Achados e Perdidos por Stephanie Crispino

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No meio de perdidos e achados da vida, Clarice sempre foi uma certeza.

Já a conhecia de nome há muito, provavelmente graças à escola, mas foi apenas mais tarde, quando já dirigia para ir à faculdade que realmente posso dizer que me apaixonei por sua escrita.

Como boa paulistana – nome para aqueles, que como eu, nasceram em São Paulo, capital -, na época, algumas horinhas de trânsito faziam parte da vida-a-vida. Somando-se o perfil universitário com a sua busca incessante por eficiência e a correria da juventude que entraria em crise por uma simples perda de tempo, estava decidido: para melhor aproveitar aquelas horas ao som de buzinas e cheiro de fumo, um áudio-livro era o que eu precisava!

Desafiada, fui à livraria em busca de algum livro cujas palavras pudessem preencher esse vazio entre um lugar e o próximo. No meio de muitos áudio-livros de administração e mais uns tantos de auto-ajuda, foi quase feitio do destino quando encontrei um que parecia destoar das “Regras para se ter uma vida feliz” ou “Hábitos de pessoas bem sucedidas”: Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. Só o título já me cativou. Enigmático. Sensação que se manteria, anos depois, sempre que descrevesse as melhores qualidades de Clarice. A autora: Clarice Lispector.

Sim, já ouvia falado muito a seu respeito! Famosa e muito lida para os exames antes de ingressar nas universidades brasileiras. Era um perfeito (re)começo. Um novo convite ao mundo literário de Clarice e, ao mesmo tempo, a fuga ao vazio que me esperava.
Um encontro que, se planejado, não seria tão perfeito. Até hoje, depois de ter lido e relido as páginas deste livro – destas outras vezes, fisicamente segurando-o entre os dedos – sempre o leio com a voz daquela mulher expressiva e firme ao narrar a autodescoberta de Lóri.

 O equilíbrio entre razão e emoção é uma das características que,
ao meu ver, transborda em toda a escrita de Clarice

Trama simples que, no entanto, percorre sombrios caminhos nas profundezas do ser humano e seus sentimentos. Equilibrando razão e emoção como ninguém – mais uma das características que, ao meu ver, transborda em toda a escrita de Clarice.

Não foi por acaso que, ao final de Julho deste ano, quando me deparei novamente com Clarice, foi um reencontro arrebatador. Andava distraída pelas ruas do Porto – nova cidade que estou aprendendo a reconhecer como minha – quando noto logo no cimo da Rua dos Bragas, alguns vidros a transparecer um espaço pequeno, familiar e todo cheio de cores.

No ato de explorar mais cantos da cidade, resolvo entrar e já me deparo com a recepção calorosa de todas e todos que por lá passam. Havia livros e mais livros, mas também outros objetos e colocações que me fizeram crer, desde o início, que aquela não era uma livraria qualquer.
Tudo naquele ambiente de apenas alguns metros quadrados no centro do Porto transpirava autenticidade e carinho. Olhei algumas prateleiras e soube do próximo evento que aconteceria em poucos dias naquele mesmo lugar: um clube de leitura que ocorria todos os meses e, dali a dois dias, para a discussão de Julho, abordariam a obra “A Hora da Estrela”, adivinha de quem? Clarice Lispector! Não poderia ser de outra forma.

Foi assim o meu reencontro com Clarice e com uma parte de mim mesma já há um tempo adormecida. Também, encontro de um dos meus lugares favoritos para ser e estar no Porto, a Confraria Vermelha Livraria de Mulheres.

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