A Mãe pt.1: A Campânula de Vidro

sylvia
A primeira edição que li de A Campânula de Vidro de Sylvia Plath era da minha biblioteca local. Eu tinha 19 anos e encontrei, pela primeira vez, um livro que era eu. Sylvia Plath e Esther Greenwood eram a mesma e ambas eram eu. Não queria sequer devolver aquela edição à biblioteca; a narrativa continuava em mim e não queria separar-me daquela parte minha naquelas palavras.

Nunca amamos nenhum livro como aquele que lemos na altura certa. Quando o livro se cruza tão perfeitamente com aquilo que vivemos que lemos nas suas páginas aquilo que não conseguimos dizer que sentimos. Ter ali uma parte do nosso interior, do secreto que escondemos de tudo o resto que nos rodeia. E naquele momento, naquele livro, Sylvia Plath era-me mais real do que qualquer outra pessoa. Escrevendo o seu sentimento até à minha realidade, tornava o que eu sentia num momento do qual, como Esther, eu podia continuar.

Entre passado e presente ela perde o foco no seu futuro
e torna-se uma personagem desfocada,
tão comprimida no momento que não controla
que as suas formas se esfumam na vida que a rodeia.

Ao longo do livro Esther Greenwood caminha entre limites: de um lado a vida que para ela querem e da qual se tenta afastar para chegar ao outro lado, a vida que ela quer para si mesma e que não se sente alcançar. E entre as duas sente-se estática e imperfeita, deformando lentamente aquela que ela é. Entre passado e presente ela perde o foco no seu futuro e torna-se uma personagem desfocada, tão comprimida no momento que não controla que as suas formas se esfumam na vida que a rodeia. Que perde o sentido do tempo numa vida onde todos os dias são e serão imutavelmente iguais. Até do descontrolo surgir o seu controlo sobre si. Até ver, ao fundo, a sua própria forma no seu próprio caminho.

Um caminho que Sylvia Plath percorreu várias vezes até ao seu suicídio. Um caminho que percorreu na sua escrita e com a sua escrita. Do qual resultou a sua poesia e este seu único romance, semi-autobiográfico e de formação, publicado em 1963 com o pseudónimo Victoria Lucas. Para com o anonimato evitar que estas palavras chegassem à sua mãe, que, por sua vez, tentou evitar que o livro fosse publicado na América durante a sua vida. Porque a mãe de Esther foi também Aurelia Plath.

Porque é difícil o confronto com a mãe. Porque é difícil confrontar a forma como a mãe lhe tira o controlo de uma vida que deveria ser sua para viver. Porque é também difícil para a mãe confrontar a forma como ela deforma a vida que lhe quer dar. Da proximidade surge também uma asfixia, e da falta de ligação entre Esther e a mãe surge também a sua falta de ligação com a sua própria vida, com a origem da sua vida. Impedido-lhe o crescimento, invertendo-lhe a capacidade de existir. Até dar o seu início a si mesma; até fazer em si mesma a ligação que lhe permite unir o momento que vive ao que ainda está por viver, voltando a ter, em si, a forma do seu futuro.

Este ano tornei-me mais velha do que Sylvia Plath alguma vez foi. E, finalmente, comprei para mim uma edição de A Campânula de Vidro. Há livros que somos nós; há livros que fomos nós. E devemos continuar a nossa narrativa.

“Eu sentia-me derreter nas sombras como se fosse o negativo de alguém
que nunca conhecera em toda a minha vida.”

A Mãe pt. 2: Verão no Aquário

A Mãe pt. 3: A Mulher Comestível (3 de Novembro)

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3 thoughts on “A Mãe pt.1: A Campânula de Vidro

  1. Helena Ferreira

    Uma coisa é ter muitas leituras, outra é a literacia e outra ainda é a facilidade com que se escreve ou fala desses livros. Esta última é muito complexa e poucas pessoas o fazem bem. A Diana é exímia e transporta-nos, literalmente, para as páginas dos livros que leu, com um grande entusiasmo. Texto muito bom!

    Gostar

  2. Pingback: A Mãe pt.3: A Mulher Comestível | Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

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