Paulina Chiziane – contadora de histórias e memórias

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«José percorre a magia luminosa das aparências. Na cegueira perseguindo os caminhos do abismo. Colonizar é mesmo isto.»

O alegre canto da perdiz, Paulina Chiziane

Quando entrevistada, Paulina Chiziane apresenta-se frequentemente como contadora de histórias. Essa é a classificação que aceita e que lhe assenta.

«Sem sangue o império é anémico, sem vida nem grandeza. O sangue se bebe e rejuvenesce. Quando não se bebe canta-se. O hino nacional.»

O alegre canto da perdiz, Paulina Chiziane

No capítulo III do Decreto-Lei nº 39 666, do Ministério do Ultramar, datado de 20 de Maio de 1954, “Da extinção da condição indígena e da aquisição da cidadania”, o artigo 56.º estabelece as condições para a aquisição da cidadania pelos indígenas, estabelecendo que o indivíduo, entre condições de idade e “bom comportamento e ter adquirido a ilustração e os hábitos pressupostos”, deve, alínea b, “falar correctamente a língua portuguesa” (sublinhado meu).

Falar corretamente a língua portuguesa

Mais do que na escrita, é na oralidade que subjaz a garantia da metamorfose do indigenato para a cidadania. Aos olhos do Estado português, o indígena, objeto delimitado e de desconfiança, torna-se sujeito pela fala, pelo uso do português – não um português qualquer, o português correto. Ainda hoje, o acesso à cidadania portuguesa por cidadãos estrangeiros assenta na capacidade de fazer uso da língua portuguesa em moldes determinados. Para o Estado Novo, os indígenas – pessoas negras e mestiças naturais dos territórios africanos colonizados – não eram estrangeiros, mas uma espécie de produto da terra, tornados cidadãos portugueses pela performance de costumes preconizados, acompanhada de uma língua civilizada – a língua portuguesa.

N’O alegre canto da perdiz a sombra da assimilação ao mundo do português branco vai preencher grande parte da narrativa.
«Pediu ao pai para ser assimilado, a fim de ter acesso à escola oficial, onde as professoras eram mulheres normais e não freiras esquizofrénicas. Mas o pai disse que não. Porque os assimilados eram assassinos. O pai de Delfina disse que não à assimilação, sem saber que a libertação da pátria seria na língua dos brancos e sem imaginar que os filhos dos assimilados iriam assumir o protagonismo da História.» (p. 78).

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Chiziane refere que “A literatura pode funcionar como catarse coletiva e também como registo da memória. A nova geração tem de saber o que se passou ontem, mas infelizmente há muito poucos relatos.” O livro que escreveu traz à tona várias vozes duma história a que os ouvidos portugueses são avessos. «Não vimos, não sabemos, nunca ouvimos falar, não demos por nada.» escreve Isabela Figueiredo, na introdução do seu Cadernos de memórias coloniais. Também para Paulina Chiziane, que prefaciou essa obra, as palavras estão aí para nomear, são destemidas e não evitam feridas pessoais e coletivas. «Quem não se ajoelha perante o poder do império não poderá ascender ao estatuto de cidadão. Se não conhece as palavras da nova fala jamais se poderá afirmar. Vamos, jura por tudo que não dirás mais uma palavra nessa língua bárbara. Jura, renuncia, mata tudo, para nasceres outra vez. Mata a tua língua, a tua tribo, a tua crença.» (p. 117).
Mata-te. Em tempos coloniais falar português era afirmação de uma renúncia a todas as outras formas de ser.

Demorei muito tempo a terminar este livro e percebi que foi uma exigência da cadência das palavras. O português é instrumento de escrita, é tradução de estados de alma alheios e não configurados por esta língua e é uma longa homenagem à literatura de tradição oral. As palavras estão escritas mas são sobretudo voz. Vozes contraditórias, por vezes difíceis de digerir.

“A minha relação é de conflito. Não há dúvida que eu aprendi a ler e a escrever em português, socializei-me com a literatura de língua portuguesa. Mas existem alguns aspetos culturais que a língua portuguesa não tem capacidade para cobrir. Para além de que, sendo uma língua de dominação, a língua portuguesa é também uma língua de segregação. Quando escrevo e vou pegando das palavras, de vez em quando fico chocada: os curandeiros são o centro do saber africano. Mas o que é um curandeiro na língua portuguesa? Vai ver no dicionário e a explicação que vai achar é redutora e simplista e serve simplesmente para colocar o curandeiro de lado. Para eles, é um indivíduo que deve ser banido e eliminado.”

curandeiro | s. m.
cu·ran·dei·ro
1. Pessoa que trata de doenças sem título legal.
2. [Figurado]  Charlatão; impostor.

O português vai pedir emprestado às demais línguas locais palavras para descrever o que não conhece. A escritora vai fazer uso de um língua de dominação para contar histórias que os falantes e ouvintes dessa língua precisam conhecer. O dicionário continua a atribuir um lugar central ao português correto, em que certas palavras, certas vivências, não têm lugar.

“Como aliar a pobreza a uma raça? Encontro vários aspetos de supremacia de uma cultura sobre a outra. As palavras no dicionário são alguns. Algumas vezes que eu quero retratar uma realidade (eu falo do Sul), quero escrever um ditado e uma forma de pensar, mas tenho de fazer uma tradução e uma aproximação de significado. O que vai resultar não é propriamente a identidade deste povo, mas é uma construção, e as coisas não chegam a ser realmente como deviam ser. Mas os próprios escritores atuais ainda não fizeram muito exercício cultural. Eu penso que talvez com tempo vamos dar um espaço àquilo que é a nossa própria cultura. É lógico que vamos servir-nos da língua portuguesa por muito tempo, porque é a língua através da qual comunicamos.”

O português não é a língua da realidade desta escrita, é tradução.

«Homem não, Delfina. Que Deus nos dê, sim, a benção de um filho mulher.» Não é filha, é filho mulher, porque a experiência recriada é uma realidade bantu.

Prevê-se que dentro de algumas décadas a quantidade de falantes de português em Angola e Moçambique ultrapasse o número de falantes em qualquer outra região do globo (Oliveira, 2016). O português será uma língua africana. Este português falado por milhões de africanos não poderá ser o português correto da cidadania de outros tempos, nem o português que declara que uma vivência africana culturalmente significativa é, sem delongas, impostura.

Franco, leal, apesar de rude

Segundo Maria Helena Mira Mateus (2003) «(…) o termo “Português”, que cobre as variedades sociolectais, dialectais e nacionais que convivem em Portugal e no Brasil, deve ser entendido como importante instrumento de coesão entre povos e como afirmação política e económica num contexto envolvente transnacional. A presença nestes ambientes de grupos de interesses unidos por falarem “a mesma língua” potencia a tomada de posição desses grupos, sobretudo quando se trata de comunidades de menor força no campo económico.». E acrescenta, «É na realidade um factor de identificação cultural, mas no uso, e pelo uso, que dela faz o indivíduo e não apenas por pertencer a uma das várias comunidades que a utilizam como materna.»

O português torna-se pluricêntrico pelo uso. Aceitar esse pluricentrismo implica abrir caminho a uma reapropriação da língua, uma combinação de referências, de sonoridades.

português | adj. | s. m. por·tu·guês (latim tardio portucalensis, -e, de Portucale, topónimo, Portugal)
1. Relativo ou pertencente a Portugal. = LUSITANO, LUSO
2. []  Relativo ao português enquanto sistema linguístico.
3. [Figurado]  Franco, leal, apesar de rude.
4. Natural, habitante ou cidadão de Portugal. = LUSITANO, LUSO
5. []  Língua de origem românica, que é a língua oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e da Região Administrativa Especial de Macau.
6. []  Antiga moeda de ouro.
Feminino: portuguesa. Plural: portugueses.

É me hoje difícil pensar sem interferências do inglês, a querer intrometer-se até na sintaxe. Da mesma forma, o meu português de lusa está saturado de influências do português do Brasil que ouço. Vou recorrendo ao dicionário para descobrir se ainda falo português correto. Agrada-me ver que o meu português se expande na medida das kizombas, telenovelas e toda a rápida circulação de palavras. O Brasil dos memes da internet. Novas formas de reclamar a língua.
A língua está viva e a construir o mundo.

A escrita de Paulina Chiziane empurra-nos, com mestria, para lugares que precisamos de visitar: que memória é a desta língua partilhada? Uma memória de violências mas também de vida. Que palavras ainda não cabem no nosso dicionário?

Falta-nos ouvir mais e melhor.
“Fora escrever e pensar em novos projetos, o que é que você gosta de fazer? Sentar na minha varanda, olhar o vazio e tomar o meu copo de cerveja. (Risos).
Ao ritmo certo.

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…………………………………………………………………………………………………[1] http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/os-anjos-de-deus-sao-brancos-ate-hoje-entrevista-a-paulina-chiziane
[2] http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/os-anjos-de-deus-sao-brancos-ate-hoje-entrevista-a-paulina-chiziane
[3] “curandeiro”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/curandeiro [consultado em 26-12-2017].
[4] “português”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/portugu%C3%AAs [consultado em 26-12-2017].
[5] Entrevista à revista Bastião #18 https://issuu.com/revistabastiao/docs/bastiao18issu

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