Ventos do Apocalipse: Ecos passados de um futuro a evitar

Os Ventos do Apocalipse são ventos da destruição trazida pela guerra, que Paulina Chiziane vai narrar com grande crueza e lealdade para com as vítimas desse sofrimento desmedido. Nesta história, o apocalipse vai ser trazido pelas lutas de poder dos homens, figuras mundanas mas simultaneamente manifestações terrenas dos míticos quatro guerreiros do Apocalipse.

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Na dedicatória inicial do livro a autora refere o Grupo Especial de Trabalho nas Unidades de Produção, “um grupo de jovens lutadores pela liberdade que a história se esqueceu de registar.” É uma dedicatória que aponta para uma visão crítica da História em que uma narrativa oficial se sobrepõe às múltiplas narrativas que compõem a realidade, as histórias. 

Assumida contadora de histórias, Paulina Chiziane vai chamar a si a responsabilidade de nos contar uma história que entretém, como qualquer história contada à volta da fogueira, mas que também visibiliza o verdadeiro rosto da guerra: famélico, doente, violento.

A edição inicial data de 1993, sendo que foi nessa altura, no início da década de 90, que começaram a esmorecer os ataques das forças anti-governamentais, a RENAMO, podendo a população começar a fechar as feridas de guerra. A obra surge, pontual, como testemunho dessa ferida.

A epígrafe vai reforçar a ideia de construção de um momento de encontro e de escuta, “vinde todos e ouvi, vinde todos com as vossas mulheres”, realçando o convite alargado às mulheres, habitualmente elementos secundários da história oficial, já que é a partir das vivências delas, sobretudo na figura de Minosse, que esta narrativa se vai organizar. 

Não é uma história sobre guerreiros, régulos e demais autoridades políticas. É uma história dos sobreviventes da imposição de autoridade e de poder, sobretudo a história das mulheres, das crianças e dos velhos. A chamada é para que nos reunamos a ouvir uma história que não vai agradar aos ouvidos mais patrióticos. Vamos ouvir contar sobre as pessoas em cujo sofrimento mudo assenta a narrativa heróica de um país.

O prólogo está dividido em três narrativas curtas, cada uma abordando dimensões da expressão humana que estarão presentes na narrativa principal: a crueldade, o trauma, a ambição, todas elas ingredientes e consequências do movimento destrutivo do apocalipse proporcionado pela guerra. Termina com uma constatação e um aviso, “KARINGANA WA KARINGANA”, “a terra gira e gira, a vida é uma roda” (p. 23) e a história é feita de repetições.

A autora recorre às três narrativas curtas, “O marido cruel”, “Mata, que amanhã faremos outro” e “A ambição da Massupai” para introduzir os temas a serem desenvolvidos. A primeira fala-nos da fome e de um marido que deixa mulher e filhos à míngua. Uma família já não é uma família, é uma luta pela sobrevivência, cada comensal é um potencial rival. A segunda relata o sacrifício de uma criança em nome da segurança do grupo – em tempos de sobrevivência a vida de uma criança deixa de ter o seu valor assegurado. Svetlana Alexievich relata em “A guerra não tem rosto de mulher” uma situação semelhante testemunhada por uma soldado soviética durante a Segunda Guerra Mundial. A guerra toma formas semelhantes em diferentes pontos do globo. A terceira história remete para o caráter destrutivo da ambição, neste caso a de uma mulher capaz de assassinar os seus próprios filhos, em nome de uma paixão por um homem poderoso. Chiziane vai recuperar uma versão desta personagem na narrativa principal, mas também nos faz aqui refletir em como a guerra é isso mesmo, o sacrifício de todos – pais contra filhos, irmãos chacinando irmãos – na disputa perversa do poder.

A narrativa principal está dividida em duas partes. A primeira tem um provérbio tsonga por epígrafe (“Nasceste tarde! Verás o que eu não vi.”) e a segunda um excerto de uma canção popular changane (“Cada dia tem a sua história.”).
Ambas as citações remetem para a passagem do tempo e para a forma como se constrói a história – alertam para a diversidade de histórias dentro da grande história. O livro tem 25 capítulos e no final é-nos apresentado um glossário das palavras de diferentes línguas africanas que são utilizadas no texto.

A contadora de histórias

“Quando eu nasci –conta Paulina Chiziane– os meus pais temeram pela minha vida. Vim ao mundo com um peso muito baixo, a minha saúde era muito frágil. Então houve necessidade de consultar sacerdotes e adivinhos para descobrir o que é que eu tinha. Estes concluíram que havia um espírito importante que queria encarnar em mim. Foi necessário um ritual muito complicado para celebrar a encarnação do dito espírito importante. O tratamento que eu tenho ainda hoje, dentro do clã, apesar de estar a viver na cidade, quando eu regresso a Gaza, à minha aldeia natal, é um tratamento especial, porque tenho o nome do grande antepassado”.

Paulina Chiziane é, sem dúvida, uma autora especial, o que podemos confirmar pelas várias entrevistas disponíveis em texto e em vídeo. É uma mulher contadora de histórias, que escreve numa língua que não é a sua língua nativa, mas que adotou, de modo a contar num só idioma estas histórias plurilingues. Ser contadora de histórias é dar continuidade à teia ancestral que a liga à avó, também ela contadora.

Nos seus textos reflete uma abordagem que não alinha com posições simplistas: fala da situação da mulher, apresentando as suas contradições, e com a guerra faz o mesmo. O lado bom e mau da narrativa heróica está diluído. Em Mananga, a aldeia onde decorre o massacre relatado em “Ventos do Apocalipse”, são os próprios filhos da terra que concertam a destruição daqueles com quem cresceram. 

As histórias de Moçambique são depositárias de muitas intervenções: o colonialismo português, o regime marxista-leninista do pós-independência, a guerra civil, e, sob todas estas camadas mais lineares da história recente do território, a imensa diversidade cultural que compõe Moçambique, composta por diferentes costumes e diferentes formas de a população se relacionar com a história, a que vem de cima, do poder colonial, estatal e tradicional.

A escrita de Paulina Chiziane tem um ritmo e uma musicalidade poéticas. É uma escrita que pede emprestado à tradição oral o ritmo da história contada e sobre ele elabora e reescreve a língua portuguesa. Em Paulina Chiziane há um encontro com a musicalidade, que será herdeira da tradição oral, mas possivelmente também da tradição da poesia narrativa que em tempos se propagou pela costa oriental de África. As culturas locais estão presentes nas palavras que pede emprestadas a outras línguas africanas, nos provérbios e, sobretudo, na sabedoria ancestral, a chave-mestra de toda a história que aqui conta, KARINGANA WA KARINGANA, a história é uma repetição. Esta é uma história entre as várias histórias de Moçambique, esta é uma guerra que ecoa outras guerras pelo mundo – é a história interminável do sofrimento humano. 

O trauma

“Ninguém se lembra de amparar a viúva recente. Minosse, que assistiu a tudo de olhos bem abertos, luta contra o desfalecimento que a abate. Grita, mas a sua voz não se escuta, faz coro com as vozes desvairadas das gentes. Rebola. Pede ao chão que a sepulte mas este recusa-a. Levanta-se. Cai. Grita. Chora. Torna a levantar-se e sofre nova recaída. Estende-se no regaço da terra-mãe com os braços em cruz contemplando o céu, única alternativa ao seu alcance.” (p. 136). 

Um trauma do tipo do que é traduzido ao longo desta narrativa – físico e emocional, onde a perda é tão devastadora que se torna incomensurável – vai exigir outros recursos narrativos à autora. Paulina Chiziane recorre ao corpo e ao gesto para traduzir diferentes dimensões do que está a acontecer àquelas pessoas, vítimas de uma destruição sem precedentes, da qual não conhecem a origem nem o contexto. Nesta cena, o eco dessa devastação concentra-se no corpo de Minosse, a principal figura feminina que vai atravessar todos os períodos narrados. A pontuação utilizada remete para a cadência de ações que recaem sobre o corpo de Minosse (“Cai. Grita. Chora.”), como se o sofrimento provocado fossem pancadas que embatem contra si, que a invadem e que dela saem em rasgos de desespero. O sofrimento torna-se palpável e, por isso, muito próximo. O movimento circular e repetitivo (“Levanta-se. Cai. (…) Torna a levantar-se e sofre nova recaída”) parece apontar para aquilo que já está assente desde o início da narrativa: a história repete-se e o ser humano parece, segundo a perspetiva de Chiziane, estar preso nesta roda giratória de sofrimento. 

“A diversão do homem consiste em destruir e construir desde o princípio do mundo. As guerras existirão sempre.” (p. 145).

A redenção possível parece estar contida no próprio ato de contar histórias. Chiziane dá voz a personagens, mas é também uma escutadora de histórias. Diz que é por intermédio das histórias que ouve pela rua que surgem muitas das personagens e histórias de acaba por escrever. É uma ouvinte compassiva, o que lhe permite criar personagens que falam para lá dos limites que o poder lhes impõe. Falam a partir do lugar da fragilidade e da sobrevivência, da manutenção ou da redescoberta da humanidade – como é o caso de Minosse, que se recupera a si mesma ao adotar crianças orfãs de guerra. A redenção possível vem desses momentos de reconstrução de humanidade e de solidariedade – quando feridos e crianças são recolhidos à passagem do grupo em êxodo, apesar de todas as dificuldades. São momentos que revelam o frágil equilíbrio moral da natureza humana, sempre apanhada em contradição entre diferentes impulsos. 

“Temos que vingar os nossos mortos, gente – declara o chefe. Vingança, vingança – clama o povo.” (p.132). 

E a roda continua a girar.

O final da primeira parte está escrito como se do final de uma primeira parte de uma peça de teatro se tratasse. O sofrimento de Minosse faz referência aos momentos de desespero de Jesus Cristo crucificado, “Deus do Céu e da Terra, espíritos do Mathe e dos Mausse, por que me abandonaram?” (p. 150), um desespero que interpela todas as divindades disponíveis, quer as trazidas pela colonização, quer as ancestrais. 

A estas pessoas sobra apenas a dor como força unificadora. Esse sofrimento partilhado vai permitir que os habitantes de Mananga, a aldeia de Minosse, se unam aos refugiados que previamente haviam chegado à aldeia, e que a aldeia havia rejeitado, e que juntos partam numa massa humana comum, em busca da sobrevivência.

A fome

Se procurarmos inocentes e culpados nesta história, a fome seria certamente uma das principais protagonistas. “Chegou o tempo de comer as crostas da nossa lepra” (p. 30), diz-se logo no início da narrativa. A fome extrema anuncia o desespero da população e incentiva à desconfiança em relação ao vizinho. Mas não a justifica. “Para quê tratá-lo bem se ele não é do nosso clã? É um estrangeiro, e se se sente mal que regresse à sua origem” (p. 41). Logo no início da narrativa uma das personagens é apresentada como sendo marginalizada por não ter os mesmos elos de pertença étnica do que os restantes habitantes da aldeia. Mais tarde, os refugiados de um ataque a outra aldeia vão igualmente ser ostracizados e vistos como adversários num mundo de poucos recursos. A população ressente-se da atenção que estes recebem do poder estatal. 

“Os foragidos são tipos cheios de sorte. Recebem maior atenção das autoridades e não entendemos porquê. Desde que aqui estão, só assistimos à chegada de carros trazendo comidas, roupas, alimentos, mantas, tendas, ou para evacuar um doente para o hospital das cidade, e nós, donos da terra, que lhes damos abrigo e conforto, sofrendo tanto como eles, não recebemos sequer um pedaço de consolação. Se não fosse por temer as autoridades, já os teríamos expulso à pedrada.” (p. 119). 

É curioso como os argumentos utilizados ecoam tiradas xenófobas que ouvimos atualmente, no contexto da sociedade portuguesa contemporânea, em relação a refugiados sírios, por exemplo. No caso de Mananga, a noção de pertença está circunscrita à aldeia, mas as noções de pertença que operam a nível político são mais alargadas – Moçambique é um país com fronteiras definidas (ainda que artificialmente, sem que tenham sido valorizadas coerências linguísticas ou culturais) e é dentro dessa conceção de país que vai decorrer a guerra civil, entre forças que procuram apropriar-se do poder do Estado. Para os habitantes de Mananga, o seu país era a sua aldeia. A guerra vai obrigá-los a descobrir uma realidade muito mais ampla.

A escrita e o feminino

A autora vai recorrer a uma personagem feminina para dar conta dos sofrimentos impostos pela guerra e pela opressão resultante da luta pelo poder entre os homens. 

“O tribunal estreou-se com o julgamento das mulheres. Quer as velhas quer as jovens sofreram um julgamento dramático. Havia argumentos de sobra: a mulher é a causa de todos os males do mundo; é do seu ventre que nascem os feiticeiros, as prostitutas. É por elas que os homens perdem a razão. É o sangue impuro por elas espalhado que faz fugir as nuvens aumentando a fúria do sol. Os juízes instigados pelos homens do Sianga flagelam impiedosos as mulheres desprotegidas”. (p. 97).

É de notar como os papeis de género vão ser abordados também noutras circunstâncias narrativas, refletindo sobre a associação do feminino à fraqueza e àquilo que se deve reprimir e controlar. Quando a aldeia é atacada, o chefe da aldeia (representante governamental) reage com emoção perante a devastação que observa. Chiziane escreve: “As lágrimas do chefe são de amargura, de solidariedade, as mulheres fazem coro e choram com ele. O povo sente-se reconfortado mas inseguro. Se o mais alto chora, quem nos dará a coragem?” (p.130). As mulheres choram com ele, porque é a elas que é permitido e a quem compete chorar. A demonstração de vulnerabilidade é recebida com uma dualidade de sentimentos, “o povo sente-se reconfortado mas inseguro”, o papel de liderança não combina com a demonstração de humanidade por parte do chefe; ao mesmo tempo que o povo é vítima da extrema violência da milícia – manifestação de uma masculinidade deturpada – continua a exigir ao líder que não se associe com o que é tido como do foro feminino – a vulnerabilidade e a emoção.

Uma outra expressão do feminino que surge na obra é a do feminino selvagem: a mulher louca (de sofrimento), na figura de Minosse, depois de escapar ao êxodo e à doença, e a mulher louca (de paixão e ambição), em Emelina, a mulher que a enfermeira encontra nas últimas páginas do livro. Esta última faz eco de Massupai, a personagem que surge no prólogo, estando ambas dispostas a sacrificar tudo e todos em nome da paixão por um homem poderoso.

“Levanta a capulana rota, curva a coluna vertebral deixando o traseiro nu e mostra o cu aos quatro cantos do mundo como forma de insultar o marido onde quer que esteja e expulsá-lo definitivamente dos sonhos.” p. (223).

Na viagem pela loucura, Minosse trilha também um caminho de regeneração – a loucura da mulher é expressão de um movimento interno face à repressão que sofreu nas mãos do marido, muito antes de que o sofrimento partilhado da guerra atingisse Mananga: 

A mestria da escritora consiste em apresentar todas estas variações de personagens femininas, dando-lhes espaço para serem, não boas ou más mulheres, mas mulheres, muitas delas sobreviventes, e produto das suas circunstâncias.

Ventos do Apocalipse data de 1993, mas apresenta-se desoladamente relevante no panorama internacional de 2019. “A guerra é a guerra” e vem contagiando territórios mundo afora – recentemente o Iraque e a Síria, e paira agora a sombra da ameaça sobre a região do Irão. 

Paulina Chiziane, a partir dos eventos em Moçambique, conta-nos tudo o que precisamos de saber: a guerra é injustificável perante a história; a guerra assenta e corrói o corpo dos mais frágeis; a guerra apenas responde às ambições dos poderosos. 

Num mundo tão cheio de guerras presentes e passadas esperar-se-ia que as lições fossem mais bem aprendidas. Se estamos presos nessa roda de sofrimento, como parece defender Chiziane, resta-nos agradecer à literatura, que em esforços de memória como este, não permite que nos escudemos no conforto do esquecimento.

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As nossas meninas-prodígio

Fiquei super contente quando chegou às minhas mãos a tradução de As meninas-prodígio de Sabina Urraca. É difícil as editoras aventurarem-se a traduzir ou editar escritoras “desconhecidas”, por isso, quando acontece, apetece-me abrir uma garrafa de champanhe e brindar – mesmo eu não bebendo!

Eu tinha lido Las niñas prodigio na edição da editora Fulgencio Pimentel (2017) e tinha adorado, não é um livro emocionalmente leve, mostra-nos que nós, mulheres, também temos desejos perversos e pensamos coisas incorretas. As meninas-prodígio explora temas como a sexualidade, a(s) precariedade(s), a sororidade, a pederastia… é uma collage de pensamentos, de experiências, de histórias reais e imaginadas.

Mas quem são as meninas prodígio da Sabina Urraca? São meninas “normais” como Olivia, uma mini-femme fatale obcecada com a morte; Clara, a quem o tio ofereceu de presente um telefone em forma de hamburguer só para falar com ela; ou a protagonista, que deixa que a vida passe por ela, assim como os seus desejos e os seus estranhos pensamentos…

As meninas-prodígio são cada uma de nós. Todas as histórias alinhavadas por Sabina Urraca nascem das nossas realidades, das realidades das meninas “normais”, dos nossos sentimentos, mesmo que muitos deles possam causar desconforto a quem lê ou até escandalizar, porque as meninas “normais” também têm desejos perversos e pensam coisas incorrectas.

Enquanto avançava na leitura, ia encontrando passagens nas quais identificava emoções ou sentimentos da minha própria infância ou (pré)adolescência, recordando o meu mundo interno e os meus segredos “obscuros”. As sensações provocadas pelas histórias das meninas-prodígio não são pacíficas. Sabina Urraca leva-nos até ao confronto entre aquilo que mostramos – e que achamos correcto – e aquilo que sentimos realmente. Este confronto remexe as entranhas e a razão.

Por exemplo, em relação à protagonista podemos sentir fascínio pela sua forma de sentir, ela sente desejo por todo tipo de seres, sem nenhum preconceito, mas também podemos sentir desconforto porque as suas histórias colocam no centro do furacão as nossas próprias convicções sobre aquilo que achamos ser correto, aquilo que devemos pensar ou sentir. Para muitas de nós pode resultar estranho que uma menina se apaixone por um adulto, porque em algum momento esse enamoramento nos vai conduzir até a pederastia, até ao mito da Lolita ou à antilolita no caso de As meninas-prodígio de Sabina Urraca.

As emoções e questões desconfortáveis em redor da nossa sexualidade vão existir sempre, e a sexualidade das crianças e adolescentes será sempre um tema delicado e controverso.

Eu lembro-me de me sentir atraída por rapazes mais velhos durante a infância e adolescência (quase todas nós temos uma história de amor “platónico” por um professor, por um amigo do irmão mais velho, por um vizinho…)… Em As meninas-prodígio, a sexualidade das crianças está no centro das histórias, uma sexualidade com a qual não sabemos lidar mas que existe, e em cada história, de um jeito mais direto ou mais indireto, Urraca mostra-nos como a sexualidade das crianças é uma questão melindrosa e que um adulto nunca deve ceder mesmo que a criança ou adolescente diga “sim, quero”.

Em As meninas-prodígio a ficção e autobiografia misturam-se e falam-nos do desejo de soltar o peso do passado, de perder o medo, fazer as pazes com os fantasmas e regressar ao momento presente para se ser o que se é. A escrita e a solidão (geográfica e humana) também são as protagonistas neste caminho da redenção e reencontro das meninas-prodígio.

“Voltamos para casa.”

#asmeninasprodígio

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Gabriela Gomes teve um acidente tropical

Este mês de Novembro vamos receber na Confraria a Gabriela Gomes e o(s) seu(s) ‘acidentes tropicais ‘

A leitura do livro-vivo ‘acidentes tropicais’ será dia 15 Novembro às 19h e as inscrições estão abertas.

Para conhecer melhor a poesia da Gabriela Gomes e o seu livro-vivo ‘acidentes tropicais‘ partilhamos este post-entrevista. Esta entrevista foi partilhada a primeira vez no IG da Confraria.


Quem é a Gabriela Gomes? O que é para ti a poesia?
Gabriela Gomes é antes de tudo uma pessoa que escreve desde pequena mas que só conseguiu assumir isso pra si mesma em uma escrita que ultrapasse os diários quando comecei a me dedicar a escrita de poemas. Poesia pra mim é quase um modo de ver a vida. É um modo de estar no mundo e registra-lo é a nossa percepção materializada da nossa sensibilidade. A poesia me salva diariamente.

A poesia é fixar o nosso olhar num detalhe e em outro, talvez parar naqueles detalhes em que ninguém parou, é assim a poesia que vamos encontrar em ‘acidentes tropicais’?
A poesia do @acidentestropicais está inserida nesse contexto de detalhes que as vezes nos passam desapercebidos. Uma tensão entre um presente sem toque e diálogo e o saudosismo de um passado de fazer geleias de amora com a avó. O acidentes fala mais alto no cerne da autobiografia e da família. Um registo da poeta que sou e das minhas andanças neste mapa que é o mundo.

Descreves ‘acidentes tropicais’ como um #livrovivo ? Conta-nos um pouco mais.
A poesia do @acidentestropicais está inserida nesse contexto de detalhes que as vezes nos passam desapercebidos. Uma tensão entre um presente sem toque e diálogo e o saudosismo de um passado de fazer geleias de amora com a avó. O acidentes fala mais alto no cerne da autobiografia e da família. Um registo da poeta que sou e das minhas andanças neste mapa que é o mundo.

A tua poesia é uma tentativa de comunicar desde um eu muito presente e desde a própria biografia…
A minha poesia no acidentes é uma eterna busca do eu como poeta. Desse assumir. De pegar para mim o título que me cabe. Nomear é um ato de poder dizia Rosmarie Waldrop. Eu tive que me nomear poeta para conseguir me assumir escritora. Um livro teve que nascer pra eu conseguir assinar em formulários hospitalares “ocupação: escritora”. O acidentes me nomeou poeta diante do mundo mas principalmente diante de mim mesma. Um livro nomeia, me ajuda com o luto, me faz levantar da cama e escrever. Nesse primeiro livro ser autobiográfico é quase indissociável da minha poesia.  Como @estela_rosa me disse uma vez: uma mulher lendo seus poemas são todas as mulheres lendo todos os seus poemas. ♥

Para terminar, todas as escritoras/poetas também são leitoras, o que estás a ler neste momento?
É difícil cravar 100% mas acho muito difícil escrever sem ler! É preciso buscar referências, se inspirar, saber o que estão escrevendo, trocar, ler, editar, enfim. Muito da minha vinda pra Portugal veio dessa vontade de buscar novas referências, novas vozes, e outros sotaques da mesma língua. Posso dizer que estou sempre lendo varios livros ao mesmo tempo o que faz com que eu demore pra terminar mas cito aqui dois que estão me fazendo grifar todas as páginas de papel: O retorno de Dulce Maria Cardoso e Os elétrons não são todos iguais e outros poemas da Rosmarie Waldrop. Além disso estou sempre lendo amigas e amigos escritores, trocando, compartilhando e produzindo em grupo também faz a gente crescer! É isso.
Obrigada pelo espaço Confraria Vermelhae torço por mais núcleos importantes de leitura, partilha e literatura como este no mundo!

Também podem deixar as vossas questões e mensagens para a Gabi nos comentários. ⚡

Mortas secundárias

«O fio da vida é tão forte como o tendão de um boi.
Por isso, mesmo depois de te perder, a vida teve de continuar.
Tive de me forçar a comer, a trabalhar, a empurrar cada dia para baixo, como se fosse uma bola de arroz frio,
mesmo que me ficasse entalado na garganta.»
Atos Humanos, Han Kang

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Dreamstime

Conseguimos tolerar ler sobre a perda. A perda pode ter uma aura romântica: depois de cada perda, imaginamos o estado de regeneração que se segue, em que novos ganhos se acumulam. A tempestade e a bonança.

Mais raro é querermos demorar-nos nos corpos que vão perdendo a vida na cadência lenta da doença, ou nos corpos que vimos mortos, e com quem, por isso, assinámos um pacto de impossível esquecimento.

Mortas secundárias


Há corpos que rapidamente se viram fantasmas, nomes repetidos em jornais, coletados de quando em vez, em nome da memória.  É o caso de Andrea, María Luisa, e Sarita, as “Raparigas Mortas”, que Selva Almada nunca pôde esquecer. São fantasmas que a acompanham desde a adolescência, desde a primeira vez que escutou ecos das suas histórias. Apesar de todo o espalhafato mediático que, na Argentina, os acompanhou, são nomes que representam três crimes por resolver. Acontece que, das idas décadas de 80 para cá, o ódio às mulheres continuou fácil de tolerar.

Apesar de todo o protagonismo que estas três histórias a seu tempo tiveram, foi demasiado fácil abandonar estes nomes à fantasmagoria, torná-los meros mitos urbanos, que assombram as noites de uma ou outra jovem, a caminho de uma saída noturna ou de um encontro sexual – “vê lá, lembra-te do que a aconteceu a Andrea”, ou a María Luisa, ou a Sarita.

Mortes periféricas

Lá longe, na raia transmontana, percebe-se que caminhamos entre e além fronteiras – a rede de telemóvel, a da televisão, tudo oscila entre o português e o espanhol. Foram terras de partida, mas em “Agora e na Hora da Nossa Morte” são estradas e povoações percorridas, acompanhando uma equipa de cuidados paliativos, no Planalto Mirandês. São histórias dos que regressaram, e dos que por lá quiseram ficar, dos dias que se vão subtraindo, e dos últimos usos dos corpos – os abraços e a teimosia de aguentar um pouco mais; a escuta de gente que, gradualmente, se foi esquecendo de si e das suas dores.

A jornalista Susana Moreira Marques presta testemunho do quanto serve um corpo e do valor daqueles de dele cuidam. “E depois, o amor, grande sobrevivente do desastre”.

Mortos em revolta

Atos Humanos” são atos violentos, é a crueldade, decartável, sacudida de cima de ombros militares, dos microfones de políticos. Registada uma e outra vez pela imprensa estrangeira, que se escandaliza. Atos humanos são uma história que se repete, repete, e continua imutável.

Han Kang regressa à sua cidade natal, Gwangju, na Coreia do Sul, para um ajuste de contas com o massacre de 1980, em que estudantes foram torturados e mortos, em nome da obediência ao Estado. Este confronto faz-se a várias vozes, num acumular de corpos, como o daquele 18 de maio. «Quando morreste, não pude fazer-te um funeral e assim, a minha vida tornou-se um funeral. Quando foste envolto numa lona e levado num camião do lixo. Quando jatos de água reluzentes brotavam imperdoavelmente da fonte.».


Dia 25 de novembro marca o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. A data foi escolhida em homenagem às irmãs Mirabal, três dominicanas que se opuseram à ditadura de Rafael Leónidas Trujillo. Foram presas e torturadas várias vezes, até que Trujillo decidiu assassiná-las. A 25 de novembro de 1960, enviou vários homens para intercetar as três mulheres, a caminho de uma visita aos seus maridos, que se encontravam presos. Las Mariposas, como ficaram conhecidas, estavam desarmadas. Foram levadas para uma plantação de cana-de-açúcar, sendo aí espancadas e estranguladas.

Todos os anos se acumulam nomes de mulheres assassinadas por companheiros e maridos, os quais nós, feministas, tendemos a repetir em manifestações de repúdio. Até ao ano seguinte. Dia 25 de novembro é dia de dizer, mais uma vez, que não aceitamos tantos corpos acumulados.

A morte é inevitável, mas estas não.

Texto escrito por Sara Leão
A Sara Leão gosta de ler e escrever,
ó terrim, tim, tim e passear na rua.
Partilha o que sentepensa num blog que tem uma citação da Agnés Varda.
Modo de estar na vida: feminismo para viver bem.


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UMA LEITORA COMUM –  Ouse, ouse… ouse tudo!!

 Ouse, ouse… ouse tudo!!

Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar a sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda… a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!
Lou Andreas Salomé

Leio e leio sobre escritoras. Não por ter interesse, como disse Djuna Barnes “num grandioso estilo, na beleza de expressão, no fulgor do engenho e nas personagens”, mas por querer descobrir os mundos mentais nos quais habita cada escritora, os quais a sua obra é testemunho. Descobrir o seu olhar, a sua forma de compreender o mundo e de explicar as coisas.

Na Rússia com Rilke O Bosque da Noite de Djuna Barnes

 

 

 

 

 

Também leio teoria, reflexões, ideias, diários e interpretações, fascina-me o esforço mental que me exige este tipo de leitura e a inteligência que emanam as suas palavras perante os meus olhos bem abertos.

Ler é um privilégio que devia ser um direito, todos as pessoas deviam ter as ferramentas e a possibilidade de desenvolver o seu eu leitor. Poder escavar, dar voltas, atrever-se a dizer, a construir mundos com as suposições que cada pessoa faz das obras que lê.

Diário - 1915-1926 de Virginia Woolf

 

 

 

 

 

 

 

Leio e leio escritoras. Os seus romances, os seus ensaios e a sua poesia… faço-o principalmente para procurar ver se algo se move, se algo se sente, se acontece algo no meu interior.
Em cada leitura “vemos o que está ali para nós. Absorvemos aquilo que permitimos que penetre” escreveu alguém uma vez.

É verdade que muitas vezes não acontece nada mas quando acontece é… Não consigo descrever o prazer que me provoca. Durante dias essa leitura habita em mim com luz própria, acrescentado, transformado-me. E nasce o desejo de partilhar essa luz, esse livro. Sentir o impacto da leitura assim como ler várias vezes a obra, não dá o direito de a explicar a outras leitoras e leitores.

Nem se querer tento explicar um livro, prefiro recriar, inventar, partilhar com outras leitoras a minha leitura (como fazemos no
Clube de Leitura). Um dia li um crítico (não recordo o nome, desculpem) que dizia, ‘reconstruo e organizo os textos numa ordem pessoal que não oculta afinidades’.
Por isso, quando escrevo sobre os livros que leio, os meus textos não são, nem procuraram ser, uma aproximação crítica mas sim afectiva desde quem sou: leitora, livreira, curiosa, ibérica, feminista… As minhas palavras são sempre diferentes, umas vezes mais reflectidas outras mais emotivas, outras mais curiosas…

   

Leio e depois escrevo pelo prazer de fazê-lo, pelo prazer de partilhar o efeito da leitura em mim e o pensamento. Às vezes para fechar um círculo interno e chegar a algum sítio, mesmo não sabendo muito bem qual…

“¿ A dónde llegué? ¿A dónde había que llegar?”.
Gloria Gervitz

 

Texto escrito por:

Um vasto mar de contradições

O livro do clube de leitura de junho não teve unanimidade nas valorizações das leitoras. Tivemos Pandoras que gostaram e outras que não conectaram com Vasto Mar de Sargaços de Jean Rhys.

Jean Rhys e o seu vasto mar de lamentações

Ella Gwendolen Rees (Jean Rhys), nasceu em 1890 na ilha da Dominica, quando ainda era colônia britânica. Filha de um galés e de uma criola descendente de uma família de proprietarios de plantações, viveu a emancipação dos escravos africanos, a desestruturação social e econômica das famílias de origem europeu e os vai-vém do pós-colonialismo. Na sua biografia podemos descobrir uma infância na qual se sentiu abandonada e rejeitada pela mãe, o que a marcou profundamente. Um alcoolismo que nunca superou, vários maridos, os homens sempre estiveram na sua vida como apoio e sustento econômico. A escritora sempre teve uma preocupação pelo dinheiro, pela aparência e pelo reconhecimento literário, que chegou tardiamente com a obra Vasto Mar de Sargaços de Jean Rhys, considerada uma das referências da literatura inglesa do século XX.

Vasto Mar de Sargaços de Jean Rhys foi publicado 1966 e como mencionei supõe o reconhecimento da escritora depois de cinco romances que passaram bastante despercebidos e que a afastaram da cena literária. O livro tem como ponto de partida a personagem Antoinette Cosway, a primeira esposa de Rochester, a enigmática personagem do romance Jane Eyre de Charlotte Brontë. O jogo literário é a partida interessante, a esposa louca que vive encerrada num sótão e que termina provocando um incêndio e suicidando-se, e da qual apenas temos um esboço na obra de Brontë, o que deu liberdade a Rhys para (re)construir o seu passado.

A obra de Rhys está repleta de elementos autobiográficos, a autora constrói uma personagem desgarradora mas pouco profunda, uma protagonista com uma infância onde lhe falta amor mas lhe sobram penúrias e momentos dramáticos que lhe provocam uma constante insegurança e uma persistente sensação de melancolia e solidão. De certa forma é uma personagem oposta a Jane Eyre, que teve uma infância igual ou mais terrível que Antoinette mas que tenta contrariar o seu destino com um carácter animoso e resiliente, Rhys cria em o Vasto Mar de Sargaços, o oposto, uma anti-heroína, uma personagem real, reconhecível mas com a qual nem sempre vamos empatizar, uma personagem na qual podemos reconhecer muito da própria autora, ambas arrastaram uma autodestruição desde a infância.

A falta de autoestima levam a Antoinette a afastar-se de quem lhe pode proporcionar felicidade, a estrutura patriarcal priva-a de todos os seus bens e até do próprio nome. Como uma marioneta, como uma boneca, a jovem sente que não pode controlar o seu destino e deixa-se cair em queda livre até ao inferno. Antoinette sofre o desgarro do que pressupõe viver entre duas culturas, ama a ilha e ao mesmo tempo tem medo da sua própria gente, luta por pertencer a um lugar, e é o facto de ser levada para fora de esse lugar o que por fim a conduz a loucura.

Toda a peripécia vital das personagens parece ser uma metáfora da situação política e social. Por um lado Antoinette e a mãe representam o mundo criolo, por outro o esposo representa o colonizador que querer tirar o maior partido possível da ilha mas que nunca chega a amá-la, temos Cristophine, uma personagem magnífica, a escrava que pouco a pouco, com força e inteligência, vai tomando as rédeas da sua liberdade e o seu futuro. Junto a estas personagens temos os criados, o povo do caribe, também entre dois mundos, ignorantes e poderosos, perpetuam a vingança do seu povo: violentos e presos a magia e ao mistério pouco a pouco vão tomando a possessão da terra.

Há leitoras que destacam neste livro o seu estilo contemporâneo, os jogos estruturais com mudança de narrador, o lirismo com o qual se recria o ambiente, a exuberância, o calor, a beleza da paisagem assim como os estados de ânimo das personagens. Outras leitoras destacam a exposição clara de certos temas e há quem destaca as incoerências da narrativa face a obra que tem como ponto de partida e a pouca clareza da prosa.

Vasto Mar de Sargaços retrata uma época na qual a mulher pertence ao homem (até 1880 legalmente a mulher era considerada um bem que primeiro pertence ao pai e depois ao marido) e que nem sequer tem direito a um nome, uma época na qual os povos colonizados se levantam contra os seus opressores, Rhys escreve uma obra que se por um lado nos parece um argumento a favor da liberdade por outro lado não é mais do que um lamento e um olhar sobre os que sofrem, sobre os que não sabem enfrentar as penalidades da vida, sobre os que não sabem lutar, os que não sabem como fazê-lo ou os que simplesmente nem sequer querem lutar.

E vocês já leram Vasto Mar de Sargaços? O que acharam? Partilhem connosco nos comentários, vamos adorar saber as vossas opiniões.
Foto de Confraria Vermelha Livraria de Mulheres.
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