Descobri que Era Ibérica*

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Desde pequena que não compreendo a vontade de criar uma unidade linguística, cultural e ideológica que dá forma e conteúdo a uma suposta identidade española mas aos 18 anos quando pedi a nacionalidade española, durante a entrevista com o cônsul tomei consciência de que não alentar por essa unidade poderia parecer na melhor das situações uma excentricidade e na pior e mais comum das situações suspeita de terrorismo.

– Porque que querer ter a nacionalidade española?
– Por dois motivos: porque é a nacionalidade da minha mãe e da minha língua materna (no sentido total da expressão), e por isso parte da minha história.  E porque me agrada a ideia de ter a nacionalidade de um território tão plurilíngue. Gostava de aprender mais sobre as outras línguas e culturas.
Franziu os olhos.
– Não és terrorista, pois não?
Encolhi os ombros.
– Não.


Eu apenas tinha (e continuo a ter) curiosidade por conhecer outras formas de ser e estar no mundo e sobre os idiomas como veículos de comunicação primária, assim aos 18 anos, tornei-me luso-española, apesar do que eu queria realmente era ser, era ibérica, como o lince ibérico ou o urso pardo.

Nasci poucos depois (em 1981) daquela España que tentou abolir a diferença e a diversidade, e quando digo pouco depois é mesmo pouco depois: a realidade plurilingue do estado espanhol teve continuação e reafirmação no estatuto de autonomia basco (1979), no estatuto de autonomia galego (1980) e no estatuto de autonomia catalão (1979) nos quais se declara respectivamente que o basco, o galego e o catalão são línguas próprias das suas respectivas autonomias e se indica em simultâneo a co-oficialidade com o español ou castellano.

Sempre me fascinou esta pluralidade linguística que nos leva a um dos exercícios mais interessantes da civilidade: a aceitação da diversidade linguística, ou seja cultural, e o reconhecimento da alteridade.

Esta minha crescente curiosidade por conhecer os discursos que se expressam nas diversas línguas levou-me a explorar os universos literários de escritoras que criam as suas narrativas nestes idiomas e são estes universos que quero partilhar convosco no Curso de conversação de Español (Castellano).

Assim partindo de uma língua que foi usada para unificar linguística, cultural e ideológica e tornar tudo mais aborrecido vamos explorar outros domínios linguísticos, literários e culturais da península e das ilhas tornando tudo mais divertido.


Informação sobre o Curso de conversação de Español (Castellano)

Foto de Confraria Vermelha Livraria de Mulheres.

Para quem é este curso?
Para pessoas curiosas que querem expressar-se em castellano, adquirir mais vocabulário e fluidez, melhorar a pronúncia e entoação e praticar as estruturas necessárias para se desenvolver no dia a dia. Seja para usar no trabalho ou para conversar com os amigos. Assim como conhecer mais sobre as culturas da península ibérica. Outros cursos VER AQUI

A literatura será a ferramenta utilizada para explorar o idioma e colocar em pratica o aprendido. Com atividades de leitura, compreensão oral, vídeos, curtas-metragens ou temas de debate, para que as/os participantes possam expressar as suas ideias utilizando o español como ferramenta de comunicação.

Também vamos explorar o sistema literário do estado espanhol, percorrendo a diversidade linguística e literária desconstruindo um sistema monolíngue.

Datas curso de verão de conversação de español
de 2 a 30 de Julho | 19h | 2h por semana, segundas-feiras.

Grupos de 3 pessoas mínimo/ máximo 6

INSCRIÇÕES
Período promocional de inscrição 
de 18 a 24 de Junho
28€

Período de inscrição simples de 25 a 30 de Junho
Normal: 40€
Sócias de vida: 30€

inscrições e + info: livrariaconfraria@gmail.com
Outros cursos VER AQUI

Sobre a Formadora
Aida Suárez G. Caldas, Diploma Superior da DELE – Nível C2 (Superior) -Instituto Cervantes, Madrid – España, e Certificado de Aptidão de Formador (CAP). Ao longo do percurso profissional leccionou Cursos de Espanhol no Instituto Unicenter/Joviform – Consultoria Empresarial, Lda e no Instituto Ibérico de Línguas.

nota

*o título deste texto é um piscar de olho ao livro
Descobri que Era Europeia de Natália Correia
VER LIVRO

 

Na livraria Online da Confraria também podes encontrar uma estante dedicada a esta pluralidade linguística e literária para deixares livre a tua curiosidade.

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Texto escrito por

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Phillis Wheatley e o reconhecimento da existência de uma literatura legitimamente Afro-americana.

Andamos a reorganizar as estantes da livraria online e entre arrumações nascem estantes como a de literatura de expressividade Afro-americana.

A estante de Literatura Afro-americana nasce da inspiração que nos deixou a poeta Phillis Wheatley (1753-1784). A primeira mulher afro-americana a publicar um livro e conquistar reputação internacional como escritora.

Mas deixem-me começar por escrever sobre Lucy Terry.
Lucy Terry é autora da obra mais antiga conhecida da literatura Afro-americana, um poema com o nome de “Bars Fight”.  Terry escreveu este poema em 1746, após um ataque dos índios locais sobre a cidade de Deefield, no Massachusetts,  sendo escravizada à época da invasão.

O poema foi publicado pela primeira vez em 1854, com um dístico (estrofe em duas linhas rimadas).

Anos depois encontramos a poetisa Phillis Wheatley (1753-1784) que publicou a obra “Poems on Various Subjects – Poemas sobre Vários Assuntos” no ano de 1773, três anos antes da declaração da Independência dos Estados Unidos.  Ela não foi apenas a primeira Afro-americana a publicar um livro, mas também a primeira a conquistar uma reputação internacional como escritora.

Poems On Various Subjects Religious And Moral de Phillis Wheatley

Nasceu no Senegal, África, foi capturada e vendida ao sistema escravagista com a idade de sete anos.  Levada para a América do Norte para ser propriedade de um mercador da cidade de Boston.  Ao atingir a idade de 16 anos,  já possuía o domínio integral da língua inglesa.

A escrita de Phillis Wheatley era elogiada por muitas figuras públicas da Revolução Americana, incluindo George Washington, que lhe agradeceu um poema escrito em homenagem a ele. Algumas pessoas da elite americana desacraditavam o facto de uma mulher afrodescendente ser capaz de produzir poemas tão refinados. A poeta teve que se defender em tribunal para provar que tinha sido ela a escrever a sua obra. Alguns críticos citam a defesa bem sucedida de Phillis Wheatley como o primeiro reconhecimento da existência de uma literatura legitimamente Afro-americana.

Na estante de literatura Afro-americana esperam por vocês uma seleção de livros ansiosos de serem lidos. 

 

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flâneur, flâneuse, flâneuseando… O que é uma flâneuse?

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SUITE VÉNITIENNE (SUÍTE VENEZIANA), 1979, Sophie Calle

Uma das memórias mais vivas que tenho da minha infância, são os passeios com a minha mãe pelas ruas da cidade ao domingo de tarde. Passear pelas ruas em pausa, ver as montras das lojas em descanso, sentar-me na praça a ver as pombas ou comer um gelado nos domingos de verão, são recantos da memória construídos pelos meus pés.

A alegria de passear pela cidade na tranquilidade dos domingos de tarde na companhia da minha mãe é uma das memórias mais suaves e livres que tenho.

“Aspiro à liberdade de sair sozinha: ir, vir, sentar-me num banco do jardim de Tuileries e, principalmente, ir aos de Luxemburgo, apreciar as ornamentadas montras, entrar nas igrejas e nos museus e passear de tarde pelas velhas ruas. Isto é o que invejo. Sem esta liberdade, não é possível ser uma grande artista.”  

I Am the Most Interesting Book of All de Marie Bashkirtseff

Passear pelas ruas da cidade tornou-se um hábito que ainda cultivo.

Quando cheguei à adolescência queria experimentar caminhar sozinha pela cidade mas como muitas outras jovens, interiorizei as objeções culturais que ditam que as mulheres não devemos andar sozinhas. Eu sabia que eram objeções obsoletas e machistas mas tinham deixado em mim certos medos que são difíceis de desmascarar aos 15 ou 16 anos. Contudo e com medo, aventurei-me algumas vezes, caminhei por ruas que conhecia com detalhe o que me fazia sentir segurar mas esse não era o objetivo de deambular pelas ruas. Desejava descobrir recantos novos e não repetir os caminhos já explorados.

Não sei bem que idade tinha, suponho que uns 15 anos, quando convidei uma das minhas amigas para passear comigo, a A.
Ao início a  A. achava estranha a ideia de caminhar sem um motivo concreto parecia uma ocupação excêntrica, achava que era coisa de turista e nós não éramos turistas. Aos poucos a A. começou a achar graça e começamos a traçar percursos novos  a cada domingo.

Apesar de estarmos na década de 90’, e de homens e mulheres poderem passear e usufruir do espaço público em idêntica liberdade (já não precisávamos de nos vestir de homens como George Sand), uma mulher a deambular pelas ruas ainda conservava um elemento transgressor para duas jovens, acho que era isso o que mais agradava a A..
A absoluta liberdade que reside no acto de colocar um pé na frente do outro.

Wanderlust : A History of Walking de Rebecca Solnit
descobre este livro aqui

Em 1997 conheci o R., tinha vindo para o Porto estudar… numa tarde sentados num banco de jardim perto da escola onde estudávamos, partilhei com o R. a minha visão da cidade, uma cidade que memorizei com os pés. Todas as esquinas, ruelas e escadas têm a capacidade de estimular a minha imaginação. Pouco tempo depois dessa conversa de jardim, caminhávamos juntos pela cidade. Era o meu primeiro companheiro de passeio homem.

Nessa época cada passo que dava recordava-me que o dia me pertencia e não tinha motivo para permanecer num sítio que não desejasse estar. Mas também, foi nessa altura que compreendi as implicações de género no acto de caminhar pela cidade (pela natureza, pelo mundo…).

Na companhia de R. experimentei uma invisibilidade que não tinha experienciado na companhia da minha mãe ou de A..

O R. era invisível quando passeava e ao caminhar junto dele eu também me tornava invisível. Nunca tinha parado para pensar nestas questões de visibilidade mesmo tendo desejado muitas vezes ser invisível enquanto caminhava pelas ruas da cidade. Estávamos às portas de entrar num novo século mas uma mulher sozinha caminhando pelas ruas sem um motivo concreto ainda estava carregado de estereótipos que se acentuavam quando as ruas estavam meio vazias ou quando o fim do dia se aproximava.

Flaneuse : Women Walk the City in Paris, New York, Tokyo, Venice and London de Lauren Elkin
descobre este livro aqui

Comecei à procurar de referências e referentes de mulheres que passeavam pelas ruas das cidades, tinha a certeza que existiam mas antes de me encontrar com elas conheci vários flâneurs: Baudelaire, Balzac, Constantin Guys, Edgar Allan Poe, André Breton entre outros. Uma lista interminável de homens, parecia que tinham apagado as mulheres e tornava-se difícil entender o significado que tinha para uma mulher o acto de passear pelas de cidades (pela natureza, pelo mundo…). Foi quando compreendi que a solução não estava, nem está, em fazer que a mulher se ajuste a um conceito masculino (flâneur) mas sim redefinir o conceito em si. Foi assim que me encontrei com as Flâneuses:

  • Marieanne Breslauer
  • Laure Albinguillot
  • Ilse Bing
  • Germaine Krull
  • Georg Sand
  • Jean Rhys
  • Marie Bashkirtseff
  • Agnes Varda
  • Sophie Calle
  • Martha Gellhorn
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Marianne Breslauer. Fotografías 1927-1938 | Museu Nacional d’Art de Catalunya

E de uma recordação foi como hoje nasceu a estante Flâneuse – literatura de viagens e outros passeios. 

Flâneuse [flanne-euhze], substantivo, do francês. Forma feminina de flâneur [flanne-euhr], uma ociosa, uma observadora minuciosa, geralmente encontrada nas cidades. Na estante Flâneuse encontramos literatura de viagens e outros passeios.

Já seleccionamos alguns livros que podem ver na estante virtual e no decorrer dos próximos dias vamos acrescentando mais. Fiquem atentas/os!

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Mulher não é sinónimo de loucura

À luz de diversas teorias, ser mulher tem sido historicamente considerado patológico. A inconstância, a ausência de pensamento e lógica, a incapacidade de refletir eram consideradas características da psique feminina. A independência, a autonomia e a objectividade eram parâmetros de uma personalidade saudável contudo não eram valorizados da mesma forma em homens e mulheres. A dependência, submissão e o sentimentalismo constituíam atributos de uma mente menos saudável ao mesmo tempo que eram esperados e incentivados nas mulheres, que deveriam possuir uma personalidade terna, sensível e cálida.

Todas aquelas mulheres que não cumpriam com estes requisitos da personalidade-edredão podiam ser calificadas de loucas mas quando apresentavam dita personalidade, mesmo que incentivada, eram tratadas como umas ‘totozinhas‘ fúteis e frágeis. Ou seja, como diz o ditado popular, presas por ter cão e presas por não ter.

O conceito de loucura está intimamente ligado aos comportamentos femininos. As mulheres éramos, e ainda não o deixamos de ser totalmente, consideradas loucas por natureza, por bioquímica. Passamos de “estar” doentes a “ser” doentes.

Doida Não e Não!

Maria Adelaide Coelho da Cunha, como nos mostra a escritora Manuela Gonzaga, foi mantida presa num manicómio por ser mulher, por não cumprir o que se esperava dela como mulher, como esposa, como mãe, ou seja, submissão e renúncia, tal como lemos nas páginas do livro, “Tivesse ela mantido as aparências”.

O sistema nervoso das mulheres era designado de instável, com a mínima mudança nas suas vidas as desequilibrava mental e emocionalmente. Neste sentido podemos falar que houve uma “feminização da loucura”.

Feminização da loucura

No século XIX, de facto, considerava-se que a insanidade mental das mulheres começava nos seus próprio órgãos genitais: no útero localizava-se a loucura.

Uma loucura de teoria, verdade?!??

A eterna doença das mulheres até metade do século XX, quando se evidenciou que era uma doença inventada, foi a histeria (hystera, palavra grega para designar o útero): a histeria foi esse saco sem fundo no qual desde Hipócrates até Freud caíram todos os “problemas” de saúde das mulheres e que os grandes ilustrados não conseguiam (ou não lhes interessava) identificar. A histeria é a visão da mulher como um não-homem e se não é um homem, que interesse tem o que ela sente, o que ela deseja, a quem ama?

Dezenas de sintomas encaixavam num diagnóstico de histeria: cansaço, ventre e pernas inchadas, irritabilidade, egocentrismo, apatia, falta de apetite, menopausa, SPM, felicidade, bom humor…. Já vos comentei que éramos ‘presas por ter cão e presas por não ter’. Se estavas apática porque estavas apática, se rias porque rias… tudo podia ser considerado, caso Eles assim o entendessem, como histeria.

A histeria na época vitoriana tornou-se num diagnóstico comum e de certa forma considerava-se normal que assim fosse, as mulheres não eram homens por isso era natural sofre do mal de humores. Às solteiras era lhes prescrito que casassem e tivessem filhxs e as casadas era-lhes realizadas ablações do útero e ovários completamente desnecessárias. Algumas tiveram um pouco mais de sorte e aplicaram-lhes a terapia da “massagem pélvica”, o que hoje compreendemos como masturbação e assim provocar nas mulheres o que se designava de “paroxismo histérico”, o que vem a ser um orgasmo.

Os vibradores como instrumentos terapêuticos (nunca como brinquedos para o prazer) foram usados em luxuosos balneários e divulgados em revistas femininas como aparelhos anti stress até meados do século XX.

No fim da segunda guerra mundial as mudanças impactaram de tal forma a vida das mulheres e a “loucura feminina” que surgiu uma nova narrativa sobre a saúde das mulheres, desenvolveram-se as “drogas legais”, os psicofármacos.

Atualmente 85% dos psicofármacos receitados nos países ditos desenvolvidos estão destinados a mulheres, estes valores não se podem explicar com base em evidências científicas pelo qual temos que pensar que é uma consequência do exercício da biopolítica heteropatriarcal.

Os estereótipos de género ao longo da história, alimentaram a ideia de que as mulheres sofremos mais loucura do que os homens. Mas os estudos académicos de género, ainda recentes e em desenvolvimento, deitam por terra esta ideia, demonstrando que não existe uma discrepância numérica tão vincada como se imagina entre homens e mulheres no que diz respeito à saúde mental em geral. Há sim, uma maior representação das mulheres nas estatísticas psiquiátricas de certos padecimentos, produto e reflexo das iniquidades e opressão que as mulheres experimentamos socialmente. As desordens mentais “tipicamente femininas” são provocadas pelos efeitos da violência e da pobreza que as mulhesazazres enfrentamos quotidianamente.

Durante o século XIX pensava-se que as mulheres tinham uma maior predisposição para certas desordens mentais, eram hospitalizadas com maior frequência e faziam um maior uso ambulatório assim como lhes eram receitados mais psicofármacos do que aos homens e devo partilhar que este cenário mudou muito pouco. Na actualidade, várias investigadores apontam 3 factores de risco aos que se enfrentam as mulheres e que incrementam a sua probabilidade de sofrer desordens na sua saúde mental e emocional: a vulnerabilidade na qual nos coloca a misoginia, os agentes de perda (divórcio, doença ou discapacidade crónica…) e fatores como a depressão provocados pela violência e humilhação sobre as mulheres provocando também baixa autoestima.

“Presa num manicómio por um crime de amor.

Feito este breve e superficial passeio pela vida e a história das mulheres a frase afirmativa da capa do livro se transforma numa questão. Num ponto de ?”.

Numa sociedade machista e classista, que considerava a mulher como um ser secundário e débil que dependia de um homem para ser governada, o adultério sempre foi tolerado, e de certa forma socialmente aceite, contudo mais tolerado nos homens do que nas mulheres e mantendo sempre as aparências, como podemos ler na página 200 do livro de Manuela Gonzaga, onde vemos como Maria Adelaide Coelho da Cunha é socialmente julgada não tanto pelo adultério mas por fazer público o seu desvario abandonando o marido e “fugindo” com o amante. 

Loucura Lúcida

Erro de diagnóstico?

Não. O diagnóstico de Maria Adelaide foi um salva-conduto para manter as aparências. Para honrar a virilidade do esposo. Na página 203 podemos ler “o mais agravado nestas circunstâncias, é o marido de vossa excelência, disse o médico.”

Doida Não e Não! de Manuela Gonzaga narra-nos a história de uma mulher, de Maria Adelaide Coelho da Cunha e coloca sobre a mesa a forma como a saúde mental e a vida afectiva das mulheres  foi vista, avaliada e instrumentalizada. 

 

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O Feminismo (não) está na moda

O Feminismo não está na moda, nunca esteve e se um dia chegar a estar (espero que sim) é porque alcançou o seu objectivo final que tão bem sintetizou Angela Davis (os parêntesis da frase são meus).

O(s) feminismo(s) é a ideia radical que sustenta que as mulheres (e todos os seres humanos) somos pessoas.

Estar na moda acontecerá nesse momento em que os feminismos só sejam necessários para dançar!

Tenho pensado muito sobre repetirmos que “O Feminismo está na moda” e acho que esta frase afirmativa foi lançada ao mundo pelos esbirros do sistema patriarcal/capitalista para nos confundir. Há meia dúzia de anos atrás, os mesmo que dizem que o ‘Feminismo está na moda’, diziam que o Feminismo tinha morrido. E agora está na moda?!! Confuso?!!

Pensemos juntas, começam aparecer artigos em jornais e revistas que colocam em destaque (na moda) a palavra Feminismo:

“O feminismo é para toda a gente”
“A Marcha das Mulheres quer transformar a política”
“O feminismo está na moda”
Porque precisamos das feministas?
“Feminismo é a palavra do ano 2017
“Margrethe Vestager: “A etiqueta do feminismo é uma coisa que homens e mulheres podem usar”
“Um homem pode ser feminista?”

Mas estes artigos de jornais e revistas contribuem realmente para explicar que o feminismo é um movimento filosófico e político, com três séculos de história e que não terminou com o direito ao voto? Que o direito ao voto foi apenas o ‘princípio’? Que o sufragismo apenas colocou sobre a mesa os direitos das mulheres e que nesse momento o feminismo se transformou em Feminismos? Que o feminismo não é o contrário de machismo? …

Não podem nos dar por desaparecidas e depois dizer que estamos na moda. Não faz sentido! É contraditório para além de falso. Mas já sabemos que a relação entre capitalismo e patriarcado, não é uma relação/sistema coerente mas sim contraditória e estar atentxs a essas contradições faz parte da nossa luta política.

Nesta questão, a contradição está mais do que clara, só se as feministas formos como Jesus Cristo e ressuscitarmos para agora estar na moda!!! Não me parece!! Os Feminismos nunca desapareceram, pelo contrário, moveram-se, removeram-se e transformaram o mundo e com ele a todos e a todas os seus habitantes, feministas ou não. Além disso, os Feminismos não podem estar na moda porque funcionam como mecanismos de alerta da consciência individual e o fazer coletivo, como o pacifismo, a sustentabilidade ambiental, a erradicação da fome, o analfabetismo ou a pobreza.

Que nos últimos anos ouvimos falar mais de Feminismos nos meios de comunicação, na política, na mesa do café da esquina até chamamos ao século XXI, o “século das mulheres” e tivemos em 2018 a Primeira Greve Feminista Internacional com uma presença de mulheres nas ruas que a transformou num momento histórico dos Feminismos e da História, o que não significa que os Feminismo estejam na moda e sim que as mulheres estamos FARTAS, fartas da discriminação, fartas da violência, fartas que não se nos considere pessoas.

A discriminação das mulheres nas suas oportunidades vitais varia de uma país para o outro mas é uma constante e cada vez mais somos conscientes disso, cada vez mais somos interpeladas pelas palavras de Audre Lorde, “Eu não serei livre enquanto houver mulheres que não o são, mesmo que as suas algemas sejam muito diferentes das minhas”  e as palavras nos levam a ocupar as ruas, a organizar-nos, a autodefender-nos…

Agora que nos levantamos já não há volta atrás, Emily Dickinson já nos tinha avisado que “Ignoramos a nossa verdadeira estatura até que nos pomos de pé.”

Estamos de pé e repito, não estamos na moda, estamos FARTAS!

Agora que estamos de pé, que temos consciência da nossa estatura e da nossa estatura JUNTAS podemos perceber o que há por trás da frase “O feminismo está na moda”. Parece-me que é mais uma estratégia do medo  que o patriarcado/capitalismo tem das mulheres sem medo (como diria Eduardo Galeano). Tentado com esta frase vender-nos a ideia de que a igualdade é mais igual do que nunca e que a nossa luta já está recompensada. Já votamos, já estudamos, já trabalhamos, já temos contraceptivos… Já alcançamos a liberdade!

Sim caros esbirros do patriarcado, as feministas logramos que as mulheres possam estudar/educar-se, votar, ganhar o seu próprio dinheiro, decidir se querem colocar criaturas neste mundo ou não e quando… Sim, conseguimos muito mas ainda não é o suficiente. E não é suficiente porque ainda hoje não existe um único lugar onde nenhuma mulher, pelo simples facto de sê-lo, não esteja neste exacto momento, em que escrevo e que tu lês, a ser vendida, escravizada, escondida, privada de direitos…

Por este motivo como feministas, como mulheres e como seres humanos, e sendo conscientes da realidade que descrimina pelo género, pela classe e pela raça devemos questionar-nos que tipo de feminismo necessitamos para avançar em direcção a uma sociedade mais justa e livre. Será um que está na moda?
Como disse Nancy Fraser, a questão é se queremos um feminismo neoliberal  com base numa ideia de liberdade, igualdade e independência de corte meritocrático e individualista ou se pelo contrário, escolhemos um/uns feminismo(s) que proponham uma idea de liberdade com base na democracia radical que aposta pela paridade absoluta na participação em todas as esferas da vida social. Aqui está a questão que encerra a frase “O Feminismo está na moda”.

Está na moda dizer que o feminismo está na moda.

Já fomos consideradas perigosas (as sufragistas), mesmo sabendo que as únicas armas dos Feminismos, são o argumento, a acção política e a sororidade, depois fomos consideradas imorais (anos 60/70), depois desaparecidas (anos 90) e agora  a moda é dizer que estámos na moda!!!

Nem perigosas, nem imorais, nem desaparecidas, nem na moda, FARTAS!
E estamos aqui para mudar o mundo como disse Emmeline Parnkhurst

Não estamos aqui por sermos infratoras da lei; estamos aqui por um  esforço para nos tornarmos as feitoras da lei.
                                                                                         Emmeline Parnkhurst

Esta evolução sem lógica que o patriarcado/capitalismo desenha dos Feminismos e das feministas explica o porquê de durante décadas a bagagem argumentativa e a acção política e social dos feminismos ter sido confiscada e distorcida em cada uma das possibilidades históricas de adquirir salvaguardas na expansão dos direitos das mulheres.

Nada evitou que em cada transformação que provocou e provoca a (R)evolução Feminista não tenha sido marcada com a etiqueta que mais convém em cada momento histórico: o feminismo é perigoso, o feminismo é imoral, o feminismo desapareceu… o feminismo está na moda. Para mim dizer que o feminismo está na moda, principalmente pelos meios de comunicação e pelas vozes da política é mais uma das muitas atitudes condescendentes que se tem com o movimento feminista e com as mulheres, “é uma moda, já passa” e assim mais uma vez tentam transformar os feminismos como não-prioritários, minoritários e até desnecessários.

Nada de novo portanto, se não fosse que chegamos a um ponto sem retorno, depois das recentes ações internacionais feministas conhecemos a nossa estatura colectiva e isso dá muito medo! Continuam a usar o mesmo argumento, o mesmo argumento usado após as revoluções socialistas, anarquistas, comunista, onde a nova ordem social considerava, após o horror dos fascismos, que o feminismo teria a resposta dos sistemas democráticos e alcançaria, pela lógica da justiça social e o respeito dos direitos humanos, os seus propósitos. Por isso já não era necessário ser feminista bastava-nos com ser democratas/humanistas. Agora acontece o mesmo, a mesma mensagem lançada: “Mulheres e pessoas em geral, não vale a pena se alistarem ao feminismo, o feminismo está na moda mas a moda já passa e bastará com serem democratas/humanistas”.

O feminismo está na moda mas não é uma moda.

Vamos mostrar-lhes que estão errados, é verdade que os feminismos podem estar na moda, no sentido da explosão mediática, que tem o seu lado positivo, é bom que mais pessoas falem de feminismos e que circule mais informação é como um banho de imersão mas depois do banho temos que lutar contra a banalização e não ficar só a partilhar e comentar no facebook. Há muitas formas de nos juntarmos à (R)evolução Feminista, cada uma de nós tem o seu papel.

Mas esta vez não vai ser fácil o patriarcado/capitalismo marcar golo… lembram-se do motivo primordial pelo qual nos estamos a auto-organizar e a invadir as ruas? Estamos FARTAS!

Reclamaria todas as medidas que considero necessárias para modificar a situação deprimente em que se encontra a mulher, (…) [entre elas] conseguir a igualdade de salários, quando a mulher produza tanto como o homem.

 

Carolina Beatriz Ângelo,
a primeira mulher a votar na Península Ibérica em 1911.


Biblioteca de imprescindíveis
para estar na moda

 

  1. Racismo no País dos Brancos Costumes de Joana Gorjão Henriques | pvp 15.90€

HISTÓRIAS REAIS DO PORTUGAL RACISTA QUE AINDA VIVE NO MITO DO NÃO-RACISMO

Um homem quer alugar uma casa, mas assim que diz o seu nome africano deixa de receber respostas. Uma avó da Cova da Moura é atirada ao chão por um polícia quando pergunta pelo neto. Uma mulher negra com formação superior vai ao hospital e perguntam-lhe se sabe ler as placas informativas. Por causa da cor da pele. Tudo isto acontece em Portugal, a portugueses negros, e é contado na primeira pessoa no livro No País dos Brancos Costumes, que dá continuidade à investigação de Racismo em Português. Assim se completa o retrato de um país que em 1982 deixou de atribuir a nacionalidade portuguesa aos filhos de imigrantes nascidos em Portugal, e onde ainda há quem encontre listas de escravos (com os respectivos preços) nos baús dos avós, entre outros brandos – brancos – costumes.

2. Contributo para a História do Feminismo de Marx, Engels, Lénine e Kollontai | PVP 15€

Contributo para a História do Feminismo é a recolha de textos mais significativos e emblemáticos de Marx, Engles, Lénine e Kollontai sobre a importância da mulher na sociedade. Onde a abolição da família é teorizada e é feita a demonstração de como a família, no entender dos marxistas, está no centro da exploração da mulher. O feminismo, e particularmente o movimento das sufragistas, tem um especial incremento com a revolução industrial, contemporânea de Marx, e este movimento social e industrial é a raiz da revolução de Outubro na Rússia.

Esta publicação assinala os 200 anos do nascimento de Karl Marx, assim como a importância dos vários movimentos feministas que se tem vindo a destacar a uma escala global.

3. Medusa no Palácio da Justiça ou Uma História da Violação Sexual
de Isabel Ventura | PVP 23.90

Violação, estupro, atentado ao pudor, assédio: a primeira grande investigação sobre violência sexual em Portugal.

Houve tempos em que uma violação podia ser perdoada se o agressor casasse com a vítima, para reparar o mal feito à família (e não à mulher). Durante décadas, a lei (e a medicina) defendia que uma violação não se podia consumar se a mulher não quisesse. Até depois dos anos 1980, só se considerava violação quando havia cópula completa, ou seja, penetração vaginal com ejaculação — preferencialmente, com marcas claras de violência, para provar que a mulher resistiu até ao fim.

E há, até aos dias de hoje, acórdãos de tribunal a julgar o comportamento das vítimas e a encontrar atenuantes para o crime quando uma mulher é «experiente», adúlteraprovocadora. Analisando todas as teorias — das feministas às científicas —, séculos de leis e centenas de casos em tribunal, Isabel Ventura faz um retrato inédito da violência sexual em Portugal.

Medusa no Palácio da Justiça ou Uma História da Violação Sexual descreve preconceitos de género que fazem com que este crime ainda seja considerado menos grave do que alguns furtos, e mostra o quanto a letra da lei — mesmo quando evolui — continua sujeita a interpretações toldadas por um pensamento falocêntrico e conservador, compreensivo para com o agressor e desconfiado para com a vítima.

Ciclo Idiomas & Literatura

Encontros de conversação livres

Queres aprender a falar outros idiomas e ao mesmo tempo conhecer escritoras, livros, personagens, histórias..?

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Para muitas pessoas, a parte mais difícil de aprender um idioma novo é a conversação. Isso não é surpresa, pois dependendo da rotina, a oportunidade de conversar em inglês, português, francês, espanhol ou italiano e desenvolver a fluência pode ser rara no nosso quotidiano.

A Confraria Idiomas & Literatura promove aulas livres de conversação em 05 idiomas para pessoas interessadas em desenvolver as suas habilidades comunicativas. Cada aula possui a duração de 2h e decorrerá em mini-grupos, durantes os meses Junho e Julho, sempre às 19h.

Cada semana, uma das colaboradoras do Ciclo Idiomas & Literatura se reúne com as/os participantes para praticar um idioma e viajar pela literatura do mesmo.

As conversas abordam vários temas relacionados com a Literatura da língua escolhida e a monitora ajuda as/os participantes corrigindo os seus erros, dando dicas, e introduzindo novo e variado vocabulário ao mesmo tempo que e exploram o seu universo literário de cada idioma.

Gostavas de experimentar?
Para reservar o teu lugar ou tirar dúvidas, entre em contacto connosco através do email livrariaconfraria@gmail.com

Nº mínimo: 3 alunos/máximo 6
Duração: 2h
Semana: 1 vez por semana
Mensalidade: 30€ | Sócias de vida e estudantes 25€
Aula avulsa: 8€
Horário: 19h | dia da semana a designar para cada idioma (2ª, 3ª, 4ª ou sábado de manhã)
Idiomas: inglês,português, francês, espanhol ou italiano

Sábado 12 de Maio, um pedacinho da Palestina na Confraria

A Confraria Vermelha e a autora  Shahd Wadi   têm o prazer de a/o convidar para a apresentação do livro  “Corpos na Trouxa | Histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” de Shahd Wadi

Contamos com a presença de todas e todos na sábado, 12 de Maio, pelas 16h30 na Livraria Confraria Vermelha.

16h30

Apresentação do Livro 

“Corpos na Trouxa | Histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” de Shahd Wadi

O livro será apresentado por Cristina Néry, a que se seguirá uma curta intervenção da autora e leitura de alguns excertos do livro.

Sinopse
Enquanto mulher palestiniana, trago comigo este livro como o meu próprio corpo na trouxa do exílio. “Corpos na trouxa” trará também consigo um dia o meu corpo na trouxa do regresso a uma Palestina livre. Foi a trouxa que me deu a conhecer a história do exílio da minha família da Palestina. E foi ela que me ensinou a conhecer-me a mim mesma. De tudo isto trata este livro.
“Corpos na trouxa” são as histórias de vida de mulheres palestinianas no exílio contadas pela arte e pelos corpos. Através de criações artísticas e culturais contemporâneas, estas mulheres narram a história da Palestina que acontece no seu corpo, uma história que é também a minha. Fica a pergunta: será que podemos recriar nos corpos e na arte o nosso lugar perdido e a nossa base de resistência feminista e palestiniana?
Um poema, um filme, uma pintura, um romance, uma música, uma fotografia – eis as trouxas do exílio, que não só acolhem os nossos corpos, as nossas memórias e histórias de vida, como são o lugar onde exercemos a nossa resistência. Este livro é também a minha resistência.

Sobre a autora

Shahd Wadi. Palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Procurou as suas resistências ao escrever “Feminismos dos corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências”, tese de mestrado em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra, a mesma instituição onde veio a obter o doutoramento. Para os respetivos graus académicos, ambas as teses foram as primeiras no país na área dos Estudos Feministas. Foi então selecionada para a plataforma Best Young Researchers (erd). Na sua investigação, que serve de base a este livro, aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua.

18h00

Apresentação do projecto “Espaços livres de apartheid sionista, racismo e anti-semitismo” pelo Grupo Acção Palestina

Inauguração da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres como espaço livre de apartheid sionista, racismo e anti-semitismo | Grupo Acção Palestina 
Colocação do símbolo de “Espaço livre de apartheid sionista, racismo e anti-semitismo”, por Shahd Wadi.