A Mãe pt.3: A Mulher Comestível

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Li A Mulher Comestível de Margaret Atwood quando procurava ler mais livros sobre feminismo. Apesar de o título surgir várias vezes associado ao movimento feminista da sua época, a autora mantinha, e mantém ainda, a posição de o ter escrito antes de conhecer a palavra e sem procurar inserir-se no seu significado.

Marian McAlpin é a narradora no início e no final do livro, perdendo pelo meio a sua voz quando perde também o controlo do seu corpo. Quando é pedida em casamento começa a sentir uma separação entre ela e a sua identidade. Uma separação entre ela e o seu corpo. E começa a identificar-se com o que come, perdendo a capacidade de comer. Sentindo que, também ela, como mulher, é comestível.

Na forma de um corpo que se devora a si mesmo, Margaret Atwood cria uma narrativa onde o corpo é um espaço próprio, capaz da sua própria vontade e da sua própria identidade. Onde um corpo pode resistir à formatação a que é forçado por uma realidade que se cria a si mesma. Por uma realidade em que vozes são silenciadas para que mulheres sejam comestíveis.

A Mulher Comestível é um um romance de formação que subverte a formatação
pela qual um corpo passa até reproduzir pela sua própria voz palavras
que lhe foram impostas.

Mas Marian é vista apenas como uma pessoa normal, como uma mulher normal que vai aceitar o papel de normalidade que é exigido às mulheres na realidade em que vive. Dela espera-se, normalmente, que case e que seja mãe. Dela espera-se que aceite uma vida sem subjetividade, que aceite viver apenas como vê viver os outros. Mas Marian vê as suas amigas Clara e Ainsley viver formas diferentes da mesma vida, formas diferentes de ser mãe. E começa a ver a normalidade como subjectiva, independente de qualquer realidade exterior e apenas dependente do interior que vem do próprio corpo.

Publicado em 1969, A Mulher Comestível é um um romance de formação que subverte a formatação pela qual um corpo passa até reproduzir pela sua própria voz palavras que lhe foram impostas. Até ter como única escolha o silêncio da sua própria voz para que a sua forma encaixe na forma da realidade em que vive. Uma realidade que, apesar de alterada, ainda existe na atualidade e que ainda forma as vidas que nela nascem. Que ainda prende em corpos e pelos corpos a identidade que neles quer impor. Porque as palavras ainda não são nossas e com elas ainda não podemos dizer tudo aquilo que somos. Porque ainda há vozes a quem são proibidas certas palavras; porque há palavras que ainda descrevem apenas certos corpos.

Nas palavras de Marian e no seu silêncio eu li o eco de muitas vozes. Li o eco de vozes silenciadas dentro de mulheres a quem é pedida a conformação com uma realidade onde o seu corpo é consumível, é comestível. Muitas dessas vozes encontraram no movimento feminista a possibilidade de, juntas, começarem uma nova definição, começarem um novo significado. E, mesmo escrito antes deste movimento chegar à autora, li neste livro um eco dessa união.

A minha vida como mulher é muito diferente daquela que Margaret Atwood vivia quando escreveu A Mulher Comestível. Há palavras por ela conquistadas que me permitem hoje descrever de outra forma a minha realidade, a minha identidade. Mas há ainda muitas palavras a ler. Há ainda muitas palavras por mim a conquistar.

“Fixavam nela os seus olhares de quem não a compreendia, de tal forma que ela tinha medo de perder a compostura,
de perder o controlo e de não ser capaz de se conter mais tempo, começando (e isso seria o pior de tudo) a falar imenso,
a dizer tudo a todos,e a gritar.”

A Mãe pt.1: A Campânula de Vidro 

A Mãe pt.2: Verão no Aquário 

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2 thoughts on “A Mãe pt.3: A Mulher Comestível

  1. Helena Ferreira

    Os ecos das vozes silenciadas das mulheres são gritos que nos perseguem toda a nossa vida! E, sim ainda temos muitas palavras para descobrir, transformar e sobretudo, conquistar. Gostei muito do texto.

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