A Casa pt. 3: O Monte dos Vendavais

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“Dei-lhe o meu coração, e ele aceitou-o, apertou-o até o matar e depois devolveu-mo.”

O Monte dos Vendavais de Emily Brontë é um clássico gótico publicado em 1847, mas a popularidade que mantém nos dias de hoje está separada da sua leitura. Porque apesar de ser considerado romântico, são outras as emoções que nele se leem. São áridas e duras as palavras de que se faz O Monte dos Vendavais.

Na paisagem onde surge a casa que dá título ao livro surgem personagens que amam com a força com que se odeiam. Que criam na violência uma forma de comunicação, abandonando as suas almas a essa violência. Controlando, marcando e desfazendo quem os rodeia com a dureza das suas palavras. Até a aridez entre eles os devastar a todos. Até fazerem da sua natureza interior reflexo da vastidão da natureza exterior. E perder a humanidade na vontade de consumir por inteiro o que no outro o faz humano.

Heathcliff e Cathy Earnshaw, os protagonistas, conhecem-se quando crianças e encontram no outro um mesmo que os rodeia mas que aos outros é invisível. Porque eles são o mesmo que a paisagem deserta, são o mesmo das tempestades, são o mesmo que aquela casa. Onde sentem e vivem e partilham um coração que desfazem como se essa fosse a única forma de sentir. As personagens em O Monte dos Vendavais são emoções que comunicam entre si, corrompidas pelo mal que habita dentro da casa.

 Mas como mulher, a sua casa nunca é sua, a sua paixão nunca é sua.
Espera-se dela que abandone ambas, abandonando-se a si mesma.

O mal possui o corpo de Cathy e nem depois de morrer a sua alma abandona a casa. Cathy surge no início do livro como fantasma, como materialização do seu desejo de voltar ao Monte dos Vendavais, do seu desejo de desfazer um coração que desfez o seu. Mas como mulher, a sua casa nunca é sua, a sua paixão nunca é sua. Espera-se dela que abandone ambas, abandonando-se a si mesma. Abandonando a sua vida para aprender a viver como os outros. E poder ser julgada pelos outros por ter aprendido a ser como eles.

Num universo fechado apenas em casas e nas pessoas que as habitam, Emily Brontë criou um espelho dos seus próprios sentimentos. Ao trabalhar como preceptora, também ela viveu em casas habitadas por emoções duras que tomaram forma nas palavras com que escreveu este livro. Nas palavras que, sem realismo, me fizeram sentir a sua realidade. Me fizeram sentir até o meu coração estar tão apertado como o dela.

Adaptado várias vezes ao cinema, nunca nenhum filme conseguiu mostrar o que é sentir dentro do Monte dos Vendavais. Considerado inadaptável por estar dividido em duas partes que acompanham duas gerações das mesmas famílias, o cinema nunca o conseguiu passar para a sua linguagem sem perder a linguagem com que foi escrito: a linguagem de fazer sentir as palavras com todo o seu significado.

Entre as duas vezes que li O Monte dos Vendavais passaram dez anos. E sinto que perdi o romance que tinha lido; a paixão do coração que quer ser partilhado. Porque leio agora a dureza com que foi escrito; a paixão do coração que se quer ouvir bater. Emily devolveu-me o seu em palavras, e nelas ainda o ouvirei bater durante muitos anos.

A Casa pt. 1: Sempre Vivemos no Castelo

A Casa pt. 2: Rebecca 

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