O espírito nómada de Annemarie Schwarzenbach

 

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Annemarie Schwarzenbach e Ella Maillart, fotografia de Marianne Breslauer | mais fotos aqui

“History doesn’t repeat itself, but it does rhyme.”                                Mark Twain

 

Existem outras viajantes mais indómitas, audaces, perspicazes até mais comprometidas mas nenhuma tão triste como Annemarie Schwarzenbach.

A tristeza flui na sua escrita comovedora, O Vale Feliz consagrado “ à vida errante e a ausência de esperança”, só é comparável à melancolia que infundem as suas fotografias, especialmente os próprios (auto)retratos da viajante. Fotógrafa e escritora, um “rosto de anjo inconsolável”  como disse Roger Martin du Gard, um dos seus grandes admiradores.

Entre as admiradoras e admiradores encontramos a também escritora Carson McCullers, tal era o fascínio que tinha por Schwarzenbach que lhe dedicou o romance Reflexos Num Olho Dourado.

mais info sobre o livro aqui

Annemarie Schwarzenbach (1908-1942) o ser inconformado de uma família de ricos industriais têxteis de Zurique, morfinodependente, íntima dos malditos Klaus e Erika Mann, suicida em potência (contudo morreu de uma queda de bicicleta), reporte, arqueóloga, escritora de atormentada exigência, lésbica, sucumbiu ao lado negro da vida num naufrágio existencial doloroso que nos deixou páginas belíssimas. A sua biografia com a procura desesperada do amor, as fugas, as dependências, a sua difícil relação familiar (nunca conseguiu escapar ao domínio da sua marcial mãe, filha de um general e de uma Bismarck, que acabou por destruir, após a morte de Schwarzenbach grande parte dos seus escritos) é das que nos deixa o coração endurecido.

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Annemarie Schwarzenbach de Dominique Grente e Nicole Müller, Circe, 1991

“Escolheu o caminho complicado, a senda do inferno” escreve a sua compatriota e viajante Ella Maillart, com a qual viajou em 1939 de carro desde a Suíça até ao Afeganistão, ambas ansiosas por respostas vitais, como duas Dorothy’s à procura de um inexequível mago de Oz do Hindu Kush.

 

Schwarzenbach é inesquesível

Cristina a personagem de La voie cruelle (A Via Cruel na edição portuguesa), livro no qual Maillart recolhe a experiência do erradio pré.hippy em direcção a Kabul e que se transformou num clássico da literatura de viagem e que até deu espaço para um filme. “Acreditava no sofrimento. Venerava-o como fonte de toda grandeza”, aponta Maillart, que mudou o nome da sua frágil companheira, a qual muitos confundiam com um rapaz pelo seu aspecto andrógeno, em consideração por ela, pois o seu relato tem dados íntimos que expõe. Ella Maillart terminou cansada da sua desequilibrante acompanhante, do demónio que a percorria, da sua inesgotável sede do absoluto, das suas crises, das suas recaídas com a droga, da sua desmesurada sensibilidade. Mas nunca deixou de se sentir atraída pelo seu encanto e a sua fecunda vulnerabilidade. Schwarzenbach narra esta mesma viagem em vários relatos reunidos em  Alle wege sind offen. Die reise nach Afganistán, 1939-1940.

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Voltemos ao O Vale Feliz, no qual a autora mistura crónicas de viagem, diário pessoal, autobiografia e ficção…  tornando-o num “texto híbrido” como menciona Gonçalo Vilas-Boas no pósfacio (edição Teodolito), ” onde a escritora se sobrepõe à viajante, encontrando, no ato da escrita, na palavra  e na criação uma nova linguagem uma liberdade que não encontra na realidade”. 

A velha Pérsia era para Schwarzenbach um lugar propício no qual emoldurar a sua angústia, os seus medos e obsessões. “O que procuras na Pérsia?” Perguntou-lhe Malraux. Ela procurava materializar a sua inquietação. Encontrou uma terra baldia e elementar na qual projectou o seu sofrimento, um país que lhe oferecia ao mesmo tempo um território de escassez e inominadas tentações (para a sua adição, para as suas crises mentais e para os seus amores lésbicos).

A tristeza da Pérsia, a sua beleza letal é um dos temas de O Vale Feliz, do qual emanam imagens inesquecíveis como as dunas transformadas em ondas mortas ou a caravana fúnebre com camelos… As ruínas de Persépolis, os fragmentos das civilizações esquecidas, o trote dos nómadas, as tempestades de areia, Mazandaran, paradigma da melancolia… tudo é escrito/descrito através do prisma da dor e só através dessa perspectiva é que faz sentido. Como se o Irão por completo existisse apenas para sumir a escritora numa frutífera e desoladora “depressão persa”, como ela própria descreveu o mórbido estado no qual se encontrava em 1939, foi durante uma cura de desintoxicação que escreve e rescreve O Vale Feliz (O  Vale Feliz surge da reescrita do texto anterior Morte na Pérsia mas ao contrário do que podem estar a pensar não estamos perante duas versões da mesma obra e sim, de duas obras com pontos em comum).

Os diferentes episódios evocam restos da sua biografia: a sua relação amorosa com uma mulher do Teerão (a filha do embaixador turco), o seu breve casamento com um diplomata francês para esconder a sua lesbiandade, as escavações em Rhages, a sua tortuosa necessidade de se comprometer na luta contra o nazismo, as febris e chorosas excursões ao vale de Lahr, a procura da pureza, os cachimbos de haxixe e a vodka das noites arqueológicas…

O Vale Feliz de Annemarie Schwarzenbach

A parte mais intensa e lírica

O Vale Feliz, é a enlouquecida descrição que a autora faz do seu encontro com o seu anjo, uma figura que surge das profundezas da psique de Schwarzenbach e da memória ancestral do país. Na antiga escatologia iraniana, quer no mazdeísmo quer no maniqueísmo, o anjo é uma presença recorrente e era tido como um duplo celestial e uma presença tutelar (as fravartis guardiãs ou as daenas, jovens que ajudam a alma na batalha contra os demónios que as assaltam).

A imagem da perfeita viajante solitária debatendo-se com o seu anjo nu, que tem as suas mesmas feições, junto à pirâmide nevada do monte Demavend, resulta uma metáfora esmagadora da vida e da paixão de Annemarie Schwarzenbach. Uma existência que ela mesma resumiu num grito pungente: “Deixem-me sofrer!”

Texto escrito

________LIVRO em DESTAQUE na LIVRARIA________

Para celebrar o segundo aniversário da Confraria propusemo-nos o desafio de editar, alternadamente, jovens escritoras e resgatar autoras clássicas, um livro por ano.

Continuamos fiéis ao nosso lema #juntas fazemos acontecer, por isso lançamos uma campanha de pré-venda/edição coletiva, para que te juntes a nós na edição deste livro e nos ajudes a construir o quarto próprio de uma nova escritora.

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O Interior Profundo de Diana Fontão é um livro que nos acompanha no caminho que seguimos e explora connosco as possibilidades em que nos vamos fragmentando nesse caminho.

A leitura torna-se uma viagem ao interior do ser humano, onde este se perde e reencontra várias vezes nos pensamentos sobre a vida, a morte, e sobretudo sobre as minudências e grandezas da humanidade.

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