O humor e a dor das vidas comuns

Mulheres Excelentes é um elogio a todas essas mulheres que passaram, que passam e que passarão (ainda temos muita luta pela frente) imerecidamente inadvertidas.

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Vou começar este texto comentando coisas sem interesse aparente. Primeiro: a crítica inglesa diz que Barbara Pym é a Jane Austen do século XX. Segundo: os seus romances podem estar numa estante nomeada de “alta comédia”, seja lá o que isso for. Ditas estas duas coisas que são uma meia verdade, posso continuar ou começar, o meu texto sobre Barbara Pym.

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Barbara Pym (1913-1980), que foi contemporânea das escritoras Muriel Spark, Jean Rhys ou Iris Murdoch é, na minha opinião, uma escritora inteligente. O seu universo circunscreve-se a classe media inglesa de Londres (em todas as suas esferas e escalões), quer a citadina, quer a periférica e até a rural. Está povoado por clérigos, funcionários de escritório, intelectuais sem muito destaque e um ou outro político, esposas, solteironas caseiras ou que trabalham… ou seja, um mundo habitado por seres normais e quotidianos com vidas que não destacam pela sua singularidade mas sim pela sua convencionalidade;  não pela sua temeridade mas pelas suas ponderações; não pelas suas acções mas pelas suas satisfações quotidianas.

Até é verdade que podemos comparar Pym com a Jane Austen, se considerarmos que ambas escreveram admiráveis quadros de costumes. Mas a diferença é marcada pelo tempo; enquanto Jane Austen retrata a gentry que cresceu graças a reforma agrícola, uma Inglaterra que caminhava para se transformar num Império moderno que chegou ao seu esplendor das mãos da rainha Vitória e da Revolução Industrial, uma revolução que iria acabar com o mundo de Jane Austen. Ao contrário, Barbara Pym, encontra-se num Império em liquidação que decide apertar o cinto e a estar contente com a lembrança daquilo que foi um dia. Desta maneira, o que numa escritora é um retrato de uma classe e uma ordem social que se eleva até uma categoria moral e histórica, na outra há uma aguda exposição das formas que mantém uma classe média de um país que deglute pragmaticamente a sua inevitável decadência.

…o humor de Pym é encantadoramente ácido, que se passeia com simplicidade pelos seus romances mas sem nenhuma ternura ou piedade.

O segundo aspecto que une estas duas escritoras é o sentido de humor. Mais cândido – apesar do olhar perspicaz- e intenso na literatura de Austen. E mais pérfido e implacável na literatura de Pym. Nos romances de Pym tudo é boas maneiras e bons costumes, mas quando ela vai retirando as máscaras das boas maneiras e dos bons costumes, o que encontramos por baixo é uma mistura de vazio, superficialidade e frustração escondidas por baixo de um lindo tecido que a leitora/o vai acariciando e que ao fim de um tempo vai sentido como lhe corta as mãos. Devo dizer-vos que o humor de Pym é encantadoramente ácido, passeia-se com simplicidade pelos seus romances mas sem nenhuma ternura ou piedade.

Mulheres Excelentes

Escrever sobre o livro Mulheres Excelentes é um óptima ideia para despedir 2017 e dar as boas-vindas a 2018 no blog de uma livraria dedicada a literatura escrita por mulheres, porque Mulheres Excelentes é um elogio a todas essas mulheres que passaram, que passam e que passarão (ainda temos muita luta pela frente) imerecidamente inadvertidas.

É um romance fascinante, como um suspiro profundo, não pela trama excitante mas pelas suas personagens inesquecíveis. Seria injusto esperar um enredo aditivo e um ritmo vertiginoso numa comédia de costumes, género no qual se costuma descrever com certa ironia e agudeza a vida quotidiana de uma época.

Não quero que pensem que com isto estou a dizer que o enredo de Mulheres Excelentes é descuidado ou tem pouco interesse para a leitora/o. Pelo contrário, o que quero dizer é que o enredo se desenvolve com base nas relações e/ou acções das suas personagens. Já vos disse que as personagens são maravilhosas?!?! 😊

Entre as personagens de Mulheres Excelentes destaco a protagonista e narradora Mildred Lathbury, uma “solteirona” londinense de trinta e poucos anos com uma vida dedicada aos outros: ajuda nas tarefas da paroquia, ouve e resolve os problemas das suas amizades e por norma satisfaz as necessidades alheias e descuida as próprias.

Mildred tem um olhar clínico na hora de analisar as vidas alheias, mas um comportamento excessivamente obediente e sempre inadvertido e ingrato por parte das outras pessoas, coisa que só a leitora-o sabe. Ao fim das contas Mildred é apenas mais uma das tantas mulheres “solteironas” de uma sombria Europa dos anos de pós-guerra (Segunda Guerra Mundial), onde milhares de homens casadoiros perderam a vida.

É verdade que Mulheres Excelentes é um romance amável, mas Pym, como boa britânica não dúvida, nem por um instante, em denunciar (as vezes subtilmente outras acidamente) a situação das mulheres, que “não tinham nada melhor para fazer” do que servir e ajudar os seus compatriotas, para além de agradecerem essa oportunidade que lhes era concedida de serem úteis.

E assim Mildred, apesar de ter um forte compromisso em ser uma “mulher excelente”, reflecte sobre dita situação, transformando a leitora-o em testemunha de uma personagem que sofre as contradições que afloram quando os convencionalismos de uma sociedade colidem com os sentimentos pessoais.

Acho que é neste ponto que o romance de Pym ganha a sua força, nessa crítica, ao jeito british, de uma sociedade injusta com as mulheres excelentes da época.  Mildred é adorável e encantadora, mas também é dotada de uma ironia e autocrítica fantásticas. A sua extraordinária capacidade de observação fazem com que seja consciente das contradições entre o discurso interno e o comportamento exterior.

Mas a leitora-o, que é quem conhece esse lado crítico e irónico de Mildred, é que percebe que Mildred é na verdade uma mulher excelente, uma mulher excelente sem aspas, uma amiga entregada (o que por vezes leva a mal entendidos), uma mulher agradável sempre disposta ajudar, mas consciente da injustiça que é acreditar que dita entrega é uma bênção para ela e não para os outros.

São estas pequenas nuaces que transformam este romance não só num romance divertido, que o é, mas também uma homenagem a todas as mulheres e um trato burlesco dos convencionalismos que tanto mal têm feito. Resumindo: uma escrita elegante, um humor ajustado e um franco uso de elipses; Barbara Pym é uma maliciosa e fascinante criadora de vidas quotidianas.

Aviso 1: anglófobos abster-se. Aviso 2: Leitoras/os seguidoras da obra de Jane Austen, das irmãs Brönte, de Elena Ferrante, Lucia Berlin ou de Meg Wolitzer, por exemplo, há grandes probabilidades de adorarem este romance.

Outra coisa que prendeu a minha leitura é a inteligência intrapessoal e interpessoal da protagonista. Mildred é super consciente de si mesma e no fim do romance deixa entrever que talvez não vale a pena ser tão firme no papel de “mulher excelente” com aspas. E como leitora essa foi a minha grande alegria, conhecer uma Mildred divertida, inteligente, independente e amável desde o princípio, e que sabe o injusto que seria ignorar o excelente que é.

Também acho injusto que não aproveitem a próxima oportunidade que tenham para ler este romance e descobrir a vossa própria excelência, o que vos parece??!?! :)

Texto escrito

Sensibilidade e Bom Senso e o Patriarcado – Jane Austen parte II

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Sensibilidade e bom senso  é escrita, ou sendo mais rigorosa, é esboçada no ano de 1797, com o título de Elinor e Marianne (que sem dúvida nenhuma é um romance epistolar), e é revista posteriormente em 1809 com a finalidade da sua publicação. Que tem lugar em 1811, mantendo o anonimato da escritora.

Neste romance Jane Austen coloca em cena duas heroínas com personalidades opostas: por um lado esta Elinor, jovem inteligente, um verdadeiro modelo de paciência, autocontrolo e moderação, do outro lado temos a sua irmã Marianne, uma romântica impertinente dotada de uma grande sensibilidade. A primeira esconde os seus sentimentos por Edward Ferras e a segunda aparece em público sem pudor algum na companhia de John Willoughby, um jovem sedutor e carente de moral.

Juntas experimentam as suas primeiras emoções amorosas quando descobrem que as duas pessoas por quem se apaixonaram estão comprometidas com outras mulheres. Marianne entregasse à pena e adoece. Contudo recupera e acaba por conhecer outro jovem que se apaixona por ela e com quem termina por casar tempo depois. Elianor mantém a sua dignidade até ao fim e para surpresa dela Eduard pede-lhe em casamento. Até aqui parece que vamos ler as histórias românticas das suas protagonistas mas…

Sempre há um ‘mas’ nos romances de Jane Austem! 

Sensibilidade e Bom Senso e o Patriarcado

Neste romance de Jane Austen podemos ver como há uma ausência total do patriarcado, que toma forma (ou não) no patriarca da família, as protagonistas crescem sem pai.

É interessante ver neste romance a morte do patriarcado e a posterior negação do seu sucessor em assumir o seu lugar.

Após a morte do Srª Daswood, Elinor, Marianne e Margaret ficam sem protector e o ser meio-irmão não serve para as proteger ou zelar pelo seu bem-estar. A tal ponto, que as protagonistas têm de abandonar o lar para que seu meio-irmão e a sua esposa o ocupem. É interessante ver neste romance a morte do patriarcado e a posterior negação do seu sucessor em assumir o seu lugar.

A autora expõe bem os problemas que surgem da falta de um patriarcado/patriarca em mentes mais sensíveis, como a de Marianne ou mostra como quase não afecta quando se tem uma mente prática e racional como a de Elinor. Colocando assim em evidência a educação recebida pelas mulheres. Isto acontece porque o Srº Dashwood deu uma educação racional, prática tornando-a numa adulta capaz de pensar e gerir a sua própria vida, a filha mais velha, Elinor. O mesmo não aconteceu com Marianne que teve uma educação conservadora acorde com os valores época.

Nas primeiras páginas do romance Jane Austen deixa claro esta diferença de carácteres e vemos como Elinor, perante a ausência do pai, assume o papel de cabeça de família. Vemos como esta personagem coloca em causa os comportamentos excessivamente sensíveis e apaixonados da irmã pois estes roubam-lhe a liberdade e a autodeterminação. Elianor não rejeita o amor ou apaixonar-se mas tenta que isso não lhe retire a sua autodeterminação de gerir a sua própria vida. Marianne perde o rumo e a saúde por entregar tudo em mãos do amor, percebendo após a doença que o amor não é perdesse a si mesma e sim encontrasse.

Austen tenta neste romance difundir ideias através das quais as suas personagens, em aparência conservadoras, promovam, com a sua atitude e raciocíno, uma mudança na vida das mulheres.

Seguindo as premissas que Wollstonecraft expõe em Uma Vindicação Dos Direitos Da Mulher, Austen reclama a eliminação do patriarcado que confinava a mulher ao espaço privado e de submissão. Através de uma boa educação que procura fortalecer o corpo e instruir o coração, de maturidade, de racionalidade e independência, a autora consegue que as suas heroínas cresçam, e se desenvolvam longe da autoridade parental alcançando a sua autorealização pessoal, evitando que simplesmente passem da tutela de um pai para a tutela de um marido.

Tal como Wollstonecraft, Austen não acredita em heroínas com poder ou autoridade sobre os homens mas sim sobre elas mesmas para que tenham a capacidade de escolher o seu próprio destino, rejeitando o patriarcado que obriga a mulher à subordinação e ao nulo desenvolvimento intelectual e social.

Texto escrito

_______LIVRO em DESTAQUE na LIVRARIA_______

Para celebrar o segundo aniversário da Confraria propusemo-nos o desafio de editar, alternadamente, jovens escritoras e resgatar autoras clássicas, um livro por ano.

Continuamos fiéis ao nosso lema #juntas fazemos acontecer, por isso lançamos uma campanha de pré-venda/edição coletiva, para que te juntes a nós na edição deste livro e nos ajudes a construir o quarto próprio de uma nova escritora.

Vamos a isso?

O Interior Profundo de Diana Fontão é um livro que nos acompanha no caminho que seguimos e explora connosco as possibilidades em que nos vamos fragmentando nesse caminho.

A leitura torna-se uma viagem ao interior do ser humano, onde este se perde e reencontra várias vezes nos pensamentos sobre a vida, a morte, e sobretudo sobre as minudências e grandezas da humanidade.

O Interior Profundo é um livro onde a palavra órfã se torna carne e onde a escrita circula livremente.

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A Abadia de Northanger – Jane Auste parte I

“Quem tivesse visto Catherine Morland em criança nunca poderia supor que nascera para heroína.”, assim começa A Abadia de Northanger.

A Abadia de Northanger foi escrita  1797-99 com o título de Susan e vendida em 1803 a um editor que nunca a chegou a publicar, este romance recebe o título final A Abadia de Northanger. A escritora volta a comprar os direitos em 1816 mas o romance não é publicado até 1818 de forma póstuma e ao mesmo tempo que Persuasão,  graças à vontade de Henry e Cassandra Austen. O prefácio da obra, escrito por Henry, é uma nota biográfica que até hoje, é uma das poucas fontes que temos sobre a vida de Jane Austen.

O enredo de a A Abadia de Northanger gira entorno a Catherine Morland,  uma jovem devota e ingénua,  amante dos romances góticos (principalmente os de Ann Radcliffe). A medida que avança nas suas leituras, mergulha na ilusão até ao ponto de confundir ficção e realidade. Quando passa uns dias na casa do pai, a jovem começa a acreditar que o pai é culpado de crimes horríveis. Contudo Henry, amigo de Catherine, apercebesse que algo não está bem com ela e ajuda-a a voltar para a realidade.  O pai perdoa as acusações,  Catherine recuperasse na casa e prometesse com Henry.

A Abadia de Northanger aparece tardiamente, apesar de ser considerado o primeiro romance da escritora; contudo é, na minha opinião, inferior aos outros romances da escritora como, por exemplo, Emma. Mas isto é apenas uma apreciação pessoal, leiam e descubram qual é vosso romance favorito.

Escrito muito cedo e sem apenas revisão, não tem a mesma profundidade que o resto dos romances de Jane Austen: as personagens estão menos trabalhadas e a análise psicológica é menos profunda.  Catherine é uma heroína boa e integra,  mas é a sua credulidade e ignorância que se destacam, tornando-a numa personagem mais débil (comparando-a com as heroínas dos outros romances) cujo ponto de vista por vezes se perde.  Talvez,  por isso, Austen usa menos neste romance o discurso indirecto livre,  tão característico na sua escrita,  e opta por um estilo directo.

Desiguais por amor

Na A Abadia de Northanger, Jane Austen crítica as paixões românticas e parodia os romances góticos, usando o seu dom para a ironia e paródia. Faz troça das convenções góticas através dos melodramas e aproveita para dar ao romance uma moral explícita.Os sentimentos exacerbados que se desenvolvem neste género de romances irritam Austen,  que valoriza o espírito crítico e prático assim como a serenidade. E é então que a sua pluma se transforma em sarcástica, a liberdade feminina requer a quebra do romantismo. Isto não significa retirar das vidas femininas a ideia do amor – ou histórias sobre o amor –, mas quebrar a ideia romântica da mulher, uma idealização baseada no conservadorismo; e é isto o que mais gosto neste romance de Jane Austen esta desconstrução do amor.

Ainda que os romances de Austen não representem uma completa quebra, apresentam elementos que devem ser considerados e valorizados. Mais do que valorizá-los, porém, é preciso valorizá-la. Austen foi uma mulher independente, que nunca casou, que sempre prezou o seu trabalho, que conseguiu prestígio numa sociedade conservadora e machista, apresentando personagens que, dentro do possível, demonstraram uma força inovadora.

Chegada a este ponto da minha reflexão sobre A Abadia de Northanger é justo citar Mary Wollstonecraft quando em pleno século XIX fazia uma crítica sagaz a uma das obras politico-filosófica da época, “émile ou de l’éducation” e dizia:

“Não luto contra as cinzas, mas sim contra as suas opiniões. Luto contra a sensibilidade que o levou a degradar a mulher e a fazê-la escrava do amor.”

Mary Wollstonecraft e Jane Austen tinham a mesma opinião sobre que o instrumento mais canalha, mas vergonhoso e mais cruel dos imperativos patriarcais era e continua a ser a consideração do amor romântico como o único e o verdadeiro amor onde os atributos do homem ressaltam e os da mulher se mantém discretos.

Jane Austen começa com A abadia de Northanger a mostrar-nos que precisamos analisar os nossos valores e mitos amorosos para descobrir quais continuam a configurar a nossa idealização de amor. Jane Austen sabia que era necessário des-idealizar o amor para ter amor do bom.

Com A abadia de Northanger aprendi…

… a não renunciar as minhas fantasias juvenis e à vontade de viver. Na companhia da honesta mente de Catherine, lembrei-me do medo que senti a primeira vez que fiquei sozinha em casa, a primeira vez que viajei a uma cidade nova ou a primeira vez que conheci alguém que me fez esquecer os medos e me fez sentir valorizada por aquilo que sou.

“Era o fim das visões romanceadas. Catherine estava completamente desperta.“ (A Abadia de Northanger)

Texto escrito

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