Aquilo que lemos

Sermos seres racionais faz-nos ter opinião sobre aquilo que nos rodeia e nos contém mas também nos faz cair na armadilha de acreditar que as opiniões são verdades irrevogáveis. Ter opinião, sermos críticas do mundo que criamos é uma tentativa de nos mantermos lúcidas… mas achar que só há uma forma de fazê-lo é elitista, machista, racista ou tudo ao mesmo tempo.

O interessante da literatura é ler.

No que diz respeito aos livros que lemos e aos que não lemos, é interessante observar o processo de desqualificar certas narrativas e ver como o fazemos muitas vezes sem sequer ter lido a obra. E quando falamos de escritoras ou escritores da diáspora literária esta desqualificação sem conhecimento sobre a obra é bem mais evidente. Mas porque lêem/lemos tão poucas escritoras?

Pode ser por falta de interesse no que têm para nos contar, pode ser por preconceito ou pela simples e invisível razão de nem sequer as considerarem. Lembro-me de ter lido uma vez um artigo que falava sobre Clarice Lispector e dizia “Não soubemos lê-la.”
Há umas semanas, a editora Minotauro (obrigada Minotauro!) recuperou a obra de Judith de Carvalho e um leitor disse-me esta mesma frase sobre ela. Provavelmente vocês já ouviram esta frase fazendo referência a outras escritoras. E é assim, que a não consideração das escritoras passa por ser um lapso, uma incapacidade humana de entender a sua narrativa. “Nasceu muito à frente do seu tempo” também é um argumento usado, mas ninguém nasce à frente do seu tempo, é impossível!
Estes argumentos permitem que de quando em vez, algumas escritoras transitem para o grupo das incomprendidas mas das quais devemos falar bem mesmo sem as ler.
Parece-me algo inútil… O interessante da literatura é ler.

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Mas este processo de considerar ou não uma obra, recorda-nos que quem lê, não chega virgem a um texto, a leitura é uma instituição socializada, lemos aquilo que sabemos ler e isso depende em parte daquilo que lemos, das obras desde as quais desenvolvemos as nossas expectativas e aprendemos as nossas estratégias de compreensão. Algures num texto de crítica literatura li que Umberto Eco disse: “O autor do discurso e o descodificador compreende a mesma coisa porque se remetem a um código familiar, um que já conheciam antes de receber a mensagem”. 
Ou seja, há cânones, códigos, modos, temas, linguagens que temos internalizadas e não gostamos de quem não as cumpre, não nos interessa, numa revista que não recordo, desculpem, li: “As possibilidades, as necessidades, as proibições, o possível de ser pensado e o impensável, o possível e o não possível, é o resultado da interiorização desses códigos e práticas… a génesis social dos padrões de percepção, pensamento e acção.”
De forma mais resumida e nas palavras de Harold Bloom: “Aquilo que és, só isso podes ler”.
E assim, escolhemos ler o que lemos e por consequência assim escolhemos o que dever ser canonizado. Mas este processo assim como as opiniões é irrevogável?!!

Eu intuo que não, acho que estes contratos podem ser revogados e ainda bem que assim é, porque o mais interessante da literatura é ler. Vamos criar juntas um olhar alargado da literatura que quebre barreiras e nos deixem olhar para a realidade em todos os sentidos.

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