algumas r a p o s a s

Foto de Confraria Vermelha Livraria de Mulheres.
Foto desfocada como os fantasmas de Mr Fox

A primeira cabeça cortada aparece nas primeiras páginas. A escritora de descendência nigeriana Helen Oyeyemi não nos deixa respirar em Mr Fox, um escritor que não consegue deixar de ceder ao impulso de matar todas as mulheres protagonistas das suas histórias, incluída a sua.

Este romance de Helen Oyeyemi parece um conto de fadas, há uma musa. E aqui acaba a musa, porque a musa de Mr Fox, afeia a conduta do escritor e acaba por ganhar vida real desafiando-o. Barba azul, o conto de fadas de Charles Perrault, e algumas figuras mitológicas têm muitas coisas em comum com Mr Fox, o quarto romance de Helen Oyeyemi nascida na Nigéria em 1984 numa família que emigrou a Inglaterra quando ela tinha 4 anos de idade.

A escritora declara-se feminista não por ativismo mas no dia a dia: “Preocupam-me muito as agressões que sofrem as mulheres nas mãos de homens. Acredito que todos temos que denunciar esta realidade”. Em Mr Fox a agressão física e psicológica e o medo estão presentes em muitas das nove histórias que compõe este livro: desprezo, agressão, cabeças cortadas, atropelos… “Tentei questionar-me sobre o que têm que expiar homens e mulheres entre si, um pouco seguindo o experimento que realizou Margaret Atwood, que pediu a um grupo de homens que explicara o que temem nas  mulheres e onde a resposta foi que aquilo que lhes provocava medo era que elas se rissem deles. Ao colocarem a mesma questão a um grupo de mulheres, a resposta foi que as matassem. E essa é a diferença base: o nível de medo de cada um deles: as mulheres podem rir, mas os homem matam.”

Esta luta está no romance de Oyeyemi. A história parte de uma personagem, um escritor, que acredita que tem controlada a sua musa – Mary – mas as coisas mudam. “A musa ganha consciência, torna-se real, faz troça dele, até se torna cúmplice da esposa dele e ele fica com medo, tem medo que ambas se riam dele.” Esse é o medo dos homens, que nós nos riamos deles.“, reflecte a autora.

Contudo, Oyeyemi acredita que não há uma leitura feminista (eu também acho que não) em Mr Fox: “Tem outros códigos, como o poder da imaginação ou o significado da fidelidade nas relações ou o que é que pressupõe contar histórias.” Num dos relatos, Mary questiona Mr Fox sobre se ele tem consciência de que as pessoas imitam o que lêem. A comicidade também está presente em alguns dos relatos, especialmente quando a musa crítica o que ele escreve. E assim, vai emergindo também a mitologia e os contos. Daphne – esposa de Mr Fox – chamasse assim pela personagem de Rebecca (do romance de Daphne Du Maurier no qual a jovem esposa morre) mas também pela ninfa da mitologia que foge de Apolo e se transforma em árvore.

… a sua literatura trata de raposas, de algumas  raposas, como diz o título do último relato do romance. E de fantasmas, e de casas assombradas e lagos enfeitiçados que tornam estas circunstâncias motivos humanos, atemporais.

Oyeyemi diz que a lista de escritores que a inspira é longa: Graham Greene, Pushkin, Calvino os romances de Barbara Comyns. A escritora pratica curas de silêncio que consistem em não falar nada durante uma semana: “Incluído os email, que é o mais difícil. E planificar tudo muito bem porque, por exemplo, há que organizar a despensa para não ter que ir à mercearia comprar e falar. O silêncio absoluto ensina-te a não reagir perante as coisas e ao fim de uma semana apercebes-te que aquilo que parecia muito importante, afinal não era.” Reconhece que esse “voto de silêncio” tem algo de espiritual e que a fortalece.

Como podem ver nada em Helen Oyeyemi é evidente. Não nos podemos levar pelas aparências, algumas pessoas vão dar por certo que por ser filha de emigrantes nigerianos, declaradamente feminista, a sua escrita aborda a imigração, os conflitos raciais e a denúncia da violência contra a mulher, mas apesar destes e outros problemas preocuparem a escritora a sua literatura trata de raposas, de algumas  raposas, como diz o título do último relato do romance. E de fantasmas, e de casas assombradas e lagos enfeitiçados que tornam estas circunstâncias motivos humanos, atemporais.

A conclusão de Mr Fox (se é que há conclusão) é retornar às origens da arte narrativa: os contos de fadas. O talento de Helen Oyeyemi consegue recuperar uma experiência que tem sido negligenciada por parte da maioria dos narradores modernos, a de que poucos recursos podem ser tão emocionalmente descritivos como os símbolos implícitos nos animais falantes ou os corações que palpita sem dono. Esses elementos arcaicos, empregados com audácia e beleza por uma escritora dona da linguagem, são um sorvo de água fresa para as leitoras e leitores mas também para o ofício de contar histórias.

Texto escrito

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