Contra o esquecimento a palavra e os cravos.

Hoje percorri as ruas da cidade com um cravo na mão, hoje foi mais um dia para recordar que a memória faz parte do verbo ser conjugado no presente.

Um das razões pelas quais existem as livrarias de mulheres (no mundo) é para nos motivar a continuar a re/construir um mundo mais justo e livre.

Contra o esquecimento temos a palavra e os cravos. Contra a morte total da memória (da existência) está o relato de outras vidas. Com a palavra, com o conhecimento daquilo que já passou preservamos a memória e não deixamos desaparecer o que já se foi e que faz parte do que somos. Com a palavra morremos um pouco menos. As nossas vidas deixam de parecer tão efémeras. Quando surge uma livraria de mulheres surge a possibilidade de recuperar a palavra das que nos precederam, assim como a cada 25 de Abril preservamos a memória de um momento da nossa história que nos deu esperança para continuar a re/construir um mundo onde todos e todas tenhamos voz. A palavra é também memória e recuperar a palavra das que foram, torna a nossa vida menos morte. ‘Porque foram somos, porque somos serão’.

Todos os 25 Abril ao ouvir os primeiros acordes de Grândola Vila Morena ou E Depois do Adeus… Sei mais uma vez que não quero esquecer. A nossa capacidade de esquecer controla tudo, tritura tudo, tudo o que hoje sei quero que fique guardado num papel.. Num livro.. Numa foto.. Num cravo a cada 25 de Abril.

Todos os dias quando entro na Confraria penso, Se não falarmos de nós mesmas, quem é que o vai fazer?’

Uma livraria de mulheres é um espaço para preservar a memória, para reconstruir a história e para projetar um futuro onde cada pessoa possa construir o seu próprio espaço e possa usar a sua voz com as mesmas possibilidades de ser ouvida. Cada estante recupera a palavra das mulheres. E é tão importante recuperá-la!
É importante porque as suas palavras podem ser como rochas sólidas enraizadas à terra que nos permitem atravessar a corrente. Cada livro da estante é necessário assim como cada cravo a cada 25 Abril, todas nós precisamos das palavras que outras escreveram para poder atravessar a corrente neste remoinho cultural no qual tem estado submerso o nosso género durante séculos. Precisamos destas rochas para não permitir ser arrastadas no remoinho da desesperação, para ter consciência que a nossa impotência não é uma fatalidade ou uma graçola de mau gosto da natureza. Que para superar a incapacidade de nos expressarmos, para sermos conhecedoras da “sabedoria” dos homens, a ciência, e para ter acesso, em resumo, a compreensão do universo, são necessários anos, talvez séculos e principalmente as palavras das que nos precederam, das que foram sendo esquecidas na história e nas estantes das bibliotecas e livrarias. As que descobriram muito antes de nós que a História tem sido fabricada por homens, pelos homens das castas superiores para proveito dos homens das castas superiores.

Não quero esquecer as suas palavras, as minhas palavras, as tuas palavras… O esquecimento é um tirano nas nossas vidas, na nossa história. Criar espaços e tempos para partilhar as palavras (os livros) das mulheres ou or para a rua cada 25 abril é iniciar,  é continuar (não estamos todas na mesma etapa do caminho) uma luta por vezes solitária outras colectiva mas sempre pertinente contra o esquecimento. Contra a invisibilidade nas sombras da história.

Cravos de Solidariedade & Sororidade

Livro a livro, cravo a cravo recuperamos a palavra das mulheres que nos precederam nisso tão abstracto e concreto que é a existência. Ninguém o vai fazer por nós. E sendo sincera às vezes preferia que nem tentassem fazê-lo porque pior que o esquecimento é perpetuar a imagem que o patriarcado criou de nós. As mulheres somos metade anjo metade demónio. Um animal criado pelos homens do patriarcado que em nada se parece com a mulher. Com o que cada uma de nós é.

Por sorte as mulheres não somos todas iguais. Apesar de se reinventar dia a dia uma homogeneidade através da publicidade, do cinema e

da cultura em geral. Teríamos grandes surpresas, especialmente os homens, se empática e modestamente nos sentássemos a ouvir as palavras das mulheres. Mas para ouvir há que deixar de pensar que se é o rei do universo. 25 de Abril sempre, machismo nunca mais!

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Who Cooked Adam Smith's Dinner?
Autora: Katrine Marçal.
Categoria(s): Economía, Feminismo.
PVP Confraria: 11€
encomendar: livrariaconfraria@gmail.com
Portes Gratuitos em encomendas superiores a 15€ para portugal continental e ilhas

Dizem que o senhor Adam Smith, é o pai da economia moderna, escreveu que não era pela benevolência do talhante ou do padeiro que podíamos jantar cada noite (os que têm o que comer) mas sim porque se preocupavam pelo seu próprio bem-estar; assim, o lucro fazia girar o mundo e nasceu o Homo economicus. Cínico e egoísta, o Homo economicus tem dominado a nossa concepção do mundo desde então e a sua influência estende-se desde o mercado até à forma como compramos, trabalhamos e flertamos. Contudo, o senhor Adam Smith jantava todas as noites graças a que a mãe lhe preparava a janta, e não o fazia por egoísmo mas sim por ‘amor’.

Hoje, a economia centra-se no próprio interesse e exclui qualquer outra motivação. Ignora o trabalho não pago de criar, cuidar, limpar e cozinhar. Insiste em que se pagamos menos as mulheres é porque o seu trabalho vale menos, porque seria então?!!? A economia tem nos contado uma história sobre o funcionamento do mundo e nós (sociedade) temos acreditado nela.

Mas chegou o momento de mudar essa história!!!! Estás preparada/o?!?!?

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A voz de Natália Correia

Hoje escrevo para partilhar as palavras de Natália Correia.

Natália Correia (1923 – 1993), mulher de paixões, casou quatro vezes ao longo dos seus 70 anos. Fez televisão, foi jornalista, dramaturga, poetisa e estreou-se na ficção com o romance infantil «Aventuras de um Pequeno Herói», em 1945.

Nasceu nos Açores em 1923 e aos 11 anos desloca-se para Lisboa. Foi jornalista no Rádio Clube Português e colaborou no jornal Sol. Ativista política: apoiou a candidatura de Humberto Delgado; assumiu publicamente divergências com o Estado Novo e foi condenada a prisão com pena suspensa em 1966, pela «Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica».

Deputada após o 25 de Abril, fez programas de televisão destacando-se o “Mátria” que apresentava o lado matriarcal da sociedade portuguesa.

Fundou o bar “Botequim”, onde cantou durante muitos anos, transformando-o no ponto de reunião da elite intelectual e política nas décadas de 1970 e 80.

Organizou várias antologias de poesia portuguesa como “Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses” ou “Antologia da Poesia do Período Barroco”.

Natália Correia foi uma versejadora de êxito, uma mulher carismática com uma vida social intensa, não fez concessões à mediania e notabilizou-se por uma vasta obra intelectual.

O espírito indomável de Natália Correia na Confraria

mais informação aqui»»

25 anos da morte de Natália Correia com 2 inéditos: ‘Descobri que Era Europeia’ e ‘Entre a Raiz e a Utopia’

Em Março foram publicados dois inéditos de Natália Correia: Descobri que Era Europeia e Entre a Raiz e a Utopia.

Chegarão à livraria no dia 16 de Março, precisamente volvidos 25 anos da morte da escritora açoriana. Ambas as obras têm introdução e notas da investigadora Ângela de Almeida.

Em 1950, aos 26 anos, Natália Correia visitou os Estados Unidos. Terra de fascínio e oportunidade para muitos emigrantes, o colosso americano é retratado neste livro, nos seus sucessos e contradições, com a penetrante lucidez da autora, já então capaz de intercalar diferentes registos de escrita com uma mestria prodigiosa.
Impressões de viagem, mas também diário, ensaio e até poesia convergem neste testemunho envolvente, de uma atualidade desconcertante, de quem partiu à descoberta do América e acabou por (re)descobrir as próprias raízes europeias.
Transcrito a partir do exemplar da primeira edição (1951) da biblioteca pessoal de Natália, o texto agora apresentado reflete as alterações e acrescentos por si introduzidos nesta obra de juventude, com vista a uma reedição que nunca chegou a supervisionar — e que surge agora, devidamente contextualizada, num volume enriquecido com material inédito, por ocasião dos 25 anos da morte da escritora açoriana.

Excerto
«(…) este livro foi sentido como as estrelas, as pessoas e as coisas que me acontecem pelo caminho. Não foi produto de qualquer plano ou premeditação. Fiz uma viagem. Meti sonho na bagagem, sede na minha alma e inquieta ansiedade nos meus olhos. Tento contar o que vi, como as crianças que se perderam na floresta e descrevem, no regresso, as árvores, os animais, os ruídos, as luas e as sombras exageradas dos seus medos.» (p. 21)

Este conjunto de documentos, na sua maioria inéditos, corresponde a pelo menos doze anos (1946–1958) de uma relação de profunda cumplicidade e de luta pelos ideais universais, vivida entre a poeta Natália Correia e o pensador, pedagogo, ensaísta e cooperativista António Sérgio (1883–1969).
Um encontro entre dois grandes vultos da cultura portuguesa do século XX, sob o signo da fraternidade humana e da paz ou, segundo as palavras de Sérgio, na viva esperança de um «cooperativismo integral» enquanto «libérrima anunciação profética de uma humanidade diversa da que temos hoje».

Excerto
«A cultura deve ser estimada como parceiro social, numa interligação das componentes política, económica, social e cultural, de modo a que as forças políticas, económicas e sociais se exerçam criativamente, no pressuposto da consciência cultural de mudar a sociedade.» (p. 40)

Não existem diferenças de género

Esta semana tive a visita da Confreira Marta Correia que veio trazer o cartaz do Colóquio Internacional_Queering Luso-Afro-Brazilian Studies (que bonito ficou!) e confirmar a presença da Confraria Vermelha Livraria de mulheres no colóquio com uma banca/seleção de livros queer(izantes).

Quando semanas atrás Ana Luísa Amaral nos falou do colóquio e nos lançou o desafio de montar uma banca com livros e autoras queer(izantes) ficamos logo empolgadas e agradecidas por contarem connosco mais uma vez! Desculpem repetir tantas vezes a palavra queer(izantes) mas tem uma sonoridade tão queer(izantes) que estou viciada.

Quando leio que dois dos eixos de trabalho são a desconstrução de papéis sociais e novas identidades sexuais e Leituras queer(izantes) de textos literários e objectos artísticos, salta na minha cabeça a imagem da escritora Ursula K. Le Guin e o seu livro The Left Hand of Darkness.

A obra literária de Le Guin destaca-se na Fantasia e na Ficção Científica, tendo sido destacada em 2003 com o título de “Gran Maestre” pela SFWA.

The Left Hand of Darkness
PVP Confraria 9€ encomendar: livrariaconfraria@gmail.com

Em The Left Hand of Darkness, Le Guin cria muito mais que uma história de ficção científica. A obra explora uma sociedade na qual não existem diferenças de género: os indivíduos possuem características masculinas ou femininas de forma aleatória ou bem forçada através do uso de drogas. Logo, qualquer indivíduo pode assumir funções como dar à luz ou conceber filhxs durante um período de tempo.  Numa sociedade com tais características, na qual não existe uma polaridade sexual, as divisões de género diluem-se, ficam inabilitadas e consequentemente, tudo o que estivesse relacionado com a diferenciação entre o “nós” e o “eles”, como por exemplo a ideia de nacionalismo ou guerra. Um romance de ficção científica que marcou um hito e centrou o foco na sexualidade.

Umas horas sem distinção de géneros no planeta feminista de Ursula K. Le Guin

Gethen, mais conhecido como Inverno, é um planeta extraterrestre no qual, como já mencionei, não existe distinção de géneros. Os seus habitantes são hermafroditas durante três semanas ao mês, exceto uma na qual podem adaptar caraterísticas fisiológicas masculinas ou femininas. The Left Hand of Darkness é lançada ao mundo em 1968, quando os debates sobre género fluído (gender fluid) ou transgénero (Transgender) eram ainda embrionários. Ela sempre disse que o seu romance representa um “activismo deliberado”, quer contra a misoginia, a transfobia e o racismo quer contra as políticas belicistas. Le Guin define esse período de tempo no qual os habitantes de Inverno podem escolher entre o género masculino ou feminino como Kémmer. A autora considera que  o Kémmer pode colocar em risco aspectos políticos da sociedade, a ausência de género é o que dá a garantia da inexistência de guerras ou conflitos em Inverno. Le Guin revogou a ideia do “outro” porque considera que alimenta a intolerância e desencadeia a violência.

A Mão Esquerda das Trevas não só nos apresenta uma utopia no que diz respeito ao género, mas também sobre raça e rejeição da violência.

O protagonista da A Mão Esquerda das Trevas (título da edição portuguesa que no momento se encontra descatalogada) é um homem normal que vai até ao Inverno para negociar em nome da federação de planetas. Genly Ai traz consigo todos preconceitos de uma sociedade dividida por géneros, motivo pelo qual se consideram os gethenianos “homens infelizmente afeminados”. Ursula K. Le Guin não nos descreve a personagem como sendo um misógino malvado, mas sim como um homem com as opiniões condicionadas pelo seu lugar de origem, mas também disposto a aprender e deixar-se influenciar por esta raça tão diferente (e incrível).

Há um tempo atrás numa entrevista ao New Yorker, a autora comentou que a sua personagem “aceita que as mulheres, dependendo de cada sociedade, são mais deveis que os homens, mais tortuosas, menos valentes e física e intelectualmente inferiores. Este preconceito de género existe há milhares de anos em tantas sociedades diferentes que era impossível não o levar ao futuro.”

A Mão Esquerda das Trevas não só nos apresenta uma utopia no que diz respeito ao género, mas também sobre raça e rejeição da violência. Inclusive, Genly Ai vem de um mundo onde existe a divisão por sexos mas desapareceu a diferenciação por raças. No livro, vemos como a personagem negra não se reconhece como tal porque no seu lugar de origem a cor da pele já não é uma característica etnográfica.

“Eis aqui a minha armadilha de activista malvada: Construa o seu herói como um homem negro mas não diga nada até que quem lê esteja identificado com essa personagem, só depois fale-lhe desse detalhe. Ey, não sou branco! Mas sabes uma coisa? Sou Humano”, explica a autora. O maravilhoso (e inquietante) deste livro é que as decisões que Le Guin foram tomadas há 5 décadas atrás pensando no nosso presente e que estas questões já estariam superadas mas…

Eu agradeço-te muito Le Guin por teres ido contracorrente num mundo de homens, de homens brancos. Esta pessoa que é também escritora mostrou-nos nos seus livros o reflexo das partes mais feias e arraigadas da sociedade através de uma escrita fluida e clara. Decidiu ir pelo caminho da fantasia e da ficção científica…

criar fantasia é vulnerar a razão. Podem (a)parecer sociedades alheias, estranhas e desconhecidas mas com uma explicação científica para a sua existência.”

Ursula K. Le Guin

Mulheres na História: As Amazonas

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“Não se trata de que a mulher arrebate o poder ao homem. Isso não mudaria o mundo. Trata-se de derribar a concepção de poder establecida.”

Simone de Beauvoir

Grécia, Pérsia, Roma, China, foram alguns dos lugares que em algum momento da sua história se cruzaram com as temidas Amazonas. A sua imagem de mulheres aguerridas, extremamente violentas e insensíveis, que retiravam uma mama para poder usar melhor o arco e flecha chegou até aos nossos dias e tem inspirado reiteradamente romances, filmes, séries de televisão ou BD.

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O caso das amazonas é um exemplo claro de uma mentira repetida reiteradamente ao longo dos séculos. Durante um tempo, as amazonas habitaram na esfera da fantasia e pensou-se que eram simplesmente produto da imaginação dos antigos gregos. Mas as amazonas foram reais e a arqueologia moderna encarregou-se de desenterrar a sua autêntica identidade.

O exaustivo ensaio da investigadora Adrienne Mayer, Amazonas. Guerreiras do mundo antigo, apresenta-nos uma imagem real destas mulheres guerreiras das estepes. As amazonas, eram mulheres que pertenciam a povos citas. Os seus túmulos mostram-nos um grande número de mulheres enterradas com artefactos bélicos que provam que “nas culturas guerreiras das estepes, os cavaleiros de ambos os géneros desfrutaram de uma paridade impensável para os antigos helenos”. As Amazonas surpreenderam com a sua galhardia e durante mais de dois mil anos mantive-se a crença de que cortavam uma mama para poder lançar melhor as suas flechas, o que não tem nenhuma “evidência empírica”.

The Amazons
PVP Confraria: 17,50€
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PVP Confraria: 25.95€                                       

Também não é certo que as Amazonas odiassem os homens ou que assassinassem os bebés do género masculino. Está imagem esteriotipada de umas guerreiras despiadadas pode ter surgido da forte sorpresa por parte dos gregos, os primeiros que falaram delas. Quando a Grécia dou de frente com os povos das estepes, chocaram dois modelos sociais muito diferentes, no que diz respeito à igualdade de género. Se por um lado os citas eram sociedades nas quais ambos géneros tinham papéis similares, o contrário acontecia na Grécia, as mulheres gregas viviam submetidas a um rigoroso patriarcado. Não é de estranhar que os gregos, que mantinham as suas mulheres, irmãs e filhas, recluídas no gineceu, saindo apenas em ocasiões especiais, ficassem em choque e coléricos ao descobrir que outra sociedade (mais igualitária entre homens e mulheres) era possível.

“Em Themyscira temos um adágio: não mates se podes ferir. Não firas se podes subjugar. Não subjugues se podes apaziguar. E não ergas em nenhuma situação a mão sem antes a teres estendido.”

Wonder Womam – amazona personagem de BD

Nomes como Hipólita, Atalanta, Antíope, Pentesilea, Talestris, Hipsicratea… passaram à história como as amazonas que fizeram frente a heróis e reis da antiguidade como Aquiles, Teseo, Heracles, Alejandro Magno ou Pompeu, chegando a lutar contra guerreiros da longínqua Ásia. “Foram temidas – como nos conta Pizan no livro The Book of the City of Ladies – pelos seus feitos bélicos ao longo do mundo.”

The Book of the City of Ladies
PVP Confraria 12.90€

Podes encomendar estes e outros livros através do email livrariaconfraria@gmail.com

Para descobrir mais… 

A Violência pt.3: Atos Humanos, Han Kang

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Em Fevereiro de 2017 o livro do Clube de Leitura as Leitoras de Pandora foi, por sugestão de uma leitora, A Vegetariana de Han Kang. Ainda não tinha lido nada da autora de quem, até ao final de 2017, iria ler ainda mais dois livros e poder ouvir pessoalmente na Feira do Livro do Porto. Han Kang tornou-se uma das minhas autoras favoritas e aguardo com expectativa que a totalidade da sua obra seja traduzida para uma língua em que eu tenha o privilégio de saber ler.

Atos Humanos foi publicado em 2014 na Coreia do Sul e chegou a Português no ano passado. Centra-se num período histórico da Coreia do Sul que eu desconhecia: o massacre de Gwangju. Numa introdução da tradutora inglesa temos uma breve explicação do contexto histórico e político deste massacre em que se especula terem sido assinados mais de 1000 coreanos pelo seu próprio exército.

“Dantes, tínhamos um tipo de vidro que não se partia. Uma verdade tão dura e transparente que até podia ser de vidro. Por isso, pensando bem, foi só quando ficámos estilhaçados que provámos que tínhamos alma. Que, na realidade, éramos seres humanos feitos de vidro.” 

Atos Humanos, Han Kang

Desde o início este livro mostrou-me a minha ignorância perante um momento de tanta violência, apenas por ter acontecido longe de mim. De quantas violências eu me escondo pela distância? E como posso aproximar-me das pessoas que não sei que sofrem? Como posso ouvir as suas vozes? Quem são as pessoas cujo sofrimento é esquecido, e porquê?

Atos Humanos tem sete partes que seguem sete pessoas diferentes, em tempos diferentes, em realidades diferentes; homens e mulheres, mães e filhos, vivos e mortos. A violência atravessa todas as vidas da cidade de Gwangju, ao longo das suas vidas todas. Continua na repressão que muda mas que se mantêm, nas dores que o corpo sentirá para sempre, no vazio que ficou no lugar dos que morreram.

“Quando morreste, não pude fazer-te um funeral e, assim, a minha vida tornou-se um funeral. Quando foste envolto numa lona e levado num camião de lixo.”

Atos Humanos, Han Kang

Unindo estas narrativas está Dong-ho, um rapaz de 15 anos que cuida dos corpos das vítimas. O livro centra-se em Dong-o, espelhando na sua escrita o mesma cuidado que ele dedica às vítimas. Han Kang não se foca na luta, na revolução, na violência, mas no preservar das vítimas, devolver-lhes a identidade, alguma dignidade, lembrar que foram pessoas, que devem ser honradas e lembradas. Para Dong-ho as vítimas não são números, são nomes.

E devem ser nomes para nós também. Apesar da distância no espaço, no tempo. Em Atos Humanos Han Kang diz-nos que não podemos esquecer as vítimas da violência do mundo, no país dela, no nosso, em todos. Depende de nós não esquecer. Cuidar da sua memória como Dong-ho lhes cuidou dos corpos. E permitir que as vozes daqueles que morrem ainda se ouçam nas nossas palavras.

“Cada pessoa que conheço pertence à raça humana. E isso inclui-o a si, que está a ouvir este testemunho. Tal como me inclui a mim.” 

Atos Humanos, Han Kang

 

A Violência pt.1: No Exílio, Elisa Lispector

A Violência pt.2: Cassandra, Christa Wolf

Texto escrito por Diana Fontão

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Nasceu em 1985 em Pevidém, Guimarães. Vivo no Porto.

Escreveu O Interior Profundo e organiza mensalmente o Clube de Leitura da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres. Podes visita-la no blog diana fontão.

A Violência pt.2: Cassandra, Christa Wolf

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Eu e este livro temos uma história. Durante a minha infância, quando ia todas as quintas-feiras com o meu avô à biblioteca, eu e Cassandra olhávamo-nos. A figura de Cassandra era a minha favorita de entre todas na mitologia grega. E, na altura, a mitologia grega era um dos meus maiores interesses, lia muitos livros sobre o tema. Mas não lia este. Este parecia-me muito adulto, muito complicado para o meu infantil entendimento. Com o passar do tempo nunca o esqueci e muitas vezes escrevi sobre Cassandra, inspirada pelo livro que não lia.

Publicado em 1983 e reeditado em Português em 2016, voltou até mim no meu último aniversário. Era, finalmente, a altura de ler Cassandra. Christa Wolf nasceu em 1929 numa cidade que agora é Polaca, mas que na época era Alemã. Após a segunda guerra mundial viveu na República Democrática Alemã e em Cassandra escreveu a história da sua queda.

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Christa Wolf, Fonte da Imagem

“Dez anos de guerra. Foi tempo mais que suficiente para esquecer completamente a questão de saber como ela tinha começado. Em plena guerra só se pensa em como ela irá acabar. E adia-se a vida. Quando muitos fazem isso, nasce em nós o espaço vazio por onde entra a guerra.”

Cassandra de Christa Wolf

Cassandra vê a verdade que ninguém quer ouvir. E no livro narra-nos a sua história, todas as memórias da sua vida em Tróia, até à sua morte. Sem capítulos, sem pausas, o livro é narrado como de um fôlego só, ininterrupto. Nós, leitoras, somos as últimas ouvintes dos momentos que Cassandra recorda antes da sua morte, anunciada de imediato no segundo parágrafo. Em nós permanecerá a sua vida quando a sua respiração, a sua narrativa, terminar.

Cassandra, filha de Príamo, Rei de Tróia, irmã de Heitor e Páris, amante de Eneias, vive a guerra de uma perspectiva central, próxima dos seus heróis derrotados. Mas neles vê apenas cumplicidade com a violência, o outro lado que perpetua a mesma guerra. Cassandra procura outras soluções, outras formas de resistir àquele conflito: encontra-as nas Amazonas e nas mulheres que se exilam nas montanhas.

“Os homens, fracos, arvorados em vencedores, precisam de nós como vítimas, como última forma de sentirem. E foram mais longe, para o castigar: arrastaram a morta, que ele agora chorava, com cavalos pelo campo e deitaram-na no rio. Vexar a mulher para atingir o homem.”


Cassandra de Christa Wolf

As mulheres que vivem nas montanhas tentam afastar-se da guerra e refazer a sua própria sociedade, tentam sobreviver com alguma paz, alguma dignidade. São mulheres que perderam tudo, mas que resistem a tornar-se apenas objetos numa guerra feita por homens que as tratam como despojos. E quando os homens vêm na derrota apenas a morte, elas conseguem ver a sobrevivência.

Cassandra não é um livro trágico, é um livro de violência. Mostra-nos como a violência extrema de uma guerra que destrói um país, destrói também as famílias, as pessoas, as ligações e as emoções; as vidas que podiam ter sido tantas outras coisas, mas que se tornaram apenas vidas vazias de vida, vidas apenas de guerra.

“Quem sou eu para ver em vós apenas os vencedores e não aqueles que viverão? Que terão de viver para que aquilo a que chamamos vida possa continuar. Estes pobres vencedores têm que viver por todos aqueles que mataram.”

Cassandra de Christa Wolf

 

A Violência pt.1: No Exílio, Elisa Lispector
A Violência pt.3: Atos Humanos, Han Kang – 16.03.18

 

Texto escrito por Diana Fontão