Não existem diferenças de género

Esta semana tive a visita da Confreira Marta Correia que veio trazer o cartaz do Colóquio Internacional_Queering Luso-Afro-Brazilian Studies (que bonito ficou!) e confirmar a presença da Confraria Vermelha Livraria de mulheres no colóquio com uma banca/seleção de livros queer(izantes).

Quando semanas atrás Ana Luísa Amaral nos falou do colóquio e nos lançou o desafio de montar uma banca com livros e autoras queer(izantes) ficamos logo empolgadas e agradecidas por contarem connosco mais uma vez! Desculpem repetir tantas vezes a palavra queer(izantes) mas tem uma sonoridade tão queer(izantes) que estou viciada.

Quando leio que dois dos eixos de trabalho são a desconstrução de papéis sociais e novas identidades sexuais e Leituras queer(izantes) de textos literários e objectos artísticos, salta na minha cabeça a imagem da escritora Ursula K. Le Guin e o seu livro The Left Hand of Darkness.

A obra literária de Le Guin destaca-se na Fantasia e na Ficção Científica, tendo sido destacada em 2003 com o título de “Gran Maestre” pela SFWA.

The Left Hand of Darkness
PVP Confraria 9€ encomendar: livrariaconfraria@gmail.com

Em The Left Hand of Darkness, Le Guin cria muito mais que uma história de ficção científica. A obra explora uma sociedade na qual não existem diferenças de género: os indivíduos possuem características masculinas ou femininas de forma aleatória ou bem forçada através do uso de drogas. Logo, qualquer indivíduo pode assumir funções como dar à luz ou conceber filhxs durante um período de tempo.  Numa sociedade com tais características, na qual não existe uma polaridade sexual, as divisões de género diluem-se, ficam inabilitadas e consequentemente, tudo o que estivesse relacionado com a diferenciação entre o “nós” e o “eles”, como por exemplo a ideia de nacionalismo ou guerra. Um romance de ficção científica que marcou um hito e centrou o foco na sexualidade.

Umas horas sem distinção de géneros no planeta feminista de Ursula K. Le Guin

Gethen, mais conhecido como Inverno, é um planeta extraterrestre no qual, como já mencionei, não existe distinção de géneros. Os seus habitantes são hermafroditas durante três semanas ao mês, exceto uma na qual podem adaptar caraterísticas fisiológicas masculinas ou femininas. The Left Hand of Darkness é lançada ao mundo em 1968, quando os debates sobre género fluído (gender fluid) ou transgénero (Transgender) eram ainda embrionários. Ela sempre disse que o seu romance representa um “activismo deliberado”, quer contra a misoginia, a transfobia e o racismo quer contra as políticas belicistas. Le Guin define esse período de tempo no qual os habitantes de Inverno podem escolher entre o género masculino ou feminino como Kémmer. A autora considera que  o Kémmer pode colocar em risco aspectos políticos da sociedade, a ausência de género é o que dá a garantia da inexistência de guerras ou conflitos em Inverno. Le Guin revogou a ideia do “outro” porque considera que alimenta a intolerância e desencadeia a violência.

A Mão Esquerda das Trevas não só nos apresenta uma utopia no que diz respeito ao género, mas também sobre raça e rejeição da violência.

O protagonista da A Mão Esquerda das Trevas (título da edição portuguesa que no momento se encontra descatalogada) é um homem normal que vai até ao Inverno para negociar em nome da federação de planetas. Genly Ai traz consigo todos preconceitos de uma sociedade dividida por géneros, motivo pelo qual se consideram os gethenianos “homens infelizmente afeminados”. Ursula K. Le Guin não nos descreve a personagem como sendo um misógino malvado, mas sim como um homem com as opiniões condicionadas pelo seu lugar de origem, mas também disposto a aprender e deixar-se influenciar por esta raça tão diferente (e incrível).

Há um tempo atrás numa entrevista ao New Yorker, a autora comentou que a sua personagem “aceita que as mulheres, dependendo de cada sociedade, são mais deveis que os homens, mais tortuosas, menos valentes e física e intelectualmente inferiores. Este preconceito de género existe há milhares de anos em tantas sociedades diferentes que era impossível não o levar ao futuro.”

A Mão Esquerda das Trevas não só nos apresenta uma utopia no que diz respeito ao género, mas também sobre raça e rejeição da violência. Inclusive, Genly Ai vem de um mundo onde existe a divisão por sexos mas desapareceu a diferenciação por raças. No livro, vemos como a personagem negra não se reconhece como tal porque no seu lugar de origem a cor da pele já não é uma característica etnográfica.

“Eis aqui a minha armadilha de activista malvada: Construa o seu herói como um homem negro mas não diga nada até que quem lê esteja identificado com essa personagem, só depois fale-lhe desse detalhe. Ey, não sou branco! Mas sabes uma coisa? Sou Humano”, explica a autora. O maravilhoso (e inquietante) deste livro é que as decisões que Le Guin foram tomadas há 5 décadas atrás pensando no nosso presente e que estas questões já estariam superadas mas…

Eu agradeço-te muito Le Guin por teres ido contracorrente num mundo de homens, de homens brancos. Esta pessoa que é também escritora mostrou-nos nos seus livros o reflexo das partes mais feias e arraigadas da sociedade através de uma escrita fluida e clara. Decidiu ir pelo caminho da fantasia e da ficção científica…

criar fantasia é vulnerar a razão. Podem (a)parecer sociedades alheias, estranhas e desconhecidas mas com uma explicação científica para a sua existência.”

Ursula K. Le Guin

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