Gostas de ler? Raquel Felizes

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A Raquel faz parte da nossa comunidade e do clube de leitura e quisemos conhece-la melhor e descobrir os livros que lê. Aqui fica o que descobrimos!

Existe um livro que já leste várias vezes e vais continuar a reler? 

A Fada Oriana de Sophia de Mello Breyner e O Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry. 

Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim? 

Existem cinco mas ainda mantenho a esperança de voltar a eles e de os ler até ao fim: Guerra e Paz do Tolstoi, A Divina Comédia de Dante, O livro do desassossego de Fernando Pessoa, Dentro do Segredo do José Luís Peixoto e Butcher’s Crossing do Jonh Williams.

Que livro gostarias de ter lido mas que por algum motivo nunca leste? 

Existem vários. Vou dividir a resposta em duas categorias: “recentes ou relativamente recentes” e “clássicos ou autores incontornáveis”.

Então, na categoria de “recentes ou relativamente recentes” temos:

  • Ana de Amsterdam de Ana Cássia Rebelo
  • Olhando o sofrimento dos outros de Susan Sontag
  • Um estado selvagem de Roxane Gay;
  • Não posso nem quero de Lydia Davis.

Na categoria de “clássicos ou autores incontornáveis”:

  • Ulisses de James Joyce;
  • Odisseia de Homero;
  • O Monte dos Vendavais de Emily Brontë;
  • As pessoas felizes da Agustina Bessa Luís;
  • O som e a fúria de William Faulkner;
  • O sangue dos outros e O segundo sexo de Simone de Beauvoir;
  • Cem anos de solidão e Amor em tempos de cólera de Gabriel Garcia Marques;
  • O ano da morte de Ricardo Reis e Jangada de Pedra de José Saramago;
  • A condição humana de Hannah Arendt;
  • História da sexualidade de Foucault.

Que livro leste e que cuja cena final jamais conseguiste esquecer? 

Anna Karenina de Tolstoi.

Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se sim, qual os livros que lias? 

Na infância, quando mudei de casa dos subúrbios de Gaia para o centro, transformei-me numa frequentadora assídua da Biblioteca Municipal. Esse ritual permitia-me o privilégio de trazer para casa “livros com bolinha vermelha” (aqueles que, devido à falta de exemplares, supostamente, não deveriam sair da biblioteca). Dessa fase ficam-me as bandas desenhadas todas da Mafalda do Quino, os diversos contos da Sophia de Mello Breyner, da Ilse Losa, da Maria Alberta Menéres e da Matilde Rosa Araújo (não conseguia ler livros muito robustos mas adorava ler). Os mais robustos nesta fase eram da Alice Vieira. 

Indica alguns dos teus livros favoritos?

Stoner de John Williams; Terapia de David Lodge;  O Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago, Crime e Castigo de Dostoiévski; Anna Karenine de Tolstoi, a tetralogia de Elena Ferrante e a Síbila de Agustina Bessa Luís.

Em que línguas gostas de ler? 

Português, inglês e castelhano.

Tens hábitos ou rituais de leitura?

Vários. Em casa, primeiro. No dia a dia, à noite, na cama, acendo a luz da mesinha de cabeceira e leio o livro que lá está ou leio no tablet (o que estiver no ibooks) às escuras para não incomodar o parceiro do lado. Este ritual, normalmente, funciona como sedativo e é frequente adormecer de óculos, com o livro/tablet ao lado ou em cima da barriga, ou arrumados pelo parceiro do lado numa das suas viagens noturnas. Durante o dia (aos fins de semana ou em período de férias) tenho três cantinhos de leitura diferentes consoante a disposição solar. Fora de casa, saio sempre com um livro, ou com a aplicação ibooks para aproveitar bem o meu tempo nos tempos mortos que surgem enquanto transporto filhos de um lado para o outro mas, normalmente, enquanto espero ponho-me a conversa com alguém e lá se vai a iniciativa. Sou eficaz nas minhas tentativas quando leio no carro durante viagens longas em autoestrada. Adoro ler num parque, na praia ou numa esplanada. 

Tens conta no goodreads

Não nunca tinha ouvido falar, mas fiquei curiosa e vou pesquisar!

Que livro estás a ler? 

Sempre fui leitora de ler um livro de cada vez mas, agora, como tenho sempre no encalço o livro do mês d‘As Leitoras de Pandora, tenho vários ao mesmo tempo, pois nem sempre acompanho o ritmo. Estou a ler Emma da Jane Austen, The bell jarr de Sylvia Plath e Os filhos da Rua Arbat  de Anatoli Rybakov.

Indica 10 escritoras que gostavas que respondessem a estas perguntas. 

Escolhi apenas vivas: 

  1. Agustina Bessa Luís,
  2. Elena Ferrante,
  3. Isabel Allende,
  4. Maruja Torres,
  5. Alice Munro,
  6. Maria Velho da Costa,
  7. Maria Teresa Horta,
  8. Alice Vieira,
  9. Lídia Jorge,
  10. Inês Pedrosa. 

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Diário de Uma Dona de Casa Desesperada de Sue Kaufman

Arquivo de Personagens Femininas

Personagem:  Tina
Livro: Diário de Uma Dona de Casa Desesperada
Autora:  Sue Kaufman

Romances sobre perdedores temos as dúzias; na literatura norteamericana até podíamos considerar que constiui um subgénero em si mesmo. Mas o que não abundam são as histórias sobre perdedoras, sobre mulheres que afrontam a sua existência como um inevitável caminho de renúncia e obstinação. Diário de Uma Dona de Casa Desesperada de Sue Kaufman, é uma dessas histórias, por isso a resgato do limbo literário para quem quiser descobrir uma escritora e um livro com uma narrativa sólida e personagens complexas.

Tina é uma dona de casa bem posicionada, casada com um advogado de prestígio, duas filhas e um cão. Uma vida, aparentemente idílica, mas que na verdade é um poço de obsessões, terrores e problemas, Tina arrasta uma neurose alguns anos e, é incapaz de fazer frente as suas obrigações sem cair na depressão. Um romance estruturado em forma de diário no qual Tina escreve, em segredo, para tentar acalmar e colocar por escrito os seus pensamentos. Sue Kaufman acerta em pleno, a voz da narradora alcança uma intimidade louvável: não vos nego que o formato diário pessoal é por vezes artificial (em certas passagens a narrativa é tradicional e a primeira pessoa não é tão credivél) mas no seu todo o resultado deste romance é de uma intimidade e proximidade notáveis.

Sue Kaufman, romancista americana nasceu a 7 de Agosto de 1926 em Long Isaland, Nova Iorque. Diplomada pela Vassar College em 1947, começou a trabalhar como assistente editorial. Faleceu a 25 de Junho de 1977, em Nova Iorque. Em sua homenagem anualmente é atribuído o prémio literário Sue Kaufman pela Academia Americana de Artes e Letras.

A intimidade e aproximidade da narrativa é conseguida através da profundidade com que é criada a personagem de Tina. Kaufman retrata uma mulher frágil, doentiamente débil, mas com uma resolução que vai crescendo a cada revés emocional que vivencia.  Diário de Uma Dona de Casa Desesperada mostra-nos o solitária que pode ser a vida de aparência feliz: como os problemas que se vivem no dia a dia se podem transformar em pesadelos dos quais não se consegue sair, até a sua cadela a consegue transtornar ao ponto de perder o controlo de si mesma. Isto pode fazer-nos pensar que Tina Balser é uma percusora de Bridget Jones mas longe disso: a protagonista é uma mulher descontente e de personalidade neurótica mas Kaufman não constrói uma personagem amável com a qual empatizamos ou com a qual podemos rir; Tina é uma mulher inteligente que, apesar da sua fragilidade psicológica, é capaz de transformar a sua vida num espectáculo para se tornar respeitável.

A angustia da protagonista é demasiado próxima como para não nos identificarmos com aquilo que lhe sucede. A normalidade de uma vida programada pelos outros, a pressão que impõe uma sociedade que vive da imagem que se projeta, o desconsolo de não sermos donas/os das nossas próprias existências… tudo é demasiado familiar e são características que se enraízam com o passar do tempo. O golpe final da autora está no mostrar a dualidade de Tina: vítima e carrasca, débil e autoritária. Não é uma mulher resignada que se rende perante o marido egocêntrico nem é uma heroína que faz frente a todos os contratempos que lhe surgem: é, simplesmente, um ser humano dividido entre as suas debilidades e as suas vilezas, uma pessoa tão capaz de sofrer como de ferir. Razão pela qual, esta personagem é tão real e complexa, mesmo que a narrativa esteja condicionada pela sua parcialidade.

Diário de Uma Dona de Casa Desesperada é um romance complexo e sugerente, com momentos divertido e de uma profundida subtil. Como disse no início é um livro que nos fala de uma perdedora mas Sue Kaufman oferece-nos um outro conceito de perdedora, vale a pena descobri-lo!

 

Diário de Uma Dona de Casa Desesperada
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Este livro foi publicado originalmente em 1967 e é considerado um dos romances fundacionais e mais representativos da nova consciência feminina a meados do século XX nos Estados Unidos. Diário de Uma Dona de Casa Desesperada de Sue Kaufman é um divertido e inteligente relato sobre o sentimento de angustia ao que todas as pessoas nos enfentamos alguma vez na vida.

A Capa do livro é muito importante

Quando vi a edição portuguesa confesso que a capa não me seduziu e fiquei com dúvidas de ler ou não ler… até que a ficha caiu! Não posso julgar o livro pela capa…

Tinha lido sobre Sue Kaufman e queria conhecer esta escritora por isso afastei o julgamento do livro pela capa e mergulhei na leitura. Não me decepcionou!

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Texto escrito

Gostas de ler? Catarina Silva.

 

A Catarina faz parte da nossa comunidade e do clube de leitura e quisemos conhece-la melhor e descobrir os livros que lê. Aqui fica o que descobrimos!

Existe um livro que já leste várias vezes e vais continuar a reler?

Sim! Kafka à Beira Mar, de Haruki Murakami.

Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Penso que não. Geralmente se não atinar com um livro à primeira quer dizer que não está destinado.

Que livro gostarias de ter lido mas que por algum motivo nunca leste?

A série Earthsea, da Ursula K. Le Guin.

Que livro leste e que cuja cena final jamais conseguiste esquecer?

A Little Life, de Hanya Yanagihara.

Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se sim, qual os livros que lias?

Sim! Felizmente a minha professora primária incentivava imenso à leitura e foi um hábito que ficou desde ai! Lembro-me perfeitamente de ler O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry e O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos.

Indica alguns dos teus livros favoritos?

As Intermitências da Morte, de José Saramago. Frankenstein, de Mary Shelley. Kafka à Beira Mar, de Haruki Murakami. The Book Thief, de Markus Zuzak. Nimona, de Noelle Stevenson. The Virgin Suicides, de Jeffrey Eugenides.

Em que línguas gostas de ler?

Português e Inglês.

Tens hábitos ou rituais de leitura?

Nunca comer enquanto leio porque tirar migalhas de entre as páginas de um livro é muito complicado.

Tens conta no goodreads?

Sim! (Podes visitar a Catarina aqui»»)

Que livro estás a ler?

Northern Lights, de Philip Pullman.

Indica 10 escritoras que gostavas que respondessem a estas perguntas?

  1. Libba Bray
  2. Leigh Bardugo
  3. Sylvia Plath
  4. Margaret Atwood
  5. Kelly Sue DeConnick
  6. Mary Shelley
  7. Virginia Woolf
  8. Charlotte Brontë
  9. Victoria Schwab
  10. G. Willow Wilson

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Gostas de ler? Mariana Neves.

A Mariana faz parte da nossa comunidade e quisemos conhece-la melhor e descobrir os livros que lê. Aqui fica o que descobrimos!

Existe um livro que já leste várias vezes e vais continuar a reler?

Para além do Principezinho  de Antoine de Saint-Exupéry que releio todos os anos, o Planalto e a Estepe do Pepetela.

Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim? 

Todos os do António Lobo Antunes.

Que livro gostarias de ter lido mas que por algum motivo nunca leste?

Muitos livros na lista à espera de serem lidos! Pergunta muito dificil para ser respondida.

Que livro leste e que cuja cena final jamais conseguiste esquecer? 

Diário de Anne Frank e Lua de Joana de Maria Teresa Maia Gonzalez.

Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se sim, qual os livros que lias? 

Sim! “Cavaleiro da Dinamarca”, “O Fio da Ariana” ambos da Sophia de Mello Breyner, e “Um lugar mágico ou como salvar a natureza” da Susanna Tamaro.

Indica alguns dos teus livros favoritos?

Filhos da droga de Christiane F., Orgulho e Preconceito de Jane Austen e o Diário de Anne Frank.

Em que línguas gostas de ler?

Português.

Tens hábitos ou rituais de leitura?

Tento ter.

Tens conta no goodreads?

Sim. (Podem visitar a Mariana aqui»»)

Que livro estás a ler? 

Dois livros técnicos sobre autismo, para já.

Indica 10 escritoras que gostavas que respondessem a estas perguntas?

  1. Susanna Tamaro
  2. Jane Austen
  3. Sophia de Mello Breyner
  4. Torey Hayden
  5. Dorothy Koomson
  6. Bea Johnson
  7. Simone de Beauvoir, não são 10, mas são as que queria :)

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Gostas de ler? Sónia Pereira.

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A Sónia faz parte da nossa comunidade e do clube de leitura e quisemos conhece-la melhor e descobrir os livros que lê. Aqui fica o que descobrimos!

Existe um livro que já leste várias vezes e vais continuar a reler? 

Sim, Jane Eyre (entre outros).

Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim? 

O processo de Kafka, mas ainda não desisti.

Que livro gostarias de ter lido mas que por algum motivo nunca leste? 

Por quem os sinos dobram de Ernest Hemingway.

Que livro leste e que cuja cena final jamais conseguiste esquecer? 

O meu pé de laranja lima de José Mauro de Vasconcelos.

Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se sim, qual os livros que lias? 

Sim, quase tudo o que apanhasse à mão: tudo da Enid Blython, da Condessa de Ségur, Nancy Drew, Patrícia e outras de aventuras/mistério, livros da Biblioteca das Raparigas.

Indica alguns dos teus livros favoritos?

Jane Eyre, todos da Jane Austen, O diário de Bridget Jones de Helen Fielding, O homem do fato castanho, da Agatha Christie, O meu pé de laranja lima de José Mauro de Vasconcelos, O principe das marés de Pat Conroy, Amesterdão de Ian McEwan, The hitchiker’s guide to the galaxy de Douglas Adams.

Em que línguas gostas de ler?

Português e Inglês.

Tens hábitos ou rituais de leitura?

Não propriamente.

Tens conta no goodreads

Não ou pelo menos não uso.

Que livro estás a ler? 

The Great Santini, do Pat Conroy.

Indica 10 escritoras que gostavas que respondessem a estas perguntas? 

  • Jane Austen
  • Charlotte Bronte
  • Anne Bronte
  • Agatha Christie
  • Florence Barclay
  • Chimamanda Adichie
  • Rosa Lobato Faria
  • Sophia de Mello Breyner
  • Margaret Atwood
  • Pearl Buck

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Paulina Chiziane – contadora de histórias e memórias

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«José percorre a magia luminosa das aparências. Na cegueira perseguindo os caminhos do abismo. Colonizar é mesmo isto.»

O alegre canto da perdiz, Paulina Chiziane

Quando entrevistada, Paulina Chiziane apresenta-se frequentemente como contadora de histórias. Essa é a classificação que aceita e que lhe assenta.

«Sem sangue o império é anémico, sem vida nem grandeza. O sangue se bebe e rejuvenesce. Quando não se bebe canta-se. O hino nacional.»

O alegre canto da perdiz, Paulina Chiziane

No capítulo III do Decreto-Lei nº 39 666, do Ministério do Ultramar, datado de 20 de Maio de 1954, “Da extinção da condição indígena e da aquisição da cidadania”, o artigo 56.º estabelece as condições para a aquisição da cidadania pelos indígenas, estabelecendo que o indivíduo, entre condições de idade e “bom comportamento e ter adquirido a ilustração e os hábitos pressupostos”, deve, alínea b, “falar correctamente a língua portuguesa” (sublinhado meu).

Falar corretamente a língua portuguesa

Mais do que na escrita, é na oralidade que subjaz a garantia da metamorfose do indigenato para a cidadania. Aos olhos do Estado português, o indígena, objeto delimitado e de desconfiança, torna-se sujeito pela fala, pelo uso do português – não um português qualquer, o português correto. Ainda hoje, o acesso à cidadania portuguesa por cidadãos estrangeiros assenta na capacidade de fazer uso da língua portuguesa em moldes determinados. Para o Estado Novo, os indígenas – pessoas negras e mestiças naturais dos territórios africanos colonizados – não eram estrangeiros, mas uma espécie de produto da terra, tornados cidadãos portugueses pela performance de costumes preconizados, acompanhada de uma língua civilizada – a língua portuguesa.

N’O alegre canto da perdiz a sombra da assimilação ao mundo do português branco vai preencher grande parte da narrativa.
«Pediu ao pai para ser assimilado, a fim de ter acesso à escola oficial, onde as professoras eram mulheres normais e não freiras esquizofrénicas. Mas o pai disse que não. Porque os assimilados eram assassinos. O pai de Delfina disse que não à assimilação, sem saber que a libertação da pátria seria na língua dos brancos e sem imaginar que os filhos dos assimilados iriam assumir o protagonismo da História.» (p. 78).

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Chiziane refere que “A literatura pode funcionar como catarse coletiva e também como registo da memória. A nova geração tem de saber o que se passou ontem, mas infelizmente há muito poucos relatos.” O livro que escreveu traz à tona várias vozes duma história a que os ouvidos portugueses são avessos. «Não vimos, não sabemos, nunca ouvimos falar, não demos por nada.» escreve Isabela Figueiredo, na introdução do seu Cadernos de memórias coloniais. Também para Paulina Chiziane, que prefaciou essa obra, as palavras estão aí para nomear, são destemidas e não evitam feridas pessoais e coletivas. «Quem não se ajoelha perante o poder do império não poderá ascender ao estatuto de cidadão. Se não conhece as palavras da nova fala jamais se poderá afirmar. Vamos, jura por tudo que não dirás mais uma palavra nessa língua bárbara. Jura, renuncia, mata tudo, para nasceres outra vez. Mata a tua língua, a tua tribo, a tua crença.» (p. 117).
Mata-te. Em tempos coloniais falar português era afirmação de uma renúncia a todas as outras formas de ser.

Demorei muito tempo a terminar este livro e percebi que foi uma exigência da cadência das palavras. O português é instrumento de escrita, é tradução de estados de alma alheios e não configurados por esta língua e é uma longa homenagem à literatura de tradição oral. As palavras estão escritas mas são sobretudo voz. Vozes contraditórias, por vezes difíceis de digerir.

“A minha relação é de conflito. Não há dúvida que eu aprendi a ler e a escrever em português, socializei-me com a literatura de língua portuguesa. Mas existem alguns aspetos culturais que a língua portuguesa não tem capacidade para cobrir. Para além de que, sendo uma língua de dominação, a língua portuguesa é também uma língua de segregação. Quando escrevo e vou pegando das palavras, de vez em quando fico chocada: os curandeiros são o centro do saber africano. Mas o que é um curandeiro na língua portuguesa? Vai ver no dicionário e a explicação que vai achar é redutora e simplista e serve simplesmente para colocar o curandeiro de lado. Para eles, é um indivíduo que deve ser banido e eliminado.”

curandeiro | s. m.
cu·ran·dei·ro
1. Pessoa que trata de doenças sem título legal.
2. [Figurado]  Charlatão; impostor.

O português vai pedir emprestado às demais línguas locais palavras para descrever o que não conhece. A escritora vai fazer uso de um língua de dominação para contar histórias que os falantes e ouvintes dessa língua precisam conhecer. O dicionário continua a atribuir um lugar central ao português correto, em que certas palavras, certas vivências, não têm lugar.

“Como aliar a pobreza a uma raça? Encontro vários aspetos de supremacia de uma cultura sobre a outra. As palavras no dicionário são alguns. Algumas vezes que eu quero retratar uma realidade (eu falo do Sul), quero escrever um ditado e uma forma de pensar, mas tenho de fazer uma tradução e uma aproximação de significado. O que vai resultar não é propriamente a identidade deste povo, mas é uma construção, e as coisas não chegam a ser realmente como deviam ser. Mas os próprios escritores atuais ainda não fizeram muito exercício cultural. Eu penso que talvez com tempo vamos dar um espaço àquilo que é a nossa própria cultura. É lógico que vamos servir-nos da língua portuguesa por muito tempo, porque é a língua através da qual comunicamos.”

O português não é a língua da realidade desta escrita, é tradução.

«Homem não, Delfina. Que Deus nos dê, sim, a benção de um filho mulher.» Não é filha, é filho mulher, porque a experiência recriada é uma realidade bantu.

Prevê-se que dentro de algumas décadas a quantidade de falantes de português em Angola e Moçambique ultrapasse o número de falantes em qualquer outra região do globo (Oliveira, 2016). O português será uma língua africana. Este português falado por milhões de africanos não poderá ser o português correto da cidadania de outros tempos, nem o português que declara que uma vivência africana culturalmente significativa é, sem delongas, impostura.

Franco, leal, apesar de rude

Segundo Maria Helena Mira Mateus (2003) «(…) o termo “Português”, que cobre as variedades sociolectais, dialectais e nacionais que convivem em Portugal e no Brasil, deve ser entendido como importante instrumento de coesão entre povos e como afirmação política e económica num contexto envolvente transnacional. A presença nestes ambientes de grupos de interesses unidos por falarem “a mesma língua” potencia a tomada de posição desses grupos, sobretudo quando se trata de comunidades de menor força no campo económico.». E acrescenta, «É na realidade um factor de identificação cultural, mas no uso, e pelo uso, que dela faz o indivíduo e não apenas por pertencer a uma das várias comunidades que a utilizam como materna.»

O português torna-se pluricêntrico pelo uso. Aceitar esse pluricentrismo implica abrir caminho a uma reapropriação da língua, uma combinação de referências, de sonoridades.

português | adj. | s. m. por·tu·guês (latim tardio portucalensis, -e, de Portucale, topónimo, Portugal)
1. Relativo ou pertencente a Portugal. = LUSITANO, LUSO
2. []  Relativo ao português enquanto sistema linguístico.
3. [Figurado]  Franco, leal, apesar de rude.
4. Natural, habitante ou cidadão de Portugal. = LUSITANO, LUSO
5. []  Língua de origem românica, que é a língua oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e da Região Administrativa Especial de Macau.
6. []  Antiga moeda de ouro.
Feminino: portuguesa. Plural: portugueses.

É me hoje difícil pensar sem interferências do inglês, a querer intrometer-se até na sintaxe. Da mesma forma, o meu português de lusa está saturado de influências do português do Brasil que ouço. Vou recorrendo ao dicionário para descobrir se ainda falo português correto. Agrada-me ver que o meu português se expande na medida das kizombas, telenovelas e toda a rápida circulação de palavras. O Brasil dos memes da internet. Novas formas de reclamar a língua.
A língua está viva e a construir o mundo.

A escrita de Paulina Chiziane empurra-nos, com mestria, para lugares que precisamos de visitar: que memória é a desta língua partilhada? Uma memória de violências mas também de vida. Que palavras ainda não cabem no nosso dicionário?

Falta-nos ouvir mais e melhor.
“Fora escrever e pensar em novos projetos, o que é que você gosta de fazer? Sentar na minha varanda, olhar o vazio e tomar o meu copo de cerveja. (Risos).
Ao ritmo certo.

✄ O alegre canto da perdiz  estão disponíveis na LIVRARIA. 

…………………………………………………………………………………………………[1] http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/os-anjos-de-deus-sao-brancos-ate-hoje-entrevista-a-paulina-chiziane
[2] http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/os-anjos-de-deus-sao-brancos-ate-hoje-entrevista-a-paulina-chiziane
[3] “curandeiro”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/curandeiro [consultado em 26-12-2017].
[4] “português”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/portugu%C3%AAs [consultado em 26-12-2017].
[5] Entrevista à revista Bastião #18 https://issuu.com/revistabastiao/docs/bastiao18issu

Literatura árabe contemporânea (1)

Apontamento para pensar

Hypatia of Alexandria

É evidente que cada país vive encerrado no seu próprio mundo. Apesar de chegarem a Portugal anualmente diversas traduções, são habitualmente dos mesmo lugares: de Inglaterra e EUA na sua maioria, seguidas da França, Alemanha, Itália, Espanha, um bocadinho do norte da Europa. O resto do planeta, com excepção do que estiver consagrado pelo cânon literário, não chega. Permanecendo desconhecido para a maioria das leitoras e leitores portugueses. É o que acontece com a literatura árabe. Sabemos que teve a sua idade de ouro há uns séculos atrás, intuímos que na actualidade continuam haver escritoras e escritores que publicam coisas interessantes mas que não chegam traduzidas a terras lusas.

Vamos até ao Egipto…
Que escritores e escritoras conheces?

Talvez o nome de Naguib Mahfuz não seja completamente estranho, foi Nobel da Literatura em 1988. Mas se menciono os nomes de Nawal El-Saadawi ou Ghada Samman ou Fatima Naut tudo fica mais difuso, certo!?!?!

Se o nome dos escritores Naguib Mahfuz, Naguib Mahfuz ou Ibrahim Aslan não surge facilmente no nosso mapa literário pessoal, nem quero imaginar o que acontece com o das escritoras citadas. Na actualidade existe um desconhecimento, não só a nível académico mas geral das escritoras egípcias, assim como das árabes, pois a maioria das vezes não são citadas nem divulgadas quando se fala de Literatura Árabe.

Espero que este breve apontamento para pensar seja apenas a ponta do iceberg para começar a descobrir a Literatura Árabe Contemporânea (e clássica também) e as escritoras egipcias. Feita esta partilhareflexão salto directamente para a minha leitura, Woman at Point Zero de Nawal El-Saadawi.

Se clicares nas palavras que encontras a vermelho ou nas imagens encontrarás curiosidades, textos relacionados, novas ou revistadas leituras 📚🦊

Woman at Point Zero de Nawal El-Saadawi

Woman At Point Zero,  é a história de Firdaus uma mulher condenada à morte no Egipto pelo assassinato do seu proxeneta. Ela sabe que vai morrer porque supõe um perigo para os que mandam, pois deixou em evidência toda uma rede de mentiras e sujidade. Para preservar o patriarcado e as suas mentiras Firdaus tem de desaparecer.Woman At Point Zero de Nawal El-Saadawi
Desde criança se viu submetida aos mandatos dos homens e vemos no avançar da história como a sua raiva se vai acumulando. Primeiro o pai, um pequeno ditador,  depois o tio que a condena a um casamento com um homem nojento que a maltrata. Ela foge e em cada fuga outros homens a vão encurralando para se aproveitar dela.

Num determinado momento da sua vida escolhe a prostituição para sentir que pelo menos  por uma vez é ela que decide algo na sua vida. Mas nem nesse momento, ela consegue manter a sua “liberdade” pois os proxenetas rondam e ninguém consegue dizer ‘não’,  a um homem que com ameaças e força te obriga a trabalhar para ele. Firdaus não é uma assassina,  é uma mulher que se revela, que se nega a subjugar-se uma e outra vez, que se nega a ser menosprezada e torturada reiteradamente.


Neste romance de Nawal El-Saadawi, encontramos uma prosa calma, em ocasiões hipnótica com esses olhos negros que são o fio condutor e que colocam em relação os sentimentos de Firdaus, o que é um alívio entre tanta crueza.

Texto escrito