As Mulheres e o Dinheiro

A precariedade tem nome de mulher

Quem foi as apresentações da campanha de crowfunding»» para promover a abertura da primeira Livraria de Mulheres em Portugal, a Confraria Vermelha sabe que cresci rodeada de mulheres. E como amanhã é dia da mulher deixem-me, hoje, partilhar convosco o que aprendi observando as mulheres da minha vida.

Cresci observando (é assim que aprendemos) a minha bisavó, a minha avó, a minha, mãe, as minhas tias e outras mulheres próximas a este núcleo… cresci vendo como terminavam exaustas da precariedade “herdada” à nascença por serem mulheres (herança que tentavam não me transmitir mas como não somos filhas só das nossas mães também somos filhas da nossa cultura, eis que eu também sou precária).

Sim a precariedade tem nome de mulher. E tanto faz que sejas dona de casa, operária numa fábrica, desempregada ou executiva. Não sou eu que digo isto, são os números!!!

Não acreditam!?! Então fiquem atentxs amanhã aos telejornais, jornais, rádios, revistas tenho a certeza de que vão ver os números e as disparidades salariais entre homens e mulheres. Eles amanhã vão falar disso porque é dia da mulher.

Desde bem nova, que me apercebi que essa precariedade é a que domesticava as mulheres da minha família mas demorei alguns anos a compreender os efeitos que essa domesticação tinha sobre elas. Quando cheguei a adolescência, percebi que a precariedade as tornava (nos torna) submissas. Que a precariedade nos corta as assas.

E hoje 7 de Março de 2015, 87 anos depois, da Virginia Woolf (não me canso de a citar, temos tanto que aprender dela e com ela) ter escrito aquilo de que as mulheres precisam de um “1 quarto próprio e 500 libras no bolso” nós, mulheres, continuamos, cada uma a sua maneira, tentando conquistar, cada dia, o nosso quarto próprio e principalmente lutando para nos sentirmos merecedoras dessas ‘500 libras’.

Não, não leram mal. Eu disse isso mesmo: “sentirmo-nos merecedoras”.

Sim, porque amanhã no Dia Internacional da Mulher quando um jornalista ou uma jornalista ande pela rua a perguntar o que achamos do dia da mulher, vai haver mulheres que digam (mesmo com os dados sobre as desigualdades nos salários, dos dados das desigualdades de acesso ao emprego, etc.): “Não faz sentido nenhum, nós mulheres já temos os meus direitos e obrigações dos homens. Não há um dia do homem, pois não?”

É por este tipo de afirmações, que falo de sentir-nos merecedoras. De aprender a sentir-nos merecedoras dessas 500 libras (de equidade salarial, de acesso ao emprego e aos cargos de chefia nas mesmas condições…) para nós.

Temos que aprender a colocar preço ao nosso trabalho, ao trabalho que oferecemos a família, a sociedade (as mulheres trabalham desde sempre sem receber, cuidando das tarefas domésticas e do cuidado de terceiros – filhos, marido, familiares-).

Não colocamos preço as tarefas de criação dxs filhxs, nem ao cuidado de familiares. Não colocamos preço as tarefas de educação, nem aos anos de formação e especialização…

Não colocamos preço porque nos parece pouco honrado da nossa parte fazê-lo e por isso ficamos com as sobras e engolimos as lágrimas.

Vivemos num mundo capitalista. Essa é a nossa realidade. Essa é a realidade que fui observando enquanto crescia observando as mulheres da minha vida.

Nesta sociedade aquilo que não tem preço, não tem valor. Por isso, grande parte das tarefas realizadas por mulheres, não têm valor. É uma cruel realidade. O capital é quem manda e ordena. Manter-nos afastadas dele é continuar a ser obedientes pelo medo e pela vertigem que nos provoca não termos os nossos próprios recursos. Pois somos filhas da precariedade.

Imaginem agora, que começávamos a ter um ordenado dos nossos companheiros ou da Segurança Social por criar xs nossxs filhxs? As creches cobram por isso, certo?

Imaginem que as nossas famílias começam a pagar-nos por cuidar dos familiares que necessitam? Se contratarmos um ou uma enfermeira/o, eles cobram pelo seu serviço, correcto?

O que é que aconteceria?

Aconteceria uma coisa muito simples: as mulheres iam deixar de ser objectos de consumo para ser sujeitos.

Não se enganem com a emancipação e a tão difundida igualdade: As mulheres ainda não tomam decisões sobre o capital. É o capital e os homens que continuam a tomar por nós.

Crescer observando as minhas mulheres percebi algo crucial sobre a relação das mulheres com o dinheiro, e é que as mulheres não são temidas. Mas também, porque é que haveriam de o ser?

Nós nunca reivindicamos para nós aquilo que realmente lhes atribui poder, status e valia neste mundo. Nunca reivindicamos para nós, as ‘500 libras’ porque reivindicar para nós o dinheiro é algo sujo, ofensivo, injusto, feio, egoísta…. E assim preferimos permanecer mulheres boas e orgulhosamente precárias.

Acho que o conto da puta malvada e macha executiva ganhou raízes profundas em nós. Todas sabem que as mulheres que reivindicam as suas ‘ 500 libras’ e o quarto próprio que lhes corresponde ou são putas ou são machas, certo? Assim, vamos acreditando nesta equação e aprendemos a sentir-nos culpadas por querer abandonar a honrada, feminina e natural precariedade, assumindo o papel de juízas e policias com aquelas que cansadas de acreditar nas falsas histórias se revelam contra a precariedade (auto)imposta.

Sabem, depois de 33 anos a observar as mulheres da minha vida, só posso dizer uma coisa, eu quero as minhas ‘500 libras’, quero-as nas minhas mãos, nas tuas mãos, nas nossas mãos.

Quero que sejamos nós, as mulheres, as que movimentemos o dinheiro e façamos que ele, círculo entre nós, fazendo crescer os nossos projectos e os nossos desejos.

Animo-vos a deixarmos de contar os tostões e a deixarmos de ser tias patinhas quando se trata dos nossos projectos e desejos. Os homens não o são com os seus projectos e desejos, pois não?

Vamos acreditar em nós. Vamos agarrar no “guito” e fazer a (r)evolução. Como?

Apoiando projectos de mulheres, apoiando a criatividade das mulheres, investindo nos sonhos e nos desejos das mulheres. Que são os nossos próprios sonhos e desejos.

Sugestões Vermelhas de leitura

faca-acontecer-mulheres-trabalho-e-a-vontade-de-liderar-sheryl-sandberg-8535922555_300x300-PU6e7b92bf_1Como amanhã, por ser dia da mulher, vão falar nos telejornais de que as mulheres compõem hoje grande parte da força de trabalho no mundo. Mas ainda são os homens que dominam os cargos de liderança. A minha primeira sugestão de leitura é “FAÇA ACONTECER – Mulheres, trabalho e a vontade de liderar” de Sheryl Sandberg. Confesso que a primeira coisa que fiz, quando tive este livro na mão, foi torcer o nariz e desconfiar pois Herly foi eleita uma das dez mulheres mais poderosas do mundo pela revista Forbes e pensei para com os meus botões que ela podia estar a reproduzir os padrões da liderança capitalista e patriarcal. Na verdade Sheryl encoraja as mulheres a sonharem alto, assumirem riscos e se lançarem em busca de seus objectivos sem medo. Leiam e julguem por vocês mesmas. Eu às vezes sou precipitada.

Livro disponível na TUA LIVRARIA»»

revolucion_en_punto_ceroA segunda sugestão do dia é um livro que ainda não esta traduzido para português, “Revolución en Punto Cero – Trabajo Doméstico, Reproducción y Luchas Feministas” de Silvia Federici. Este  livro, reúne 13 artigos da feminista Silvia Federici, escritos entre 1975 e os nossos dias. Inclui alguns textos fundamentais da campanha “Salários para o Trabalho Doméstico” assim como importantes reflexões sobre o impacto dos Programas de ajuste Estrutural nos países do sul. Todas as suas contribuições reflectem a força da sua paixão política como a potência intelectual da sua concepção do capitalismo, em geral, e do trabalho reprodutivo, em particular.

Vamos tê-lo na livraria mesmo em versão original, visita a TUA LIVRARIA»»

 Não se esqueçam que continuamos em contagem decrescente 
para fazermos acontecer juntas.
Temos 1 semana e 4 dias para tornar este projecto uma realidade.
APOIA»» e anima os teus amigos e amigas a fazer o mesmo.

Um abraço da vossa livreira vermelha ;)

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© Confraria Vermelha – Livraria de Mulheres, 2015

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