Contra o esquecimento a palavra e os cravos.

Hoje percorri as ruas da cidade com um cravo na mão, hoje foi mais um dia para recordar que a memória faz parte do verbo ser conjugado no presente.

Um das razões pelas quais existem as livrarias de mulheres (no mundo) é para nos motivar a continuar a re/construir um mundo mais justo e livre.

Contra o esquecimento temos a palavra e os cravos. Contra a morte total da memória (da existência) está o relato de outras vidas. Com a palavra, com o conhecimento daquilo que já passou preservamos a memória e não deixamos desaparecer o que já se foi e que faz parte do que somos. Com a palavra morremos um pouco menos. As nossas vidas deixam de parecer tão efémeras. Quando surge uma livraria de mulheres surge a possibilidade de recuperar a palavra das que nos precederam, assim como a cada 25 de Abril preservamos a memória de um momento da nossa história que nos deu esperança para continuar a re/construir um mundo onde todos e todas tenhamos voz. A palavra é também memória e recuperar a palavra das que foram, torna a nossa vida menos morte. ‘Porque foram somos, porque somos serão’.

Todos os 25 Abril ao ouvir os primeiros acordes de Grândola Vila Morena ou E Depois do Adeus… Sei mais uma vez que não quero esquecer. A nossa capacidade de esquecer controla tudo, tritura tudo, tudo o que hoje sei quero que fique guardado num papel.. Num livro.. Numa foto.. Num cravo a cada 25 de Abril.

Todos os dias quando entro na Confraria penso, Se não falarmos de nós mesmas, quem é que o vai fazer?’

Uma livraria de mulheres é um espaço para preservar a memória, para reconstruir a história e para projetar um futuro onde cada pessoa possa construir o seu próprio espaço e possa usar a sua voz com as mesmas possibilidades de ser ouvida. Cada estante recupera a palavra das mulheres. E é tão importante recuperá-la!
É importante porque as suas palavras podem ser como rochas sólidas enraizadas à terra que nos permitem atravessar a corrente. Cada livro da estante é necessário assim como cada cravo a cada 25 Abril, todas nós precisamos das palavras que outras escreveram para poder atravessar a corrente neste remoinho cultural no qual tem estado submerso o nosso género durante séculos. Precisamos destas rochas para não permitir ser arrastadas no remoinho da desesperação, para ter consciência que a nossa impotência não é uma fatalidade ou uma graçola de mau gosto da natureza. Que para superar a incapacidade de nos expressarmos, para sermos conhecedoras da “sabedoria” dos homens, a ciência, e para ter acesso, em resumo, a compreensão do universo, são necessários anos, talvez séculos e principalmente as palavras das que nos precederam, das que foram sendo esquecidas na história e nas estantes das bibliotecas e livrarias. As que descobriram muito antes de nós que a História tem sido fabricada por homens, pelos homens das castas superiores para proveito dos homens das castas superiores.

Não quero esquecer as suas palavras, as minhas palavras, as tuas palavras… O esquecimento é um tirano nas nossas vidas, na nossa história. Criar espaços e tempos para partilhar as palavras (os livros) das mulheres ou or para a rua cada 25 abril é iniciar,  é continuar (não estamos todas na mesma etapa do caminho) uma luta por vezes solitária outras colectiva mas sempre pertinente contra o esquecimento. Contra a invisibilidade nas sombras da história.

Cravos de Solidariedade & Sororidade

Livro a livro, cravo a cravo recuperamos a palavra das mulheres que nos precederam nisso tão abstracto e concreto que é a existência. Ninguém o vai fazer por nós. E sendo sincera às vezes preferia que nem tentassem fazê-lo porque pior que o esquecimento é perpetuar a imagem que o patriarcado criou de nós. As mulheres somos metade anjo metade demónio. Um animal criado pelos homens do patriarcado que em nada se parece com a mulher. Com o que cada uma de nós é.

Por sorte as mulheres não somos todas iguais. Apesar de se reinventar dia a dia uma homogeneidade através da publicidade, do cinema e

da cultura em geral. Teríamos grandes surpresas, especialmente os homens, se empática e modestamente nos sentássemos a ouvir as palavras das mulheres. Mas para ouvir há que deixar de pensar que se é o rei do universo. 25 de Abril sempre, machismo nunca mais!

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