10 perguntas a Elisabeth Oliveira

Na próxima sexta-feira,  a Confraria Vermelha e a Livraria Poetria juntam-se para a apresentação de Poesis, da poeta galega Elisabeth Oliveira.

Aproveitei que vamos recebe-la no “nosso quarto próprio” para conversar um pouco com ela e conhecer melhor a sua escrita.

 

Ler e escrever salvaram-me a vida na adolescência.

Houve um dia no qual decidiste ser escritora?

Eu ainda não sei bem se sou escritora, se sou poeta, ou uma mulher que um dia decidiu levar os seus poemas a mais gente depois de descobrir que quem me ouvia tinha interesse em ouvir mais e ler o que eu escrevia. Só o tempo dirá…

Escrevo desde os catorze anos, sobre tudo poesia (mas tenho vários inícios de romances na gaveta e alguns contos). Ao princípio, como para muitas e muitos poetas foi por uma necessidade catártica, depois porque sentia que tinha coisas importantes para contar, por jogar com o sabor das palavras também. Lembro bem o desânimo que me invadiu ao ler os poetas franceses do século XIX, pensando que nunca poderia chegar a tal qualidade, mas houve uma poeta portuguesa que me tirou esses complexos da cabeça: Florbela Espanca, que descobri aos quinze anos, mostrou-me que se pode falar com simpleza de coisas profundas, que se pode até chegar a mais gente. E graças a ela, comecei a escrever em português, até esse momento só o fazia em francês. Acho que decidi que gostaria ser escritora com ela, aos quinze anos.

O que é ser escritora?

Ë basicamente escrever e publicar livros, não?

Mais além desta evidência, estou convencida que não é só isso, que se é escritora, e mais ainda poeta, no dia-a-dia. Acho que a escritora, como qualquer artista, filósofa, ou jornalista, é sempre, a cada instante, escritora. Tem um olhar particular sobre o mundo, crítico, e a partir do que observa e passa pela sua percepção do mundo, construí um universo no que também vêm a ter vida situações e personagens. Isto não se dá simplesmente por um golpe repentino de inspiração, nem tem a ver com o talento (o talento vai dar mais valor ou menos valor literário ou artístico mas não define o artista), é uma soma de observação, filtros, reflexão, imaginação… Vem também acrescentar-se a isto tudo um trabalho diário de leitura e escritura.

Hoje, escrevo para denunciar, ou reinventar o mundo, também para dar esperança na possibilidade do cambio, às vezes só para imortalizar algo ou pela beleza das palavras.

 O facto de seres mulher influência o oficio de escrever?

Seria impossível negar esse facto. O género em si não é o que condiciona na maior parte a escrita, mas a vida que leva uma mulher faz com que escrever seja, do meu ponto de vista, mais difícil. E isto por simples questões práticas: sou mulher, mãe, professora… isto ocupa quase todo o meu tempo, pois a sociedade pede de mim tarefas que ainda não se exigem aos homens —muitos escritores têm detrás uma mulher para liberá-lo de outras ocupações—; cuidar da casa, das filhas, não descuidar a minha profissão, são impedimentos para poder escrever mais. Mas existe outras questões, ser mulher influência a minha forma de ver o mundo e também exige de mim falar precisamente da mulher, das desigualdades, das injustiças por motivos de género, das dificuldades de sermos mesmo tomadas com a mesma seriedade que os escritores masculinos (ainda persiste a ideia de que há uma literatura de e para mulheres, com uma conotação pejorativo de facto). Isto nota-se na minha escrita, e vai-se notar mais ainda na próxima obra que está quase pronta.

 Porquê escrever?

Escrever foi no princípio, como já disse, uma necessidade vital. Ler e escrever salvaram-me a vida na adolescência. Descobri que havia por onde escapar à realidade. Escrevia para inventar-me um mundo onde respirar livre. Hoje, escrevo para denunciar, ou reinventar o mundo, também para dar esperança na possibilidade do cambio, às vezes só para imortalizar algo ou pela beleza das          palavras. Duas coisas hão-de salvar a humanidade: o amor e a beleza, e isso, penso eu, começa nas artes. Mas não é que a arte em si salve, o que faz é que leva o ser a pensar, e pensar é a porta a agir. Não concebo a escritura isolada da sociedade, ao contrário, escrevo para mudar, na medida do possível, o mundo.

Também escrevemos para compreender, há coisas que só escrevendo, ou lendo, sou capaz de entender, a multiplicidade do ser humano por exemplo, na vida real não consigo entender muitas coisas que porém nas leituras consigo entrever.

Quem te inspira, quem admiras?

Há muitas pessoas à minha volta que admiro e que me inspiram. São na maioria mulheres que pela sua luta diária e anónima fazem com que o mundo e a condição das mulheres sejam melhores. São activistas, escritoras, políticas, artistas, mães de família que educam na igualdade, jovens que organizam grupos de apoio…

Na literatura admiro muito Sofia de Mello Breyner, Simone De Beauvoir, as galegas Fina Casaderrey,Yolanda Castaño, Eli Ríos e uma lista longa de escritoras galegas que fui conhecendo desde a publicação do meu livro e que, como pode ver, não foram ou são só escritoras mas também activistas.

E alguns homens também cujas ideias e actos são exemplos para todas e todos nós: José Luis Sampedro, José Saramago, Joan Manuel Serrat, José Afonso e mais perto, o escritor galego Francisco Castro (um dos escritores galegos mais lido por mulheres), em todos os âmbitos encontro gente que me inspira. Mas no que diz respeito à minha escrita poética, sei que tenho recebido muita influência de autoras e autores de canções, tanto franceses, portugueses, espanhóis ou galegos.

Tens algum ritual ou mania antes, durante ou depois de escrever?

Acho que não. Salvo o de comprar um caderno e uma caneta nova quando começo um projecto, ainda que este hábito está a ser substituído desde há uns anos por escrever cada vez mais directamente no computador. Só fica o hábito de escrever com uma chávena de café ao lado ou um copo de vinho, segundo o momento do dia.

Planificas a estrutura do livro,como surgiu a ideia de a Poesis?

POESIS nasceu como uma recompilação de vários anos de poesia. E é precisamente por isso que está em quatro línguas e com um disco de canções feitas a partir dos poemas por grandes compositores que eu conheci há relativamente poucos anos. Esta colectânea não seria a que é se a publicasse há cinco anos atrás. Foi quase de repente, ao passar os meus poemas ao computador que me surgiu a necessidade de publicá-los. Então, tive de fazer uma trabalho de estruturação, tradução e correcção, mas foi depois de os ter escrito. No segundo livro de poemas, que espero ver publicado no próximo ano, sim que houve planificação, porque é um livro sobre um tema particular. Aí tive de trabalhar com um plano de progressão que não existiu em POESIS.

No caso dos romances ou dos contos, e estou neste momento num projecto de romance, sim que preciso de planificar a história, as personagens, estruturar o que vou contar.

Hoje escreveste?

Hoje ainda não por ser ainda cedo… Mas escrevo todos os dias, ou corrijo o que tenho escrito. Isso é o que estou a fazer estas últimas semanas: corrigir o poemário do que falava acima.

O que achas que vamos ouvir dizer de Elisabeth Oliveira daqui a 10 ou 20 anos?

Não sei o que se dirá de mim em dez anos ou vinte anos mas espero estar aqui para descobri-lo. O que eu gostava de ouvir dizer é que a minha escrita serviu para algo, para alguém.

O que estás a ler neste momento

Estou a ler obras de duas escritoras galegas: Un cesto de mazás de Montse Fajardo que fala de vítimas galegas durante a Guerra Civil espanhola e Na casa da avoa, um poemário de Marta Dacosta. Vou alternando os dois.

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Foto de Confraria Vermelha Livraria de Mulheres.

No próximo dia 27 de Outubro convidamos a todas as pessoas para a apresentação do livro Poesis de Elisabeth Oliveira,

‘Poesis’ é um livro-cd que recolle 160 poemas escritos entre 1990 e 2014. Podemos encontrar estes poema em quatro lìnguas (galego, português, francês e castelão); poemas que se transformam em canções com a colaboração de Manoele de Felisa, Gustavo Almeida, Cédric Lezais e Luis Quintana.

O livro conta com o prólogo da escritora Fina Casalderrey e a capa está Ilustrada com a obra de Antón Sobral ‘Horizonte XXIV’.

Na apresentação vamos ter a presença de Elisabeth Oliveira e dos músicosManoele de Felisa e Cédric Lezais que colaboram na obra.

A Livraria Confraria Vermelha e a Livraria Poetria têm o prazer de convidar-vos a este concerto-recital e a apresentação do livro-CD.

Este evento conta com o parceria da Livraria Poetria.

 

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Ainda vais a tempo de te inscreveres!

Ler em Português — formação em diálogo

Vamos questionar, ao longo de quatro sessões, a singularidade da literatura portuguesa na abordagem que faz ao tempo, ao corpo, aos espaços, à vida interior e a à vida exterior.

Vamos dialogar sobre narrativas, a sua construção, a sua fragmentação e a sua renovação.

Não será pedido às participantes que leiam os livros por mim escolhidos. No entanto, será pedido que no final apresentem um livro à sua escolha.

Vamos partilhar leituras.

14 de outubro
formação: Apresentação de uma narrativa portuguesa possível.

4 de novembro
formação + diálogo: Ema de Maria Teresa Horta e a narrativa interior.

25 de novembro
formação + diálogo: Lillias Fraser de Hélia Correia e a narrativa exterior.

16 de dezembro:
diálogo: Apresentação e cruzamento de múltiplas narrativas — pelas participantes.

.horário.

15h-17h

.inscrições.

inscrição até final de Setembro: 35€
sócias de vida: 30€

Inscrição a partir de outubro: 40€
sócias de vida: 35€

2 vagas gratuitas
VAGAS LIMITADAS
inscrições → livrariaconfraria@gmail.com

.orientação.

Diana Fontão, dinamizadora do Clube de Leitura As Leitoras de Pandora, gosta de livros, gatos e abacates. Quer visitar todos os castelos do país. E acredita na literatura antes de todas as coisas.

A questão feminina na literatura do fim do século XIX e início do século XX [Parte 1]

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Sibilla Aleramo (14-08-1876, 13-01-1960, Itália)

A mulher na literatura do séc. XIX

Neste período da literatura encontramos obras que, talvez sem intenção, colocaram a sociedade a discutir as reivindicações que as mulheres e as “primeiras” feministas faziam na época; o direito ao voto, o direito a casar ou não casar com quem escolhessem, o direito a uma profissão… A questão feminina era um tema de actualidade e ficou reflectido na literatura da época. Os escritores,  quase todos homens, expressaram os seus pontos de vista em ensaios e romances.

A literatura da segunda metade do século XIX procurou retratar o que acontecia na sociedade por isso,  não podia ficar alheia a questão feminina. Podemos encontrar-la retratada com alguma constância na literatura realista e naturalista. O que mais interesse me suscita nestas obras, onde os direitos da mulher aparecem como pano de fundo ou como argumento central, é a escolha do autor (algumas vezes escritoras) dos argumentos no discurso das personagens e principalmente os comentários e reflexões dos narradores omniscientes.

Nas próximas semanas vou reflectir sobre diferentes pontos desta “questão feminina” na literatura do século XIX e início do século XX, acompanham-me?!?!

A questão feminina na literatura do fim do século XIX e início do século XX: A violência contra a mulher

A violência exercida contra a mulher,  não aparece muito na literatura da época,  ou pelo menos não de forma escancarada, o que nos pode levar a pensar que era tabu, que era escondida e camuflada. Os jornais da época faziam eco apenas dos casos que consideravam “extremos”, os assassinatos (toda a violência é extrema e igualmente grave e injustificável). Tinham por costume etiqueta-los como crimes passionais. Apesar das tentativas da sociedade em camuflar (justificar e naturalizar) a violência contra a mulher encontramos algumas obra que a descrevem e a deixam a  nu, como em Crime And Punishment (Crime e Castigo). Neste romance podemos encontrar  a integridade física da mulher como direito fundamental. Raskólnikov, um homem repugnante, um assediador e agressor que se defende de quem o acusa de ter batido na mulher até mata-la. Facto que nega recorrendo ao cinismo (talvez uma característica do discurso da época).


Outro romance, neste caso autobiográfico, onde podemos ver a crueza da violência contra a mulher é na obra Uma Mulher (Una Donna) da escritora Sibilla Alleramo. A forma como a violência é descrita nesta obra impactou-me pela crueza, sinceridade e actualidade, nela vemos como estes crimes não têm nada de passionais. Não há amor na violência. No romance de Alleramo descobrimos uma jovem esposa de 20 anos de idade, 2 anos de casamento e um bebé de poucos meses. Um marido igualmente jovem que trabalha para o pai dela e com o qual apenas namoriscou. A jovem esposa é culta e inteligente qualidades que o marido não suporta; a superioridade intelectual levam-no a trata-la com desprezo, assedia-la com cenas de ciúmes descabidas até lhe fazer a vida impossível e coloca-la à beira do suicídio.

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Outra obra onde podemos ver e reflectir sobre a crueza da violência contra a mulher é na The Kreutzer Sonata and Other Stories (A Sonata a Kreutzer) este romance relata o assassinato de uma mulher pelo marido. Tolstoy escrutina a consciência do assassino que apunhala a esposa.  Vemos como a personagem vestida de raiva e ciúme é completamente consciente dos seus actos e por isso responsável pelo seu acto grotesco.  Desta forma podemos ver como o autor descola o assassinato de uma mulher daquilo que os jornais e a crítica social teimavam (e ainda teima) em etiquetar de crime passional e o situa na sua verdadeira dimensão: crime violento.

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Através destas três obras, entre outras, podemos observar a moral que recai sobre a mulher pelo facto de ser mulher, ver como opera a violência misógina quando o esposo/amante/ex-amante assassina a companheira e como a resposta social, política e judicial está carregada de silêncios, justificações e/ou passividade perpetuando assim um sistema patriarcal. Vemos como os silêncios e naturalizações da violência contra a mulher são um sinal de que há muitos interesses na(s)  realidade(s) que conduzem a estás dramáticas consequências.

A literatura também nos aproxima e nos faz reflectir sobre a igualdade e a convivência amparada pelos direitos humanos.  Os livros e as suas histórias podem ser corredores que percorremos para situar a sociedade na verdade e deslocar assim a mentira e os seus argumentos ardilosos, que nos têm impedido avançar pelo caminho da igualdade e do respeito pelos direitos humanos.

Dostoiévski, Alleramo e Tolstoy expõe nestes três romances os privilégios históricos dos quais os homens sempre foram os principais (e quase sempre únicos) beneficiários, e assim manter a autoridade das suas relações, até ao ponto de normalizar e invisibilizar a violência contra a mulher e fazer-nos acreditar que o feminicídio se produz de forma natural ou por amor ou por ciúmes ou sobre a influência de alguma substância ou por um transtorno mental mas raramente porque a sociedade está estruturada num sistema patriarcal carregado de preceitos misóginos.

Brevemente parte 2

texto escrito por

 Crime e Castigo, Una Donna, A Sonata a Kreutzer, estão disponíveis na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres caso este texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente, 10% desconto || Código: questãofeminina

E tu atreves-te a viajar para outros tempos e lugares?!!?

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Dizem que a literatura de viagem começou com o primeiro diário de Cristóvão Colombo, quando nos apresentava o “novo mundo”. Depois as explorações de novas civilizações exóticas foram um “boom” e pensamos em Stevenson… viajamos a lugares distantes através dos olhos destes viajantes e descobrimos novas sensações através das palavras.

Mas há outras paragens, outras sensações, outras palavras que precisam ser resgatadas, o mundo deve ser visto e lido por todos os olhos: pelos olhos dos viajantes e das viajantes. As mulheres viajantes estiveram em lugares extraordinários que podemos descobrir através das palavras de Sónia Serrano e de Pilar Tejera.

Hoje não nos parece estranho que uma mulher embarque na aventura de viajar, mochila nas costas, ou arrastando uma moderna trolley, de um lado para o outro do mundo. Aviões, comboios, barcos, que encurtam a cada dia mais um pouco as distancias de um mundo que é cada vez mais fácil de explorar. Mas se imaginarmos essas mesmas mulheres sozinhas, com as suas roupagens femininas do século XIX ou XVIII, por exemplo, as coisas ficam bem diferentes.

Como viajavam? Que dificuldades encontravam? Que motivos as empurrava a empreender as suas aventuras?

Na história sempre existiram mulheres aventureiras, com muita vontade de conhecer o mundo, que não optaram simplesmente por uma vida extravagante para o seu tempo mas sim romperam com estereótipos da mulher dentro do lar. Elas queriam conhecer novos lugares, novas pessoas, novos costumes… Para muitas destas mulheres era muito mais do que uma aventura, era tomar a rédeas das suas vidas.

Sónia Serrano (Mulheres Viajantes) e Pilar Tejera (Viajeras de leyenda) são duas autoras que se deixaram levar pela curiosidade da investigação e nos presenteiam com dois fantásticos livros. Em cada um dos livros não só descobrimos lugares fantásticos mas principalmente histórias de mulheres (reais) que conviveram com canibais, que viveram na selva, conheceram marajás, atravessaram desertos, dormiram debaixo das estrelas…

e tu atreves-te a viajar para outros tempos e lugares?!!?

Viajeras de leyenda de Pilar Tejera

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10 perguntas a Raquel Gaspar Silva

Raquel Gaspar Silva nasceu em 1981, em Évora. Licenciou-se em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Estudou Criatividade Publicitária na Restart. Fábrica de Melancolias Suportáveis é o seu primeiro romance, um romance cuja ação decorre no Alentejo, marcado por um registo muito português. Talvez foi o que mais gostei neste livro, as tradições portuguesas como pano de fundo, os provérbios e rituais, os “dizeres”  como linha da verdade para alguns dos personagens.

Carlota é o nome da protagonista. É a história da própria Carlota contada através das imagens que guarda dos outros o que encontramos neste Fábrica de Melancolias Suportáveis, uma leitura quase visual.

Raquel Gaspar Silva uma nova voz na literatura portuguesa que podes também conhecer através do projeto de poesia, #domesticliteraturemovement, onde publica com o pseudónimo rawquel.

Escrever é a minha vocação.

Houve um dia no qual decidiste ser escritora?
Houve um dia em que o meu editor, depois de muito trabalho conjunto, me perguntou: “Vamos fazer um livro Elsinore?”.

O que é ser escritora?
Eu distingo o estatuto do acto de escrever. Escrever é a minha vocação. O estatuto é a condição que advém de fazer da escrita a minha actividade profissional.

O facto de seres mulher influência o ofício de escrever?
Sim. Escrevi este primeiro romance enquanto mãe a tempo inteiro e dona de casa. Encontrei o meu ritmo entre mudas de fraldas e preparar refeições, e outras tarefas inerentes a esta responsabilidade. Optei por ficar em casa com a minha filha em vez de trabalhar. E é nesta escolha que fiz, que reside o preconceito, porque a sociedade vê aqui um luxo. E devia ser um direito, acessível a todos. Há depois a questão da condição feminina, que sempre me interessou e perante a qual me posiociono do lado da luta pela igualdade.

Porquê escrever?
Costumo dizer: para arrumar fantasmas. Mas para simplificar, funciona como uma necessidade e um dever. Quando te surge a ideia de um livro, escreves. Se erras, assumes. É uma consequência da tua determinação, evitas o arrependimento (os tais fantasmas) de nunca o teres feito. Ou pelo menos tentado.

Quem te inspira, quem admiras?
Admiro valores, talento e trabalho árduo.
Enquanto leitora, tenho as minhas preferências:
Clarice Lispector, Anne Sexton, Nabokov… não acaba mas foram os primeiros nomes que surgiram.

Tens algum ritual ou mania antes, durante ou depois de escrever?
Escrevo mais fluidamente e com melhores resultados de manhã, bem cedo, de preferência quando tudo dorme ainda. Tiro muitas notas, tenho vários cadernos e folhas soltas onde anoto frases ou palavras.

Planificas a estrutura do livro, como surgiu a ideia de a Fábrica de Melancolias Suportáveis?
Fábrica de Melancolias Suportáveis é um depósito de memórias sentimentais. Contei uma história que já conhecia. Ficcionei uma história que conhecia. Depois de muito trabalho conjunto de edição, que inclui reescrever, selecionar, acrescentar, organizar e aperfeiçoar, surge o livro. Sei que o método será diferente no próximo romance.

Hoje escreveste?
Sim. Um mini guia de viagem. Uma lista de afazeres. Um esboço de algo que estou a preparar. Como já são 9.30 da manhã, retomo amanhã.

O que achas que vamos ouvir dizer de Raquel Gaspar Silva daqui a 10 ou 20 anos?
Espero continuar a escrever, o que dirão não consigo prever.

O que estás a ler neste momento?
Herta Muller, Hoje preferia não me ter encontrado.

 

 

Texto escrito por

 

Agora ando entre 2, mas é a primeira vez.

Hábitos de Leitura

Tens algum lugar específico para ler em tua casa?

Não

Utilizas marcador de livros ou um papel ao azar?

Se uso alguma coisa é um papel ao azar.

Podes parar a leitura ou tens que parar em momentos concretos como o fim de um capítulo ou um número determinado de páginas?

Posso parar.

Comes ou bebes durante a leitura?

Não é habitual.

Vês televisão ou ouves musica durante a leitura?

Não.

Um livro de cada vez ou vários ao mesmo tempo?

Agora ando entre 2, mas é a primeira vez.

Ler em casa ou em qualquer lugar?

Casa ou num sítio mesmo calmo.

Ler em voz alta ou na tua cabeça?

Na minha cabeça.

Alguma vez lês páginas posteriores ou saltas algumas?

Não.

Vincar a lombada ou deixar o livro como novo?

Livros lidos não podem parecer novos.

Escreves ou sublinhas os livros que lês?

As vezes sublinho.

Filipa Vargas tatuadora e  leitora desde os 8 anos de idade.
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Obrigada, Rosa. 

foto de Helena Almeida

“E pensei: se tu soubesses a quantidade de vidas diferentes que pode haver numa só vida…”

A louca da casa, Rosa Montero

Gratidão
Pois os livros são como varinhas mágicas
E, aqui, sinto-me enfeitiçada.

Foi este o sentimento que emergiu ainda nos primeiros capítulos de “A louca da casa”. Um verdadeiro presente. Mal poderia imaginar tudo o que caberia lá dentro. Rosa Montero não apenas nos convida à louca da casa que mora dentro de nós, em outras palavras, à nossa imaginação. Mas, também, questiona o “simples” categorizar de um livro ao misturar os limites de romance, ensaio, real e fantasia.

Precisava lê-lo de novo e de novo. Rabiscá-lo, grifá-lo, vivê-lo.

Na busca de não estender demasiado a minha prateleira de livros, havia alugado “A louca da casa” na Biblioteca Municipal Almeida Garrett da cidade do Porto. Pareceu-me uma decisão acertada na altura. No entanto, com o passar das páginas, e após a discussão do clube de leitura das Pandoras em maio, não tive dúvidas: precisava de um espaço só para ele na prateleira. Precisava lê-lo de novo e de novo.
Rabiscá-lo, grifá-lo, vivê-lo.

“E pensei: se tu soubesses a quantidade de vidas diferentes que pode haver numa só vida…”

O feitiço das palavras ali colocadas com tamanha precisão (na falta de melhor explicação) faz de cada frase um portal para a loucura em si. Ainda mais poderoso se lido pelas mãos de um escritor.

Portanto: Obrigada, Rosa.

Essa não sou eu…

Essa, só, não sou eu!

Adentra-me, assim sem muita explicação ou pedidos de licença, um ímpeto. Ímpeto ao que, perguntas. À vida. À esperança de uma infância futura. Que persista embora inexistente se contares apenas os anos. A verdade é que transcende os anos. Desde que…

Não escrevia há muito. Há muito me questionava, complicava. O peso das palavras recaíam como a enormidade do concreto. Uma a uma deixando a leveza da mente para adentrar a sedimentada realidade.

Já permito a contestação: Podem ser igualmente reais as palavras desenhadas apenas entre um neurônio e o próximo?

A realidade parece matar. Mata-nos aos poucos na vida-a-vida tão bem escrita por Clarice. Mas não seria vida-a-morte? Mesmo se nossa crença incluir um retorno, ainda precisamos da morte. Sem ela, como haver romance?

Sem fim não há como distinguir a palavra que traz o ímpeto inicial.
Na letargia do nada, como explicar o súbito impulso à vida? É como desafogar-se.

Consigo respirar agora com mais pausa e menos ânsia por extrair-me cada palavra. Sei que posso mais. Que sou mais.

Não há palavras (por mais perfeitamente ordenadas) que reduzam a vida.

nota: este texto cumpre a grafia do português no Brasil