Últimos ritos de Hannah Kent

Últimos Ritos, Saída de Emergência, Hannah Kent

Acho que não vai ser difícil escrever este texto sobre os Últimos ritos de Hannah Kent porque sei exactamente o que gostei e o que não gostei tanto nesta leitura.

Vou centrar o meu texto apenas no que gostei porque quando fechei por última vez o livro, foi o que pesou mais na balança.

Estão preparadas/os para esta viagem? Sim, para uma viagem! Últimos Ritos é uma viagem, uma viagem ao ano de 1828 para conhecer pessoalmente a história de Agnes Magnúsdóttir, a última mulher decapitada na Islândia do século XIX.

Sobre a escritora…
Hannah Kent
nasceu em Adelaide, Austrália, em 1985. Em jovem viajou até à Islândia num intercâmbio do Rotary Club, onde primeiro conheceu a história de Agnes Magnúsdóttir. Hannah é a cofundadora e editora do jornal literário australiano Kill Your Darlings, e encontra-se a completar o doutoramento na Flinders University. Em 2011 ganhou o primeiro Escrever a Austrália – Melhor Manuscrito Não Publicado (Writing Australia Unpublished Manuscript Award).Últimos Ritos é o seu primeiro romance.

Com base em acontecimentos reais, Hannah Kent conta-nos a história de Agnes Magúsdóttir, Fridrik Sigurdsson e Sigrídur Gudmundsdóttir, que foram acusados pelos assassinatos de Natan Ketilsson e Pétur Jónsson em 1828 em Illugastadir, Islândia. É a própria Agnes quem dá voz e desconstrói todo o mistério em redor desta história.

Depois de passar alguns meses em Stóra-Borg, muda-se a Kornsá, com a família do polícia que tem de a vigiar até ao dia da execução. E nesse lugar entre o fumo da badstofa, o trabalho da quinta, a hostilidade dos seus habitantes e um clima gelado e adverso,  onde Agnes nos conta o seu relato perante o olhar atento do reverendo Tóti e a família Jónsdóttir

É possível mudar os preconceitos adquiridos sobre uma pessoa? 

O importante em os Últimos ritos de Hannah Kent não é a história em si, mas sim em como esta é contada e o que a autora nos querer transmitir com ela.

Para mim, o mais fascinante neste livro e o que mais desfrutei foi a sua ambientação. Uma descrição totalmente evocadora de uma Islândia fria, solitária e hostil que não deixa de ser um reflexo fiel de tudo o que a protagonista sente.

A solidão, medo, incerteza, culpa, dor… são constantes nesta leitura, quer em Agnes, quer nas outras personagens secundárias que a rodeiam.

A atmosfera claustrofóbica tenta fazer com que a leitora/o se sinta incómoda/o enquanto lê, que sinta a mesma angustia que sente a protagonista. De certa maneira, é como se a dureza do entorno a estivesse a curtir e a preparar para o que vai acontecer, apesar de que nem Agnes nem a leitora/o estão preparados para chegar ao fim, por muito tempo que se tenha para tomar consciência e aceitar a ideia. A fragilidade por vezes, é um sentimento difícil de se mostrar e mesmo assim, acho que este livro consegue que a vejamos em todas e em cada uma das suas personagens.

Últimos Ritos é uma leitura triste que nasce da impotência e da raiva por não conseguir mudar as coisas, de ter que aceitar as circunstâncias que advém enquanto te resistes ao destino imposto. E mesmo com todo esse desconsolo, há beleza, compreensão e uma espécie de redenção em tudo, o que transforma este livro numa leitura cheia de emotividade e sentimento.

As últimas páginas conseguiram fazer-me chorar intensamente. Se há uma coisa que o final nos transmite é compaixão e empatia. Estes dois sentimentos independentemente daquilo que a pessoa tenha feito, e senti-los faz-nos mais humanos, e na minha opinião, melhores pessoas.

Foi este desfecho que conseguiu surpreender-me, emocionar-me e esquecer-me das coisas que não gostei tanto.

Claro que neste mundo louco em que vivemos e com as atrocidades que se cometem, nem todas as pessoas merecem receber indulgência mas também é certo que tê-la de alguma forma nos ajuda a não ser como essas pessoas, a diferenciar, a criticar e a defender valores que escasseiam.

Por desgraça no passado e no presente existem muitas e muitos Agnes Magnúsdóttir, uns mais culpados do que outros. Merecia o trato que recebeu e uma sentença de morte? A minha resposta é Não, um Não rotundo. Ninguém, no meu entender merece morrer (nem ser torturado) deliberadamente a mãos de outro ser humano, não estou a falar em defesa própria mas sim em assassinar, algo que acho que em nenhuma situação está justificado, nem sequer quando nos amparamos na lei. Sim, sou contra a pena de morte. Não vos parece absurdo impor como pena o mesmo acto que está a ser julgado como delito? Atravessar essa linha acho que nos transforma naquilo que rejeitamos, em assassinas/os.

Mas…
Agnes era culpada? Bem, eu tenho as minhas teorias e uma mão cheia de argumentos que me permitiriam defende-la num julgamento mas não vou partilhar nenhum, o veredicto têm de ser vocês a desvenda-lo lendo este livro até ao fim.

É verdade que houve coisas que gostei menos mas como são tão subjectivas prefiro não comenta-las para não influenciar a vossa decisão de ler ou não este Últimos Ritos de Hannah Kent, estou certa que não vos vai deixar indiferentes e que merece muito a pena conhecer a frialdade que transmite a Islândia de 1828, a pequena badstofa de Kornsá onde Agnes Magnúsdóttir consegui sentir, por primeira vez, que a humanidade e a empatia não eram emoções perdidas.

texto escrito

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