A avó Mary Wollstonecraft

 

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A minha tia Simone de Beauvoir revolucionou o estatuto da mulher em 1949 com o seu livro o Segundo Sexo. ‘Não se nasce mulher, torna-se mulher’, dizia ela.

A ideia, foi uma autêntica bomba na conservadora sociedade dos anos 50. Mas a ideia da minha tia Beauvoir não era nova, um século antes dela denunciar a educação privilegiada dos homens e reivindicar a liberdade da mulher, a avó Mary Wollstonecraft (1759-1797), levantou a voz contra as proibições. Para quem não sabe Mary Wollstonecraft é a mãe de Mary Shelley, a autora de Frankenstein.

Quando a avó Mary Wollstonecraft chegou em Dezembro de 1792 a uma França revolucionária tinha 33 anos e na mala levava um livro, Uma Vindicação Dos Direitos Da Mulher, um texto que declarava que as mulheres eram “estúpidas”, “superficiais”, e “uns brinquedos”. O tom da sua escrita denunciava a situação da mulher do século XVIII. O problema era que a educação“nos torna artificiais e débeis de carácter e não nos dá mais possibilidades”. Para a avó Wollstonecraft, o Estado deve permitir que as mulheres “exerçam a medicina, explorem uma quinta, sejam responsáveis de uma loja, vivam do seu próprio trabalho”.

A França, que em 1793 mandou para a guilhotina a tia-avó Olympe de Gouges, autora da Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, vivia momentos perigosos e Wollstonecraft teve de regressar ao seu país natal.

Amigas e literatura

A avó Wollstonecraft nasceu a 27 de Abril de 1759 Spitalfields, perto de Londres. A má gestão financeira do pai prepotente e violento obrigou-a a se responsabilizar pelas irmãs, Everina e Eliza. E experimentar com elas as suas ideias feministas: dizem que Wollstonecraft convenceu Eliza a abandonar o marido (que a maltratava) e o seu bebé e fugir. Wollstonecraft rejeitava as normas sociais da época, estava contra o casamento e não tolerava a violência contra a mulher.

Wollstonecraft escrevia ensaio, romances tudo o que lhe permitisse questionar as normas da sua época e reflectir sobre o futuro.

“Deformaram-se em mim certos pensamentos românticos de amizade. Sou um pouco peculiar no meu entendimento de amor e amizade.”, escreveu ela com certa ambiguidade numa carta a uma amiga, Jane Arden. Antes de se envolver numa relação com qualquer homem, a avó Wollstonecraft dedicava o seu tempo e fidelidade às sua amizades femininas: foi até Lisboa cuidar da sua amiga Fanny Blood, por exemplo. Amigas e literatura, era ano 1785 e avó Wollstonecraft sabia que tinha que trabalhar para se transformar na “primeira de um novo género” dizia ela.

Wollstonecraft escrevia ensaios, romances tudo o que lhe permitisse questionar as normas da sua época e reflectir sobre o futuro. Falava inglês, francês e alemão; era tradutora, e relacionava-se com os  importantes pensadores da época. Foi para França após a revolução com a finalidade de expandir as suas ideias mas Paris também era a cidade do amor e uma cidade comum, a avó Wollstonecraft apaixonou-se na capital francesa por um anarquista americano Gilbert Imlay, quem se negou a casar com ela quando a sua filha Fanny nasceu. A avó não soube gerir a situação, ou talvez soube, e tentou suicidar-se.

E agora estás tu a pensar como é possível… ela que questionava o amor, o casamento… como é possível uma pensadora que crítica na sua obra que a mulher é vista como “um brinquedo” tenha tomado essa decisão??!?! Qualquer pensadora feminista que escreva sobre o amor, o casamento, a educação, a maternidade e que ao mesmo tempo estabeleça uma relação amorosa com um homem sofrerá tentativas de ser desacreditada. Parece-me tacanho da nossa parte pensar que a sua ‘paixão romântica’ comprometeu a sua razão política, literária e até moral. Será que temos que escolher entre cabeça e coração? Será que para sermos respeitadas pelo nosso cérebro, temos de esconder ou matar o coração? Ou será que (ainda) temos de des-idealiz a r o a m o r e desconstruir os conceitos de cultura amorosa, de casamento, maternidade e educação?

“Só tenho de lamentar que, quando a amargura da morte passou, fui inumanamente trazida de volta à vida e a miséria. Mas tenho a convicção firme de que essa decepção não me desconcerte; não vou deixar que aquilo que foi um dos actos mais calmados da minha razão fique como uma tentativa desesperada“, escreveu ela ao regressar a Londres.

Wollstonecraft, sempre foi crítica do papel que a mulher desempenhava como simples incubadora e educadora de crianças, morreu no dia 10 de Setembro de 1797, aos 38 anos, dez dias depois de dar à luz a segunda filha Mary. Mais uma contradição pensará quem lê estás linhas!  Como não há duas sem três, aqui têm mais uma contradição, a avó Mary casou com William Godwin que mais tarde publicou as memórias da primeira pensadora feminista, a avó Mary Wollstonecraft.

É exactamente por viver na própria carne estas contradições (e outras) que a avó Mary Wollstonecraft sustentava que a dependência económica das mulheres, bem como sua impossibilidade de acesso à educação racional, transformava-as em seres infantis e resignados.

 Acho que ela não sabia que estava a romper um molde para sempre. Atreves-te tu a romper os teus?

Texto escrito

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Um pensamento sobre “A avó Mary Wollstonecraft

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