Agora ando entre 2, mas é a primeira vez.

Hábitos de Leitura

Tens algum lugar específico para ler em tua casa?

Não

Utilizas marcador de livros ou um papel ao azar?

Se uso alguma coisa é um papel ao azar.

Podes parar a leitura ou tens que parar em momentos concretos como o fim de um capítulo ou um número determinado de páginas?

Posso parar.

Comes ou bebes durante a leitura?

Não é habitual.

Vês televisão ou ouves musica durante a leitura?

Não.

Um livro de cada vez ou vários ao mesmo tempo?

Agora ando entre 2, mas é a primeira vez.

Ler em casa ou em qualquer lugar?

Casa ou num sítio mesmo calmo.

Ler em voz alta ou na tua cabeça?

Na minha cabeça.

Alguma vez lês páginas posteriores ou saltas algumas?

Não.

Vincar a lombada ou deixar o livro como novo?

Livros lidos não podem parecer novos.

Escreves ou sublinhas os livros que lês?

As vezes sublinho.

Filipa Vargas tatuadora e  leitora desde os 8 anos de idade.
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Obrigada, Rosa. 

foto de Helena Almeida

“E pensei: se tu soubesses a quantidade de vidas diferentes que pode haver numa só vida…”

A louca da casa, Rosa Montero

Gratidão
Pois os livros são como varinhas mágicas
E, aqui, sinto-me enfeitiçada.

Foi este o sentimento que emergiu ainda nos primeiros capítulos de “A louca da casa”. Um verdadeiro presente. Mal poderia imaginar tudo o que caberia lá dentro. Rosa Montero não apenas nos convida à louca da casa que mora dentro de nós, em outras palavras, à nossa imaginação. Mas, também, questiona o “simples” categorizar de um livro ao misturar os limites de romance, ensaio, real e fantasia.

Precisava lê-lo de novo e de novo. Rabiscá-lo, grifá-lo, vivê-lo.

Na busca de não estender demasiado a minha prateleira de livros, havia alugado “A louca da casa” na Biblioteca Municipal Almeida Garrett da cidade do Porto. Pareceu-me uma decisão acertada na altura. No entanto, com o passar das páginas, e após a discussão do clube de leitura das Pandoras em maio, não tive dúvidas: precisava de um espaço só para ele na prateleira. Precisava lê-lo de novo e de novo.
Rabiscá-lo, grifá-lo, vivê-lo.

“E pensei: se tu soubesses a quantidade de vidas diferentes que pode haver numa só vida…”

O feitiço das palavras ali colocadas com tamanha precisão (na falta de melhor explicação) faz de cada frase um portal para a loucura em si. Ainda mais poderoso se lido pelas mãos de um escritor.

Portanto: Obrigada, Rosa.

Essa não sou eu…

Essa, só, não sou eu!

Adentra-me, assim sem muita explicação ou pedidos de licença, um ímpeto. Ímpeto ao que, perguntas. À vida. À esperança de uma infância futura. Que persista embora inexistente se contares apenas os anos. A verdade é que transcende os anos. Desde que…

Não escrevia há muito. Há muito me questionava, complicava. O peso das palavras recaíam como a enormidade do concreto. Uma a uma deixando a leveza da mente para adentrar a sedimentada realidade.

Já permito a contestação: Podem ser igualmente reais as palavras desenhadas apenas entre um neurônio e o próximo?

A realidade parece matar. Mata-nos aos poucos na vida-a-vida tão bem escrita por Clarice. Mas não seria vida-a-morte? Mesmo se nossa crença incluir um retorno, ainda precisamos da morte. Sem ela, como haver romance?

Sem fim não há como distinguir a palavra que traz o ímpeto inicial.
Na letargia do nada, como explicar o súbito impulso à vida? É como desafogar-se.

Consigo respirar agora com mais pausa e menos ânsia por extrair-me cada palavra. Sei que posso mais. Que sou mais.

Não há palavras (por mais perfeitamente ordenadas) que reduzam a vida.

nota: este texto cumpre a grafia do português no Brasil

A comunidade é o aconchego e a forma e é também a mão que asfixia.

“Não sou um campo. Sou um campo, como? Plano. Molhado. Preto de Chuva. Não sou um campo.”

                                 Facas nas galinhas, David Harrower 

 

Inabitado, inculto, terreno inabitado. Despovoada, estéril. Ventre sáfaro, diz Saramago de Blimunda.

Foto: Birgit Jürgenssen. Nest, 1979. Black and white photograph. 17.8 x 24 cm.

Em Maio de 2017, Fátima marcou a expressão mediática em Portugal. O nome Fátima vem do persa Fatimat, do árabe Faatima e quer dizer “mulher que desmama seus filhos”. No meio de “El cielo oblícuo”, de Belén García Abia e de “After Birth”, de Elisa Albert, com paragem ainda para uma releitura de “Yerma”, de Federico García Lorca, todo o fenómeno de Fátima se enredava na leitura das (não) maternidades.

Vários livros que marcaram no meus vintes foram escritos por escritores homens sobre personagens mulheres. Não propriamente sobre mulheres mas sobre versões mitificadas do ser mulher. “Yerma” é um deles. Um dos melhores. A maternidade está crivada na noção de mulher. Nesta cultura ibérica, de formatação católica, crescer mulher é navegar entre referências mitificadas, mais ou menos localizadas. Fátima está a 200 quilómetros do Porto. A ruralidade andaluza de “Yerma” é transfronteiriça e infiltra-se no solo, mesmo que seco, mesmo que baldio.

Passei muito tempo com a minha avó materna, ainda antes de entrar para a escola, e o Avé Maria da rádio ficou a ecoar nas memórias de tardes no quintal, a arranjar com o que me entreter. A comunidade é o aconchego e a forma e é também a mão que asfixia.

Tanto Maria como Yerma são mães extremas, mães platónicas. A fertilidade toma formas estranhas . Yerma deseja. Yerma mata. Também em “A Morte da mãe”, de Isabel Barreno, mães e mulheres, corpos surgem em catadupa, no caos a que está sujeita a criação original. O equilíbrio é frágil entre os arquétipos e a agência, que nos sobra. Não me parece que seja inteligente fechar os olhos a estruturas ancestrais, muito menos será ficar delas refém.

Disponível na biblioteca da Confraria Vermelha

Fátima é pagã, é gente a ser instinto e é também a manipulação sacramentada dessa ideia suja e animalesca de procriação – procriar sim mas sem sexo, sem sangue, e, depois, ser mãe, isto é, viver e sofrer 33 anos por um filho. E vê-lo morrer.

Em espírito, logo indefinidamente, ser mãe do mundo e conceder benesses a quem reza muito e se mortifica mais. Uma mãe eternamente ouvinte, eventualmente intermediária – o seu papel é interceder, não tem a decisão final nas mãos. A figura de Maria é uma criação cuidadosamente lunática e, talvez por isso, pega como fogo. Um fogo alvo e puro, já sabemos, sem características humanas que o possam corromper.

«Lo tendré porque lo tengo que tener. O no entiendo el mundo. A veces, cuando ya estoy segura de que jamás, jamás…, me sube como una oleada de fuego por los pies y se me quedan vacías todas las cosas, y los hombres que andan por la calle y los toros y las piedras me parecen como cosas de algodón. Y me pregunto: ¿para qué estarán ahí puestos?»

Yerma, presa à terra, pensa que morre por dentro. Yerma é a mais vivas das mulheres.

“El cielo oblícuo”, de Belén García Abia“Yerma”, de Federico García Lorca e “After Birth”, de Elisa Albert estão disponíveis na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente, um desconto 10% Código: nãomaternidades

Explicar o mundo desde outra perspectiva

De Olhos Pousados em Deus lido no século XXI não pode ser considerado um livro feminista na sua essência. Nas suas páginas Zora Neale Hurston apresenta-nos o grande amor de Janie, a protagonista, um homem bom mas que num dos capítulos a esbofeteia-a para demonstrar quem manda em casa, o incidente é narrado sem maior importância. Contudo, De Olhos Pousados em Deus lido em 1937, ano no qual foi publicado, deve ter sido toda uma revolução. Hurtson cometeu um acto revolucionário com o mero facto de escrever um romance e centrar a sua história numa mulher afroamericana como ela, separada da escravidão por apenas duas gerações e que termina revelando-se contra uma sociedade que a julga constantemente.

“gente feia de ignorância e atravessada pela pobreza.”

A vida de Janie é narrada através das relações com os diferentes homens da sua vida. Obrigada a casar aos 16 anos foge desse casamento e do primeiro marido por amor mas vemos como a sua personalidade rebelde é domesticada pelo segundo marido. A morte dele supõe para ela uma libertação e assim surge uma mulher que vence o medo imposto (herdado) pela avó de ficar sozinha, sem a protecção de um homem e assim, libertar-se de uma sociedade patriarcal que a prende sem correntes.

A sociedade que julga a Janie é completamente negra. As personagens brancas ficam na margem e não aparecem na história mas sim mencionadas como terceiras pessoas em relação com as personagens afroamericanas. Contudo, o racismo é um tema presente neste romance de Hurston, especialmente evidente na personagem da senhora Turner, uma mulher afroamericana de pele mais clara e que despreza os seus vizinhos pelo tom da sua pele e tenta convencer a Janie de que existem graus na escala da identidade negra.

O romance De Olhos Pousados em Deus é principalmente um reflexo da luta quotidiana de uma mulher nos Estados Unido no fim do século XIX e princípios do século XX. E o mais importante, é narrado desde uma perspectiva própria e quase sempre silenciada na história estadounidense, a das mulheres afroamericanas. Esta é uma das razões pelas quais a história de Janie e tão relevante na literatura escrita por mulheres porque a valentia e a criatividade de Zora Neale Hurston nascem da necessidade de explicar o mundo desde outra perspectiva.

“De Olhos Pousados em Deus”  está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente, um desconto 5%  e portes gratuitos ♥

Tentar dar um sentido ao mundo que não joga a nosso favor.

 

Uma história de mulheres inverosímeis, envolvidas em circunstância que vão além do seu controlo e que tentam dar um sentido ao mundo que não joga a seu favor.

Antes de começar a falar sobre este livro, tenho que fazer um aviso, “Estamos Todos Completamente Fora de Nós” tem um segredo que não pode ser revelado. Alerto sobre isto caso tenham como hábito (eu tenho) de ler a última página do livro quer seja ao começar quer seja quando vão pela metade porque não conseguem controlar a vontade de saber o que vai acontecer as personagens. Sei que este hábito pode parecer estranho mas quem o tem, afirma que não lhe retira o prazer da leitura dos acontecimentos anteriores ao final. Cada uma com seu hábito de leitura ;)

Contudo é um hábito arriscado que pode não funcionar com todos os livros. Com “Estamos Todos Completamente Fora de Nós” não funciona, por isso se têm o mesmo hábito do que eu, não o façam. E também não leiam as sinopses porque correm o mesmo risco.

É necessário, começar a leitura completamente às cegas, ignorando por completo o que vai acontecer ao longo das suas páginas. Insisto, é completamente necessário controlar a curiosidade de saber o desfecho para poder compreender o que Karen Joy Fower nos querer contar. Por isso vou continuar este texto tentando não desvendar (spoilar) nenhum acontecimento, mesmo assim, considero necessário deixar claro que continuar a leitura deste texto é uma responsabilidade unicamente vossa.

As personagens deste romance são um exemplo cru das relações entre irmãs e de como a sociedade valoriza de forma diferente as nossas vidas, categorizando-nos em diferentes grupos e dizendo-nos o que é e o que não é correcto para nós.

O livro de Fowler é uma obra cujo título não sei se é o mais acertado mas não me vou centrar nisso agora. A universitária Rosemary é a protagonista de “Estamos Todos Completamente Fora de Nós”, é uma jovem que fala pouco e que a partir de um primeiro incidente que envolve a polícia, nos desvela a história da sua particular família. “Estamos Todos Completamente Fora de Nós” é uma história de mulheres inverosímeis, envolvidas em circunstância que vão além do seu controlo e que tentam dar um sentido ao mundo que não joga a seu favor.

As personagens deste romance são um exemplo cru das relações entre irmãs e de como a sociedade valoriza de forma diferente as nossas vidas, categorizando-nos em diferentes grupos e dizendo-nos o que é e o que não é correcto para nós, com base em características que fogem totalmente ao nosso controlo. A hipocrisia deste mundo e a luta de Rosemary por (sobre)viver fazem com que a leitora e o leitor que chegue ao fim deste romance repense a sua própria (forma de)  vida.

Não somos a Rosemary, e não somos a Fern, mas elas são cada uma de nós cada vez que estivemos atrapadas em circunstâncias injustas, elas representam o desespero de uma vida escolhida por pessoas completamente alheias as suas circunstâncias. A mensagem do livro… ufff! É impossível falar dela sem escorregar no temido spoiler mas vai permanecer em vocês muito depois de terem virado a última página. Este romance é daqueles que só comentamos e falamos sobre ele tempo depois de o ter lido, depois de termina-lo precisamos de tempo para integrar a sua leitura e perceber o impacto que teve em nós e quando percebemos esse impacto percebemos também que começamos a olhar as outras vidas como o que elas realmente são.

A sua leitura é altamente recomendável se não tivermos medo de começar a olhar para o mundo como ele é realmente.

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Que raio está a acontecer aqui.

Ler, discutir, confrontar medos, retirar o quotidiano da esfera da normalidade e perguntar o que raio está a acontecer aqui.

O Antes – esta cultura que temos

Emma O’Donovan, 18 anos recém-feitos. A culpa é minha é um livro a ler pelo tema que trata. Violação é a palavra que não pode ser dita, aquilo que só acontece às outras, e mesmo quando lhes acontece, se calhar pode não ter sido, tens a certeza, não estarás confusa, não tinhas bebido um bocado? A ler por raparigas adolescentes, assim como por rapazes adolescentes, e depois, por adultos, nós, os que perpetuamos a cultura da violação, recebida dos nossos pais. E reler, para poder estar mais atentos ao livro e não tanto a pensamentos de como esta rapariga é familiar, ou como aqui isto não aconteceria, não o meu filho, nunca com a minha filha, nunca comigo. Eu não riria, eu não omitiria. A culpa é insidiosa.

Os méritos deste livro assentam no abordar o tema sem subterfúgios e na forma como a personagem principal, Emma, é construída. Esta foi talvez a dimensão da leitura que me deixou mais angustiada (entre as várias angústias que o livro oferece). A Emma da primeira parte do livro, do “Antes”, vive numa constante exteriorização de si, parece apenas materializar-se no espaço em que a sua pele encontra o olhar dos outros. Sobretudo o olhar de desejo, por parte dos homens, e de inveja, por parte das mulheres. De aprovação por parte da mãe (“estás linda esta manhã, Emmie”) e de devoção por parte do pai (“és a minha princesa”). A Emma da primeira parte parece ser uma observadora que observa como a observam, só. É difícil de suportar, esse vácuo. “Sou a Emma O’Donovan”, repete.

A única coisa que compreende bem, que a preenche, é a culpa.

A Emma do “Depois” não consegue atribuir sentido a essa palavra que lhe aconteceu. É isolada, marginalizada, torturada lentamente nas redes sociais. Os risos, apenas de crueldade. O inferno são os outros. Os agressores seguem livres, aceites. Como atribuir um sentido se o mundo inteiro – aquela comunidade, a casa – lhe cospe na cara o contrário?

A única coisa que compreende bem, que a preenche, é a culpa. A Emma do “Depois”, que diz não ter mais identidade própria, ser um corpo-coisa reclamado por outros, “a Rapariga de Ballinatoom”, tem um olhar seu, discorre internamente sobre si e sobre os outros. E isto perturbou-me. Emma O’Donovan parece ser mais pessoa por causa daquilo que lhe aconteceu. Emma O’Donovan deixa de ser objecto de desejo e passa a ser alvo de asco e, de repente, tem voz própria. Perturbou-me porque foi uma opção da autora e perturbou-me porque poderia ser verdade. E eu não quero que seja. Que nenhuma Emma tenha como único poder o poder de agradar, que nenhuma Emma tenha de ser estilhaçada para se ouvir.

O Depois – educar é preciso

Ler, discutir, confrontar medos, retirar o quotidiano da esfera da normalidade e perguntar o que raio está a acontecer aqui. Para lá da culpa tem de haver a responsabilidade, nossa, colectiva.

A educação também se faz na rua, temos de ser humanos o suficiente para trazer esta discussão para o espaço público, mulheres o suficiente para nos solidarizarmos, homens o suficiente para não aceitar, nunca, a inevitabilidade da violência sexual.

No passado dia 25 de Maio, no Porto, em Braga, Coimbra, Lisboa e Faro, muitas de nós – que podemos, que já fomos vítimas da palavra inominável (violação), que não fomos mas estivemos lá perto, que percebemos, que ainda não compreendemos mas queremos aprender – gritámos bem alto «que não há nós e elas, aquilo que existe são mulheres que todos os dias enfrentam uma sociedade prenhe de violência machista. Elas somos nós. Mexeu com uma, mexeu com todas.» 

Mexeu com uma, mexeu com todas, Emma.

#Mexeucomtodas 

 

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Também podes encontrar o livro para empréstimo na biblioteca da Confraria Vermelha . Mais informação via email: osteuslivros@gmail.com

Sónia Serrano na Confraria ♥

foto de Nuno Fangueiro

O livro “Mulheres Viajantes” de Sónia Serrano, aborda a Obra e a Vida de dezoito mulheres que desafiaram as convenções e se aventuraram pelo Mundo.

Contrariaram estereótipos, fizeram as malas e partiram sozinhas à descoberta do mundo. Do século IV aos nossos dias, estas mulheres viajantes disfarçaram-se com calças e cabelos curtos, comeram gafanhotos, estudaram tribos e marcaram a literatura de viagens.

Sónia Serrano arranca do esquecimento sexista as mulheres viajantes, evocando histórias admiráveis, como a de Alexandra David Néel, que tentou tornar-se na primeira ocidental a entrar em Lhasa, ou a de Freya Starck, que mapeou o nordeste do Irão enquanto buscava os castelos da histórica seita dos assassinos. Um A a Z historicamente contextualizado, apoiado em excertos de textos, que inclui pioneiras como Mencia de Calderón, ou aventureiras como Karen Blixen.

“Mulheres Viajantes” não é apenas uma viagem pela vida de 18 mulheres viajantes é também uma aproximação à literatura de viagem, percebendo as possibilidades de narrativa – ficcionada ou não-, a liberdade e a subjectividade que a narrativa literária comporta.

Uma das coisas que mais gostei em Mulheres Viajantes foi aproximar-me do corpo. O primeiro veículo que usamos para viajar é o corpo, ele vai sempre na mala, e é a mala!!  Nele guardamos as experiências vividas antes, durante e depois da viagem.

Com as mulheres viajantes que a Sónia Serrano nos apresenta vemos comos as viagens atravessam o corpo da viajante. Não era raro, em tempos mais recuados, pelo menos até ao início do século XX, a mulher que era autora de livros de viagem querer esconder o seu género. Um dos mais notáveis exemplo será o de Mary Kingsley que pretendia que o seu nome aparecesse apenas como M. H. Kingsley, não revelando assim que era uma mulher que vivia aquelas aventuras.

“Não interessa ao público em geral quem eu sou desde que lhe conte a verdade o melhor que posso”. M. H. Kingsley

Havia um desejo de legitimação, claro, as pessoas tendiam a acreditar mais que tais aventuras só podiam ser vividas por um homem. Fruto da discriminação a que era sujeita a mulher, em certos casos, escondia a sua condição, ou então fazia o oposto e assumia que jamais poderia viajar e escrever como um homem.

Sinto esta aproximação com o corpo como livro de viagens logo na primeira parte do livro, onde Sónia Serrano nos fala dos preparativos de viagem. E começamos a construir na nossa cabeça a forma como as mulheres viajavam antigamente – higiene, saúde, as dificuldades e perigos aos que estão expostas por serem mulheres, etc.

Terminamos de imaginar os preparativos e Sónia Serrano começa a apresentação das suas Mulheres Viajantes, sem obedecera a outro critério que o seu gosto.

O livro é um catálogo de existências, um convívio com as mulheres que desafiaram as convenções e se aventuraram pelo mundo.

A  AUTORA

Sónia Serrano é lisboeta com ascendência espanhola. Formada em Direito, também trabalha com literatura (hispano-america e espanhola), como jornalista e, vale destacar, foi co-comissária na exposição no museu Berardo sobre a viajante (jornalista e escritora) AnneMarie Schwarzenbach. Do seu trabalho nesta exposição começa a história deste livro.

livreira e escritora /foto de Sara Leão

Foi um prazer conhecer a Sónia Serrano, e gostaria de lhe agradecer a sua visita e a gentileza de ter conversado connosco. E, mais que isso, por escrever este livro.

Também quero agradecer à Elisabete Monteiro por aceitar o convite para orientar esta conversa e à Maria dos Prazeres Rovisco por tecer pontes. À Sara Leão por fazer o directo para o facebook e ao Nuno Fangueiro pelas fotos catitas. #juntasfazemosacontecer

Agora só me resta agradecer-te a ti por me deixares entrar no teu mundo e despedir-me, dizendo que espero poder reler Mulheres Viajantes na minha próxima viagem pois adorei o livro. E claro, não posso deixar de te recomendar esta leitura e desejar que seja uma óptima “viagem” caso te animes a comprá-lo.