UMA LEITORA COMUM –  Ouse, ouse… ouse tudo!!

 Ouse, ouse… ouse tudo!!

Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar a sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda… a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!
Lou Andreas Salomé

Leio e leio sobre escritoras. Não por ter interesse, como disse Djuna Barnes “num grandioso estilo, na beleza de expressão, no fulgor do engenho e nas personagens”, mas por querer descobrir os mundos mentais nos quais habita cada escritora, os quais a sua obra é testemunho. Descobrir o seu olhar, a sua forma de compreender o mundo e de explicar as coisas.

Na Rússia com Rilke O Bosque da Noite de Djuna Barnes

 

 

 

 

 

Também leio teoria, reflexões, ideias, diários e interpretações, fascina-me o esforço mental que me exige este tipo de leitura e a inteligência que emanam as suas palavras perante os meus olhos bem abertos.

Ler é um privilégio que devia ser um direito, todos as pessoas deviam ter as ferramentas e a possibilidade de desenvolver o seu eu leitor. Poder escavar, dar voltas, atrever-se a dizer, a construir mundos com as suposições que cada pessoa faz das obras que lê.

Diário - 1915-1926 de Virginia Woolf

 

 

 

 

 

 

 

Leio e leio escritoras. Os seus romances, os seus ensaios e a sua poesia… faço-o principalmente para procurar ver se algo se move, se algo se sente, se acontece algo no meu interior.
Em cada leitura “vemos o que está ali para nós. Absorvemos aquilo que permitimos que penetre” escreveu alguém uma vez.

É verdade que muitas vezes não acontece nada mas quando acontece é… Não consigo descrever o prazer que me provoca. Durante dias essa leitura habita em mim com luz própria, acrescentado, transformado-me. E nasce o desejo de partilhar essa luz, esse livro. Sentir o impacto da leitura assim como ler várias vezes a obra, não dá o direito de a explicar a outras leitoras e leitores.

Nem se querer tento explicar um livro, prefiro recriar, inventar, partilhar com outras leitoras a minha leitura (como fazemos no
Clube de Leitura). Um dia li um crítico (não recordo o nome, desculpem) que dizia, ‘reconstruo e organizo os textos numa ordem pessoal que não oculta afinidades’.
Por isso, quando escrevo sobre os livros que leio, os meus textos não são, nem procuraram ser, uma aproximação crítica mas sim afectiva desde quem sou: leitora, livreira, curiosa, ibérica, feminista… As minhas palavras são sempre diferentes, umas vezes mais reflectidas outras mais emotivas, outras mais curiosas…

   

Leio e depois escrevo pelo prazer de fazê-lo, pelo prazer de partilhar o efeito da leitura em mim e o pensamento. Às vezes para fechar um círculo interno e chegar a algum sítio, mesmo não sabendo muito bem qual…

“¿ A dónde llegué? ¿A dónde había que llegar?”.
Gloria Gervitz

 

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Um vasto mar de contradições

O livro do clube de leitura de junho não teve unanimidade nas valorizações das leitoras. Tivemos Pandoras que gostaram e outras que não conectaram com Vasto Mar de Sargaços de Jean Rhys.

Jean Rhys e o seu vasto mar de lamentações

Ella Gwendolen Rees (Jean Rhys), nasceu em 1890 na ilha da Dominica, quando ainda era colônia britânica. Filha de um galés e de uma criola descendente de uma família de proprietarios de plantações, viveu a emancipação dos escravos africanos, a desestruturação social e econômica das famílias de origem europeu e os vai-vém do pós-colonialismo. Na sua biografia podemos descobrir uma infância na qual se sentiu abandonada e rejeitada pela mãe, o que a marcou profundamente. Um alcoolismo que nunca superou, vários maridos, os homens sempre estiveram na sua vida como apoio e sustento econômico. A escritora sempre teve uma preocupação pelo dinheiro, pela aparência e pelo reconhecimento literário, que chegou tardiamente com a obra Vasto Mar de Sargaços de Jean Rhys, considerada uma das referências da literatura inglesa do século XX.

Vasto Mar de Sargaços de Jean Rhys foi publicado 1966 e como mencionei supõe o reconhecimento da escritora depois de cinco romances que passaram bastante despercebidos e que a afastaram da cena literária. O livro tem como ponto de partida a personagem Antoinette Cosway, a primeira esposa de Rochester, a enigmática personagem do romance Jane Eyre de Charlotte Brontë. O jogo literário é a partida interessante, a esposa louca que vive encerrada num sótão e que termina provocando um incêndio e suicidando-se, e da qual apenas temos um esboço na obra de Brontë, o que deu liberdade a Rhys para (re)construir o seu passado.

A obra de Rhys está repleta de elementos autobiográficos, a autora constrói uma personagem desgarradora mas pouco profunda, uma protagonista com uma infância onde lhe falta amor mas lhe sobram penúrias e momentos dramáticos que lhe provocam uma constante insegurança e uma persistente sensação de melancolia e solidão. De certa forma é uma personagem oposta a Jane Eyre, que teve uma infância igual ou mais terrível que Antoinette mas que tenta contrariar o seu destino com um carácter animoso e resiliente, Rhys cria em o Vasto Mar de Sargaços, o oposto, uma anti-heroína, uma personagem real, reconhecível mas com a qual nem sempre vamos empatizar, uma personagem na qual podemos reconhecer muito da própria autora, ambas arrastaram uma autodestruição desde a infância.

A falta de autoestima levam a Antoinette a afastar-se de quem lhe pode proporcionar felicidade, a estrutura patriarcal priva-a de todos os seus bens e até do próprio nome. Como uma marioneta, como uma boneca, a jovem sente que não pode controlar o seu destino e deixa-se cair em queda livre até ao inferno. Antoinette sofre o desgarro do que pressupõe viver entre duas culturas, ama a ilha e ao mesmo tempo tem medo da sua própria gente, luta por pertencer a um lugar, e é o facto de ser levada para fora de esse lugar o que por fim a conduz a loucura.

Toda a peripécia vital das personagens parece ser uma metáfora da situação política e social. Por um lado Antoinette e a mãe representam o mundo criolo, por outro o esposo representa o colonizador que querer tirar o maior partido possível da ilha mas que nunca chega a amá-la, temos Cristophine, uma personagem magnífica, a escrava que pouco a pouco, com força e inteligência, vai tomando as rédeas da sua liberdade e o seu futuro. Junto a estas personagens temos os criados, o povo do caribe, também entre dois mundos, ignorantes e poderosos, perpetuam a vingança do seu povo: violentos e presos a magia e ao mistério pouco a pouco vão tomando a possessão da terra.

Há leitoras que destacam neste livro o seu estilo contemporâneo, os jogos estruturais com mudança de narrador, o lirismo com o qual se recria o ambiente, a exuberância, o calor, a beleza da paisagem assim como os estados de ânimo das personagens. Outras leitoras destacam a exposição clara de certos temas e há quem destaca as incoerências da narrativa face a obra que tem como ponto de partida e a pouca clareza da prosa.

Vasto Mar de Sargaços retrata uma época na qual a mulher pertence ao homem (até 1880 legalmente a mulher era considerada um bem que primeiro pertence ao pai e depois ao marido) e que nem sequer tem direito a um nome, uma época na qual os povos colonizados se levantam contra os seus opressores, Rhys escreve uma obra que se por um lado nos parece um argumento a favor da liberdade por outro lado não é mais do que um lamento e um olhar sobre os que sofrem, sobre os que não sabem enfrentar as penalidades da vida, sobre os que não sabem lutar, os que não sabem como fazê-lo ou os que simplesmente nem sequer querem lutar.

E vocês já leram Vasto Mar de Sargaços? O que acharam? Partilhem connosco nos comentários, vamos adorar saber as vossas opiniões.
Foto de Confraria Vermelha Livraria de Mulheres.
Mais detalhes do livro AQUI

Aquilo que lemos

Sermos seres racionais faz-nos ter opinião sobre aquilo que nos rodeia e nos contém mas também nos faz cair na armadilha de acreditar que as opiniões são verdades irrevogáveis. Ter opinião, sermos críticas do mundo que criamos é uma tentativa de nos mantermos lúcidas… mas achar que só há uma forma de fazê-lo é elitista, machista, racista ou tudo ao mesmo tempo.

O interessante da literatura é ler.

No que diz respeito aos livros que lemos e aos que não lemos, é interessante observar o processo de desqualificar certas narrativas e ver como o fazemos muitas vezes sem sequer ter lido a obra. E quando falamos de escritoras ou escritores da diáspora literária esta desqualificação sem conhecimento sobre a obra é bem mais evidente. Mas porque lêem/lemos tão poucas escritoras?

Pode ser por falta de interesse no que têm para nos contar, pode ser por preconceito ou pela simples e invisível razão de nem sequer as considerarem. Lembro-me de ter lido uma vez um artigo que falava sobre Clarice Lispector e dizia “Não soubemos lê-la.”
Há umas semanas, a editora Minotauro (obrigada Minotauro!) recuperou a obra de Judith de Carvalho e um leitor disse-me esta mesma frase sobre ela. Provavelmente vocês já ouviram esta frase fazendo referência a outras escritoras. E é assim, que a não consideração das escritoras passa por ser um lapso, uma incapacidade humana de entender a sua narrativa. “Nasceu muito à frente do seu tempo” também é um argumento usado, mas ninguém nasce à frente do seu tempo, é impossível!
Estes argumentos permitem que de quando em vez, algumas escritoras transitem para o grupo das incomprendidas mas das quais devemos falar bem mesmo sem as ler.
Parece-me algo inútil… O interessante da literatura é ler.

Obras Completas Maria Judite de Carvalho - Volume I Tanta gente, Mariana | As palavras poupadas de Maria Judite de Carvalho
Já leram Maria Judith de Carvalho? Descobram este livro AQUI

Mas este processo de considerar ou não uma obra, recorda-nos que quem lê, não chega virgem a um texto, a leitura é uma instituição socializada, lemos aquilo que sabemos ler e isso depende em parte daquilo que lemos, das obras desde as quais desenvolvemos as nossas expectativas e aprendemos as nossas estratégias de compreensão. Algures num texto de crítica literatura li que Umberto Eco disse: “O autor do discurso e o descodificador compreende a mesma coisa porque se remetem a um código familiar, um que já conheciam antes de receber a mensagem”. 
Ou seja, há cânones, códigos, modos, temas, linguagens que temos internalizadas e não gostamos de quem não as cumpre, não nos interessa, numa revista que não recordo, desculpem, li: “As possibilidades, as necessidades, as proibições, o possível de ser pensado e o impensável, o possível e o não possível, é o resultado da interiorização desses códigos e práticas… a génesis social dos padrões de percepção, pensamento e acção.”
De forma mais resumida e nas palavras de Harold Bloom: “Aquilo que és, só isso podes ler”.
E assim, escolhemos ler o que lemos e por consequência assim escolhemos o que dever ser canonizado. Mas este processo assim como as opiniões é irrevogável?!!

Eu intuo que não, acho que estes contratos podem ser revogados e ainda bem que assim é, porque o mais interessante da literatura é ler. Vamos criar juntas um olhar alargado da literatura que quebre barreiras e nos deixem olhar para a realidade em todos os sentidos.

Já conhecem o Interior Profundo de iana fontão? Descobram este livro AQUI

Que escritoras alemãs conheces?

Aproveitando a recente tradução e lançamento do livro FORA DE SI da escritora Sasha Marianna Salzmann vou partilhar contigo, um pouquinho de literatura alemã escrita por mulheres.

Começo por mencionar a escritora Sasha Marianna Salzmann, nasceu em Volgogrado em 1985 e cresceu em Moscovo.
Em 1995 emigrou com a sua família para a Alemanha, onde estudou Literatura, Teatro e Comunicação na Universidade de Hildesheim e Escrita Criativa para Palco na Universidade das Artes de Berlim. Publicou poemas e contos enquanto estudante em várias revistas e foi ela própria co-fundadora do jornal Freitex, que editou durante alguns anos. O seu romance Fora de Si foi agora traduzido para português.

Uma das dificuldades em recomendar escritoras alemãs ou influência alemã a pessoas que não dominam o alemão, é que a escrita alemã, e concretamente a produzida por escritoras, não tem encontrado uma acolhida justa no mercado tradução/editorial português.

Basta pensarmos em Sibylle Berg, por exemplo. Alemã naturalizada suíça, a escritora é uma das presenças mais constantes da vida cultural, não apenas por meio dos seus  livros como também pela sua coluna na revista Der Spiegel. É uma das autoras mais mordazes da literatura alemã contemporânea e alcançou quer o sucesso da crítica como do público com o seu primeiro romance, Ein paar Leute suchen das Glück und lachen sich tot (Algumas pessoas procuram a felicidade e morrem de rir, 1997).

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Inge Müller (1925-1966)

Outras escritoras ainda precisam ser vistas pela sua própria luz, e não sob a sombra de um homem. O caso mais gritante é o de Inge Müller (1925-1966), ex-mulher de Heiner Müller, que chegou a escrever com ele as primeiras peças, tendo a sua coautoria apagada em edições subsequentes.

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Herta Müller

As escritoras vivas mais conhecidas hoje serão com certeza as duas vencedoras do Nobel nas últimas décadas: a austríaca Elfriede Jelinek, em 2004, e a romena de nascimento Herta Müller, em 2009. Jelinek ainda é uma figura controversa, mas Müller tem acolhida de estrela por onde quer que passe. São duas das figuras mais fascinantes da literatura em língua alemã nos dias de hoje.

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Aglaja Veteranyi (1962–2002)

Mas há outras autoras interessantíssimas que precisam ser mais conhecidas, tanto na Alemanha como em Portugal. Há figuras de culto, como a também romena de nascimento Aglaja Veteranyi (1962–2002), naturalizada suíça, um dos seus livros mais destacado é Warum das Kind in der Polenta kocht (Porque a criança cozinha na polenta, publicado originalmente em 1999). Ainda na Suíça, mencionaria Mariella Mehr, poeta e romancista nascida em Zurique em 1947, que é do povo ieniche, a terceira maior etnia nómada da Europa. A etnia sofreu perseguições por parte do governo suíço, sendo que a própria autora foi tirada da mãe, ainda bebé, e entregue a várias famílias e institutos. O mesmo ocorreu ao filho dela, que nasceu quando Mehr tinha 18 anos. Essas experiências marcaram profundamente o seu trabalho.

Na Alemanha, muita literatura tem saído da pena de mulheres como Odile Kennel, Monika Rinck, Nora Bossong e Carolin Emcke. Esta última recebeu no ano passado o Prémio da Paz do Comércio Livreiro Alemão, fazendo um discurso de agradecimento em defesa dos direitos humanos e abordando temas como a homossexualidade e o debate sobre o véu islámico. O discurso teve grande repercussão na Alemanha, ao atacar a tentativa de pseudo religiosos e dogmáticos nacionalistas de difundir uma doutrina de um povo homogéneo, de uma única religião verdadeira, de um único tipo natural de família e de uma nação autêntica.

Pensando em todas as escritoras que produzem em língua alemã criamos a estante Literatura Alemã na nossa livraria online onde podes encontrar obras escritas na língua alemã e que foram traduzidas para português. Caso sejas uma das leitoras, ou leitor, afortunada de dominar o idioma alemão podemos encomendar os teus livros nas edições alemãs.

 

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Phillis Wheatley e o reconhecimento da existência de uma literatura legitimamente Afro-americana.

Andamos a reorganizar as estantes da livraria online e entre arrumações nascem estantes como a de literatura de expressividade Afro-americana.

A estante de Literatura Afro-americana nasce da inspiração que nos deixou a poeta Phillis Wheatley (1753-1784). A primeira mulher afro-americana a publicar um livro e conquistar reputação internacional como escritora.

Mas deixem-me começar por escrever sobre Lucy Terry.
Lucy Terry é autora da obra mais antiga conhecida da literatura Afro-americana, um poema com o nome de “Bars Fight”.  Terry escreveu este poema em 1746, após um ataque dos índios locais sobre a cidade de Deefield, no Massachusetts,  sendo escravizada à época da invasão.

O poema foi publicado pela primeira vez em 1854, com um dístico (estrofe em duas linhas rimadas).

Anos depois encontramos a poetisa Phillis Wheatley (1753-1784) que publicou a obra “Poems on Various Subjects – Poemas sobre Vários Assuntos” no ano de 1773, três anos antes da declaração da Independência dos Estados Unidos.  Ela não foi apenas a primeira Afro-americana a publicar um livro, mas também a primeira a conquistar uma reputação internacional como escritora.

Poems On Various Subjects Religious And Moral de Phillis Wheatley

Nasceu no Senegal, África, foi capturada e vendida ao sistema escravagista com a idade de sete anos.  Levada para a América do Norte para ser propriedade de um mercador da cidade de Boston.  Ao atingir a idade de 16 anos,  já possuía o domínio integral da língua inglesa.

A escrita de Phillis Wheatley era elogiada por muitas figuras públicas da Revolução Americana, incluindo George Washington, que lhe agradeceu um poema escrito em homenagem a ele. Algumas pessoas da elite americana desacraditavam o facto de uma mulher afrodescendente ser capaz de produzir poemas tão refinados. A poeta teve que se defender em tribunal para provar que tinha sido ela a escrever a sua obra. Alguns críticos citam a defesa bem sucedida de Phillis Wheatley como o primeiro reconhecimento da existência de uma literatura legitimamente Afro-americana.

Na estante de literatura Afro-americana esperam por vocês uma seleção de livros ansiosos de serem lidos. 

 

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flâneur, flâneuse, flâneuseando… O que é uma flâneuse?

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SUITE VÉNITIENNE (SUÍTE VENEZIANA), 1979, Sophie Calle

Uma das memórias mais vivas que tenho da minha infância, são os passeios com a minha mãe pelas ruas da cidade ao domingo de tarde. Passear pelas ruas em pausa, ver as montras das lojas em descanso, sentar-me na praça a ver as pombas ou comer um gelado nos domingos de verão, são recantos da memória construídos pelos meus pés.

A alegria de passear pela cidade na tranquilidade dos domingos de tarde na companhia da minha mãe é uma das memórias mais suaves e livres que tenho.

“Aspiro à liberdade de sair sozinha: ir, vir, sentar-me num banco do jardim de Tuileries e, principalmente, ir aos de Luxemburgo, apreciar as ornamentadas montras, entrar nas igrejas e nos museus e passear de tarde pelas velhas ruas. Isto é o que invejo. Sem esta liberdade, não é possível ser uma grande artista.”  

I Am the Most Interesting Book of All de Marie Bashkirtseff

Passear pelas ruas da cidade tornou-se um hábito que ainda cultivo.

Quando cheguei à adolescência queria experimentar caminhar sozinha pela cidade mas como muitas outras jovens, interiorizei as objeções culturais que ditam que as mulheres não devemos andar sozinhas. Eu sabia que eram objeções obsoletas e machistas mas tinham deixado em mim certos medos que são difíceis de desmascarar aos 15 ou 16 anos. Contudo e com medo, aventurei-me algumas vezes, caminhei por ruas que conhecia com detalhe o que me fazia sentir segurar mas esse não era o objetivo de deambular pelas ruas. Desejava descobrir recantos novos e não repetir os caminhos já explorados.

Não sei bem que idade tinha, suponho que uns 15 anos, quando convidei uma das minhas amigas para passear comigo, a A.
Ao início a  A. achava estranha a ideia de caminhar sem um motivo concreto parecia uma ocupação excêntrica, achava que era coisa de turista e nós não éramos turistas. Aos poucos a A. começou a achar graça e começamos a traçar percursos novos  a cada domingo.

Apesar de estarmos na década de 90’, e de homens e mulheres poderem passear e usufruir do espaço público em idêntica liberdade (já não precisávamos de nos vestir de homens como George Sand), uma mulher a deambular pelas ruas ainda conservava um elemento transgressor para duas jovens, acho que era isso o que mais agradava a A..
A absoluta liberdade que reside no acto de colocar um pé na frente do outro.

Wanderlust : A History of Walking de Rebecca Solnit
descobre este livro aqui

Em 1997 conheci o R., tinha vindo para o Porto estudar… numa tarde sentados num banco de jardim perto da escola onde estudávamos, partilhei com o R. a minha visão da cidade, uma cidade que memorizei com os pés. Todas as esquinas, ruelas e escadas têm a capacidade de estimular a minha imaginação. Pouco tempo depois dessa conversa de jardim, caminhávamos juntos pela cidade. Era o meu primeiro companheiro de passeio homem.

Nessa época cada passo que dava recordava-me que o dia me pertencia e não tinha motivo para permanecer num sítio que não desejasse estar. Mas também, foi nessa altura que compreendi as implicações de género no acto de caminhar pela cidade (pela natureza, pelo mundo…).

Na companhia de R. experimentei uma invisibilidade que não tinha experienciado na companhia da minha mãe ou de A..

O R. era invisível quando passeava e ao caminhar junto dele eu também me tornava invisível. Nunca tinha parado para pensar nestas questões de visibilidade mesmo tendo desejado muitas vezes ser invisível enquanto caminhava pelas ruas da cidade. Estávamos às portas de entrar num novo século mas uma mulher sozinha caminhando pelas ruas sem um motivo concreto ainda estava carregado de estereótipos que se acentuavam quando as ruas estavam meio vazias ou quando o fim do dia se aproximava.

Flaneuse : Women Walk the City in Paris, New York, Tokyo, Venice and London de Lauren Elkin
descobre este livro aqui

Comecei à procurar de referências e referentes de mulheres que passeavam pelas ruas das cidades, tinha a certeza que existiam mas antes de me encontrar com elas conheci vários flâneurs: Baudelaire, Balzac, Constantin Guys, Edgar Allan Poe, André Breton entre outros. Uma lista interminável de homens, parecia que tinham apagado as mulheres e tornava-se difícil entender o significado que tinha para uma mulher o acto de passear pelas de cidades (pela natureza, pelo mundo…). Foi quando compreendi que a solução não estava, nem está, em fazer que a mulher se ajuste a um conceito masculino (flâneur) mas sim redefinir o conceito em si. Foi assim que me encontrei com as Flâneuses:

  • Marieanne Breslauer
  • Laure Albinguillot
  • Ilse Bing
  • Germaine Krull
  • Georg Sand
  • Jean Rhys
  • Marie Bashkirtseff
  • Agnes Varda
  • Sophie Calle
  • Martha Gellhorn
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Marianne Breslauer. Fotografías 1927-1938 | Museu Nacional d’Art de Catalunya

E de uma recordação foi como hoje nasceu a estante Flâneuse – literatura de viagens e outros passeios. 

Flâneuse [flanne-euhze], substantivo, do francês. Forma feminina de flâneur [flanne-euhr], uma ociosa, uma observadora minuciosa, geralmente encontrada nas cidades. Na estante Flâneuse encontramos literatura de viagens e outros passeios.

Já seleccionamos alguns livros que podem ver na estante virtual e no decorrer dos próximos dias vamos acrescentando mais. Fiquem atentas/os!

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Mulher não é sinónimo de loucura

À luz de diversas teorias, ser mulher tem sido historicamente considerado patológico. A inconstância, a ausência de pensamento e lógica, a incapacidade de refletir eram consideradas características da psique feminina. A independência, a autonomia e a objectividade eram parâmetros de uma personalidade saudável contudo não eram valorizados da mesma forma em homens e mulheres. A dependência, submissão e o sentimentalismo constituíam atributos de uma mente menos saudável ao mesmo tempo que eram esperados e incentivados nas mulheres, que deveriam possuir uma personalidade terna, sensível e cálida.

Todas aquelas mulheres que não cumpriam com estes requisitos da personalidade-edredão podiam ser calificadas de loucas mas quando apresentavam dita personalidade, mesmo que incentivada, eram tratadas como umas ‘totozinhas‘ fúteis e frágeis. Ou seja, como diz o ditado popular, presas por ter cão e presas por não ter.

O conceito de loucura está intimamente ligado aos comportamentos femininos. As mulheres éramos, e ainda não o deixamos de ser totalmente, consideradas loucas por natureza, por bioquímica. Passamos de “estar” doentes a “ser” doentes.

Doida Não e Não!

Maria Adelaide Coelho da Cunha, como nos mostra a escritora Manuela Gonzaga, foi mantida presa num manicómio por ser mulher, por não cumprir o que se esperava dela como mulher, como esposa, como mãe, ou seja, submissão e renúncia, tal como lemos nas páginas do livro, “Tivesse ela mantido as aparências”.

O sistema nervoso das mulheres era designado de instável, com a mínima mudança nas suas vidas as desequilibrava mental e emocionalmente. Neste sentido podemos falar que houve uma “feminização da loucura”.

Feminização da loucura

No século XIX, de facto, considerava-se que a insanidade mental das mulheres começava nos seus próprio órgãos genitais: no útero localizava-se a loucura.

Uma loucura de teoria, verdade?!??

A eterna doença das mulheres até metade do século XX, quando se evidenciou que era uma doença inventada, foi a histeria (hystera, palavra grega para designar o útero): a histeria foi esse saco sem fundo no qual desde Hipócrates até Freud caíram todos os “problemas” de saúde das mulheres e que os grandes ilustrados não conseguiam (ou não lhes interessava) identificar. A histeria é a visão da mulher como um não-homem e se não é um homem, que interesse tem o que ela sente, o que ela deseja, a quem ama?

Dezenas de sintomas encaixavam num diagnóstico de histeria: cansaço, ventre e pernas inchadas, irritabilidade, egocentrismo, apatia, falta de apetite, menopausa, SPM, felicidade, bom humor…. Já vos comentei que éramos ‘presas por ter cão e presas por não ter’. Se estavas apática porque estavas apática, se rias porque rias… tudo podia ser considerado, caso Eles assim o entendessem, como histeria.

A histeria na época vitoriana tornou-se num diagnóstico comum e de certa forma considerava-se normal que assim fosse, as mulheres não eram homens por isso era natural sofre do mal de humores. Às solteiras era lhes prescrito que casassem e tivessem filhxs e as casadas era-lhes realizadas ablações do útero e ovários completamente desnecessárias. Algumas tiveram um pouco mais de sorte e aplicaram-lhes a terapia da “massagem pélvica”, o que hoje compreendemos como masturbação e assim provocar nas mulheres o que se designava de “paroxismo histérico”, o que vem a ser um orgasmo.

Os vibradores como instrumentos terapêuticos (nunca como brinquedos para o prazer) foram usados em luxuosos balneários e divulgados em revistas femininas como aparelhos anti stress até meados do século XX.

No fim da segunda guerra mundial as mudanças impactaram de tal forma a vida das mulheres e a “loucura feminina” que surgiu uma nova narrativa sobre a saúde das mulheres, desenvolveram-se as “drogas legais”, os psicofármacos.

Atualmente 85% dos psicofármacos receitados nos países ditos desenvolvidos estão destinados a mulheres, estes valores não se podem explicar com base em evidências científicas pelo qual temos que pensar que é uma consequência do exercício da biopolítica heteropatriarcal.

Os estereótipos de género ao longo da história, alimentaram a ideia de que as mulheres sofremos mais loucura do que os homens. Mas os estudos académicos de género, ainda recentes e em desenvolvimento, deitam por terra esta ideia, demonstrando que não existe uma discrepância numérica tão vincada como se imagina entre homens e mulheres no que diz respeito à saúde mental em geral. Há sim, uma maior representação das mulheres nas estatísticas psiquiátricas de certos padecimentos, produto e reflexo das iniquidades e opressão que as mulheres experimentamos socialmente. As desordens mentais “tipicamente femininas” são provocadas pelos efeitos da violência e da pobreza que as mulhesazazres enfrentamos quotidianamente.

Durante o século XIX pensava-se que as mulheres tinham uma maior predisposição para certas desordens mentais, eram hospitalizadas com maior frequência e faziam um maior uso ambulatório assim como lhes eram receitados mais psicofármacos do que aos homens e devo partilhar que este cenário mudou muito pouco. Na actualidade, várias investigadores apontam 3 factores de risco aos que se enfrentam as mulheres e que incrementam a sua probabilidade de sofrer desordens na sua saúde mental e emocional: a vulnerabilidade na qual nos coloca a misoginia, os agentes de perda (divórcio, doença ou discapacidade crónica…) e fatores como a depressão provocados pela violência e humilhação sobre as mulheres provocando também baixa autoestima.

“Presa num manicómio por um crime de amor.

Feito este breve e superficial passeio pela vida e a história das mulheres a frase afirmativa da capa do livro se transforma numa questão. Num ponto de ?”.

Numa sociedade machista e classista, que considerava a mulher como um ser secundário e débil que dependia de um homem para ser governada, o adultério sempre foi tolerado, e de certa forma socialmente aceite, contudo mais tolerado nos homens do que nas mulheres e mantendo sempre as aparências, como podemos ler na página 200 do livro de Manuela Gonzaga, onde vemos como Maria Adelaide Coelho da Cunha é socialmente julgada não tanto pelo adultério mas por fazer público o seu desvario abandonando o marido e “fugindo” com o amante. 

Loucura Lúcida

Erro de diagnóstico?

Não. O diagnóstico de Maria Adelaide foi um salva-conduto para manter as aparências. Para honrar a virilidade do esposo. Na página 203 podemos ler “o mais agravado nestas circunstâncias, é o marido de vossa excelência, disse o médico.”

Doida Não e Não! de Manuela Gonzaga narra-nos a história de uma mulher, de Maria Adelaide Coelho da Cunha e coloca sobre a mesa a forma como a saúde mental e a vida afectiva das mulheres  foi vista, avaliada e instrumentalizada. 

 

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