A questão feminina na literatura do fim do século XIX e início do século XX [Parte 1]

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Sibilla Aleramo (14-08-1876, 13-01-1960, Itália)

A mulher na literatura do séc. XIX

Neste período da literatura encontramos obras que, talvez sem intenção, colocaram a sociedade a discutir as reivindicações que as mulheres e as “primeiras” feministas faziam na época; o direito ao voto, o direito a casar ou não casar com quem escolhessem, o direito a uma profissão… A questão feminina era um tema de actualidade e ficou reflectido na literatura da época. Os escritores,  quase todos homens, expressaram os seus pontos de vista em ensaios e romances.

A literatura da segunda metade do século XIX procurou retratar o que acontecia na sociedade por isso,  não podia ficar alheia a questão feminina. Podemos encontrar-la retratada com alguma constância na literatura realista e naturalista. O que mais interesse me suscita nestas obras, onde os direitos da mulher aparecem como pano de fundo ou como argumento central, é a escolha do autor (algumas vezes escritoras) dos argumentos no discurso das personagens e principalmente os comentários e reflexões dos narradores omniscientes.

Nas próximas semanas vou reflectir sobre diferentes pontos desta “questão feminina” na literatura do século XIX e início do século XX, acompanham-me?!?!

A questão feminina na literatura do fim do século XIX e início do século XX: A violência contra a mulher

A violência exercida contra a mulher,  não aparece muito na literatura da época,  ou pelo menos não de forma escancarada, o que nos pode levar a pensar que era tabu, que era escondida e camuflada. Os jornais da época faziam eco apenas dos casos que consideravam “extremos”, os assassinatos (toda a violência é extrema e igualmente grave e injustificável). Tinham por costume etiqueta-los como crimes passionais. Apesar das tentativas da sociedade em camuflar (justificar e naturalizar) a violência contra a mulher encontramos algumas obra que a descrevem e a deixam a  nu, como em Crime And Punishment (Crime e Castigo). Neste romance podemos encontrar  a integridade física da mulher como direito fundamental. Raskólnikov, um homem repugnante, um assediador e agressor que se defende de quem o acusa de ter batido na mulher até mata-la. Facto que nega recorrendo ao cinismo (talvez uma característica do discurso da época).


Outro romance, neste caso autobiográfico, onde podemos ver a crueza da violência contra a mulher é na obra Uma Mulher (Una Donna) da escritora Sibilla Alleramo. A forma como a violência é descrita nesta obra impactou-me pela crueza, sinceridade e actualidade, nela vemos como estes crimes não têm nada de passionais. Não há amor na violência. No romance de Alleramo descobrimos uma jovem esposa de 20 anos de idade, 2 anos de casamento e um bebé de poucos meses. Um marido igualmente jovem que trabalha para o pai dela e com o qual apenas namoriscou. A jovem esposa é culta e inteligente qualidades que o marido não suporta; a superioridade intelectual levam-no a trata-la com desprezo, assedia-la com cenas de ciúmes descabidas até lhe fazer a vida impossível e coloca-la à beira do suicídio.

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Outra obra onde podemos ver e reflectir sobre a crueza da violência contra a mulher é na The Kreutzer Sonata and Other Stories (A Sonata a Kreutzer) este romance relata o assassinato de uma mulher pelo marido. Tolstoy escrutina a consciência do assassino que apunhala a esposa.  Vemos como a personagem vestida de raiva e ciúme é completamente consciente dos seus actos e por isso responsável pelo seu acto grotesco.  Desta forma podemos ver como o autor descola o assassinato de uma mulher daquilo que os jornais e a crítica social teimavam (e ainda teima) em etiquetar de crime passional e o situa na sua verdadeira dimensão: crime violento.

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Através destas três obras, entre outras, podemos observar a moral que recai sobre a mulher pelo facto de ser mulher, ver como opera a violência misógina quando o esposo/amante/ex-amante assassina a companheira e como a resposta social, política e judicial está carregada de silêncios, justificações e/ou passividade perpetuando assim um sistema patriarcal. Vemos como os silêncios e naturalizações da violência contra a mulher são um sinal de que há muitos interesses na(s)  realidade(s) que conduzem a estás dramáticas consequências.

A literatura também nos aproxima e nos faz reflectir sobre a igualdade e a convivência amparada pelos direitos humanos.  Os livros e as suas histórias podem ser corredores que percorremos para situar a sociedade na verdade e deslocar assim a mentira e os seus argumentos ardilosos, que nos têm impedido avançar pelo caminho da igualdade e do respeito pelos direitos humanos.

Dostoiévski, Alleramo e Tolstoy expõe nestes três romances os privilégios históricos dos quais os homens sempre foram os principais (e quase sempre únicos) beneficiários, e assim manter a autoridade das suas relações, até ao ponto de normalizar e invisibilizar a violência contra a mulher e fazer-nos acreditar que o feminicídio se produz de forma natural ou por amor ou por ciúmes ou sobre a influência de alguma substância ou por um transtorno mental mas raramente porque a sociedade está estruturada num sistema patriarcal carregado de preceitos misóginos.

Brevemente parte 2

texto escrito por

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E tu atreves-te a viajar para outros tempos e lugares?!!?

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Dizem que a literatura de viagem começou com o primeiro diário de Cristóvão Colombo, quando nos apresentava o “novo mundo”. Depois as explorações de novas civilizações exóticas foram um “boom” e pensamos em Stevenson… viajamos a lugares distantes através dos olhos destes viajantes e descobrimos novas sensações através das palavras.

Mas há outras paragens, outras sensações, outras palavras que precisam ser resgatadas, o mundo deve ser visto e lido por todos os olhos: pelos olhos dos viajantes e das viajantes. As mulheres viajantes estiveram em lugares extraordinários que podemos descobrir através das palavras de Sónia Serrano e de Pilar Tejera.

Hoje não nos parece estranho que uma mulher embarque na aventura de viajar, mochila nas costas, ou arrastando uma moderna trolley, de um lado para o outro do mundo. Aviões, comboios, barcos, que encurtam a cada dia mais um pouco as distancias de um mundo que é cada vez mais fácil de explorar. Mas se imaginarmos essas mesmas mulheres sozinhas, com as suas roupagens femininas do século XIX ou XVIII, por exemplo, as coisas ficam bem diferentes.

Como viajavam? Que dificuldades encontravam? Que motivos as empurrava a empreender as suas aventuras?

Na história sempre existiram mulheres aventureiras, com muita vontade de conhecer o mundo, que não optaram simplesmente por uma vida extravagante para o seu tempo mas sim romperam com estereótipos da mulher dentro do lar. Elas queriam conhecer novos lugares, novas pessoas, novos costumes… Para muitas destas mulheres era muito mais do que uma aventura, era tomar a rédeas das suas vidas.

Sónia Serrano (Mulheres Viajantes) e Pilar Tejera (Viajeras de leyenda) são duas autoras que se deixaram levar pela curiosidade da investigação e nos presenteiam com dois fantásticos livros. Em cada um dos livros não só descobrimos lugares fantásticos mas principalmente histórias de mulheres (reais) que conviveram com canibais, que viveram na selva, conheceram marajás, atravessaram desertos, dormiram debaixo das estrelas…

e tu atreves-te a viajar para outros tempos e lugares?!!?

Viajeras de leyenda de Pilar Tejera

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10 perguntas a Raquel Gaspar Silva

Raquel Gaspar Silva nasceu em 1981, em Évora. Licenciou-se em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estudou Criatividade Publicitária na Restart. Fábrica de Melancolias Suportáveis é o seu primeiro romance, um romance cuja ação decorre no Alentejo, marcado por um registo muito português. Talvez foi o que mais gostei neste livro, as tradições portuguesas como pano de fundo, os provérbios e rituais, os “dizeres”  como linha da verdade para alguns dos personagens.

Carlota é o nome da protagonista. É a história da própria Carlota contada através das imagens que guarda dos outros o que encontramos neste Fábrica de Melancolias Suportáveis, uma leitura quase visual.

Raquel Gaspar Silva uma nova voz na literatura portuguesa que podes também conhecer através do projeto de poesia, #domesticliteraturemovement, onde publica com o pseudónimo rawquel.

Escrever é a minha vocação.

Houve um dia no qual decidiste ser escritora?
Houve um dia em que o meu editor, depois de muito trabalho conjunto, me perguntou: “Vamos fazer um livro Elsinore?”.

O que é ser escritora?
Eu distingo o estatuto do acto de escrever. Escrever é a minha vocação. O estatuto é a condição que advém de fazer da escrita a minha actividade profissional.

O facto de seres mulher influência o ofício de escrever?
Sim. Escrevi este primeiro romance enquanto mãe a tempo inteiro e dona de casa. Encontrei o meu ritmo entre mudas de fraldas e preparar refeições, e outras tarefas inerentes a esta responsabilidade. Optei por ficar em casa com a minha filha em vez de trabalhar. E é nesta escolha que fiz, que reside o preconceito, porque a sociedade vê aqui um luxo. E devia ser um direito, acessível a todos. Há depois a questão da condição feminina, que sempre me interessou e perante a qual me posiociono do lado da luta pela igualdade.

Porquê escrever?
Costumo dizer: para arrumar fantasmas. Mas para simplificar, funciona como uma necessidade e um dever. Quando te surge a ideia de um livro, escreves. Se erras, assumes. É uma consequência da tua determinação, evitas o arrependimento (os tais fantasmas) de nunca o teres feito. Ou pelo menos tentado.

Quem te inspira, quem admiras?
Admiro valores, talento e trabalho árduo.
Enquanto leitora, tenho as minhas preferências:
Clarice Lispector, Anne Sexton, Nabokov… não acaba mas foram os primeiros nomes que surgiram.

Tens algum ritual ou mania antes, durante ou depois de escrever?
Escrevo mais fluidamente e com melhores resultados de manhã, bem cedo, de preferência quando tudo dorme ainda. Tiro muitas notas, tenho vários cadernos e folhas soltas onde anoto frases ou palavras.

Planificas a estrutura do livro, como surgiu a ideia de a Fábrica de Melancolias Suportáveis?
Fábrica de Melancolias Suportáveis é um depósito de memórias sentimentais. Contei uma história que já conhecia. Ficcionei uma história que conhecia. Depois de muito trabalho conjunto de edição, que inclui reescrever, selecionar, acrescentar, organizar e aperfeiçoar, surge o livro. Sei que o método será diferente no próximo romance.

Hoje escreveste?
Sim. Um mini guia de viagem. Uma lista de afazeres. Um esboço de algo que estou a preparar. Como já são 9.30 da manhã, retomo amanhã.

O que achas que vamos ouvir dizer de Raquel Gaspar Silva daqui a 10 ou 20 anos?
Espero continuar a escrever, o que dirão não consigo prever.

O que estás a ler neste momento?
Herta Muller, Hoje preferia não me ter encontrado.

 

 

Texto escrito por

 

Agora ando entre 2, mas é a primeira vez.

Hábitos de Leitura

Tens algum lugar específico para ler em tua casa?

Não

Utilizas marcador de livros ou um papel ao azar?

Se uso alguma coisa é um papel ao azar.

Podes parar a leitura ou tens que parar em momentos concretos como o fim de um capítulo ou um número determinado de páginas?

Posso parar.

Comes ou bebes durante a leitura?

Não é habitual.

Vês televisão ou ouves musica durante a leitura?

Não.

Um livro de cada vez ou vários ao mesmo tempo?

Agora ando entre 2, mas é a primeira vez.

Ler em casa ou em qualquer lugar?

Casa ou num sítio mesmo calmo.

Ler em voz alta ou na tua cabeça?

Na minha cabeça.

Alguma vez lês páginas posteriores ou saltas algumas?

Não.

Vincar a lombada ou deixar o livro como novo?

Livros lidos não podem parecer novos.

Escreves ou sublinhas os livros que lês?

As vezes sublinho.

Filipa Vargas tatuadora e  leitora desde os 8 anos de idade.
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Obrigada, Rosa. 

foto de Helena Almeida

“E pensei: se tu soubesses a quantidade de vidas diferentes que pode haver numa só vida…”

A louca da casa, Rosa Montero

Gratidão
Pois os livros são como varinhas mágicas
E, aqui, sinto-me enfeitiçada.

Foi este o sentimento que emergiu ainda nos primeiros capítulos de “A louca da casa”. Um verdadeiro presente. Mal poderia imaginar tudo o que caberia lá dentro. Rosa Montero não apenas nos convida à louca da casa que mora dentro de nós, em outras palavras, à nossa imaginação. Mas, também, questiona o “simples” categorizar de um livro ao misturar os limites de romance, ensaio, real e fantasia.

Precisava lê-lo de novo e de novo. Rabiscá-lo, grifá-lo, vivê-lo.

Na busca de não estender demasiado a minha prateleira de livros, havia alugado “A louca da casa” na Biblioteca Municipal Almeida Garrett da cidade do Porto. Pareceu-me uma decisão acertada na altura. No entanto, com o passar das páginas, e após a discussão do clube de leitura das Pandoras em maio, não tive dúvidas: precisava de um espaço só para ele na prateleira. Precisava lê-lo de novo e de novo.
Rabiscá-lo, grifá-lo, vivê-lo.

“E pensei: se tu soubesses a quantidade de vidas diferentes que pode haver numa só vida…”

O feitiço das palavras ali colocadas com tamanha precisão (na falta de melhor explicação) faz de cada frase um portal para a loucura em si. Ainda mais poderoso se lido pelas mãos de um escritor.

Portanto: Obrigada, Rosa.

Essa não sou eu…

Essa, só, não sou eu!

Adentra-me, assim sem muita explicação ou pedidos de licença, um ímpeto. Ímpeto ao que, perguntas. À vida. À esperança de uma infância futura. Que persista embora inexistente se contares apenas os anos. A verdade é que transcende os anos. Desde que…

Não escrevia há muito. Há muito me questionava, complicava. O peso das palavras recaíam como a enormidade do concreto. Uma a uma deixando a leveza da mente para adentrar a sedimentada realidade.

Já permito a contestação: Podem ser igualmente reais as palavras desenhadas apenas entre um neurônio e o próximo?

A realidade parece matar. Mata-nos aos poucos na vida-a-vida tão bem escrita por Clarice. Mas não seria vida-a-morte? Mesmo se nossa crença incluir um retorno, ainda precisamos da morte. Sem ela, como haver romance?

Sem fim não há como distinguir a palavra que traz o ímpeto inicial.
Na letargia do nada, como explicar o súbito impulso à vida? É como desafogar-se.

Consigo respirar agora com mais pausa e menos ânsia por extrair-me cada palavra. Sei que posso mais. Que sou mais.

Não há palavras (por mais perfeitamente ordenadas) que reduzam a vida.

nota: este texto cumpre a grafia do português no Brasil

A comunidade é o aconchego e a forma e é também a mão que asfixia.

“Não sou um campo. Sou um campo, como? Plano. Molhado. Preto de Chuva. Não sou um campo.”

                                 Facas nas galinhas, David Harrower 

 

Inabitado, inculto, terreno inabitado. Despovoada, estéril. Ventre sáfaro, diz Saramago de Blimunda.

Foto: Birgit Jürgenssen. Nest, 1979. Black and white photograph. 17.8 x 24 cm.

Em Maio de 2017, Fátima marcou a expressão mediática em Portugal. O nome Fátima vem do persa Fatimat, do árabe Faatima e quer dizer “mulher que desmama seus filhos”. No meio de “El cielo oblícuo”, de Belén García Abia e de “After Birth”, de Elisa Albert, com paragem ainda para uma releitura de “Yerma”, de Federico García Lorca, todo o fenómeno de Fátima se enredava na leitura das (não) maternidades.

Vários livros que marcaram no meus vintes foram escritos por escritores homens sobre personagens mulheres. Não propriamente sobre mulheres mas sobre versões mitificadas do ser mulher. “Yerma” é um deles. Um dos melhores. A maternidade está crivada na noção de mulher. Nesta cultura ibérica, de formatação católica, crescer mulher é navegar entre referências mitificadas, mais ou menos localizadas. Fátima está a 200 quilómetros do Porto. A ruralidade andaluza de “Yerma” é transfronteiriça e infiltra-se no solo, mesmo que seco, mesmo que baldio.

Passei muito tempo com a minha avó materna, ainda antes de entrar para a escola, e o Avé Maria da rádio ficou a ecoar nas memórias de tardes no quintal, a arranjar com o que me entreter. A comunidade é o aconchego e a forma e é também a mão que asfixia.

Tanto Maria como Yerma são mães extremas, mães platónicas. A fertilidade toma formas estranhas . Yerma deseja. Yerma mata. Também em “A Morte da mãe”, de Isabel Barreno, mães e mulheres, corpos surgem em catadupa, no caos a que está sujeita a criação original. O equilíbrio é frágil entre os arquétipos e a agência, que nos sobra. Não me parece que seja inteligente fechar os olhos a estruturas ancestrais, muito menos será ficar delas refém.

Disponível na biblioteca da Confraria Vermelha

Fátima é pagã, é gente a ser instinto e é também a manipulação sacramentada dessa ideia suja e animalesca de procriação – procriar sim mas sem sexo, sem sangue, e, depois, ser mãe, isto é, viver e sofrer 33 anos por um filho. E vê-lo morrer.

Em espírito, logo indefinidamente, ser mãe do mundo e conceder benesses a quem reza muito e se mortifica mais. Uma mãe eternamente ouvinte, eventualmente intermediária – o seu papel é interceder, não tem a decisão final nas mãos. A figura de Maria é uma criação cuidadosamente lunática e, talvez por isso, pega como fogo. Um fogo alvo e puro, já sabemos, sem características humanas que o possam corromper.

«Lo tendré porque lo tengo que tener. O no entiendo el mundo. A veces, cuando ya estoy segura de que jamás, jamás…, me sube como una oleada de fuego por los pies y se me quedan vacías todas las cosas, y los hombres que andan por la calle y los toros y las piedras me parecen como cosas de algodón. Y me pregunto: ¿para qué estarán ahí puestos?»

Yerma, presa à terra, pensa que morre por dentro. Yerma é a mais vivas das mulheres.

“El cielo oblícuo”, de Belén García Abia“Yerma”, de Federico García Lorca e “After Birth”, de Elisa Albert estão disponíveis na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente, um desconto 10% Código: nãomaternidades

Explicar o mundo desde outra perspectiva

De Olhos Pousados em Deus lido no século XXI não pode ser considerado um livro feminista na sua essência. Nas suas páginas Zora Neale Hurston apresenta-nos o grande amor de Janie, a protagonista, um homem bom mas que num dos capítulos a esbofeteia-a para demonstrar quem manda em casa, o incidente é narrado sem maior importância. Contudo, De Olhos Pousados em Deus lido em 1937, ano no qual foi publicado, deve ter sido toda uma revolução. Hurtson cometeu um acto revolucionário com o mero facto de escrever um romance e centrar a sua história numa mulher afroamericana como ela, separada da escravidão por apenas duas gerações e que termina revelando-se contra uma sociedade que a julga constantemente.

“gente feia de ignorância e atravessada pela pobreza.”

A vida de Janie é narrada através das relações com os diferentes homens da sua vida. Obrigada a casar aos 16 anos foge desse casamento e do primeiro marido por amor mas vemos como a sua personalidade rebelde é domesticada pelo segundo marido. A morte dele supõe para ela uma libertação e assim surge uma mulher que vence o medo imposto (herdado) pela avó de ficar sozinha, sem a protecção de um homem e assim, libertar-se de uma sociedade patriarcal que a prende sem correntes.

A sociedade que julga a Janie é completamente negra. As personagens brancas ficam na margem e não aparecem na história mas sim mencionadas como terceiras pessoas em relação com as personagens afroamericanas. Contudo, o racismo é um tema presente neste romance de Hurston, especialmente evidente na personagem da senhora Turner, uma mulher afroamericana de pele mais clara e que despreza os seus vizinhos pelo tom da sua pele e tenta convencer a Janie de que existem graus na escala da identidade negra.

O romance De Olhos Pousados em Deus é principalmente um reflexo da luta quotidiana de uma mulher nos Estados Unido no fim do século XIX e princípios do século XX. E o mais importante, é narrado desde uma perspectiva própria e quase sempre silenciada na história estadounidense, a das mulheres afroamericanas. Esta é uma das razões pelas quais a história de Janie e tão relevante na literatura escrita por mulheres porque a valentia e a criatividade de Zora Neale Hurston nascem da necessidade de explicar o mundo desde outra perspectiva.

“De Olhos Pousados em Deus”  está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente, um desconto 5%  e portes gratuitos ♥