Qual o significado da palavra «antepassada» para as novas gerações?

No contexto deste livro “antepassadas” não faz referência simplesmente as pessoas que nasceram antes de nós, mas sim, as pessoas do género feminino que contribuíram de uma forma essencial para o desenvolvimento científico, tecnológico e cultural. Este livro está destinado principalmente a ser um referente para as novas gerações e para mim (e espero que para ti) um agradecimento às gerações passadas que nos abriram caminho. Não me canso de repetir (para não me esquecer) que ‘porque foram somos e porque somos serão’.

As Cientistas de Rachel Ignotofsky (2018, Bertrand Editora) é o que eu gosto de chamar de livro-memória, um livro que nos ajuda a todas (e a todos) a ser conscientes (e a não esquecer) as contribuições, neste caso científicas, que fizeram as nossas antepassadas desde os séculos antes da era cristã até ao século XXI. Numa época histórica na qual pertencer ao género feminino se vê como um impedimento para qualquer tipo de desenvolvimento intelectual. Conjugo no presente porque como disse Audre Lorde, “Eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que as suas algemas sejam muito diferentes das minhas”, mesmo estando no século XXI muitas irmãs não têm as mesmas oportunidades nem direitos do que eu a aceder a uma educação justa e livre, por isso vou continuar a conjugar a desigualdade no presente do indicativo.

Durante séculos as mulheres estivemos excluídas.

No passado as que destacavam pela sua sabedoria eram consideradas bruxas e eram queimadas na fogueira, mesmo quando se aboliu esta persecução, tão feroz como absurda, os filósofos e cientistas, incluídos os conhecidos como «ilustrados», continuaram a alimentar o mito da absoluta superioridade intelectual masculina. Na maioria dos casos não se reconhecia o contributo das mulheres e muitas vezes quando se admitia considerava-se que tinham tido a influência dos pais, irmãos ou maridos: ou seja, figuras sempre pertencentes ao género masculino.

Na realidade, ao longo da história assim como na época atual as mulheres temos contribuído para o desenvolvimento da ciência tal como o homem, contudo foi-nos exigido mais, nomeadamente conciliar as nossas carreiras com o papel de género de mulher e de mãe, em resumo de cuidadoras. Outro dos obstáculos que tivemos que ultrapassar durante milénios foi o impedimento a termos acesso ao conhecimento e a educação, justificando esta proibição com o facto de apresentarmos, geralmente, menor força física (sermos seres frágeis) como se existisse uma correlação com a força física e as capacidades intelectuais.

As personalidades femininas contempladas neste livro confirmam que as suas capacidades intelectuais não são monopólio do género masculino e podemos também constatar que as mulheres também apresentam uma excelente capacidade de adaptação às condições ambientais. As mulheres conseguimos desenhar o nosso próprio caminho no universo das ciências, como em todos os outros, um universo que pertencia a uma elite sociocultural e de género que podia contar com tutores e apoios vários.

Maria Rouco lê o texto de uma jovem cientista. Obrigada à Maria Rouvisco Monteiro por ter partilhado desde a Antártida o seu testumunho como mulher cientista.

As mulheres que descobrimos neste livro alcançaram grandes feitos assim como muitas outras mas só um número reduzido alcançou o reconhecimento internacional como por exemplo, receber o prémio Nobel, criado em 1901 e que só um 4% dos premiados na área das ciências são mulheres. Este reduzido reconhecimento coloca em evidência o desconhecimento e a reduzida valorização das contribuições das mulheres nos diferentes âmbitos da ciência.

No contexto da Conferência Mundial sobre a Ciência (1999), os estados participantes manifestaram a urgência de garantir a igualdade ao acesso a educação que ainda hoje não é real nem sequer nos países que apresentam um notável desenvolvimento cultural.

O manifesto apresentado alertava que: “Se desejamos que a ciência seja orientada verdadeiramente de forma a satisfazer as necessidades reais da humanidade, é urgente alcançar um equilíbrio na participação de ambos géneros nos diferentes âmbitos da ciência e no seu progresso.” Hoje a presença das mulheres confirma que a capacidade de produzir ciência é um contributo próprio da espécie humana sem distinção de género, classe ou raça sempre que todas e todos tenhamos as mesmas oportunidades de acesso ao conhecimento.

Com este livro-memória e com muitas outras acções para a igualdade desejo que as novas gerações desfrutem do direito, independentemente do seu género, classe ou raça, a utilizar com liberdade as suas próprias capacidades intelectuais.

Um direito que foi negado às nossas antepassadas.

Queria terminar esta partilha agradecendo a presença (da direita à esquerda) da Aline Flor, Jornalista, da Maria Rouco, Contadora de Histórias e da Helena Ferreira, colaboradora do blog Cientistas Feministas nesta tarde de sábado do mês de Abril. Obrigada por terem partilhado com todas as pessoas presentes a vossa leitura de as As Cientistas de Rachel Ignotofsky e obrigada a editora Bertrand por ter traduzido e publicado este livro-memória para que todas e todos o possamos desfrutar.

 

Texto escrito:

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Who Cooked Adam Smith's Dinner?
Autora: Katrine Marçal.
Categoria(s): Economía, Feminismo.
PVP Confraria: 11€
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Dizem que o senhor Adam Smith, é o pai da economia moderna, escreveu que não era pela benevolência do talhante ou do padeiro que podíamos jantar cada noite (os que têm o que comer) mas sim porque se preocupavam pelo seu próprio bem-estar; assim, o lucro fazia girar o mundo e nasceu o Homo economicus. Cínico e egoísta, o Homo economicus tem dominado a nossa concepção do mundo desde então e a sua influência estende-se desde o mercado até à forma como compramos, trabalhamos e flertamos. Contudo, o senhor Adam Smith jantava todas as noites graças a que a mãe lhe preparava a janta, e não o fazia por egoísmo mas sim por ‘amor’.

Hoje, a economia centra-se no próprio interesse e exclui qualquer outra motivação. Ignora o trabalho não pago de criar, cuidar, limpar e cozinhar. Insiste em que se pagamos menos as mulheres é porque o seu trabalho vale menos, porque seria então?!!? A economia tem nos contado uma história sobre o funcionamento do mundo e nós (sociedade) temos acreditado nela.

Mas chegou o momento de mudar essa história!!!! Estás preparada/o?!?!?

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A voz de Natália Correia

Hoje escrevo para partilhar as palavras de Natália Correia.

Natália Correia (1923 – 1993), mulher de paixões, casou quatro vezes ao longo dos seus 70 anos. Fez televisão, foi jornalista, dramaturga, poetisa e estreou-se na ficção com o romance infantil «Aventuras de um Pequeno Herói», em 1945.

Nasceu nos Açores em 1923 e aos 11 anos desloca-se para Lisboa. Foi jornalista no Rádio Clube Português e colaborou no jornal Sol. Ativista política: apoiou a candidatura de Humberto Delgado; assumiu publicamente divergências com o Estado Novo e foi condenada a prisão com pena suspensa em 1966, pela «Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica».

Deputada após o 25 de Abril, fez programas de televisão destacando-se o “Mátria” que apresentava o lado matriarcal da sociedade portuguesa.

Fundou o bar “Botequim”, onde cantou durante muitos anos, transformando-o no ponto de reunião da elite intelectual e política nas décadas de 1970 e 80.

Organizou várias antologias de poesia portuguesa como “Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses” ou “Antologia da Poesia do Período Barroco”.

Natália Correia foi uma versejadora de êxito, uma mulher carismática com uma vida social intensa, não fez concessões à mediania e notabilizou-se por uma vasta obra intelectual.

O espírito indomável de Natália Correia na Confraria

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25 anos da morte de Natália Correia com 2 inéditos: ‘Descobri que Era Europeia’ e ‘Entre a Raiz e a Utopia’

Em Março foram publicados dois inéditos de Natália Correia: Descobri que Era Europeia e Entre a Raiz e a Utopia.

Chegarão à livraria no dia 16 de Março, precisamente volvidos 25 anos da morte da escritora açoriana. Ambas as obras têm introdução e notas da investigadora Ângela de Almeida.

Em 1950, aos 26 anos, Natália Correia visitou os Estados Unidos. Terra de fascínio e oportunidade para muitos emigrantes, o colosso americano é retratado neste livro, nos seus sucessos e contradições, com a penetrante lucidez da autora, já então capaz de intercalar diferentes registos de escrita com uma mestria prodigiosa.
Impressões de viagem, mas também diário, ensaio e até poesia convergem neste testemunho envolvente, de uma atualidade desconcertante, de quem partiu à descoberta do América e acabou por (re)descobrir as próprias raízes europeias.
Transcrito a partir do exemplar da primeira edição (1951) da biblioteca pessoal de Natália, o texto agora apresentado reflete as alterações e acrescentos por si introduzidos nesta obra de juventude, com vista a uma reedição que nunca chegou a supervisionar — e que surge agora, devidamente contextualizada, num volume enriquecido com material inédito, por ocasião dos 25 anos da morte da escritora açoriana.

Excerto
«(…) este livro foi sentido como as estrelas, as pessoas e as coisas que me acontecem pelo caminho. Não foi produto de qualquer plano ou premeditação. Fiz uma viagem. Meti sonho na bagagem, sede na minha alma e inquieta ansiedade nos meus olhos. Tento contar o que vi, como as crianças que se perderam na floresta e descrevem, no regresso, as árvores, os animais, os ruídos, as luas e as sombras exageradas dos seus medos.» (p. 21)

Este conjunto de documentos, na sua maioria inéditos, corresponde a pelo menos doze anos (1946–1958) de uma relação de profunda cumplicidade e de luta pelos ideais universais, vivida entre a poeta Natália Correia e o pensador, pedagogo, ensaísta e cooperativista António Sérgio (1883–1969).
Um encontro entre dois grandes vultos da cultura portuguesa do século XX, sob o signo da fraternidade humana e da paz ou, segundo as palavras de Sérgio, na viva esperança de um «cooperativismo integral» enquanto «libérrima anunciação profética de uma humanidade diversa da que temos hoje».

Excerto
«A cultura deve ser estimada como parceiro social, numa interligação das componentes política, económica, social e cultural, de modo a que as forças políticas, económicas e sociais se exerçam criativamente, no pressuposto da consciência cultural de mudar a sociedade.» (p. 40)

A Violência pt.3: Atos Humanos, Han Kang

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Em Fevereiro de 2017 o livro do Clube de Leitura as Leitoras de Pandora foi, por sugestão de uma leitora, A Vegetariana de Han Kang. Ainda não tinha lido nada da autora de quem, até ao final de 2017, iria ler ainda mais dois livros e poder ouvir pessoalmente na Feira do Livro do Porto. Han Kang tornou-se uma das minhas autoras favoritas e aguardo com expectativa que a totalidade da sua obra seja traduzida para uma língua em que eu tenha o privilégio de saber ler.

Atos Humanos foi publicado em 2014 na Coreia do Sul e chegou a Português no ano passado. Centra-se num período histórico da Coreia do Sul que eu desconhecia: o massacre de Gwangju. Numa introdução da tradutora inglesa temos uma breve explicação do contexto histórico e político deste massacre em que se especula terem sido assinados mais de 1000 coreanos pelo seu próprio exército.

“Dantes, tínhamos um tipo de vidro que não se partia. Uma verdade tão dura e transparente que até podia ser de vidro. Por isso, pensando bem, foi só quando ficámos estilhaçados que provámos que tínhamos alma. Que, na realidade, éramos seres humanos feitos de vidro.” 

Atos Humanos, Han Kang

Desde o início este livro mostrou-me a minha ignorância perante um momento de tanta violência, apenas por ter acontecido longe de mim. De quantas violências eu me escondo pela distância? E como posso aproximar-me das pessoas que não sei que sofrem? Como posso ouvir as suas vozes? Quem são as pessoas cujo sofrimento é esquecido, e porquê?

Atos Humanos tem sete partes que seguem sete pessoas diferentes, em tempos diferentes, em realidades diferentes; homens e mulheres, mães e filhos, vivos e mortos. A violência atravessa todas as vidas da cidade de Gwangju, ao longo das suas vidas todas. Continua na repressão que muda mas que se mantêm, nas dores que o corpo sentirá para sempre, no vazio que ficou no lugar dos que morreram.

“Quando morreste, não pude fazer-te um funeral e, assim, a minha vida tornou-se um funeral. Quando foste envolto numa lona e levado num camião de lixo.”

Atos Humanos, Han Kang

Unindo estas narrativas está Dong-ho, um rapaz de 15 anos que cuida dos corpos das vítimas. O livro centra-se em Dong-o, espelhando na sua escrita o mesma cuidado que ele dedica às vítimas. Han Kang não se foca na luta, na revolução, na violência, mas no preservar das vítimas, devolver-lhes a identidade, alguma dignidade, lembrar que foram pessoas, que devem ser honradas e lembradas. Para Dong-ho as vítimas não são números, são nomes.

E devem ser nomes para nós também. Apesar da distância no espaço, no tempo. Em Atos Humanos Han Kang diz-nos que não podemos esquecer as vítimas da violência do mundo, no país dela, no nosso, em todos. Depende de nós não esquecer. Cuidar da sua memória como Dong-ho lhes cuidou dos corpos. E permitir que as vozes daqueles que morrem ainda se ouçam nas nossas palavras.

“Cada pessoa que conheço pertence à raça humana. E isso inclui-o a si, que está a ouvir este testemunho. Tal como me inclui a mim.” 

Atos Humanos, Han Kang

 

A Violência pt.1: No Exílio, Elisa Lispector

A Violência pt.2: Cassandra, Christa Wolf

Texto escrito por Diana Fontão

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Nasceu em 1985 em Pevidém, Guimarães. Vivo no Porto.

Escreveu O Interior Profundo e organiza mensalmente o Clube de Leitura da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres. Podes visita-la no blog diana fontão.

A Violência pt.2: Cassandra, Christa Wolf

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Eu e este livro temos uma história. Durante a minha infância, quando ia todas as quintas-feiras com o meu avô à biblioteca, eu e Cassandra olhávamo-nos. A figura de Cassandra era a minha favorita de entre todas na mitologia grega. E, na altura, a mitologia grega era um dos meus maiores interesses, lia muitos livros sobre o tema. Mas não lia este. Este parecia-me muito adulto, muito complicado para o meu infantil entendimento. Com o passar do tempo nunca o esqueci e muitas vezes escrevi sobre Cassandra, inspirada pelo livro que não lia.

Publicado em 1983 e reeditado em Português em 2016, voltou até mim no meu último aniversário. Era, finalmente, a altura de ler Cassandra. Christa Wolf nasceu em 1929 numa cidade que agora é Polaca, mas que na época era Alemã. Após a segunda guerra mundial viveu na República Democrática Alemã e em Cassandra escreveu a história da sua queda.

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Christa Wolf, Fonte da Imagem

“Dez anos de guerra. Foi tempo mais que suficiente para esquecer completamente a questão de saber como ela tinha começado. Em plena guerra só se pensa em como ela irá acabar. E adia-se a vida. Quando muitos fazem isso, nasce em nós o espaço vazio por onde entra a guerra.”

Cassandra de Christa Wolf

Cassandra vê a verdade que ninguém quer ouvir. E no livro narra-nos a sua história, todas as memórias da sua vida em Tróia, até à sua morte. Sem capítulos, sem pausas, o livro é narrado como de um fôlego só, ininterrupto. Nós, leitoras, somos as últimas ouvintes dos momentos que Cassandra recorda antes da sua morte, anunciada de imediato no segundo parágrafo. Em nós permanecerá a sua vida quando a sua respiração, a sua narrativa, terminar.

Cassandra, filha de Príamo, Rei de Tróia, irmã de Heitor e Páris, amante de Eneias, vive a guerra de uma perspectiva central, próxima dos seus heróis derrotados. Mas neles vê apenas cumplicidade com a violência, o outro lado que perpetua a mesma guerra. Cassandra procura outras soluções, outras formas de resistir àquele conflito: encontra-as nas Amazonas e nas mulheres que se exilam nas montanhas.

“Os homens, fracos, arvorados em vencedores, precisam de nós como vítimas, como última forma de sentirem. E foram mais longe, para o castigar: arrastaram a morta, que ele agora chorava, com cavalos pelo campo e deitaram-na no rio. Vexar a mulher para atingir o homem.”


Cassandra de Christa Wolf

As mulheres que vivem nas montanhas tentam afastar-se da guerra e refazer a sua própria sociedade, tentam sobreviver com alguma paz, alguma dignidade. São mulheres que perderam tudo, mas que resistem a tornar-se apenas objetos numa guerra feita por homens que as tratam como despojos. E quando os homens vêm na derrota apenas a morte, elas conseguem ver a sobrevivência.

Cassandra não é um livro trágico, é um livro de violência. Mostra-nos como a violência extrema de uma guerra que destrói um país, destrói também as famílias, as pessoas, as ligações e as emoções; as vidas que podiam ter sido tantas outras coisas, mas que se tornaram apenas vidas vazias de vida, vidas apenas de guerra.

“Quem sou eu para ver em vós apenas os vencedores e não aqueles que viverão? Que terão de viver para que aquilo a que chamamos vida possa continuar. Estes pobres vencedores têm que viver por todos aqueles que mataram.”

Cassandra de Christa Wolf

 

A Violência pt.1: No Exílio, Elisa Lispector
A Violência pt.3: Atos Humanos, Han Kang – 16.03.18

 

Texto escrito por Diana Fontão

A Violência pt.1: No Exílio, Elisa Lispector

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Publicado em 1948, No Exílio é um livro de Elisa Lispector, irmã de Clarice Lispector. Na biblioteca onde encontrei o livro, que não tem edição portuguesa, peguei-lhe por Clarice, mas trouxe-o comigo por Elisa. No Exílio é a narrativa do percurso da família Lispector, da Ucrânia (na altura ainda Rússia) até ao Brasil e, lendo sobre o livro, parece ser esse o motivo pelo qual, de entre os sete romances que publicou, só este se manter disponível na atualidade: o interesse em ler o livro como biografia de Clarice.

Mas o livro é muito mais do que isso, aliás, Clarice surge apenas como personagem de fundo. No centro estão os pais, Pinkhas e Mania Lispector (no livro o pai mantêm o nome, mas a mãe torna-se Marim) e Elisa (no livro com o nome Lizza). Elisa nasceu em 1911 e tinha quase 11 anos quando, em 1922, a família chegou ao Brasil. Na sua memória estava ainda presente a violência dos pogroms em que mataram cerca de 125 mil judeus na Ucrânia, entre eles muitos dos seus familiares e vizinhos.

Tornaram a confundir-se na mesma escuridão o dia e a noite, naquela cozinha úmida e imunda, sem luz, sem ar, sem noção de tempo. A escuridão, a morte, a umidade viscosa e fria, as ânsias do corpo e a agonia da alma, tudo fluía num só rio turvo e tenebroso, sem margens nem fim.

No Exílio, Elisa Lispector

Lizza nunca se consegue afastar desta violência. A doença da mãe, consequência dessa violência, não lhe permite viver a sua própria vida. Nem a perseguição violenta que sofrem os judeus durante a segunda guerra mundial lhe permite afastar-se das imagens da sua infância. Lizza sente-se sempre parte desse sofrimento, nunca se esquece, nunca se afasta.

No Exílio é a história de vários exílios. Não só o da família Lispector no Brasil, mas também o do povo judeu durante a guerra. E também o de Lizza, exilada do mundo pela violência que nunca esqueceu. Lizza nunca recupera a sua vida, no exílio, nunca sente que pode voltar a ser uma pessoa, um ser individual com poder de recomeçar. Com ela percebemos que a violência não é algo que se possa esquecer, abandonar: é algo que nos marca e nos destrói, que nos persegue pelo tempo fora, por muito tempo que passe.

E se, por um lado, perguntava-se por que caminho haveria de alcançar a realização do seu ser, por outro, deixava-se levar pelos embates desse mar em tormenta. Mas ainda tateava, indecisa, cônscia da limitação de suas possibilidades, ante a amplitude da angústia universal.

No Exílio, Elisa Lispector

Lizza vive sempre isolada, envolta nas memórias do passado e nas notícias sobre o presente. Sem ninguém que partilhe a imensidão do seu sentimento. Vê as irmãs casarem e continuarem as suas vidas, criarem um tempo de que ela não se sente parte. Enquanto ela se mantém ao lado do pai, Pinkhas, também ele consumido por uma violência que acaba por o matar, partilhando-a sem a sentir no seu próprio corpo.

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Entristece-me que hoje Elisa esteja a cair em esquecimento, na sombra da irmã Clarice, presa a uma comparação tão presente no livro, tão real na sua própria mente. Gostava de poder ler mais dos seus livros. E de, ao ler, partilhar com ela o peso desta violência que marcou toda a sua vida, as suas palavras, o seu exílio.

Toda ela ardia, como uma tocha. E sentiu-se de repente pequena, desamparada. Só. Nunca se sentira tão só e perdida.

No Exílio, Elisa Lispector

 

A Violência pt.2: Cassandra, Christa Wolf – LER»»

A Violência pt.3: Atos Humanos, Han Kang – 16.03.18 LER»»

 

Texto escrito por Diana Fontão

Gostas de ler? Christina Branco

Foto de Christina Branco.
Fonte da foto
A Christina Branco parte da nossa comunidade e do clube de leitura e quisemos conhece-la melhor e descobrir os livros que lê. Aqui fica o que descobrimos!
Existe um livro que já leste várias vezes e vais continuar a reler?
Nos últimos anos não tenho relido muitos – ou melhor, de vez em quando pego em livros preferidos e releio certas passagens, mas não releio de capa a capa. Fazia mais isso na adolescência quando não tinha acesso a tantos livros e precisava de ler vorazmente, qualquer coisa servia, até mesmo o que já tinha lido.
Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
 Ui, tantos! Tentei várias vezes ler a Bíblia porque considero que quer se queira ou não é um dos, senão o, livro mais marcante da história: o resultado é que já li imensas vezes os primeiros dois livros e o resto já lá vai… Outro é o Ada ou Ardor, do Nabokov – é mesmo muito fácil perder-se e não é tão conciso e concreto quanto o Lolita. Os meus sinceros parabéns a quem tenha acabado o Ada. O último livro das Crónicas de Gelo e Fogo do George R.R. Martin também está na minha mesa de cabeceira a apanhar pó. Talvez se ele der data de lançamento para o 7º livro eu ganhe uma nova energia para o acabar.

Que livro gostarias de ter lido mas que por algum motivo nunca leste?

 Considero uma séria falha minha nunca ter lido Tolkien. Tenho inclusive duas cópias d’O Senhor dos Anéis que me ofereceram em adolescente mas abria, lia as primeiras páginas, não me interessava, fechava.

Que livro leste e que cuja cena final jamais conseguiste esquecer?

  Se me virem “na lua”, é porque provavelmente estou ainda a pensar no fim da tetralogia napolitana da Elena Ferrante.
Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se sim, qual os livros que lias?
Lia tudo o que houvesse para ler. Lia caixas de cereais, lia rótulos de champô, lia o Expresso, lia livros do António Lobo Antunes do meu pai e não percebia nada. Não me lembro de não saber ler. Gostava muito de uns livros sobre uns gnomos e animais da floresta (Contos da Floresta? penso que era assim que se chamavam) que tinham ilustrações lindissimas, popularam imenso o meu imaginário. Depois a série Harry Potter, apesar de hoje reconhecer as falhas a nível de trama, foi fundamental para eu ler livros mais compridos e escolher eu própria os livros que queria ler.

Indica alguns dos teus livros favoritos?

 Em nenhuma ordem particular: Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez; a tetralogia Napolitana de Elena Ferrante; O Padrinho de Mario Puzo, A Campânula de Vidro e  os diários de Sylvia PlathHons and Rebels, de Jessica Mitford.

Em que línguas gostas de ler?

 Uma das minhas línguas maternas é o inglês e se o livro for originalmente escrito nessa língua prefiro-o assim. Ando a tentar ler mais livros da lusofonia. Quanto aos livros escritos nem em inglês nem em português, é o que der mais jeito. Talvez livros escritos em espanhol e italiano também façam mais sentido em português.
Tens hábitos ou rituais de leitura?
 Leio essencialmente na cama, antes de adormecer, e em transportes públicos. Se estiver de férias na  praia chego a ler um livro por dia.

Tens conta no goodreads?

 Tenho sim!
Que livro estás a ler?
Lonely Hearts Hotel, de uma autora canadiana chamada Heather O’Neill.
Indica 10 escritoras que gostavas que respondessem a estas perguntas?
Vai ser necessário o jogo do copo porque muitas já não estão entre nós, mas:
Sylvia Plath,
Jessica Mitford,
Clarice Lispector,
Han Kang,
Elena Ferrante,
Sue Townsend,
Adília Lopes,
Shirley Jackson,
Agustina Bessa-Luís,
Marjane Satrapi.