Leitura – esse substantivo feminino por Sara Ezedin

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Já dizia Augusto Meyer que “a infância é uma ilha perdida na memória” e que de vez em quando, ou de quando em vez, visitamos essa que é a nossa verdadeira terra. Lá pelos 12 anos, se não me falha a memória, minha mãe tinha uma estante branca, com muitas prateleiras e portas. Gigante. Cheia de livros. Recebera carinhosamente a alcunha de “baleia branca” e, mais tarde, de “Moby Dick”. Fora a monstruosidade exuberante de toda a sua grandeza, não havia ali nada de especial. Eram códigos penais antigos, alguns dicionários desatualizados – resquícios de uma carreira de advocacia já há muito abandonada – juntamente, alguns livros de anatomia e uma coleção de “história da arte através da pintura”. E foi nessa curiosidade imensa, maior do que a estante, que quando todos saíam de casa ou estavam distraídos que eu pegava nessa coleção e tentava entender Caravaggio, Monet, Ticiano, Van Gogh – não entender apenas a arte, mas os homens por detrás dela. As suas loucuras, as suas entregas e as perdas que consequentemente sofriam a par de suas escolhas. E foi ganhando essa coragem que um dia, escalei a estante e ao tentar me manter de pé, na prateleira que até hoje não consigo alcançar, enfiei meus braços por entre os livros e descobri uma passagem. Havia atrás de todas aquelas velhas leis uma outra estante, outros livros. Havia ali Machado de Assis, Clarice Lispector, Veríssimo, Nietzsche, Marx, Dostoiévsky… Era um mundo secreto que, por alguma razão, se mantinha escondido de mim. E, tentando alcançar algum daqueles volumes, puxei um livrinho de capa vermelha – dizia Kafka. Somente Kafka. Letras douradinhas na capa de tecido e se tornava o livro mais lindo de todos, na realidade, a coisa mais linda em que eu já havia tocado. Puxei-o completamente ali de trás e o trouxe para o meu lado, o das leis cansadas e das anatomias inertes. E ali mesmo li-o, tão completamente, tão apaixonadamente que comecei a amar Gregor Samsa. Na primeira vez, senti-me muito mal. Ao ler tão rapidamente até o fim, matara Gregor. Chorei. Queria-o sempre vivo e lia até a metade. Não tive coragem de matá-lo uma segunda vez. Lia até a metade e pedia desculpas, baixinho, por alguma vez ter avançado.

Sim, Samsa foi o meu primeiro grande amor. Fizera meu completo medo e nojo de baratas se transformar em qualquer outra coisa mágica. Queria-o comigo. E já não queria a realidade. Lembro-me de quando uma colega de escola me perguntou de quem eu gostava – pois, eu tinha que gostar de alguém – e, revendo rapidamente na minha mente todos aqueles guris enfileirados, todos iguais, e nenhum era o Gregor, nenhum poderia ser. Pressionada, sem pensar, respondi: “Gosto do____” e me senti violada. Não pela pergunta, mas pela minha fraqueza. Traía Gregor, traía a mim mesma. E prometi que não mais o faria. Pus-me numa missão secreta. Pensava eu, na minha inocência infantil, que poderia curá-lo. Que juntos viajaríamos pelos mais recônditos e impossíveis lugares, em busca de gurus e curandeiros que pudessem devolvê-lo a sua forma humana e ele não precisaria mais morrer, enfrentar um fim para o qual eu não estava preparada. Naquele tempo, a revista “ciência hoje para as crianças” mostrava diversas reportagens sobre fenômenos humanos e seres com condições especiais que encontravam curas fascinantes e misteriosas – homens-peixe, homens-árvore, crianças que choravam pedras preciosas… E passei a me interessar por mapas, e pelas cartografias imaginadas. Acreditei por um tempo que, talvez, a cura de Gregor estivesse no Egito, pois as figuras das pirâmides mesclavam homens e animais. Fiz todas essas viagens com Samsa. Imaginava que ele gostava de Van Gogh tanto quanto eu e me explicava o que eu fingia não saber. Imaginava que um dia pularia para fora do livro e seguraria minha mão. Era um amor de mãos dadas. E Cheio de palavras. E era amor verdadeiro. Por vezes, pensava que Gregor era uma criança como eu, uma criança que me ensinava a amar os livros tão perdidamente quanto eu o amava. Mostrou-me a face mais bonita da sua metamorfose interminável: a do poder transformador das palavras, das histórias e, principalmente, da leitura.

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