Literatura árabe contemporânea (1)

Apontamento para pensar

Hypatia of Alexandria

É evidente que cada país vive encerrado no seu próprio mundo. Apesar de chegarem a Portugal anualmente diversas traduções, são habitualmente dos mesmo lugares: de Inglaterra e EUA na sua maioria, seguidas da França, Alemanha, Itália, Espanha, um bocadinho do norte da Europa. O resto do planeta, com excepção do que estiver consagrado pelo cânon literário, não chega. Permanecendo desconhecido para a maioria das leitoras e leitores portugueses. É o que acontece com a literatura árabe. Sabemos que teve a sua idade de ouro há uns séculos atrás, intuímos que na actualidade continuam haver escritoras e escritores que publicam coisas interessantes mas que não chegam traduzidas a terras lusas.

Vamos até ao Egipto…
Que escritores e escritoras conheces?

Talvez o nome de Naguib Mahfuz não seja completamente estranho, foi Nobel da Literatura em 1988. Mas se menciono os nomes de Nawal El-Saadawi ou Ghada Samman ou Fatima Naut tudo fica mais difuso, certo!?!?!

Se o nome dos escritores Naguib Mahfuz, Naguib Mahfuz ou Ibrahim Aslan não surge facilmente no nosso mapa literário pessoal, nem quero imaginar o que acontece com o das escritoras citadas. Na actualidade existe um desconhecimento, não só a nível académico mas geral das escritoras egípcias, assim como das árabes, pois a maioria das vezes não são citadas nem divulgadas quando se fala de Literatura Árabe.

Espero que este breve apontamento para pensar seja apenas a ponta do iceberg para começar a descobrir a Literatura Árabe Contemporânea (e clássica também) e as escritoras egipcias. Feita esta partilhareflexão salto directamente para a minha leitura, Woman at Point Zero de Nawal El-Saadawi.

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Woman at Point Zero de Nawal El-Saadawi

Woman At Point Zero,  é a história de Firdaus uma mulher condenada à morte no Egipto pelo assassinato do seu proxeneta. Ela sabe que vai morrer porque supõe um perigo para os que mandam, pois deixou em evidência toda uma rede de mentiras e sujidade. Para preservar o patriarcado e as suas mentiras Firdaus tem de desaparecer.Woman At Point Zero de Nawal El-Saadawi
Desde criança se viu submetida aos mandatos dos homens e vemos no avançar da história como a sua raiva se vai acumulando. Primeiro o pai, um pequeno ditador,  depois o tio que a condena a um casamento com um homem nojento que a maltrata. Ela foge e em cada fuga outros homens a vão encurralando para se aproveitar dela.

Num determinado momento da sua vida escolhe a prostituição para sentir que pelo menos  por uma vez é ela que decide algo na sua vida. Mas nem nesse momento, ela consegue manter a sua “liberdade” pois os proxenetas rondam e ninguém consegue dizer ‘não’,  a um homem que com ameaças e força te obriga a trabalhar para ele. Firdaus não é uma assassina,  é uma mulher que se revela, que se nega a subjugar-se uma e outra vez, que se nega a ser menosprezada e torturada reiteradamente.


Neste romance de Nawal El-Saadawi, encontramos uma prosa calma, em ocasiões hipnótica com esses olhos negros que são o fio condutor e que colocam em relação os sentimentos de Firdaus, o que é um alívio entre tanta crueza.

Texto escrito

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Estação Onze não é um romance pós-apocalíptico

A ficção científica é um novo ponto de vista. Não é uma previsão, mas um exercício de imaginação baseado no presente.

Na introdução do seu livro, A Mão Esquerda da Escuridão, a Ursula K. Le Guin (cito esta autora porque graças a ela o meu interesse pelo género cresceu) explica melhor o género:

“Toda a ficção é uma metáfora. A Ficção científica é uma metáfora. O que a separa de formas mais antigas de ficção parece ser o uso de novas metáforas, tiradas de alguns grandes dominantes da nossa vida contemporânea”

Com esta breve, brevíssima introdução sobre a ficção científica passo directamente para o livro que me motivou a escrever este texto Estação Onze de Emily St. John Mandel.

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CHLOÉ POIZAT

…Houve a gripe que explodiu como uma bomba de neutrões sobre a superfície da Terra e o choque do colapso que se seguiu, os primeiros anos inenarráveis quando toda a gente viajava, antes de toda a gente se aperceber de que não havia lugar para onde se pudesse ir…

Vou começar a falar deste livro partilhando o que para mim ele não é. Estação Onze não é um romance pós-apocalíptico sobre os efeitos devastadores de um vírus que encolhe a população mundial até restar 1% de “afortunados” sobreviventes. Não procurem um ritmo trepidante num novo mundo surpreendente com tom lúgubre e violento. Este livro não querer entrar nesse clube, só pretende contar uma história humana de forma aparentemente simples.

Em a Estação Onze podemos encontrar uma reflexão sobre a essência do que é ser humano, como protegemos esse espírito e de que forma dá-mos forma as redes que nos unem as outras pessoas. Este romance  explora umas personagens as quais lhes resta apenas a beleza das coisas pequenas, um lugar onde já não há nada que distraia e tudo é sobrevivência. Um mundo onde as personagens só se preocupam por aquilo que importa de verdade mas que mantêm um pé no passado que parecia impossível de perder e um pé no futuro que apesar de terrível, não parece dar medo. Mesmo assim sobreviver não é suficiente. A existência precisa de outros espaço nos quais se expressar, já seja num teatro, numa banda desenhada, em cartas escritas a uma amiga que nunca nos responde.

Estação Onze, Editorial Presença, Emily St. John Mandel

Estação Onze é um livro intimista que procura despir as suas personagens, deixando a sua vida e as suas decisões nas mãos da leitora/o de forma pausada e até aprazível. As suas armas são um tremendo domínio de várias linhas argumentais que funcionam em décadas diferentes mas de forma paralela, quase como círculos concêntricos que unem as personagens. É uma história que não querer avançar já que a humanidade ficou suspensa após um sucesso que desencadeia um cataclismo. Por muito que a mudança seja inevitável e uma das poucas coisas que temos seguras na vida, também não nos podemos desembaraçar da memória. Emily St. John Mandel  tem um estilo que combina a simplicidade com as longas descrições que fluem numa espécie de efeito cascata que me pareceu eficaz e atractivo. A prosa não é a protagonista óbvia mas contribui a dar uma personalidade especial a este romance.

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Por último (não entrando em detalhes sobre as personagens porque são o que realmente importa e gostava que fossem vocês a descobrir a sua rede) o que não deixa este romance ser perfeito, na minha opinião, é que uma das suas personagens é um pouquinho cliché e outra podia estar mais desenvolvida. Fiquei com vontade de mais. De mais páginas talvez!? Ter ficado com vontade de mais é algo positivo, não!?! 😊

Estação Onze é um romance que gostei de ler e vocês? Alguém já leu? Não hesitem em partilhar a vossa opinião nos comentários, sinto que é um livro que vai agradar a muitas leitoras e leitores por razões diversas e tenho curiosidade de conhecer as vossas impressões. O que me dizem?

Texto escrito

 

 

Personagem: Olive Kitteridge

A tristeza como forma de vida

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Arquivo de Personagens Femininas

Personagem: Olive Kitteridge
Livro: Olive Kitteridge
Autora: Elizabeth Strout

 

Olive Kitteridge é a personagem do romance com o mesmo nome da escritora Elizabeth Strout.

O romance conta-nos 25 anos na vida de Olive Kitteridge, uma mulher arrogante, estrita, aparentemente insensível mas ao mesmo tempo frágil e, principalmente, profundamente triste. Olive é autêntica, fiel a si mesma, com todas as consequências que isso acarreta, o que torna esta personagem numa mulher insubornável.

É uma personagem que cativa e que está construída para levar o peso do romance. O seu marido, Henry, é um homem bom, que faz tudo por Olive mas que em troca recebe rejeição. Este é o centro da história, assistimos a evolução de um casamento, desigual, onde o marido contribui com amor e carinho e Olive com o desapego. Esta desigualdade afecta também ao filho de ambos que estabelece com mãe uma relação distante.

Olive é uma mulher cheia de contradições, apesar do desapego com que trata o marido e o filho, não hesita em ajudar todas aquelas pessoas que não encontraram o lugar delas no mundo.

Estas contradições no carácter de Olive, tornam difícil simpatizar com ela, mas com o passar das páginas e o avançar da história não só cresce a empatia como a solidariedade,  vamos compreendendo a dura carga emocional com a qual tem de lidar Olive. Ela ama a sua maneira e não sabe como evitar magoar a quem a rodeia. Dela só recebem comentários sarcásticos, olhares frios e respostas que cortam como facas afiadas mas ao mesmo tempo é uma mulher que conhece intimamente a frustração e a solidão.

Este romance explora, com subtileza, a maioria dos arquétipos psicológicos e doenças psiquiátricas: suicídio, bipolaridade, alucinações, depressão, complexo de Édipo…

Apesar da relação complicada que estabelecemos com a personagem, custa-nos abandona-la quando chegamos ao fim do livro. Cada capítulo é dedicado a uma personagem da aldeia e Olive aparece com maior ou menor destaque em todos os eles, transformando-se no fio condutor das histórias.

Strout mexe-se de maravilha num tema delicado como é a insatisfação pessoal. Ao longo do romance somos acompanhadas pela sensação de que as coisas podem melhorar, sentimento que é compensado pelas pequenas alegrias que vamos encontrando. A história está construída sobre e nos detalhes, com uma linguagem reflexiva e cheia de fina ironia. O estilo minucioso de Elizabeth Strout faz com que cada palavra seja importante. A sua decisão de criar uma protagonista mulher, a priori tão difícil de gostar, com a finalidade de que seja a leitora/o quem vá avançando e entrado na sua personalidade para descobrir a verdadeira Olive Kitteridge é o melhor deste livro.

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Texto Escrito

Últimos ritos de Hannah Kent

Últimos Ritos, Saída de Emergência, Hannah Kent

Acho que não vai ser difícil escrever este texto sobre os Últimos ritos de Hannah Kent porque sei exactamente o que gostei e o que não gostei tanto nesta leitura.

Vou centrar o meu texto apenas no que gostei porque quando fechei por última vez o livro, foi o que pesou mais na balança.

Estão preparadas/os para esta viagem? Sim, para uma viagem! Últimos Ritos é uma viagem, uma viagem ao ano de 1828 para conhecer pessoalmente a história de Agnes Magnúsdóttir, a última mulher decapitada na Islândia do século XIX.

Sobre a escritora…
Hannah Kent
nasceu em Adelaide, Austrália, em 1985. Em jovem viajou até à Islândia num intercâmbio do Rotary Club, onde primeiro conheceu a história de Agnes Magnúsdóttir. Hannah é a cofundadora e editora do jornal literário australiano Kill Your Darlings, e encontra-se a completar o doutoramento na Flinders University. Em 2011 ganhou o primeiro Escrever a Austrália – Melhor Manuscrito Não Publicado (Writing Australia Unpublished Manuscript Award).Últimos Ritos é o seu primeiro romance.

Com base em acontecimentos reais, Hannah Kent conta-nos a história de Agnes Magúsdóttir, Fridrik Sigurdsson e Sigrídur Gudmundsdóttir, que foram acusados pelos assassinatos de Natan Ketilsson e Pétur Jónsson em 1828 em Illugastadir, Islândia. É a própria Agnes quem dá voz e desconstrói todo o mistério em redor desta história.

Depois de passar alguns meses em Stóra-Borg, muda-se a Kornsá, com a família do polícia que tem de a vigiar até ao dia da execução. E nesse lugar entre o fumo da badstofa, o trabalho da quinta, a hostilidade dos seus habitantes e um clima gelado e adverso,  onde Agnes nos conta o seu relato perante o olhar atento do reverendo Tóti e a família Jónsdóttir

É possível mudar os preconceitos adquiridos sobre uma pessoa? 

O importante em os Últimos ritos de Hannah Kent não é a história em si, mas sim em como esta é contada e o que a autora nos querer transmitir com ela.

Para mim, o mais fascinante neste livro e o que mais desfrutei foi a sua ambientação. Uma descrição totalmente evocadora de uma Islândia fria, solitária e hostil que não deixa de ser um reflexo fiel de tudo o que a protagonista sente.

A solidão, medo, incerteza, culpa, dor… são constantes nesta leitura, quer em Agnes, quer nas outras personagens secundárias que a rodeiam.

A atmosfera claustrofóbica tenta fazer com que a leitora/o se sinta incómoda/o enquanto lê, que sinta a mesma angustia que sente a protagonista. De certa maneira, é como se a dureza do entorno a estivesse a curtir e a preparar para o que vai acontecer, apesar de que nem Agnes nem a leitora/o estão preparados para chegar ao fim, por muito tempo que se tenha para tomar consciência e aceitar a ideia. A fragilidade por vezes, é um sentimento difícil de se mostrar e mesmo assim, acho que este livro consegue que a vejamos em todas e em cada uma das suas personagens.

Últimos Ritos é uma leitura triste que nasce da impotência e da raiva por não conseguir mudar as coisas, de ter que aceitar as circunstâncias que advém enquanto te resistes ao destino imposto. E mesmo com todo esse desconsolo, há beleza, compreensão e uma espécie de redenção em tudo, o que transforma este livro numa leitura cheia de emotividade e sentimento.

As últimas páginas conseguiram fazer-me chorar intensamente. Se há uma coisa que o final nos transmite é compaixão e empatia. Estes dois sentimentos independentemente daquilo que a pessoa tenha feito, e senti-los faz-nos mais humanos, e na minha opinião, melhores pessoas.

Foi este desfecho que conseguiu surpreender-me, emocionar-me e esquecer-me das coisas que não gostei tanto.

Claro que neste mundo louco em que vivemos e com as atrocidades que se cometem, nem todas as pessoas merecem receber indulgência mas também é certo que tê-la de alguma forma nos ajuda a não ser como essas pessoas, a diferenciar, a criticar e a defender valores que escasseiam.

Por desgraça no passado e no presente existem muitas e muitos Agnes Magnúsdóttir, uns mais culpados do que outros. Merecia o trato que recebeu e uma sentença de morte? A minha resposta é Não, um Não rotundo. Ninguém, no meu entender merece morrer (nem ser torturado) deliberadamente a mãos de outro ser humano, não estou a falar em defesa própria mas sim em assassinar, algo que acho que em nenhuma situação está justificado, nem sequer quando nos amparamos na lei. Sim, sou contra a pena de morte. Não vos parece absurdo impor como pena o mesmo acto que está a ser julgado como delito? Atravessar essa linha acho que nos transforma naquilo que rejeitamos, em assassinas/os.

Mas…
Agnes era culpada? Bem, eu tenho as minhas teorias e uma mão cheia de argumentos que me permitiriam defende-la num julgamento mas não vou partilhar nenhum, o veredicto têm de ser vocês a desvenda-lo lendo este livro até ao fim.

É verdade que houve coisas que gostei menos mas como são tão subjectivas prefiro não comenta-las para não influenciar a vossa decisão de ler ou não este Últimos Ritos de Hannah Kent, estou certa que não vos vai deixar indiferentes e que merece muito a pena conhecer a frialdade que transmite a Islândia de 1828, a pequena badstofa de Kornsá onde Agnes Magnúsdóttir consegui sentir, por primeira vez, que a humanidade e a empatia não eram emoções perdidas.

texto escrito

O humor e a dor das vidas comuns

Mulheres Excelentes é um elogio a todas essas mulheres que passaram, que passam e que passarão (ainda temos muita luta pela frente) imerecidamente inadvertidas.

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Vou começar este texto comentando coisas sem interesse aparente. Primeiro: a crítica inglesa diz que Barbara Pym é a Jane Austen do século XX. Segundo: os seus romances podem estar numa estante nomeada de “alta comédia”, seja lá o que isso for. Ditas estas duas coisas que são uma meia verdade, posso continuar ou começar, o meu texto sobre Barbara Pym.

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Barbara Pym (1913-1980), que foi contemporânea das escritoras Muriel Spark, Jean Rhys ou Iris Murdoch é, na minha opinião, uma escritora inteligente. O seu universo circunscreve-se a classe media inglesa de Londres (em todas as suas esferas e escalões), quer a citadina, quer a periférica e até a rural. Está povoado por clérigos, funcionários de escritório, intelectuais sem muito destaque e um ou outro político, esposas, solteironas caseiras ou que trabalham… ou seja, um mundo habitado por seres normais e quotidianos com vidas que não destacam pela sua singularidade mas sim pela sua convencionalidade;  não pela sua temeridade mas pelas suas ponderações; não pelas suas acções mas pelas suas satisfações quotidianas.

Até é verdade que podemos comparar Pym com a Jane Austen, se considerarmos que ambas escreveram admiráveis quadros de costumes. Mas a diferença é marcada pelo tempo; enquanto Jane Austen retrata a gentry que cresceu graças a reforma agrícola, uma Inglaterra que caminhava para se transformar num Império moderno que chegou ao seu esplendor das mãos da rainha Vitória e da Revolução Industrial, uma revolução que iria acabar com o mundo de Jane Austen. Ao contrário, Barbara Pym, encontra-se num Império em liquidação que decide apertar o cinto e a estar contente com a lembrança daquilo que foi um dia. Desta maneira, o que numa escritora é um retrato de uma classe e uma ordem social que se eleva até uma categoria moral e histórica, na outra há uma aguda exposição das formas que mantém uma classe média de um país que deglute pragmaticamente a sua inevitável decadência.

…o humor de Pym é encantadoramente ácido, que se passeia com simplicidade pelos seus romances mas sem nenhuma ternura ou piedade.

O segundo aspecto que une estas duas escritoras é o sentido de humor. Mais cândido – apesar do olhar perspicaz- e intenso na literatura de Austen. E mais pérfido e implacável na literatura de Pym. Nos romances de Pym tudo é boas maneiras e bons costumes, mas quando ela vai retirando as máscaras das boas maneiras e dos bons costumes, o que encontramos por baixo é uma mistura de vazio, superficialidade e frustração escondidas por baixo de um lindo tecido que a leitora/o vai acariciando e que ao fim de um tempo vai sentido como lhe corta as mãos. Devo dizer-vos que o humor de Pym é encantadoramente ácido, passeia-se com simplicidade pelos seus romances mas sem nenhuma ternura ou piedade.

Mulheres Excelentes

Escrever sobre o livro Mulheres Excelentes é um óptima ideia para despedir 2017 e dar as boas-vindas a 2018 no blog de uma livraria dedicada a literatura escrita por mulheres, porque Mulheres Excelentes é um elogio a todas essas mulheres que passaram, que passam e que passarão (ainda temos muita luta pela frente) imerecidamente inadvertidas.

É um romance fascinante, como um suspiro profundo, não pela trama excitante mas pelas suas personagens inesquecíveis. Seria injusto esperar um enredo aditivo e um ritmo vertiginoso numa comédia de costumes, género no qual se costuma descrever com certa ironia e agudeza a vida quotidiana de uma época.

Não quero que pensem que com isto estou a dizer que o enredo de Mulheres Excelentes é descuidado ou tem pouco interesse para a leitora/o. Pelo contrário, o que quero dizer é que o enredo se desenvolve com base nas relações e/ou acções das suas personagens. Já vos disse que as personagens são maravilhosas?!?! 😊

Entre as personagens de Mulheres Excelentes destaco a protagonista e narradora Mildred Lathbury, uma “solteirona” londinense de trinta e poucos anos com uma vida dedicada aos outros: ajuda nas tarefas da paroquia, ouve e resolve os problemas das suas amizades e por norma satisfaz as necessidades alheias e descuida as próprias.

Mildred tem um olhar clínico na hora de analisar as vidas alheias, mas um comportamento excessivamente obediente e sempre inadvertido e ingrato por parte das outras pessoas, coisa que só a leitora-o sabe. Ao fim das contas Mildred é apenas mais uma das tantas mulheres “solteironas” de uma sombria Europa dos anos de pós-guerra (Segunda Guerra Mundial), onde milhares de homens casadoiros perderam a vida.

É verdade que Mulheres Excelentes é um romance amável, mas Pym, como boa britânica não dúvida, nem por um instante, em denunciar (as vezes subtilmente outras acidamente) a situação das mulheres, que “não tinham nada melhor para fazer” do que servir e ajudar os seus compatriotas, para além de agradecerem essa oportunidade que lhes era concedida de serem úteis.

E assim Mildred, apesar de ter um forte compromisso em ser uma “mulher excelente”, reflecte sobre dita situação, transformando a leitora-o em testemunha de uma personagem que sofre as contradições que afloram quando os convencionalismos de uma sociedade colidem com os sentimentos pessoais.

Acho que é neste ponto que o romance de Pym ganha a sua força, nessa crítica, ao jeito british, de uma sociedade injusta com as mulheres excelentes da época.  Mildred é adorável e encantadora, mas também é dotada de uma ironia e autocrítica fantásticas. A sua extraordinária capacidade de observação fazem com que seja consciente das contradições entre o discurso interno e o comportamento exterior.

Mas a leitora-o, que é quem conhece esse lado crítico e irónico de Mildred, é que percebe que Mildred é na verdade uma mulher excelente, uma mulher excelente sem aspas, uma amiga entregada (o que por vezes leva a mal entendidos), uma mulher agradável sempre disposta ajudar, mas consciente da injustiça que é acreditar que dita entrega é uma bênção para ela e não para os outros.

São estas pequenas nuaces que transformam este romance não só num romance divertido, que o é, mas também uma homenagem a todas as mulheres e um trato burlesco dos convencionalismos que tanto mal têm feito. Resumindo: uma escrita elegante, um humor ajustado e um franco uso de elipses; Barbara Pym é uma maliciosa e fascinante criadora de vidas quotidianas.

Aviso 1: anglófobos abster-se. Aviso 2: Leitoras/os seguidoras da obra de Jane Austen, das irmãs Brönte, de Elena Ferrante, Lucia Berlin ou de Meg Wolitzer, por exemplo, há grandes probabilidades de adorarem este romance.

Outra coisa que prendeu a minha leitura é a inteligência intrapessoal e interpessoal da protagonista. Mildred é super consciente de si mesma e no fim do romance deixa entrever que talvez não vale a pena ser tão firme no papel de “mulher excelente” com aspas. E como leitora essa foi a minha grande alegria, conhecer uma Mildred divertida, inteligente, independente e amável desde o princípio, e que sabe o injusto que seria ignorar o excelente que é.

Também acho injusto que não aproveitem a próxima oportunidade que tenham para ler este romance e descobrir a vossa própria excelência, o que vos parece??!?! :)

Texto escrito

O espírito nómada de Annemarie Schwarzenbach

 

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Annemarie Schwarzenbach e Ella Maillart, fotografia de Marianne Breslauer | mais fotos aqui

“History doesn’t repeat itself, but it does rhyme.”                                Mark Twain

 

Existem outras viajantes mais indómitas, audaces, perspicazes até mais comprometidas mas nenhuma tão triste como Annemarie Schwarzenbach.

A tristeza flui na sua escrita comovedora, O Vale Feliz consagrado “ à vida errante e a ausência de esperança”, só é comparável à melancolia que infundem as suas fotografias, especialmente os próprios (auto)retratos da viajante. Fotógrafa e escritora, um “rosto de anjo inconsolável”  como disse Roger Martin du Gard, um dos seus grandes admiradores.

Entre as admiradoras e admiradores encontramos a também escritora Carson McCullers, tal era o fascínio que tinha por Schwarzenbach que lhe dedicou o romance Reflexos Num Olho Dourado.

mais info sobre o livro aqui

Annemarie Schwarzenbach (1908-1942) o ser inconformado de uma família de ricos industriais têxteis de Zurique, morfinodependente, íntima dos malditos Klaus e Erika Mann, suicida em potência (contudo morreu de uma queda de bicicleta), reporte, arqueóloga, escritora de atormentada exigência, lésbica, sucumbiu ao lado negro da vida num naufrágio existencial doloroso que nos deixou páginas belíssimas. A sua biografia com a procura desesperada do amor, as fugas, as dependências, a sua difícil relação familiar (nunca conseguiu escapar ao domínio da sua marcial mãe, filha de um general e de uma Bismarck, que acabou por destruir, após a morte de Schwarzenbach grande parte dos seus escritos) é das que nos deixa o coração endurecido.

Resultado de imagem para Annemarie Schwarzenbach Circe, 1991
Annemarie Schwarzenbach de Dominique Grente e Nicole Müller, Circe, 1991

“Escolheu o caminho complicado, a senda do inferno” escreve a sua compatriota e viajante Ella Maillart, com a qual viajou em 1939 de carro desde a Suíça até ao Afeganistão, ambas ansiosas por respostas vitais, como duas Dorothy’s à procura de um inexequível mago de Oz do Hindu Kush.

 

Schwarzenbach é inesquesível

Cristina a personagem de La voie cruelle (A Via Cruel na edição portuguesa), livro no qual Maillart recolhe a experiência do erradio pré.hippy em direcção a Kabul e que se transformou num clássico da literatura de viagem e que até deu espaço para um filme. “Acreditava no sofrimento. Venerava-o como fonte de toda grandeza”, aponta Maillart, que mudou o nome da sua frágil companheira, a qual muitos confundiam com um rapaz pelo seu aspecto andrógeno, em consideração por ela, pois o seu relato tem dados íntimos que expõe. Ella Maillart terminou cansada da sua desequilibrante acompanhante, do demónio que a percorria, da sua inesgotável sede do absoluto, das suas crises, das suas recaídas com a droga, da sua desmesurada sensibilidade. Mas nunca deixou de se sentir atraída pelo seu encanto e a sua fecunda vulnerabilidade. Schwarzenbach narra esta mesma viagem em vários relatos reunidos em  Alle wege sind offen. Die reise nach Afganistán, 1939-1940.

Ver livro

 

 

 

 

 

 

 

 

Voltemos ao O Vale Feliz, no qual a autora mistura crónicas de viagem, diário pessoal, autobiografia e ficção…  tornando-o num “texto híbrido” como menciona Gonçalo Vilas-Boas no pósfacio (edição Teodolito), ” onde a escritora se sobrepõe à viajante, encontrando, no ato da escrita, na palavra  e na criação uma nova linguagem uma liberdade que não encontra na realidade”. 

A velha Pérsia era para Schwarzenbach um lugar propício no qual emoldurar a sua angústia, os seus medos e obsessões. “O que procuras na Pérsia?” Perguntou-lhe Malraux. Ela procurava materializar a sua inquietação. Encontrou uma terra baldia e elementar na qual projectou o seu sofrimento, um país que lhe oferecia ao mesmo tempo um território de escassez e inominadas tentações (para a sua adição, para as suas crises mentais e para os seus amores lésbicos).

A tristeza da Pérsia, a sua beleza letal é um dos temas de O Vale Feliz, do qual emanam imagens inesquecíveis como as dunas transformadas em ondas mortas ou a caravana fúnebre com camelos… As ruínas de Persépolis, os fragmentos das civilizações esquecidas, o trote dos nómadas, as tempestades de areia, Mazandaran, paradigma da melancolia… tudo é escrito/descrito através do prisma da dor e só através dessa perspectiva é que faz sentido. Como se o Irão por completo existisse apenas para sumir a escritora numa frutífera e desoladora “depressão persa”, como ela própria descreveu o mórbido estado no qual se encontrava em 1939, foi durante uma cura de desintoxicação que escreve e rescreve O Vale Feliz (O  Vale Feliz surge da reescrita do texto anterior Morte na Pérsia mas ao contrário do que podem estar a pensar não estamos perante duas versões da mesma obra e sim, de duas obras com pontos em comum).

Os diferentes episódios evocam restos da sua biografia: a sua relação amorosa com uma mulher do Teerão (a filha do embaixador turco), o seu breve casamento com um diplomata francês para esconder a sua lesbiandade, as escavações em Rhages, a sua tortuosa necessidade de se comprometer na luta contra o nazismo, as febris e chorosas excursões ao vale de Lahr, a procura da pureza, os cachimbos de haxixe e a vodka das noites arqueológicas…

O Vale Feliz de Annemarie Schwarzenbach

A parte mais intensa e lírica

O Vale Feliz, é a enlouquecida descrição que a autora faz do seu encontro com o seu anjo, uma figura que surge das profundezas da psique de Schwarzenbach e da memória ancestral do país. Na antiga escatologia iraniana, quer no mazdeísmo quer no maniqueísmo, o anjo é uma presença recorrente e era tido como um duplo celestial e uma presença tutelar (as fravartis guardiãs ou as daenas, jovens que ajudam a alma na batalha contra os demónios que as assaltam).

A imagem da perfeita viajante solitária debatendo-se com o seu anjo nu, que tem as suas mesmas feições, junto à pirâmide nevada do monte Demavend, resulta uma metáfora esmagadora da vida e da paixão de Annemarie Schwarzenbach. Uma existência que ela mesma resumiu num grito pungente: “Deixem-me sofrer!”

Texto escrito

________LIVRO em DESTAQUE na LIVRARIA________

Para celebrar o segundo aniversário da Confraria propusemo-nos o desafio de editar, alternadamente, jovens escritoras e resgatar autoras clássicas, um livro por ano.

Continuamos fiéis ao nosso lema #juntas fazemos acontecer, por isso lançamos uma campanha de pré-venda/edição coletiva, para que te juntes a nós na edição deste livro e nos ajudes a construir o quarto próprio de uma nova escritora.

Vamos a isso?

O Interior Profundo de Diana Fontão é um livro que nos acompanha no caminho que seguimos e explora connosco as possibilidades em que nos vamos fragmentando nesse caminho.

A leitura torna-se uma viagem ao interior do ser humano, onde este se perde e reencontra várias vezes nos pensamentos sobre a vida, a morte, e sobretudo sobre as minudências e grandezas da humanidade.

O Interior Profundo é um livro onde a palavra órfã se torna carne e onde a escrita circula livremente.

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Sensibilidade e Bom Senso e o Patriarcado – Jane Austen parte II

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Sensibilidade e bom senso  é escrita, ou sendo mais rigorosa, é esboçada no ano de 1797, com o título de Elinor e Marianne (que sem dúvida nenhuma é um romance epistolar), e é revista posteriormente em 1809 com a finalidade da sua publicação. Que tem lugar em 1811, mantendo o anonimato da escritora.

Neste romance Jane Austen coloca em cena duas heroínas com personalidades opostas: por um lado esta Elinor, jovem inteligente, um verdadeiro modelo de paciência, autocontrolo e moderação, do outro lado temos a sua irmã Marianne, uma romântica impertinente dotada de uma grande sensibilidade. A primeira esconde os seus sentimentos por Edward Ferras e a segunda aparece em público sem pudor algum na companhia de John Willoughby, um jovem sedutor e carente de moral.

Juntas experimentam as suas primeiras emoções amorosas quando descobrem que as duas pessoas por quem se apaixonaram estão comprometidas com outras mulheres. Marianne entregasse à pena e adoece. Contudo recupera e acaba por conhecer outro jovem que se apaixona por ela e com quem termina por casar tempo depois. Elianor mantém a sua dignidade até ao fim e para surpresa dela Eduard pede-lhe em casamento. Até aqui parece que vamos ler as histórias românticas das suas protagonistas mas…

Sempre há um ‘mas’ nos romances de Jane Austem! 

Sensibilidade e Bom Senso e o Patriarcado

Neste romance de Jane Austen podemos ver como há uma ausência total do patriarcado, que toma forma (ou não) no patriarca da família, as protagonistas crescem sem pai.

É interessante ver neste romance a morte do patriarcado e a posterior negação do seu sucessor em assumir o seu lugar.

Após a morte do Srª Daswood, Elinor, Marianne e Margaret ficam sem protector e o ser meio-irmão não serve para as proteger ou zelar pelo seu bem-estar. A tal ponto, que as protagonistas têm de abandonar o lar para que seu meio-irmão e a sua esposa o ocupem. É interessante ver neste romance a morte do patriarcado e a posterior negação do seu sucessor em assumir o seu lugar.

A autora expõe bem os problemas que surgem da falta de um patriarcado/patriarca em mentes mais sensíveis, como a de Marianne ou mostra como quase não afecta quando se tem uma mente prática e racional como a de Elinor. Colocando assim em evidência a educação recebida pelas mulheres. Isto acontece porque o Srº Dashwood deu uma educação racional, prática tornando-a numa adulta capaz de pensar e gerir a sua própria vida, a filha mais velha, Elinor. O mesmo não aconteceu com Marianne que teve uma educação conservadora acorde com os valores época.

Nas primeiras páginas do romance Jane Austen deixa claro esta diferença de carácteres e vemos como Elinor, perante a ausência do pai, assume o papel de cabeça de família. Vemos como esta personagem coloca em causa os comportamentos excessivamente sensíveis e apaixonados da irmã pois estes roubam-lhe a liberdade e a autodeterminação. Elianor não rejeita o amor ou apaixonar-se mas tenta que isso não lhe retire a sua autodeterminação de gerir a sua própria vida. Marianne perde o rumo e a saúde por entregar tudo em mãos do amor, percebendo após a doença que o amor não é perdesse a si mesma e sim encontrasse.

Austen tenta neste romance difundir ideias através das quais as suas personagens, em aparência conservadoras, promovam, com a sua atitude e raciocíno, uma mudança na vida das mulheres.

Seguindo as premissas que Wollstonecraft expõe em Uma Vindicação Dos Direitos Da Mulher, Austen reclama a eliminação do patriarcado que confinava a mulher ao espaço privado e de submissão. Através de uma boa educação que procura fortalecer o corpo e instruir o coração, de maturidade, de racionalidade e independência, a autora consegue que as suas heroínas cresçam, e se desenvolvam longe da autoridade parental alcançando a sua autorealização pessoal, evitando que simplesmente passem da tutela de um pai para a tutela de um marido.

Tal como Wollstonecraft, Austen não acredita em heroínas com poder ou autoridade sobre os homens mas sim sobre elas mesmas para que tenham a capacidade de escolher o seu próprio destino, rejeitando o patriarcado que obriga a mulher à subordinação e ao nulo desenvolvimento intelectual e social.

Texto escrito

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