar a encarnação do dito espírito importante. O tratamento que eu tenho ainda hoje, dentro do clã, apesar de estar a viver na cidade, quando eu regresso a Gaza, à minha aldeia natal, é um tratamento especial, porque tenho o nome do grande antepassado”.

Paulina Chiziane é, sem dúvida, uma autora especial, o que podemos confirmar pelas várias entrevistas disponíveis em texto e em vídeo. É uma mulher contadora de histórias, que escreve numa língua que não é a sua língua nativa, mas que adotou, de modo a contar num só idioma estas histórias plurilingues. Ser contadora de histórias é dar continuidade à teia ancestral que a liga à avó, também ela contadora.

Nos seus textos reflete uma abordagem que não alinha com posições simplistas: fala da situação da mulher, apresentando as suas contradições, e com a guerra faz o mesmo. O lado bom e mau da narrativa heróica está diluído. Em Mananga, a aldeia onde decorre o massacre relatado em “Ventos do Apocalipse”, são os próprios filhos da terra que concertam a destruição daqueles com quem cresceram. 

As histórias de Moçambique são depositárias de muitas intervenções: o colonialismo português, o regime marxista-leninista do pós-independência, a guerra civil, e, sob todas estas camadas mais lineares da história recente do território, a imensa diversidade cultural que compõe Moçambique, composta por diferentes costumes e diferentes formas de a população se relacionar com a história, a que vem de cima, do poder colonial, estatal e tradicional.

A escrita de Paulina Chiziane tem um ritmo e uma musicalidade poéticas. É uma escrita que pede emprestado à tradição oral o ritmo da história contada e sobre ele elabora e reescreve a língua portuguesa. Em Paulina Chiziane há um encontro com a musicalidade, que será herdeira da tradição oral, mas possivelmente também da tradição da poesia narrativa que em tempos se propagou pela costa oriental de África. As culturas locais estão presentes nas palavras que pede emprestadas a outras línguas africanas, nos provérbios e, sobretudo, na sabedoria ancestral, a chave-mestra de toda a história que aqui conta, KARINGANA WA KARINGANA, a história é uma repetição. Esta é uma história entre as várias histórias de Moçambique, esta é uma guerra que ecoa outras guerras pelo mundo – é a história interminável do sofrimento humano. 

O trauma

“Ninguém se lembra de amparar a viúva recente. Minosse, que assistiu a tudo de olhos bem abertos, luta contra o desfalecimento que a abate. Grita, mas a sua voz não se escuta, faz coro com as vozes desvairadas das gentes. Rebola. Pede ao chão que a sepulte mas este recusa-a. Levanta-se. Cai. Grita. Chora. Torna a levantar-se e sofre nova recaída. Estende-se no regaço da terra-mãe com os braços em cruz contemplando o céu, única alternativa ao seu alcance.” (p. 136). 

Um trauma do tipo do que é traduzido ao longo desta narrativa – físico e emocional, onde a perda é tão devastadora que se torna incomensurável – vai exigir outros recursos narrativos à autora. Paulina Chiziane recorre ao corpo e ao gesto para traduzir diferentes dimensões do que está a acontecer àquelas pessoas, vítimas de uma destruição sem precedentes, da qual não conhecem a origem nem o contexto. Nesta cena, o eco dessa devastação concentra-se no corpo de Minosse, a principal figura feminina que vai atravessar todos os períodos narrados. A pontuação utilizada remete para a cadência de ações que recaem sobre o corpo de Minosse (“Cai. Grita. Chora.”), como se o sofrimento provocado fossem pancadas que embatem contra si, que a invadem e que dela saem em rasgos de desespero. O sofrimento torna-se palpável e, por isso, muito próximo. O movimento circular e repetitivo (“Levanta-se. Cai. (…) Torna a levantar-se e sofre nova recaída”) parece apontar para aquilo que já está assente desde o início da narrativa: a história repete-se e o ser humano parece, segundo a perspetiva de Chiziane, estar preso nesta roda giratória de sofrimento. 

“A diversão do homem consiste em destruir e construir desde o princípio do mundo. As guerras existirão sempre.” (p. 145).

A redenção possível parece estar contida no próprio ato de contar histórias. Chiziane dá voz a personagens, mas é também uma escutadora de histórias. Diz que é por intermédio das histórias que ouve pela rua que surgem muitas das personagens e histórias de acaba por escrever. É uma ouvinte compassiva, o que lhe permite criar personagens que falam para lá dos limites que o poder lhes impõe. Falam a partir do lugar da fragilidade e da sobrevivência, da manutenção ou da redescoberta da humanidade – como é o caso de Minosse, que se recupera a si mesma ao adotar crianças orfãs de guerra. A redenção possível vem desses momentos de reconstrução de humanidade e de solidariedade – quando feridos e crianças são recolhidos à passagem do grupo em êxodo, apesar de todas as dificuldades. São momentos que revelam o frágil equilíbrio moral da natureza humana, sempre apanhada em contradição entre diferentes impulsos. 

“Temos que vingar os nossos mortos, gente – declara o chefe. Vingança, vingança – clama o povo.” (p.132). 

E a roda continua a girar.

O final da primeira parte está escrito como se do final de uma primeira parte de uma peça de teatro se tratasse. O sofrimento de Minosse faz referência aos momentos de desespero de Jesus Cristo crucificado, “Deus do Céu e da Terra, espíritos do Mathe e dos Mausse, por que me abandonaram?” (p. 150), um desespero que interpela todas as divindades disponíveis, quer as trazidas pela colonização, quer as ancestrais. 

A estas pessoas sobra apenas a dor como força unificadora. Esse sofrimento partilhado vai permitir que os habitantes de Mananga, a aldeia de Minosse, se unam aos refugiados que previamente haviam chegado à aldeia, e que a aldeia havia rejeitado, e que juntos partam numa massa humana comum, em busca da sobrevivência.

A fome

Se procurarmos inocentes e culpados nesta história, a fome seria certamente uma das principais protagonistas. “Chegou o tempo de comer as crostas da nossa lepra” (p. 30), diz-se logo no início da narrativa. A fome extrema anuncia o desespero da população e incentiva à desconfiança em relação ao vizinho. Mas não a justifica. “Para quê tratá-lo bem se ele não é do nosso clã? É um estrangeiro, e se se sente mal que regresse à sua origem” (p. 41). Logo no início da narrativa uma das personagens é apresentada como sendo marginalizada por não ter os mesmos elos de pertença étnica do que os restantes habitantes da aldeia. Mais tarde, os refugiados de um ataque a outra aldeia vão igualmente ser ostracizados e vistos como adversários num mundo de poucos recursos. A população ressente-se da atenção que estes recebem do poder estatal. 

“Os foragidos são tipos cheios de sorte. Recebem maior atenção das autoridades e não entendemos porquê. Desde que aqui estão, só assistimos à chegada de carros trazendo comidas, roupas, alimentos, mantas, tendas, ou para evacuar um doente para o hospital das cidade, e nós, donos da terra, que lhes damos abrigo e conforto, sofrendo tanto como eles, não recebemos sequer um pedaço de consolação. Se não fosse por temer as autoridades, já os teríamos expulso à pedrada.” (p. 119). 

É curioso como os argumentos utilizados ecoam tiradas xenófobas que ouvimos atualmente, no contexto da sociedade portuguesa contemporânea, em relação a refugiados sírios, por exemplo. No caso de Mananga, a noção de pertença está circunscrita à aldeia, mas as noções de pertença que operam a nível político são mais alargadas – Moçambique é um país com fronteiras definidas (ainda que artificialmente, sem que tenham sido valorizadas coerências linguísticas ou culturais) e é dentro dessa conceção de país que vai decorrer a guerra civil, entre forças que procuram apropriar-se do poder do Estado. Para os habitantes de Mananga, o seu país era a sua aldeia. A guerra vai obrigá-los a descobrir uma realidade muito mais ampla.

A escrita e o feminino

A autora vai recorrer a uma personagem feminina para dar conta dos sofrimentos impostos pela guerra e pela opressão resultante da luta pelo poder entre os homens. 

“O tribunal estreou-se com o julgamento das mulheres. Quer as velhas quer as jovens sofreram um julgamento dramático. Havia argumentos de sobra: a mulher é a causa de todos os males do mundo; é do seu ventre que nascem os feiticeiros, as prostitutas. É por elas que os homens perdem a razão. É o sangue impuro por elas espalhado que faz fugir as nuvens aumentando a fúria do sol. Os juízes instigados pelos homens do Sianga flagelam impiedosos as mulheres desprotegidas”. (p. 97).

É de notar como os papeis de género vão ser abordados também noutras circunstâncias narrativas, refletindo sobre a associação do feminino à fraqueza e àquilo que se deve reprimir e controlar. Quando a aldeia é atacada, o chefe da aldeia (representante governamental) reage com emoção perante a devastação que observa. Chiziane escreve: “As lágrimas do chefe são de amargura, de solidariedade, as mulheres fazem coro e choram com ele. O povo sente-se reconfortado mas inseguro. Se o mais alto chora, quem nos dará a coragem?” (p.130). As mulheres choram com ele, porque é a elas que é permitido e a quem compete chorar. A demonstração de vulnerabilidade é recebida com uma dualidade de sentimentos, “o povo sente-se reconfortado mas inseguro”, o papel de liderança não combina com a demonstração de humanidade por parte do chefe; ao mesmo tempo que o povo é vítima da extrema violência da milícia – manifestação de uma masculinidade deturpada – continua a exigir ao líder que não se associe com o que é tido como do foro feminino – a vulnerabilidade e a emoção.

Uma outra expressão do feminino que surge na obra é a do feminino selvagem: a mulher louca (de sofrimento), na figura de Minosse, depois de escapar ao êxodo e à doença, e a mulher louca (de paixão e ambição), em Emelina, a mulher que a enfermeira encontra nas últimas páginas do livro. Esta última faz eco de Massupai, a personagem que surge no prólogo, estando ambas dispostas a sacrificar tudo e todos em nome da paixão por um homem poderoso.

“Levanta a capulana rota, curva a coluna vertebral deixando o traseiro nu e mostra o cu aos quatro cantos do mundo como forma de insultar o marido onde quer que esteja e expulsá-lo definitivamente dos sonhos.” p. (223).

Na viagem pela loucura, Minosse trilha também um caminho de regeneração – a loucura da mulher é expressão de um movimento interno face à repressão que sofreu nas mãos do marido, muito antes de que o sofrimento partilhado da guerra atingisse Mananga: 

A mestria da escritora consiste em apresentar todas estas variações de personagens femininas, dando-lhes espaço para serem, não boas ou más mulheres, mas mulheres, muitas delas sobreviventes, e produto das suas circunstâncias.

Ventos do Apocalipse data de 1993, mas apresenta-se desoladamente relevante no panorama internacional de 2019. “A guerra é a guerra” e vem contagiando territórios mundo afora – recentemente o Iraque e a Síria, e paira agora a sombra da ameaça sobre a região do Irão. 

Paulina Chiziane, a partir dos eventos em Moçambique, conta-nos tudo o que precisamos de saber: a guerra é injustificável perante a história; a guerra assenta e corrói o corpo dos mais frágeis; a guerra apenas responde às ambições dos poderosos. 

Num mundo tão cheio de guerras presentes e passadas esperar-se-ia que as lições fossem mais bem aprendidas. Se estamos presos nessa roda de sofrimento, como parece defender Chiziane, resta-nos agradecer à literatura, que em esforços de memória como este, não permite que nos escudemos no conforto do esquecimento.

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