Diário de Uma Dona de Casa Desesperada de Sue Kaufman

Arquivo de Personagens Femininas

Personagem:  Tina
Livro: Diário de Uma Dona de Casa Desesperada
Autora:  Sue Kaufman

Romances sobre perdedores temos as dúzias; na literatura norteamericana até podíamos considerar que constiui um subgénero em si mesmo. Mas o que não abundam são as histórias sobre perdedoras, sobre mulheres que afrontam a sua existência como um inevitável caminho de renúncia e obstinação. Diário de Uma Dona de Casa Desesperada de Sue Kaufman, é uma dessas histórias, por isso a resgato do limbo literário para quem quiser descobrir uma escritora e um livro com uma narrativa sólida e personagens complexas.

Tina é uma dona de casa bem posicionada, casada com um advogado de prestígio, duas filhas e um cão. Uma vida, aparentemente idílica, mas que na verdade é um poço de obsessões, terrores e problemas, Tina arrasta uma neurose alguns anos e, é incapaz de fazer frente as suas obrigações sem cair na depressão. Um romance estruturado em forma de diário no qual Tina escreve, em segredo, para tentar acalmar e colocar por escrito os seus pensamentos. Sue Kaufman acerta em pleno, a voz da narradora alcança uma intimidade louvável: não vos nego que o formato diário pessoal é por vezes artificial (em certas passagens a narrativa é tradicional e a primeira pessoa não é tão credivél) mas no seu todo o resultado deste romance é de uma intimidade e proximidade notáveis.

Sue Kaufman, romancista americana nasceu a 7 de Agosto de 1926 em Long Isaland, Nova Iorque. Diplomada pela Vassar College em 1947, começou a trabalhar como assistente editorial. Faleceu a 25 de Junho de 1977, em Nova Iorque. Em sua homenagem anualmente é atribuído o prémio literário Sue Kaufman pela Academia Americana de Artes e Letras.

A intimidade e aproximidade da narrativa é conseguida através da profundidade com que é criada a personagem de Tina. Kaufman retrata uma mulher frágil, doentiamente débil, mas com uma resolução que vai crescendo a cada revés emocional que vivencia.  Diário de Uma Dona de Casa Desesperada mostra-nos o solitária que pode ser a vida de aparência feliz: como os problemas que se vivem no dia a dia se podem transformar em pesadelos dos quais não se consegue sair, até a sua cadela a consegue transtornar ao ponto de perder o controlo de si mesma. Isto pode fazer-nos pensar que Tina Balser é uma percusora de Bridget Jones mas longe disso: a protagonista é uma mulher descontente e de personalidade neurótica mas Kaufman não constrói uma personagem amável com a qual empatizamos ou com a qual podemos rir; Tina é uma mulher inteligente que, apesar da sua fragilidade psicológica, é capaz de transformar a sua vida num espectáculo para se tornar respeitável.

A angustia da protagonista é demasiado próxima como para não nos identificarmos com aquilo que lhe sucede. A normalidade de uma vida programada pelos outros, a pressão que impõe uma sociedade que vive da imagem que se projeta, o desconsolo de não sermos donas/os das nossas próprias existências… tudo é demasiado familiar e são características que se enraízam com o passar do tempo. O golpe final da autora está no mostrar a dualidade de Tina: vítima e carrasca, débil e autoritária. Não é uma mulher resignada que se rende perante o marido egocêntrico nem é uma heroína que faz frente a todos os contratempos que lhe surgem: é, simplesmente, um ser humano dividido entre as suas debilidades e as suas vilezas, uma pessoa tão capaz de sofrer como de ferir. Razão pela qual, esta personagem é tão real e complexa, mesmo que a narrativa esteja condicionada pela sua parcialidade.

Diário de Uma Dona de Casa Desesperada é um romance complexo e sugerente, com momentos divertido e de uma profundida subtil. Como disse no início é um livro que nos fala de uma perdedora mas Sue Kaufman oferece-nos um outro conceito de perdedora, vale a pena descobri-lo!

 

Diário de Uma Dona de Casa Desesperada
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Este livro foi publicado originalmente em 1967 e é considerado um dos romances fundacionais e mais representativos da nova consciência feminina a meados do século XX nos Estados Unidos. Diário de Uma Dona de Casa Desesperada de Sue Kaufman é um divertido e inteligente relato sobre o sentimento de angustia ao que todas as pessoas nos enfentamos alguma vez na vida.

A Capa do livro é muito importante

Quando vi a edição portuguesa confesso que a capa não me seduziu e fiquei com dúvidas de ler ou não ler… até que a ficha caiu! Não posso julgar o livro pela capa…

Tinha lido sobre Sue Kaufman e queria conhecer esta escritora por isso afastei o julgamento do livro pela capa e mergulhei na leitura. Não me decepcionou!

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Ifemelu, a personagem que é difícil sair da nossa cabeça.

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Personagem:  Ifemelu
Livro: Americanah
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie

Dizem que há romances que contam uma grande história e romances que mudam a forma como vemos o mundo. Chimamanda Ngozi Adichie consegue as duas coisas com este romance brilhante e acessível. Americanah é uma história de amor, é um relato de sonhos desfeitos e outros alcançados com os quais toda uma geração certamente se pode sentir identificada, e é também uma aguda análise sobre a descriminação e o racismo mais evidente assim como o escondido em hábitos quotidianos.

Americanah - Chimamanda Ngozi Adichie
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É um romance de momentos e realidades duras mas ao mesmo tempo é uma leitura divertida, com personagens reais e sedutoras para quem lê, principalmente o furacão Ifemelu, uma personagem difícil de sair da nossa cabeça. Está cheia de defeitos e virtudes,  é divertida, directa e inteligente; as mesmas qualidades pelas que se destaca também este romance. Não tenho qualquer tipo de reservas em recomendar a sua leitura. O desenvolvimento de Americanah gira em torno dos motivos que fizeram Ifemelu voltar ao seu país. As razões para essa acção são apresentadas sem pressa: o andamento da narrativa se dá pela memória de Ifemelu, de forma não-linear

Foi num dia ensolarado de julho que Ifemelu parou de forçar um sotaque que não tinha. Aconteceu logo após ouvir a um funcionário de telemarketing dizer-lhe que a sua voz soava tal qual uma americana – “nem parece que você mora há apenas três anos nos Estados Unidos!”

A frase do rapaz era em tom de elogio e os parabéns indicavam que Ifemelu devia ter alcançado alguma vitória particular. Na verdade, serviram mais para irritá-la do que para fazê-la feliz. Se não fosse pela decisão daquela manhã, Ifemelu voltaria à Nigéria como uma americanah.

O termo, quase um homônimo da língua portuguesa, é pejorativo: representa a adequação aos padrões americanos, bem como as consequências geradas a partir disso – afetações e maneirismos no sotaque, negação da língua nativa, mudança de costumes e hábitos. No romance de mesmo nome, escrito pela autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, a palavra aparece pela primeira vez em referência a uma menina que viaja para os Estados Unidos. “Voltará uma tremenda americanah”, dizem as suas amigas.

Ifemelu, decide renegar o uso do sotaque americano e quando toma essa decisão também recorda como foi a chegada aos Estados Unido e como descobriu o impacto da raça e de suas consequências baseadas em estereótipos o que lhe causava certo estranhamento – tanto quanto a maneira exótica como outros personagens a veem. Num dos posts do blog que escreve, Ifemelu descreve o que chama de “tribalismo americano”, tentando entender por que é que um judeu sofre preconceitos no país se a sua pele é branca. “Quanto mais tempo vocês passarem aqui, mais vão entender”, conclui.

É um livro assumidamente político. Trata-se de uma genealogia dos costumes das sociedades americana, britânica e nigeriana nas suas mais variadas acepções: nas duas primeiras, o racismo é o ponto forte a ser discutido; no caso da terceira, as lembranças de Lagos, capital da Nigéria, e o estranhamento com que Ifemelu retorna ao país (invariavelmente, mais americanah do que desejava) após viver nos Estados Unidos por mais de uma década. Em Americanah, Ifemelu e o racismo assume sem pudores o seu papel de protagonista.

Com Ifemelu ficamos alerta para o risco de nos tornarmos reféns de estereótipos, de narrativas únicas sobre determinados povos assim como a não esquecermos que nada é apenas aquilo que parece.

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Personagem: Olive Kitteridge

A tristeza como forma de vida

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Personagem: Olive Kitteridge
Livro: Olive Kitteridge
Autora: Elizabeth Strout

 

Olive Kitteridge é a personagem do romance com o mesmo nome da escritora Elizabeth Strout.

O romance conta-nos 25 anos na vida de Olive Kitteridge, uma mulher arrogante, estrita, aparentemente insensível mas ao mesmo tempo frágil e, principalmente, profundamente triste. Olive é autêntica, fiel a si mesma, com todas as consequências que isso acarreta, o que torna esta personagem numa mulher insubornável.

É uma personagem que cativa e que está construída para levar o peso do romance. O seu marido, Henry, é um homem bom, que faz tudo por Olive mas que em troca recebe rejeição. Este é o centro da história, assistimos a evolução de um casamento, desigual, onde o marido contribui com amor e carinho e Olive com o desapego. Esta desigualdade afecta também ao filho de ambos que estabelece com mãe uma relação distante.

Olive é uma mulher cheia de contradições, apesar do desapego com que trata o marido e o filho, não hesita em ajudar todas aquelas pessoas que não encontraram o lugar delas no mundo.

Estas contradições no carácter de Olive, tornam difícil simpatizar com ela, mas com o passar das páginas e o avançar da história não só cresce a empatia como a solidariedade,  vamos compreendendo a dura carga emocional com a qual tem de lidar Olive. Ela ama a sua maneira e não sabe como evitar magoar a quem a rodeia. Dela só recebem comentários sarcásticos, olhares frios e respostas que cortam como facas afiadas mas ao mesmo tempo é uma mulher que conhece intimamente a frustração e a solidão.

Este romance explora, com subtileza, a maioria dos arquétipos psicológicos e doenças psiquiátricas: suicídio, bipolaridade, alucinações, depressão, complexo de Édipo…

Apesar da relação complicada que estabelecemos com a personagem, custa-nos abandona-la quando chegamos ao fim do livro. Cada capítulo é dedicado a uma personagem da aldeia e Olive aparece com maior ou menor destaque em todos os eles, transformando-se no fio condutor das histórias.

Strout mexe-se de maravilha num tema delicado como é a insatisfação pessoal. Ao longo do romance somos acompanhadas pela sensação de que as coisas podem melhorar, sentimento que é compensado pelas pequenas alegrias que vamos encontrando. A história está construída sobre e nos detalhes, com uma linguagem reflexiva e cheia de fina ironia. O estilo minucioso de Elizabeth Strout faz com que cada palavra seja importante. A sua decisão de criar uma protagonista mulher, a priori tão difícil de gostar, com a finalidade de que seja a leitora/o quem vá avançando e entrado na sua personalidade para descobrir a verdadeira Olive Kitteridge é o melhor deste livro.

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