A Mãe pt.2: Verão no Aquário

Processed with VSCO with t1 preset

Descobri Verão no Aquário de Lygia Fagundes Telles quando a autora recebeu o Prémio Camões e veio a Portugal. Fui ouvi-la falar sem a conhecer; sem saber que ao ouvi-la e ao lê-la ia mudar a minha vida.

Naquele dia eu ouvi Lygia Fagundes Telles falar dos seus livros, da sua escrita e, naquele momento, materializou-se em mim uma imagem. Porque havia em mim uma imagem de escrita e uma vontade de concretizar essa imagem. E naquele momento, ouvi nas suas palavras a materialização de tudo o que eu conseguia apenas imaginar. A partir daquele dia eu comecei a escrever.

E Patrícia escreve; a sua presença o som das teclas da máquina de escrever.
E Raíza sente-se tão personagem da mãe como se estivesse por ela a ser escrita.

Em pouco tempo li todos os seus livros. Verão no Aquário foi o primeiro. Publicado em 1964, é um romance de formação que é também um reflexo. Mais do que uma narrativa ou uma narração, é reflexo de um sentimento. De um sentimento de inadaptação a uma realidade, de um sentimento em que o reflexo no espelho é mais real do que o corpo que ali se reflete.

A narradora é Raíza, uma personagem que se sente representar várias formas de bem e de mal sem refletir sobre o que são o bem o mal. Porque Raíza tenta existir por oposição à sua mãe, a escritora Patrícia, com quem se sente partilhar uma imagem no espelho. De quem não consegue dividir-se. Como se ainda ocupassem um só espaço, como se ainda não fossem duas vidas em corpos separados, mas dois reflexos de uma mesma forma.

E Patrícia escreve; a sua presença o som das teclas da máquina de escrever. E Raíza sente-se tão personagem da mãe como se estivesse por ela a ser escrita. Mas a mãe cria silêncio entre elas; espaço para que escreva a sua vida com as suas palavras. E nesse silêncio acumulam-se palavras por dizer; nesse silêncio perdem-se significados e imaginam-se as palavras que não se dizem. Criando distância, cada uma procurando definir o mesmo em si com palavras diferentes.

Raíza procura uma definição pessoal, procura saber quem é, procura saber que forma ocupa no mundo. E representa entre os outros a forma que estes esperam dela. Adaptando-se à representação daquilo que nela querem ver sem chegar a refletir o que quer para ela mesma. Porque há sempre tantas vozes a moldar a nossa forma que a nossa realidade não se materializa. E nunca conseguimos ser sem essas vozes dentro da nossa, sem essas vozes que entram tão cedo e moldam tanto até ser demasiado tarde. Em Verão no Aquário lemos a luta contra esse tempo que nunca espera, contra essas vozes que nunca se calam. A luta de Raíza para ser uma só pessoa, uma só voz, um só reflexo.

Ao ler Verão no Aquário eu aprendi a escrever. Eu aprendi que o significado das palavras não está parado, não está vedado. Que é possível, com as palavras que digo e com as palavras que escrevo aumentar ao significado do real que me rodeia. E aumentar ao significado do real que em mim tenho dentro.

“Não, nada disso tinha a menor importância, o importante era que ela escrevesse seus livros.”

A Mãe pt.1: A Campânula de Vidro 

A Mãe pt. 3: A Mulher Comestível

untitled

Anúncios

4 thoughts on “A Mãe pt.2: Verão no Aquário

  1. Pingback: A Mãe pt.1: A Campânula de Vidro | Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

  2. Pingback: A Mãe pt.3: A Mulher Comestível | Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

A tua opinião é importante

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s