As nossas meninas-prodígio

Fiquei super contente quando chegou às minhas mãos a tradução de As meninas-prodígio de Sabina Urraca. É difícil as editoras aventurarem-se a traduzir ou editar escritoras “desconhecidas”, por isso, quando acontece, apetece-me abrir uma garrafa de champanhe e brindar – mesmo eu não bebendo!

Eu tinha lido Las niñas prodigio na edição da editora Fulgencio Pimentel (2017) e tinha adorado, não é um livro emocionalmente leve, mostra-nos que nós, mulheres, também temos desejos perversos e pensamos coisas incorretas. As meninas-prodígio explora temas como a sexualidade, a(s) precariedade(s), a sororidade, a pederastia… é uma collage de pensamentos, de experiências, de histórias reais e imaginadas.

Mas quem são as meninas prodígio da Sabina Urraca? São meninas “normais” como Olivia, uma mini-femme fatale obcecada com a morte; Clara, a quem o tio ofereceu de presente um telefone em forma de hamburguer só para falar com ela; ou a protagonista, que deixa que a vida passe por ela, assim como os seus desejos e os seus estranhos pensamentos…

As meninas-prodígio são cada uma de nós. Todas as histórias alinhavadas por Sabina Urraca nascem das nossas realidades, das realidades das meninas “normais”, dos nossos sentimentos, mesmo que muitos deles possam causar desconforto a quem lê ou até escandalizar, porque as meninas “normais” também têm desejos perversos e pensam coisas incorrectas.

Enquanto avançava na leitura, ia encontrando passagens nas quais identificava emoções ou sentimentos da minha própria infância ou (pré)adolescência, recordando o meu mundo interno e os meus segredos “obscuros”. As sensações provocadas pelas histórias das meninas-prodígio não são pacíficas. Sabina Urraca leva-nos até ao confronto entre aquilo que mostramos – e que achamos correcto – e aquilo que sentimos realmente. Este confronto remexe as entranhas e a razão.

Por exemplo, em relação à protagonista podemos sentir fascínio pela sua forma de sentir, ela sente desejo por todo tipo de seres, sem nenhum preconceito, mas também podemos sentir desconforto porque as suas histórias colocam no centro do furacão as nossas próprias convicções sobre aquilo que achamos ser correto, aquilo que devemos pensar ou sentir. Para muitas de nós pode resultar estranho que uma menina se apaixone por um adulto, porque em algum momento esse enamoramento nos vai conduzir até a pederastia, até ao mito da Lolita ou à antilolita no caso de As meninas-prodígio de Sabina Urraca.

As emoções e questões desconfortáveis em redor da nossa sexualidade vão existir sempre, e a sexualidade das crianças e adolescentes será sempre um tema delicado e controverso.

Eu lembro-me de me sentir atraída por rapazes mais velhos durante a infância e adolescência (quase todas nós temos uma história de amor “platónico” por um professor, por um amigo do irmão mais velho, por um vizinho…)… Em As meninas-prodígio, a sexualidade das crianças está no centro das histórias, uma sexualidade com a qual não sabemos lidar mas que existe, e em cada história, de um jeito mais direto ou mais indireto, Urraca mostra-nos como a sexualidade das crianças é uma questão melindrosa e que um adulto nunca deve ceder mesmo que a criança ou adolescente diga “sim, quero”.

Em As meninas-prodígio a ficção e autobiografia misturam-se e falam-nos do desejo de soltar o peso do passado, de perder o medo, fazer as pazes com os fantasmas e regressar ao momento presente para se ser o que se é. A escrita e a solidão (geográfica e humana) também são as protagonistas neste caminho da redenção e reencontro das meninas-prodígio.

“Voltamos para casa.”

#asmeninasprodígio

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A Violência pt.3: Atos Humanos, Han Kang

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Em Fevereiro de 2017 o livro do Clube de Leitura as Leitoras de Pandora foi, por sugestão de uma leitora, A Vegetariana de Han Kang. Ainda não tinha lido nada da autora de quem, até ao final de 2017, iria ler ainda mais dois livros e poder ouvir pessoalmente na Feira do Livro do Porto. Han Kang tornou-se uma das minhas autoras favoritas e aguardo com expectativa que a totalidade da sua obra seja traduzida para uma língua em que eu tenha o privilégio de saber ler.

Atos Humanos foi publicado em 2014 na Coreia do Sul e chegou a Português no ano passado. Centra-se num período histórico da Coreia do Sul que eu desconhecia: o massacre de Gwangju. Numa introdução da tradutora inglesa temos uma breve explicação do contexto histórico e político deste massacre em que se especula terem sido assinados mais de 1000 coreanos pelo seu próprio exército.

“Dantes, tínhamos um tipo de vidro que não se partia. Uma verdade tão dura e transparente que até podia ser de vidro. Por isso, pensando bem, foi só quando ficámos estilhaçados que provámos que tínhamos alma. Que, na realidade, éramos seres humanos feitos de vidro.” 

Atos Humanos, Han Kang

Desde o início este livro mostrou-me a minha ignorância perante um momento de tanta violência, apenas por ter acontecido longe de mim. De quantas violências eu me escondo pela distância? E como posso aproximar-me das pessoas que não sei que sofrem? Como posso ouvir as suas vozes? Quem são as pessoas cujo sofrimento é esquecido, e porquê?

Atos Humanos tem sete partes que seguem sete pessoas diferentes, em tempos diferentes, em realidades diferentes; homens e mulheres, mães e filhos, vivos e mortos. A violência atravessa todas as vidas da cidade de Gwangju, ao longo das suas vidas todas. Continua na repressão que muda mas que se mantêm, nas dores que o corpo sentirá para sempre, no vazio que ficou no lugar dos que morreram.

“Quando morreste, não pude fazer-te um funeral e, assim, a minha vida tornou-se um funeral. Quando foste envolto numa lona e levado num camião de lixo.”

Atos Humanos, Han Kang

Unindo estas narrativas está Dong-ho, um rapaz de 15 anos que cuida dos corpos das vítimas. O livro centra-se em Dong-o, espelhando na sua escrita o mesma cuidado que ele dedica às vítimas. Han Kang não se foca na luta, na revolução, na violência, mas no preservar das vítimas, devolver-lhes a identidade, alguma dignidade, lembrar que foram pessoas, que devem ser honradas e lembradas. Para Dong-ho as vítimas não são números, são nomes.

E devem ser nomes para nós também. Apesar da distância no espaço, no tempo. Em Atos Humanos Han Kang diz-nos que não podemos esquecer as vítimas da violência do mundo, no país dela, no nosso, em todos. Depende de nós não esquecer. Cuidar da sua memória como Dong-ho lhes cuidou dos corpos. E permitir que as vozes daqueles que morrem ainda se ouçam nas nossas palavras.

“Cada pessoa que conheço pertence à raça humana. E isso inclui-o a si, que está a ouvir este testemunho. Tal como me inclui a mim.” 

Atos Humanos, Han Kang

 

A Violência pt.1: No Exílio, Elisa Lispector

A Violência pt.2: Cassandra, Christa Wolf

Texto escrito por Diana Fontão

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Nasceu em 1985 em Pevidém, Guimarães. Vivo no Porto.

Escreveu O Interior Profundo e organiza mensalmente o Clube de Leitura da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres. Podes visita-la no blog diana fontão.

A Violência pt.1: No Exílio, Elisa Lispector

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Publicado em 1948, No Exílio é um livro de Elisa Lispector, irmã de Clarice Lispector. Na biblioteca onde encontrei o livro, que não tem edição portuguesa, peguei-lhe por Clarice, mas trouxe-o comigo por Elisa. No Exílio é a narrativa do percurso da família Lispector, da Ucrânia (na altura ainda Rússia) até ao Brasil e, lendo sobre o livro, parece ser esse o motivo pelo qual, de entre os sete romances que publicou, só este se manter disponível na atualidade: o interesse em ler o livro como biografia de Clarice.

Mas o livro é muito mais do que isso, aliás, Clarice surge apenas como personagem de fundo. No centro estão os pais, Pinkhas e Mania Lispector (no livro o pai mantêm o nome, mas a mãe torna-se Marim) e Elisa (no livro com o nome Lizza). Elisa nasceu em 1911 e tinha quase 11 anos quando, em 1922, a família chegou ao Brasil. Na sua memória estava ainda presente a violência dos pogroms em que mataram cerca de 125 mil judeus na Ucrânia, entre eles muitos dos seus familiares e vizinhos.

Tornaram a confundir-se na mesma escuridão o dia e a noite, naquela cozinha úmida e imunda, sem luz, sem ar, sem noção de tempo. A escuridão, a morte, a umidade viscosa e fria, as ânsias do corpo e a agonia da alma, tudo fluía num só rio turvo e tenebroso, sem margens nem fim.

No Exílio, Elisa Lispector

Lizza nunca se consegue afastar desta violência. A doença da mãe, consequência dessa violência, não lhe permite viver a sua própria vida. Nem a perseguição violenta que sofrem os judeus durante a segunda guerra mundial lhe permite afastar-se das imagens da sua infância. Lizza sente-se sempre parte desse sofrimento, nunca se esquece, nunca se afasta.

No Exílio é a história de vários exílios. Não só o da família Lispector no Brasil, mas também o do povo judeu durante a guerra. E também o de Lizza, exilada do mundo pela violência que nunca esqueceu. Lizza nunca recupera a sua vida, no exílio, nunca sente que pode voltar a ser uma pessoa, um ser individual com poder de recomeçar. Com ela percebemos que a violência não é algo que se possa esquecer, abandonar: é algo que nos marca e nos destrói, que nos persegue pelo tempo fora, por muito tempo que passe.

E se, por um lado, perguntava-se por que caminho haveria de alcançar a realização do seu ser, por outro, deixava-se levar pelos embates desse mar em tormenta. Mas ainda tateava, indecisa, cônscia da limitação de suas possibilidades, ante a amplitude da angústia universal.

No Exílio, Elisa Lispector

Lizza vive sempre isolada, envolta nas memórias do passado e nas notícias sobre o presente. Sem ninguém que partilhe a imensidão do seu sentimento. Vê as irmãs casarem e continuarem as suas vidas, criarem um tempo de que ela não se sente parte. Enquanto ela se mantém ao lado do pai, Pinkhas, também ele consumido por uma violência que acaba por o matar, partilhando-a sem a sentir no seu próprio corpo.

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Entristece-me que hoje Elisa esteja a cair em esquecimento, na sombra da irmã Clarice, presa a uma comparação tão presente no livro, tão real na sua própria mente. Gostava de poder ler mais dos seus livros. E de, ao ler, partilhar com ela o peso desta violência que marcou toda a sua vida, as suas palavras, o seu exílio.

Toda ela ardia, como uma tocha. E sentiu-se de repente pequena, desamparada. Só. Nunca se sentira tão só e perdida.

No Exílio, Elisa Lispector

 

A Violência pt.2: Cassandra, Christa Wolf – LER»»

A Violência pt.3: Atos Humanos, Han Kang – 16.03.18 LER»»

 

Texto escrito por Diana Fontão

Gostas de ler? Christina Branco

Foto de Christina Branco.
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A Christina Branco parte da nossa comunidade e do clube de leitura e quisemos conhece-la melhor e descobrir os livros que lê. Aqui fica o que descobrimos!
Existe um livro que já leste várias vezes e vais continuar a reler?
Nos últimos anos não tenho relido muitos – ou melhor, de vez em quando pego em livros preferidos e releio certas passagens, mas não releio de capa a capa. Fazia mais isso na adolescência quando não tinha acesso a tantos livros e precisava de ler vorazmente, qualquer coisa servia, até mesmo o que já tinha lido.
Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
 Ui, tantos! Tentei várias vezes ler a Bíblia porque considero que quer se queira ou não é um dos, senão o, livro mais marcante da história: o resultado é que já li imensas vezes os primeiros dois livros e o resto já lá vai… Outro é o Ada ou Ardor, do Nabokov – é mesmo muito fácil perder-se e não é tão conciso e concreto quanto o Lolita. Os meus sinceros parabéns a quem tenha acabado o Ada. O último livro das Crónicas de Gelo e Fogo do George R.R. Martin também está na minha mesa de cabeceira a apanhar pó. Talvez se ele der data de lançamento para o 7º livro eu ganhe uma nova energia para o acabar.

Que livro gostarias de ter lido mas que por algum motivo nunca leste?

 Considero uma séria falha minha nunca ter lido Tolkien. Tenho inclusive duas cópias d’O Senhor dos Anéis que me ofereceram em adolescente mas abria, lia as primeiras páginas, não me interessava, fechava.

Que livro leste e que cuja cena final jamais conseguiste esquecer?

  Se me virem “na lua”, é porque provavelmente estou ainda a pensar no fim da tetralogia napolitana da Elena Ferrante.
Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se sim, qual os livros que lias?
Lia tudo o que houvesse para ler. Lia caixas de cereais, lia rótulos de champô, lia o Expresso, lia livros do António Lobo Antunes do meu pai e não percebia nada. Não me lembro de não saber ler. Gostava muito de uns livros sobre uns gnomos e animais da floresta (Contos da Floresta? penso que era assim que se chamavam) que tinham ilustrações lindissimas, popularam imenso o meu imaginário. Depois a série Harry Potter, apesar de hoje reconhecer as falhas a nível de trama, foi fundamental para eu ler livros mais compridos e escolher eu própria os livros que queria ler.

Indica alguns dos teus livros favoritos?

 Em nenhuma ordem particular: Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez; a tetralogia Napolitana de Elena Ferrante; O Padrinho de Mario Puzo, A Campânula de Vidro e  os diários de Sylvia PlathHons and Rebels, de Jessica Mitford.

Em que línguas gostas de ler?

 Uma das minhas línguas maternas é o inglês e se o livro for originalmente escrito nessa língua prefiro-o assim. Ando a tentar ler mais livros da lusofonia. Quanto aos livros escritos nem em inglês nem em português, é o que der mais jeito. Talvez livros escritos em espanhol e italiano também façam mais sentido em português.
Tens hábitos ou rituais de leitura?
 Leio essencialmente na cama, antes de adormecer, e em transportes públicos. Se estiver de férias na  praia chego a ler um livro por dia.

Tens conta no goodreads?

 Tenho sim!
Que livro estás a ler?
Lonely Hearts Hotel, de uma autora canadiana chamada Heather O’Neill.
Indica 10 escritoras que gostavas que respondessem a estas perguntas?
Vai ser necessário o jogo do copo porque muitas já não estão entre nós, mas:
Sylvia Plath,
Jessica Mitford,
Clarice Lispector,
Han Kang,
Elena Ferrante,
Sue Townsend,
Adília Lopes,
Shirley Jackson,
Agustina Bessa-Luís,
Marjane Satrapi.

Gostas de ler?

A Marília faz parte da nossa comunidade e do clube de leitura e quisemos conhece-la melhor e descobrir os livros que lê. Aqui fica o que descobrimos!
Existe um livro que já leste várias vezes e vais continuar a reler?
Não costumo reler livros, apesar de, às vezes, ter essa vontade. O ano passado reli o Cavaleiro da Dinamarca da Sophia de Melo Breyner no Natal e achei que seria uma bela tradição a manter.
Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Vários! Um deles é Life and Death are Wearing me Out do Mo Yan. Ainda não desisti de o acabar.
Que livro gostarias de ter lido mas que por algum motivo nunca leste?
A lista de livros a ler aumenta todos os dias. Gostaria de ter lido A Câmpanula de Vidro da Sylvia Plath antes do clube de leitura de Janeiro, o que não se concretizou.
Que livro leste e que cuja cena final jamais conseguiste esquecer?
A cena final do Amor em Tempos de Cólera de Garcia Márquez foi a que mais me marcou.
Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se sim, qual os livros que lias?
Sim, lia muito. Lia principalmente os livros da colecção Uma Aventura, do Triângulo Jota, os policiais da colecção Vampiro, e os livros da Joanne Harris. E quando era miúda relia muito.
Indica alguns dos teus livros favoritos?
Essa pergunta é muito difícil! Recentemente, fiquei deslumbrada com a tetralogia da Elena Ferrante, gostei muito dos Actos Humanos da Han Kang. Adoro Persepolis da Marjane Satrapi, 1984 do Orwell, Maus do Spiegelman, Mil Sóis Esplêndidos de Khaled Hosseini e, claro, Cem Anos de Solidão do Garcia Márquez.
Em que línguas gostas de ler?
Gosto de ler em português e em inglês. Leio em espanhol e francês, mas com mais dificuldade.
Tens hábitos ou rituais de leitura?
Gosto de ter sempre um marcador bonito (nada de usar o bilhete do comboio ou a factura da luz). Não gosto de dobrar páginas nem usar a aba do livro como marcador (sacrilégio!). Leio sempre o que estiver escrito na capa e na contracapa primeiro. Só pesquiso sobre o livro depois de o ter acabado. E, agora que penso, tenho mais uns quantos…
Tens conta no goodreads?
Sim, esta .
Que livro estás a ler?
Estou a ler vários: A Rapariga Apanhada na Teia de Aranha de David Lagercrantz, Sapiens – Uma breve história da Humanidade de Yuval Noah Harari, a colectânea de poesia de Al Berto – O Medo, um livro de discursos de Churchill. Também estou a ler Ulisses do James Joyce, mas é uma leitura a longo prazo.
Indica 10 escritoras que gostavas que respondessem a estas perguntas?
Han Kang
Chimamanda Ngozie Adichie
Elizabeth Gilbert
Marjane Satrapi
Elena Ferrante
Joanne Harris
J.K. Rowling
Arundhati Roy
Isabel Allende
Gillian Flynn

Gostas de ler? Natália Borges Polesso

Na ocasião, lembro que estávamos indo bem, nunca tínhamos trocado um pneu, estávamos indo muito bem. Até que muitos caras começaram a nos rodear, rindo e dando palpite. Engraçado, nenhum se ofereceu realmente para ajudar, mas ficaram ali como varejeiras, fazendo um tipo de zumbido coletivo, praguejando nosso fracasso. Conseguimos, por fim, sem a ajuda não oferecida de nenhum deles. Na época, teria me ofendido até com a ajuda. Não estou dizendo que a zombaria não me ofendesse hoje, é claro que sim, mas eu aceitaria ajuda para trocar um pneu, visto que nunca na vida troquei um sozinha, fora essa vez em que ajudei a Michele.

Trecho de Amora, de Natalia Polesso (Porto Alegre: Não Editora, 2015)

Foto de Helena Topa.
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8 de ABRIL 2017 nas Conversas (já passaram alguns meses mas o livro ainda ressoa), a Helena Topa e o Matias Braga desafiaram-nos para mais uma incursão literária e o livro escolhido foi “Amora” (prémio Jabuti) de Natália Borges Polesso, a proposta foi lermos juntes o conto “VÓ, A SENHORA É LÉSBICA?”

À primeira vista, os 32 contos de AMORA (divididos em duas partes: Grandes e Sumarentas e Pequenas e Ácidas) têm o seu interesse maior nas relações homoafetivas entre mulheres, sob vários prismas, desde a curiosidade infantil, passando pela sedução passageira até as longas relações. Não é por acaso, que justamente na metade do livro aparece o delicioso e cruel “Diáspora lésbica”. Mas terminada a leitura e deixando que ela repouse em mim percebo que o tempo passa e livro ainda ressoa porque a escrita de Polesso representa o que existe e a forma como existe: a diversidade dentro da diversidade infinda.

Sara Barbosa: Eu gostei imenso do livro. É um conjunto de textos dos mais bem escritos que tenho lido. Espero dentro em breve publicar um texto sobre ele pois é mesmo um livro para ficar na história da literatura , lésbica, feminista, humana. 

Helena Topa Pareceu-me francamente bom, muito bem escrito, com histórias muito bem esgalhadas.

Para as amoras e amores…

…. aqui ficam as respostas que Natália Borges Polesso deu para a nossa secção Gostas de ler? 

Existe um livro que já leste várias vezes e vais continuar a reler?
Existem vários! Sou uma leitora que tem o hábito de voltar às páginas lidas. Posso citar dois: um poeta aqui da minha cidade, o Marco de Menezes, ele tem um livro chamado “Pequena madrugada antes da meia-noite”, sempre volto a este volume, sempre me sinto arrebatada. Atualmente, ando às voltas com Teoria King Kong, de Virginie Despentes.

Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Ai ai ai, deixe-me pensar um pouco. Vou confessar uma heresia! Nunca terminei “Crime e castigo”! Sou uma leitora muito atenta e chego a ler de setenta a oitenta livros por ano. Tento voltar ao Dostoiévski, mas simplesmente não vai. Preciso regularizar esta situação!

Que livro gostarias de ter lido mas que por algum motivo nunca leste?
Cocoon, de Zhang Yueran, uma autora chinesa que conheci no Festival Rota das Letras, em Macau. Não está traduzido do Chinês para qualquer língua. Triste.

Que livro leste e que cuja cena final jamais conseguiste esquecer?
Engraçado, não tenho essa memória específica, fiquei um tempão pensando para responder esta pergunta. Acho que não tenho tanto apego a cenas finais. De todo modo, posso citar a última cena de “Restos do carnaval”, um conto de Clarice Lispector, pelo qual tenho muito carinho. Uma menina, vestida de rosa, com restos papel crepom, desmanchada. Mas não vou contar nem como nem porquê, fica a curiosidade para ler.

Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se sim, qual os livros que lias?
Fui uma leitora um pouco tardia, creio. Não vim de uma família que tinha livros em casa. Lembro-me de um enciclopédia médica, com a qual meu irmão e eu nos divertíamos ao ver figuras de pulmões e outros órgãos. Isso é um pouco estranho, porque meus pais não são da área da saúde, então não sei bem como a enciclopédia foi parar lá em casa. Lembro também de uma coletânea de poesia, e de alguns poemas de Carlos Drummond de Andrade que eu gostava de saber de cor.

Indica alguns dos teus livros favoritos?
Com prazer:
Alice no país das maravilhas, Lewis Carrol
Histórias de cronópios e de famas, Julio Cortázar
Hibisco roxo, Chimamanda Adiche Ngozi
Felicidade clandestina, Clarice Lispector
Desesterro, Sheyla Smanioto
Gran cabaret demenzial, Veronica Stigger
O útero é do tamanho de um punho, Angélica Freitas
Insubmissas lágrimas de mulher, Conceição Evaristo

Em que línguas gostas de ler?
Gosto de ler em Português, espanhol (me encanta!), francês e inglês. Se soubesse mais línguas, por certo que iria gostar também.

Tens hábitos ou rituais de leitura?
Não. Mas agora pensando, acho que leio muito em voos e viagens. Porque não consigo dormir, então, sempre devoro alguns livros em aeroportos ou rodoviárias.

Tens conta no goodreads?
Tenho, mas não sou muito atenta às redes sociais.

Que livro estás a ler?
Nuestro cuerpo muerto, de Liliana Colanzi

Indica 10 escritoras que gostavas que respondessem a estas perguntas?
Sheyla Smaniotto
Moema Vilela
Cristina Judar
Maria Valéria Rezende
Gabriela Ribeiro
Maya Falks
Assionara Souza
Julia Dantas
Paulliny Gualberto TOrt
Lisa Alves

Esperamos que brevemente alguma editora portuguesa faça chegar a obra Natália Borges Polesso a este lado do 

Penelope Fitzgerald

Inglaterra, 1916-2000

Penelope Fitzgerald

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Se leram o post anterior, já sabem que uma das escritoras do mês de Fevereiro da nossa Comunidade é Penelope Fitzgerald. O que procuramos com esta comunidade é contribuir para a divulgação da literatura escrita por mulheres e fazer chegar um livro todos os meses a vossa casa.

O segundo objetivo proposto é ir escrevendo textos relacionados com as escritoras, sugeridas cada mês  e ir publicando-os no blog (vocês também podem escrever e enviar os vossos textos para livrariaconfraria@gmail.com).  Assim todas/os juntas/os podemos ir conhecendo a obra de uma escritora e divulgar a literatura escrita por mulheres.

Neste momento a única tradução que temos no nosso país da obra de Penelope Fitzgerald é A livraria (ed. PT, Clube do Autor, 2016).

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Penelope Fitzgerald  uma escritora que defende a bondade do coração e as ações com bons propósitos mas sem ingenuidade.

Penelope Fitzgerald foi uma escritora tardia. Apesar de nascer 1916 só publicou o seu primeiro livro em 1975 e o seu primeiro romance em 1977. A sua etapa como romancista está marcada, claramente, por dois tipos de livros: aqueles nos quais aparecem vivências da sua própria vida e aqueles nos quais decide fazer viajar a/o leitor/a a outras épocas e lugares. A livraria (1978) pertence ao primeiro grupo, inspirada na época em que própria, trabalhou numa livraria. Nos anos 50, Fitzgerald trabalhou em part-time na livraria Sole Bay Bookshop. Descobriu o difícil que podia ser vender livros numa rural Suffolk, mas recolheu preciosas lembranças como as tardes de chuva nas quais os vizinhos se refugiavam na livraria para conversar, apesar da maioria das vezes não adquirirem nenhum livro.

O pequeno milagro.

Em A livraria, Fitzgerald põe sobre a mesa um dos temas que encontramos na sua obra: a realidade de que com boas intenções às vezes não é suficiente. Estamos perante uma autora e uma obra, que defende a bondade do coração e as ações com bons propósitos mas sem ingenuidade. Como contraponto, encontramos personagens mesquinhas que colocam ainda mais em jogo a qualidade humana dos seus antagónicos, heróis e heroínas em pequena escala com firmes valores morais que não renunciam aos seus ideais facilmente.

Apesar de não encontrarmos o típico romance  de humor inglês, encontramos pinceladas humorísticas que procuram a cumplicidade de quem lê. O estilo de Fitzgerald é simples, sem grandes artifícios e sem uma prosa espetacular mas que cativa e envolve a quem lê de uma forma magica: constrói uma história reflexo da época em que se desenvolve; um relato sobre as pequenas comunidades rurais e a sua fechada estrutura após o fim da 2ª Guerra Mundial. A escolha de uma protagonista viúva e sem filhos também não é ao acaso. Desta maneira, Florence é dona completa da sua vida e das suas decisões, coisa que seria impossível com uma família que dependesse dela.

Nada na livraria de Florence  é normal, a começar pelo seu ajudante Christine de 10 anos até às compras que realiza com cara ao futuro. Talvez o momento mais controvertido seja quando Florence compra 200 exemplares de Lolita de Nabikov e recebe queixas absurdas de como que os visitantes ocupam todo o passeio (para ver a montra).

Florence, a personagem que personifica a força e a coragem.

A personagem de Florence podia (e vai estar) no nosso Arquivo de Personagens. Florence Green, toma uma decisão valente, abrir uma livraria num lugar pouco apropriado intelectualmente. Não por falta de cultura mas por falta de formação no que diz respeito ao de como uma livraria pode contribuir para uma comunidade. Florence é uma personagem com força e coragem.

Brevemente vamos poder desfrutar de uma adaptação cinematográfica através dos olhos da realizadora Isabel Coixet com Emily Mortimer no papel de Florence Green. Acho que vai ser uma boa adaptação, Isabel Coixet é uma cineasta de histórias quotidianas nas quais as personagens são mais importantes do que a própria narrativa tal como Penelope Fitzgerald . Veremos…

Mas primeiro vamos ler o livro!