Penelope Fitzgerald

Inglaterra, 1916-2000

Penelope Fitzgerald

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Se leram o post anterior, já sabem que uma das escritoras do mês de Fevereiro da nossa Comunidade é Penelope Fitzgerald. O que procuramos com esta comunidade é contribuir para a divulgação da literatura escrita por mulheres e fazer chegar um livro todos os meses a vossa casa.

O segundo objetivo proposto é ir escrevendo textos relacionados com as escritoras, sugeridas cada mês  e ir publicando-os no blog (vocês também podem escrever e enviar os vossos textos para livrariaconfraria@gmail.com).  Assim todas/os juntas/os podemos ir conhecendo a obra de uma escritora e divulgar a literatura escrita por mulheres.

Neste momento a única tradução que temos no nosso país da obra de Penelope Fitzgerald é A livraria (ed. PT, Clube do Autor, 2016).

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Penelope Fitzgerald  uma escritora que defende a bondade do coração e as ações com bons propósitos mas sem ingenuidade.

Penelope Fitzgerald foi uma escritora tardia. Apesar de nascer 1916 só publicou o seu primeiro livro em 1975 e o seu primeiro romance em 1977. A sua etapa como romancista está marcada, claramente, por dois tipos de livros: aqueles nos quais aparecem vivências da sua própria vida e aqueles nos quais decide fazer viajar a/o leitor/a a outras épocas e lugares. A livraria (1978) pertence ao primeiro grupo, inspirada na época em que própria, trabalhou numa livraria. Nos anos 50, Fitzgerald trabalhou em part-time na livraria Sole Bay Bookshop. Descobriu o difícil que podia ser vender livros numa rural Suffolk, mas recolheu preciosas lembranças como as tardes de chuva nas quais os vizinhos se refugiavam na livraria para conversar, apesar da maioria das vezes não adquirirem nenhum livro.

O pequeno milagro.

Em A livraria, Fitzgerald põe sobre a mesa um dos temas que encontramos na sua obra: a realidade de que com boas intenções às vezes não é suficiente. Estamos perante uma autora e uma obra, que defende a bondade do coração e as ações com bons propósitos mas sem ingenuidade. Como contraponto, encontramos personagens mesquinhas que colocam ainda mais em jogo a qualidade humana dos seus antagónicos, heróis e heroínas em pequena escala com firmes valores morais que não renunciam aos seus ideais facilmente.

Apesar de não encontrarmos o típico romance  de humor inglês, encontramos pinceladas humorísticas que procuram a cumplicidade de quem lê. O estilo de Fitzgerald é simples, sem grandes artifícios e sem uma prosa espetacular mas que cativa e envolve a quem lê de uma forma magica: constrói uma história reflexo da época em que se desenvolve; um relato sobre as pequenas comunidades rurais e a sua fechada estrutura após o fim da 2ª Guerra Mundial. A escolha de uma protagonista viúva e sem filhos também não é ao acaso. Desta maneira, Florence é dona completa da sua vida e das suas decisões, coisa que seria impossível com uma família que dependesse dela.

Nada na livraria de Florence  é normal, a começar pelo seu ajudante Christine de 10 anos até às compras que realiza com cara ao futuro. Talvez o momento mais controvertido seja quando Florence compra 200 exemplares de Lolita de Nabikov e recebe queixas absurdas de como que os visitantes ocupam todo o passeio (para ver a montra).

Florence, a personagem que personifica a força e a coragem.

A personagem de Florence podia (e vai estar) no nosso Arquivo de Personagens. Florence Green, toma uma decisão valente, abrir uma livraria num lugar pouco apropriado intelectualmente. Não por falta de cultura mas por falta de formação no que diz respeito ao de como uma livraria pode contribuir para uma comunidade. Florence é uma personagem com força e coragem.

Brevemente vamos poder desfrutar de uma adaptação cinematográfica através dos olhos da realizadora Isabel Coixet com Emily Mortimer no papel de Florence Green. Acho que vai ser uma boa adaptação, Isabel Coixet é uma cineasta de histórias quotidianas nas quais as personagens são mais importantes do que a própria narrativa tal como Penelope Fitzgerald . Veremos…

Mas primeiro vamos ler o livro!

Diário de Uma Dona de Casa Desesperada de Sue Kaufman

Arquivo de Personagens Femininas

Personagem:  Tina
Livro: Diário de Uma Dona de Casa Desesperada
Autora:  Sue Kaufman

Romances sobre perdedores temos as dúzias; na literatura norteamericana até podíamos considerar que constiui um subgénero em si mesmo. Mas o que não abundam são as histórias sobre perdedoras, sobre mulheres que afrontam a sua existência como um inevitável caminho de renúncia e obstinação. Diário de Uma Dona de Casa Desesperada de Sue Kaufman, é uma dessas histórias, por isso a resgato do limbo literário para quem quiser descobrir uma escritora e um livro com uma narrativa sólida e personagens complexas.

Tina é uma dona de casa bem posicionada, casada com um advogado de prestígio, duas filhas e um cão. Uma vida, aparentemente idílica, mas que na verdade é um poço de obsessões, terrores e problemas, Tina arrasta uma neurose alguns anos e, é incapaz de fazer frente as suas obrigações sem cair na depressão. Um romance estruturado em forma de diário no qual Tina escreve, em segredo, para tentar acalmar e colocar por escrito os seus pensamentos. Sue Kaufman acerta em pleno, a voz da narradora alcança uma intimidade louvável: não vos nego que o formato diário pessoal é por vezes artificial (em certas passagens a narrativa é tradicional e a primeira pessoa não é tão credivél) mas no seu todo o resultado deste romance é de uma intimidade e proximidade notáveis.

Sue Kaufman, romancista americana nasceu a 7 de Agosto de 1926 em Long Isaland, Nova Iorque. Diplomada pela Vassar College em 1947, começou a trabalhar como assistente editorial. Faleceu a 25 de Junho de 1977, em Nova Iorque. Em sua homenagem anualmente é atribuído o prémio literário Sue Kaufman pela Academia Americana de Artes e Letras.

A intimidade e aproximidade da narrativa é conseguida através da profundidade com que é criada a personagem de Tina. Kaufman retrata uma mulher frágil, doentiamente débil, mas com uma resolução que vai crescendo a cada revés emocional que vivencia.  Diário de Uma Dona de Casa Desesperada mostra-nos o solitária que pode ser a vida de aparência feliz: como os problemas que se vivem no dia a dia se podem transformar em pesadelos dos quais não se consegue sair, até a sua cadela a consegue transtornar ao ponto de perder o controlo de si mesma. Isto pode fazer-nos pensar que Tina Balser é uma percusora de Bridget Jones mas longe disso: a protagonista é uma mulher descontente e de personalidade neurótica mas Kaufman não constrói uma personagem amável com a qual empatizamos ou com a qual podemos rir; Tina é uma mulher inteligente que, apesar da sua fragilidade psicológica, é capaz de transformar a sua vida num espectáculo para se tornar respeitável.

A angustia da protagonista é demasiado próxima como para não nos identificarmos com aquilo que lhe sucede. A normalidade de uma vida programada pelos outros, a pressão que impõe uma sociedade que vive da imagem que se projeta, o desconsolo de não sermos donas/os das nossas próprias existências… tudo é demasiado familiar e são características que se enraízam com o passar do tempo. O golpe final da autora está no mostrar a dualidade de Tina: vítima e carrasca, débil e autoritária. Não é uma mulher resignada que se rende perante o marido egocêntrico nem é uma heroína que faz frente a todos os contratempos que lhe surgem: é, simplesmente, um ser humano dividido entre as suas debilidades e as suas vilezas, uma pessoa tão capaz de sofrer como de ferir. Razão pela qual, esta personagem é tão real e complexa, mesmo que a narrativa esteja condicionada pela sua parcialidade.

Diário de Uma Dona de Casa Desesperada é um romance complexo e sugerente, com momentos divertido e de uma profundida subtil. Como disse no início é um livro que nos fala de uma perdedora mas Sue Kaufman oferece-nos um outro conceito de perdedora, vale a pena descobri-lo!

 

Diário de Uma Dona de Casa Desesperada
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Este livro foi publicado originalmente em 1967 e é considerado um dos romances fundacionais e mais representativos da nova consciência feminina a meados do século XX nos Estados Unidos. Diário de Uma Dona de Casa Desesperada de Sue Kaufman é um divertido e inteligente relato sobre o sentimento de angustia ao que todas as pessoas nos enfentamos alguma vez na vida.

A Capa do livro é muito importante

Quando vi a edição portuguesa confesso que a capa não me seduziu e fiquei com dúvidas de ler ou não ler… até que a ficha caiu! Não posso julgar o livro pela capa…

Tinha lido sobre Sue Kaufman e queria conhecer esta escritora por isso afastei o julgamento do livro pela capa e mergulhei na leitura. Não me decepcionou!

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Texto escrito

Paulina Chiziane – contadora de histórias e memórias

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«José percorre a magia luminosa das aparências. Na cegueira perseguindo os caminhos do abismo. Colonizar é mesmo isto.»

O alegre canto da perdiz, Paulina Chiziane

Quando entrevistada, Paulina Chiziane apresenta-se frequentemente como contadora de histórias. Essa é a classificação que aceita e que lhe assenta.

«Sem sangue o império é anémico, sem vida nem grandeza. O sangue se bebe e rejuvenesce. Quando não se bebe canta-se. O hino nacional.»

O alegre canto da perdiz, Paulina Chiziane

No capítulo III do Decreto-Lei nº 39 666, do Ministério do Ultramar, datado de 20 de Maio de 1954, “Da extinção da condição indígena e da aquisição da cidadania”, o artigo 56.º estabelece as condições para a aquisição da cidadania pelos indígenas, estabelecendo que o indivíduo, entre condições de idade e “bom comportamento e ter adquirido a ilustração e os hábitos pressupostos”, deve, alínea b, “falar correctamente a língua portuguesa” (sublinhado meu).

Falar corretamente a língua portuguesa

Mais do que na escrita, é na oralidade que subjaz a garantia da metamorfose do indigenato para a cidadania. Aos olhos do Estado português, o indígena, objeto delimitado e de desconfiança, torna-se sujeito pela fala, pelo uso do português – não um português qualquer, o português correto. Ainda hoje, o acesso à cidadania portuguesa por cidadãos estrangeiros assenta na capacidade de fazer uso da língua portuguesa em moldes determinados. Para o Estado Novo, os indígenas – pessoas negras e mestiças naturais dos territórios africanos colonizados – não eram estrangeiros, mas uma espécie de produto da terra, tornados cidadãos portugueses pela performance de costumes preconizados, acompanhada de uma língua civilizada – a língua portuguesa.

N’O alegre canto da perdiz a sombra da assimilação ao mundo do português branco vai preencher grande parte da narrativa.
«Pediu ao pai para ser assimilado, a fim de ter acesso à escola oficial, onde as professoras eram mulheres normais e não freiras esquizofrénicas. Mas o pai disse que não. Porque os assimilados eram assassinos. O pai de Delfina disse que não à assimilação, sem saber que a libertação da pátria seria na língua dos brancos e sem imaginar que os filhos dos assimilados iriam assumir o protagonismo da História.» (p. 78).

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Chiziane refere que “A literatura pode funcionar como catarse coletiva e também como registo da memória. A nova geração tem de saber o que se passou ontem, mas infelizmente há muito poucos relatos.” O livro que escreveu traz à tona várias vozes duma história a que os ouvidos portugueses são avessos. «Não vimos, não sabemos, nunca ouvimos falar, não demos por nada.» escreve Isabela Figueiredo, na introdução do seu Cadernos de memórias coloniais. Também para Paulina Chiziane, que prefaciou essa obra, as palavras estão aí para nomear, são destemidas e não evitam feridas pessoais e coletivas. «Quem não se ajoelha perante o poder do império não poderá ascender ao estatuto de cidadão. Se não conhece as palavras da nova fala jamais se poderá afirmar. Vamos, jura por tudo que não dirás mais uma palavra nessa língua bárbara. Jura, renuncia, mata tudo, para nasceres outra vez. Mata a tua língua, a tua tribo, a tua crença.» (p. 117).
Mata-te. Em tempos coloniais falar português era afirmação de uma renúncia a todas as outras formas de ser.

Demorei muito tempo a terminar este livro e percebi que foi uma exigência da cadência das palavras. O português é instrumento de escrita, é tradução de estados de alma alheios e não configurados por esta língua e é uma longa homenagem à literatura de tradição oral. As palavras estão escritas mas são sobretudo voz. Vozes contraditórias, por vezes difíceis de digerir.

“A minha relação é de conflito. Não há dúvida que eu aprendi a ler e a escrever em português, socializei-me com a literatura de língua portuguesa. Mas existem alguns aspetos culturais que a língua portuguesa não tem capacidade para cobrir. Para além de que, sendo uma língua de dominação, a língua portuguesa é também uma língua de segregação. Quando escrevo e vou pegando das palavras, de vez em quando fico chocada: os curandeiros são o centro do saber africano. Mas o que é um curandeiro na língua portuguesa? Vai ver no dicionário e a explicação que vai achar é redutora e simplista e serve simplesmente para colocar o curandeiro de lado. Para eles, é um indivíduo que deve ser banido e eliminado.”

curandeiro | s. m.
cu·ran·dei·ro
1. Pessoa que trata de doenças sem título legal.
2. [Figurado]  Charlatão; impostor.

O português vai pedir emprestado às demais línguas locais palavras para descrever o que não conhece. A escritora vai fazer uso de um língua de dominação para contar histórias que os falantes e ouvintes dessa língua precisam conhecer. O dicionário continua a atribuir um lugar central ao português correto, em que certas palavras, certas vivências, não têm lugar.

“Como aliar a pobreza a uma raça? Encontro vários aspetos de supremacia de uma cultura sobre a outra. As palavras no dicionário são alguns. Algumas vezes que eu quero retratar uma realidade (eu falo do Sul), quero escrever um ditado e uma forma de pensar, mas tenho de fazer uma tradução e uma aproximação de significado. O que vai resultar não é propriamente a identidade deste povo, mas é uma construção, e as coisas não chegam a ser realmente como deviam ser. Mas os próprios escritores atuais ainda não fizeram muito exercício cultural. Eu penso que talvez com tempo vamos dar um espaço àquilo que é a nossa própria cultura. É lógico que vamos servir-nos da língua portuguesa por muito tempo, porque é a língua através da qual comunicamos.”

O português não é a língua da realidade desta escrita, é tradução.

«Homem não, Delfina. Que Deus nos dê, sim, a benção de um filho mulher.» Não é filha, é filho mulher, porque a experiência recriada é uma realidade bantu.

Prevê-se que dentro de algumas décadas a quantidade de falantes de português em Angola e Moçambique ultrapasse o número de falantes em qualquer outra região do globo (Oliveira, 2016). O português será uma língua africana. Este português falado por milhões de africanos não poderá ser o português correto da cidadania de outros tempos, nem o português que declara que uma vivência africana culturalmente significativa é, sem delongas, impostura.

Franco, leal, apesar de rude

Segundo Maria Helena Mira Mateus (2003) «(…) o termo “Português”, que cobre as variedades sociolectais, dialectais e nacionais que convivem em Portugal e no Brasil, deve ser entendido como importante instrumento de coesão entre povos e como afirmação política e económica num contexto envolvente transnacional. A presença nestes ambientes de grupos de interesses unidos por falarem “a mesma língua” potencia a tomada de posição desses grupos, sobretudo quando se trata de comunidades de menor força no campo económico.». E acrescenta, «É na realidade um factor de identificação cultural, mas no uso, e pelo uso, que dela faz o indivíduo e não apenas por pertencer a uma das várias comunidades que a utilizam como materna.»

O português torna-se pluricêntrico pelo uso. Aceitar esse pluricentrismo implica abrir caminho a uma reapropriação da língua, uma combinação de referências, de sonoridades.

português | adj. | s. m. por·tu·guês (latim tardio portucalensis, -e, de Portucale, topónimo, Portugal)
1. Relativo ou pertencente a Portugal. = LUSITANO, LUSO
2. []  Relativo ao português enquanto sistema linguístico.
3. [Figurado]  Franco, leal, apesar de rude.
4. Natural, habitante ou cidadão de Portugal. = LUSITANO, LUSO
5. []  Língua de origem românica, que é a língua oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e da Região Administrativa Especial de Macau.
6. []  Antiga moeda de ouro.
Feminino: portuguesa. Plural: portugueses.

É me hoje difícil pensar sem interferências do inglês, a querer intrometer-se até na sintaxe. Da mesma forma, o meu português de lusa está saturado de influências do português do Brasil que ouço. Vou recorrendo ao dicionário para descobrir se ainda falo português correto. Agrada-me ver que o meu português se expande na medida das kizombas, telenovelas e toda a rápida circulação de palavras. O Brasil dos memes da internet. Novas formas de reclamar a língua.
A língua está viva e a construir o mundo.

A escrita de Paulina Chiziane empurra-nos, com mestria, para lugares que precisamos de visitar: que memória é a desta língua partilhada? Uma memória de violências mas também de vida. Que palavras ainda não cabem no nosso dicionário?

Falta-nos ouvir mais e melhor.
“Fora escrever e pensar em novos projetos, o que é que você gosta de fazer? Sentar na minha varanda, olhar o vazio e tomar o meu copo de cerveja. (Risos).
Ao ritmo certo.

✄ O alegre canto da perdiz  estão disponíveis na LIVRARIA. 

…………………………………………………………………………………………………[1] http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/os-anjos-de-deus-sao-brancos-ate-hoje-entrevista-a-paulina-chiziane
[2] http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/os-anjos-de-deus-sao-brancos-ate-hoje-entrevista-a-paulina-chiziane
[3] “curandeiro”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/curandeiro [consultado em 26-12-2017].
[4] “português”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/portugu%C3%AAs [consultado em 26-12-2017].
[5] Entrevista à revista Bastião #18 https://issuu.com/revistabastiao/docs/bastiao18issu

Últimos ritos de Hannah Kent

Últimos Ritos, Saída de Emergência, Hannah Kent

Acho que não vai ser difícil escrever este texto sobre os Últimos ritos de Hannah Kent porque sei exactamente o que gostei e o que não gostei tanto nesta leitura.

Vou centrar o meu texto apenas no que gostei porque quando fechei por última vez o livro, foi o que pesou mais na balança.

Estão preparadas/os para esta viagem? Sim, para uma viagem! Últimos Ritos é uma viagem, uma viagem ao ano de 1828 para conhecer pessoalmente a história de Agnes Magnúsdóttir, a última mulher decapitada na Islândia do século XIX.

Sobre a escritora…
Hannah Kent
nasceu em Adelaide, Austrália, em 1985. Em jovem viajou até à Islândia num intercâmbio do Rotary Club, onde primeiro conheceu a história de Agnes Magnúsdóttir. Hannah é a cofundadora e editora do jornal literário australiano Kill Your Darlings, e encontra-se a completar o doutoramento na Flinders University. Em 2011 ganhou o primeiro Escrever a Austrália – Melhor Manuscrito Não Publicado (Writing Australia Unpublished Manuscript Award).Últimos Ritos é o seu primeiro romance.

Com base em acontecimentos reais, Hannah Kent conta-nos a história de Agnes Magúsdóttir, Fridrik Sigurdsson e Sigrídur Gudmundsdóttir, que foram acusados pelos assassinatos de Natan Ketilsson e Pétur Jónsson em 1828 em Illugastadir, Islândia. É a própria Agnes quem dá voz e desconstrói todo o mistério em redor desta história.

Depois de passar alguns meses em Stóra-Borg, muda-se a Kornsá, com a família do polícia que tem de a vigiar até ao dia da execução. E nesse lugar entre o fumo da badstofa, o trabalho da quinta, a hostilidade dos seus habitantes e um clima gelado e adverso,  onde Agnes nos conta o seu relato perante o olhar atento do reverendo Tóti e a família Jónsdóttir

É possível mudar os preconceitos adquiridos sobre uma pessoa? 

O importante em os Últimos ritos de Hannah Kent não é a história em si, mas sim em como esta é contada e o que a autora nos querer transmitir com ela.

Para mim, o mais fascinante neste livro e o que mais desfrutei foi a sua ambientação. Uma descrição totalmente evocadora de uma Islândia fria, solitária e hostil que não deixa de ser um reflexo fiel de tudo o que a protagonista sente.

A solidão, medo, incerteza, culpa, dor… são constantes nesta leitura, quer em Agnes, quer nas outras personagens secundárias que a rodeiam.

A atmosfera claustrofóbica tenta fazer com que a leitora/o se sinta incómoda/o enquanto lê, que sinta a mesma angustia que sente a protagonista. De certa maneira, é como se a dureza do entorno a estivesse a curtir e a preparar para o que vai acontecer, apesar de que nem Agnes nem a leitora/o estão preparados para chegar ao fim, por muito tempo que se tenha para tomar consciência e aceitar a ideia. A fragilidade por vezes, é um sentimento difícil de se mostrar e mesmo assim, acho que este livro consegue que a vejamos em todas e em cada uma das suas personagens.

Últimos Ritos é uma leitura triste que nasce da impotência e da raiva por não conseguir mudar as coisas, de ter que aceitar as circunstâncias que advém enquanto te resistes ao destino imposto. E mesmo com todo esse desconsolo, há beleza, compreensão e uma espécie de redenção em tudo, o que transforma este livro numa leitura cheia de emotividade e sentimento.

As últimas páginas conseguiram fazer-me chorar intensamente. Se há uma coisa que o final nos transmite é compaixão e empatia. Estes dois sentimentos independentemente daquilo que a pessoa tenha feito, e senti-los faz-nos mais humanos, e na minha opinião, melhores pessoas.

Foi este desfecho que conseguiu surpreender-me, emocionar-me e esquecer-me das coisas que não gostei tanto.

Claro que neste mundo louco em que vivemos e com as atrocidades que se cometem, nem todas as pessoas merecem receber indulgência mas também é certo que tê-la de alguma forma nos ajuda a não ser como essas pessoas, a diferenciar, a criticar e a defender valores que escasseiam.

Por desgraça no passado e no presente existem muitas e muitos Agnes Magnúsdóttir, uns mais culpados do que outros. Merecia o trato que recebeu e uma sentença de morte? A minha resposta é Não, um Não rotundo. Ninguém, no meu entender merece morrer (nem ser torturado) deliberadamente a mãos de outro ser humano, não estou a falar em defesa própria mas sim em assassinar, algo que acho que em nenhuma situação está justificado, nem sequer quando nos amparamos na lei. Sim, sou contra a pena de morte. Não vos parece absurdo impor como pena o mesmo acto que está a ser julgado como delito? Atravessar essa linha acho que nos transforma naquilo que rejeitamos, em assassinas/os.

Mas…
Agnes era culpada? Bem, eu tenho as minhas teorias e uma mão cheia de argumentos que me permitiriam defende-la num julgamento mas não vou partilhar nenhum, o veredicto têm de ser vocês a desvenda-lo lendo este livro até ao fim.

É verdade que houve coisas que gostei menos mas como são tão subjectivas prefiro não comenta-las para não influenciar a vossa decisão de ler ou não este Últimos Ritos de Hannah Kent, estou certa que não vos vai deixar indiferentes e que merece muito a pena conhecer a frialdade que transmite a Islândia de 1828, a pequena badstofa de Kornsá onde Agnes Magnúsdóttir consegui sentir, por primeira vez, que a humanidade e a empatia não eram emoções perdidas.

texto escrito

O humor e a dor das vidas comuns

Mulheres Excelentes é um elogio a todas essas mulheres que passaram, que passam e que passarão (ainda temos muita luta pela frente) imerecidamente inadvertidas.

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Se clicares nas palavras que encontras a vermelho encontrarás curiosidades, textos relacionados, novas ou revistadas leituras 📚🦊

Vou começar este texto comentando coisas sem interesse aparente. Primeiro: a crítica inglesa diz que Barbara Pym é a Jane Austen do século XX. Segundo: os seus romances podem estar numa estante nomeada de “alta comédia”, seja lá o que isso for. Ditas estas duas coisas que são uma meia verdade, posso continuar ou começar, o meu texto sobre Barbara Pym.

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Barbara Pym (1913-1980), que foi contemporânea das escritoras Muriel Spark, Jean Rhys ou Iris Murdoch é, na minha opinião, uma escritora inteligente. O seu universo circunscreve-se a classe media inglesa de Londres (em todas as suas esferas e escalões), quer a citadina, quer a periférica e até a rural. Está povoado por clérigos, funcionários de escritório, intelectuais sem muito destaque e um ou outro político, esposas, solteironas caseiras ou que trabalham… ou seja, um mundo habitado por seres normais e quotidianos com vidas que não destacam pela sua singularidade mas sim pela sua convencionalidade;  não pela sua temeridade mas pelas suas ponderações; não pelas suas acções mas pelas suas satisfações quotidianas.

Até é verdade que podemos comparar Pym com a Jane Austen, se considerarmos que ambas escreveram admiráveis quadros de costumes. Mas a diferença é marcada pelo tempo; enquanto Jane Austen retrata a gentry que cresceu graças a reforma agrícola, uma Inglaterra que caminhava para se transformar num Império moderno que chegou ao seu esplendor das mãos da rainha Vitória e da Revolução Industrial, uma revolução que iria acabar com o mundo de Jane Austen. Ao contrário, Barbara Pym, encontra-se num Império em liquidação que decide apertar o cinto e a estar contente com a lembrança daquilo que foi um dia. Desta maneira, o que numa escritora é um retrato de uma classe e uma ordem social que se eleva até uma categoria moral e histórica, na outra há uma aguda exposição das formas que mantém uma classe média de um país que deglute pragmaticamente a sua inevitável decadência.

…o humor de Pym é encantadoramente ácido, que se passeia com simplicidade pelos seus romances mas sem nenhuma ternura ou piedade.

O segundo aspecto que une estas duas escritoras é o sentido de humor. Mais cândido – apesar do olhar perspicaz- e intenso na literatura de Austen. E mais pérfido e implacável na literatura de Pym. Nos romances de Pym tudo é boas maneiras e bons costumes, mas quando ela vai retirando as máscaras das boas maneiras e dos bons costumes, o que encontramos por baixo é uma mistura de vazio, superficialidade e frustração escondidas por baixo de um lindo tecido que a leitora/o vai acariciando e que ao fim de um tempo vai sentido como lhe corta as mãos. Devo dizer-vos que o humor de Pym é encantadoramente ácido, passeia-se com simplicidade pelos seus romances mas sem nenhuma ternura ou piedade.

Mulheres Excelentes

Escrever sobre o livro Mulheres Excelentes é um óptima ideia para despedir 2017 e dar as boas-vindas a 2018 no blog de uma livraria dedicada a literatura escrita por mulheres, porque Mulheres Excelentes é um elogio a todas essas mulheres que passaram, que passam e que passarão (ainda temos muita luta pela frente) imerecidamente inadvertidas.

É um romance fascinante, como um suspiro profundo, não pela trama excitante mas pelas suas personagens inesquecíveis. Seria injusto esperar um enredo aditivo e um ritmo vertiginoso numa comédia de costumes, género no qual se costuma descrever com certa ironia e agudeza a vida quotidiana de uma época.

Não quero que pensem que com isto estou a dizer que o enredo de Mulheres Excelentes é descuidado ou tem pouco interesse para a leitora/o. Pelo contrário, o que quero dizer é que o enredo se desenvolve com base nas relações e/ou acções das suas personagens. Já vos disse que as personagens são maravilhosas?!?! 😊

Entre as personagens de Mulheres Excelentes destaco a protagonista e narradora Mildred Lathbury, uma “solteirona” londinense de trinta e poucos anos com uma vida dedicada aos outros: ajuda nas tarefas da paroquia, ouve e resolve os problemas das suas amizades e por norma satisfaz as necessidades alheias e descuida as próprias.

Mildred tem um olhar clínico na hora de analisar as vidas alheias, mas um comportamento excessivamente obediente e sempre inadvertido e ingrato por parte das outras pessoas, coisa que só a leitora-o sabe. Ao fim das contas Mildred é apenas mais uma das tantas mulheres “solteironas” de uma sombria Europa dos anos de pós-guerra (Segunda Guerra Mundial), onde milhares de homens casadoiros perderam a vida.

É verdade que Mulheres Excelentes é um romance amável, mas Pym, como boa britânica não dúvida, nem por um instante, em denunciar (as vezes subtilmente outras acidamente) a situação das mulheres, que “não tinham nada melhor para fazer” do que servir e ajudar os seus compatriotas, para além de agradecerem essa oportunidade que lhes era concedida de serem úteis.

E assim Mildred, apesar de ter um forte compromisso em ser uma “mulher excelente”, reflecte sobre dita situação, transformando a leitora-o em testemunha de uma personagem que sofre as contradições que afloram quando os convencionalismos de uma sociedade colidem com os sentimentos pessoais.

Acho que é neste ponto que o romance de Pym ganha a sua força, nessa crítica, ao jeito british, de uma sociedade injusta com as mulheres excelentes da época.  Mildred é adorável e encantadora, mas também é dotada de uma ironia e autocrítica fantásticas. A sua extraordinária capacidade de observação fazem com que seja consciente das contradições entre o discurso interno e o comportamento exterior.

Mas a leitora-o, que é quem conhece esse lado crítico e irónico de Mildred, é que percebe que Mildred é na verdade uma mulher excelente, uma mulher excelente sem aspas, uma amiga entregada (o que por vezes leva a mal entendidos), uma mulher agradável sempre disposta ajudar, mas consciente da injustiça que é acreditar que dita entrega é uma bênção para ela e não para os outros.

São estas pequenas nuaces que transformam este romance não só num romance divertido, que o é, mas também uma homenagem a todas as mulheres e um trato burlesco dos convencionalismos que tanto mal têm feito. Resumindo: uma escrita elegante, um humor ajustado e um franco uso de elipses; Barbara Pym é uma maliciosa e fascinante criadora de vidas quotidianas.

Aviso 1: anglófobos abster-se. Aviso 2: Leitoras/os seguidoras da obra de Jane Austen, das irmãs Brönte, de Elena Ferrante, Lucia Berlin ou de Meg Wolitzer, por exemplo, há grandes probabilidades de adorarem este romance.

Outra coisa que prendeu a minha leitura é a inteligência intrapessoal e interpessoal da protagonista. Mildred é super consciente de si mesma e no fim do romance deixa entrever que talvez não vale a pena ser tão firme no papel de “mulher excelente” com aspas. E como leitora essa foi a minha grande alegria, conhecer uma Mildred divertida, inteligente, independente e amável desde o princípio, e que sabe o injusto que seria ignorar o excelente que é.

Também acho injusto que não aproveitem a próxima oportunidade que tenham para ler este romance e descobrir a vossa própria excelência, o que vos parece??!?! :)

Texto escrito

Há livros “bons” e “maus”? Virginia Woolf responde.

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Com sensibilidade e sabedoria, Virginia Woolf convida-nos a experimentar a leitura como um estimulo para a nossa vida.

Estabelecer a diferença entre “bons” livros e “maus” livros será sempre polémico, em parte porque ditos adjectivos são tão generalistas que tendem a uma certa ambiguidade e por outro lado, porque é difícil retirar-lhes o peso moral com que são habitualmente utilizados.

É evidente, que falar de coisas boas e coisas más faz-nos pensar de imediato que se trata de uma qualidade essencial do que estamos a apreciar, para além disso, o bom parece ser por si só recomendável e o mau algo a desconsiderar de antemão.

Nada de Janne Teller

Por isso, a hesitação que muitas pessoas experimentam perante uma classificação deste género, já seja porque  “bom” e “mau” são palavras pobres para condensar uma opinião ou porque pretendem expressar uma valorização pessoal, e por isso, limitada e até questionável.

Mesmo assim, avaliar, mesmo de forma elementar entre bom e mau, é um ponto de partida ou de referência que, como mapas na geografia, nos permite navegar pelos mares usualmente confusos e baralhados do humano. Por exemplo, os livros.

Nos apontamentos (de 1924) de Virginia Woolf, vemos como a nossa adorada Woolf se questiona sobre o que torna um livro “bom” ou “mau”.  A sua resposta, ao contrário do que podíamos pensar, é mais simples e directa, não só pela forma como está enunciada mas, principalmente, pelo critério ao qual apela para fazer tão difícil distinção. Vejamos:

Um bom romance é qualquer romance que nos faz pensar ou sentir. Tem que tirar-nos do nosso lugar de conforto. Tem que nos deixar incómodas e de certa forma alerta.  O sentimento que nos provoca não tem que ser puramente dramático e por isso predisposto a desaparecer após saber como termina a história. Tem que ser um sentimento duradouro, sobre assuntos que nos interessam de uma ou outra forma. Um bom romance não precisa de enredo; não precisa ter um final feliz; não precisa tratar sobre gente simpática ou respeitável; não precisa ser minimamente igual a vida tal e como a conhecemos. Mas tem que representar alguma convicção por parte da escritora ou do escritor. Tem que estar escrita de um modo a transmitir a ideia do escritor, seja simples ou complexa, tão fielmente como seja possível. Não tem de repetir aquilo que é falso ou comum simplesmente porque é mais fácil para que as leitoras e leitores entrem no esquema que já conhecem.

O único método seguro de dizer se um romance é bom ou mau é simplesmente observar as nossas próprias sensações ao chegar à última página.

O Mundo é redondo de Gertrude Stein

Tudo isto, é referente aos romances clássicos, passados. É impossível ter a certeza de quais vão ser as características de um bom romance no futuro. Os romances contemporâneos surpreendem-nos por ser diferentes dos que aprendemos a admirar e criam uma beleza que, ao ser tão diferente da clássica, torna muita mais difícil a sua apreciação. O único método seguro de dizer se um romance é bom ou mau é simplesmente observar as nossas próprias sensações ao chegar à última página. Se nos sentimos vivas, frescas ou cheias de ideias e pensamentos, é um bom romance; se ficamos fartas, indiferentes e com pouca vitalidade, é um mau romance. Ter a certeza que o romance é bom ou mau e o tipo de virtude que tem resulta extremamente difícil. O melhor método é ler clássicos e modernos, comparar e assim desenvolver pouco a pouco um critério próprio. 

O fim de onde partimos de Megan Hunter

Resumindo, Woolf convida-nos a experimentar a leitura também como uma forma de autoconhecimento. Mais além dos critérios culturais, das mudanças históricas, da tradição ou outros elementos que possamos considerar, a valoração última corresponde a própria leitora ou leitor.

Tudo aquilo que nutre a nossa vida, tudo aquilo que nos dá vida, é “bom” num sentido amplo, e os livros não são excepção.

Quais são os teus “bons” e “maus” livros? Partilha-os connosco nos comentários. 📚😉

__________LIVRO em DESTAQUE__________

Para celebrar o segundo aniversário da Confraria propusemo-nos o desafio de editar, alternadamente, jovens escritoras e resgatar autoras clássicas, um livro por ano.

Continuamos fiéis ao nosso lema #juntas fazemos acontecer, por isso lançamos uma campanha de pré-venda/edição coletiva, para que te juntes a nós na edição deste livro e nos ajudes a construir o quarto próprio de uma nova escritora.

Vamos a isso?

O Interior Profundo de Diana Fontão é um livro que nos acompanha no caminho que seguimos e explora connosco as possibilidades em que nos vamos fragmentando nesse caminho.

A leitura torna-se uma viagem ao interior do ser humano, onde este se perde e reencontra várias vezes nos pensamentos sobre a vida, a morte, e sobretudo sobre as minudências e grandezas da humanidade.

O Interior Profundo é um livro onde a palavra órfã se torna carne e onde a escrita circula livremente.

COMPRAR»»

 

Texto escrito 

 

Hoje queremos partilhar convosco cinema, livros e Maya Angelou.

Querida família literária,

Esta semana começa a correria louca do Natal, por estes lados somos mais de celebrar a vida pois só temos uma, e temos o direito de a aproveitar ao máximo, achamos que o exercício de nos colocar no lugar da pessoa que temos na frente é vital, que a honestidade move montanhas, que a família é a que tu escolhes e que os presentes devem ser apenas os essenciais e de qualidade… Por isso vamos tentar fugir as campanhas natalícias para comprar freneticamente.

Hoje queremos partilhar convosco cinema e livros, acabamos de ver o documentário  Maya Angelou: And Still  e…. (suspiro) se tiverem oportunidade de ver façam-no! ♥

Maya Angelou foi uma poeta e ativista pelos direitos civis, a sua vida e obra são celebradas através das suas próprias palavras, sobrepostas a fotos e vídeos raros que ilustram a sua vida… Netflix hoje à noite? :) (passo a publicidade).

_____LIVROS & COMPANHIA_____

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Outros Livros da Autora»»

__________DESTAQUE__________

Para celebrar o segundo aniversário da Confraria propusemo-nos o desafio de editar, alternadamente, jovens escritoras e resgatar autoras clássicas, um livro por ano.

Continuamos fiéis ao nosso lema #juntas fazemos acontecer, por isso lançamos uma campanha de pré-venda para que te juntes a nós na edição deste livro e nos ajudes a construir o quarto próprio de uma nova escritora. Vamos a isso?

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O Interior Profundo de Diana Fontão é um livro que nos acompanha no caminho que seguimos e explora connosco as possibilidades em que nos vamos fragmentando nesse caminho.

A leitura torna-se uma viagem ao interior do ser humano, onde este se perde e reencontra várias vezes nos pensamentos sobre a vida, a morte, e sobretudo sobre as minudências e grandezas da humanidade.

O Interior Profundo é um livro onde a palavra órfã se torna carne e onde a escrita circula livremente.

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♥ lê & espalha sororidade ♥

Se não encontrares o livro que procuras envia-nos um email e nós encontramos! :)

livrariaconfraria@gmail.com

A comunidade é o aconchego e a forma e é também a mão que asfixia.

“Não sou um campo. Sou um campo, como? Plano. Molhado. Preto de Chuva. Não sou um campo.”

                                 Facas nas galinhas, David Harrower 

 

Inabitado, inculto, terreno inabitado. Despovoada, estéril. Ventre sáfaro, diz Saramago de Blimunda.

Foto: Birgit Jürgenssen. Nest, 1979. Black and white photograph. 17.8 x 24 cm.

Em Maio de 2017, Fátima marcou a expressão mediática em Portugal. O nome Fátima vem do persa Fatimat, do árabe Faatima e quer dizer “mulher que desmama seus filhos”. No meio de “El cielo oblícuo”, de Belén García Abia e de “After Birth”, de Elisa Albert, com paragem ainda para uma releitura de “Yerma”, de Federico García Lorca, todo o fenómeno de Fátima se enredava na leitura das (não) maternidades.

Vários livros que marcaram no meus vintes foram escritos por escritores homens sobre personagens mulheres. Não propriamente sobre mulheres mas sobre versões mitificadas do ser mulher. “Yerma” é um deles. Um dos melhores. A maternidade está crivada na noção de mulher. Nesta cultura ibérica, de formatação católica, crescer mulher é navegar entre referências mitificadas, mais ou menos localizadas. Fátima está a 200 quilómetros do Porto. A ruralidade andaluza de “Yerma” é transfronteiriça e infiltra-se no solo, mesmo que seco, mesmo que baldio.

Passei muito tempo com a minha avó materna, ainda antes de entrar para a escola, e o Avé Maria da rádio ficou a ecoar nas memórias de tardes no quintal, a arranjar com o que me entreter. A comunidade é o aconchego e a forma e é também a mão que asfixia.

Tanto Maria como Yerma são mães extremas, mães platónicas. A fertilidade toma formas estranhas . Yerma deseja. Yerma mata. Também em “A Morte da mãe”, de Isabel Barreno, mães e mulheres, corpos surgem em catadupa, no caos a que está sujeita a criação original. O equilíbrio é frágil entre os arquétipos e a agência, que nos sobra. Não me parece que seja inteligente fechar os olhos a estruturas ancestrais, muito menos será ficar delas refém.

Disponível na biblioteca da Confraria Vermelha

Fátima é pagã, é gente a ser instinto e é também a manipulação sacramentada dessa ideia suja e animalesca de procriação – procriar sim mas sem sexo, sem sangue, e, depois, ser mãe, isto é, viver e sofrer 33 anos por um filho. E vê-lo morrer.

Em espírito, logo indefinidamente, ser mãe do mundo e conceder benesses a quem reza muito e se mortifica mais. Uma mãe eternamente ouvinte, eventualmente intermediária – o seu papel é interceder, não tem a decisão final nas mãos. A figura de Maria é uma criação cuidadosamente lunática e, talvez por isso, pega como fogo. Um fogo alvo e puro, já sabemos, sem características humanas que o possam corromper.

«Lo tendré porque lo tengo que tener. O no entiendo el mundo. A veces, cuando ya estoy segura de que jamás, jamás…, me sube como una oleada de fuego por los pies y se me quedan vacías todas las cosas, y los hombres que andan por la calle y los toros y las piedras me parecen como cosas de algodón. Y me pregunto: ¿para qué estarán ahí puestos?»

Yerma, presa à terra, pensa que morre por dentro. Yerma é a mais vivas das mulheres.

“El cielo oblícuo”, de Belén García Abia“Yerma”, de Federico García Lorca e “After Birth”, de Elisa Albert estão disponíveis na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente, um desconto 10% Código: nãomaternidades

Explicar o mundo desde outra perspectiva

De Olhos Pousados em Deus lido no século XXI não pode ser considerado um livro feminista na sua essência. Nas suas páginas Zora Neale Hurston apresenta-nos o grande amor de Janie, a protagonista, um homem bom mas que num dos capítulos a esbofeteia-a para demonstrar quem manda em casa, o incidente é narrado sem maior importância. Contudo, De Olhos Pousados em Deus lido em 1937, ano no qual foi publicado, deve ter sido toda uma revolução. Hurtson cometeu um acto revolucionário com o mero facto de escrever um romance e centrar a sua história numa mulher afroamericana como ela, separada da escravidão por apenas duas gerações e que termina revelando-se contra uma sociedade que a julga constantemente.

“gente feia de ignorância e atravessada pela pobreza.”

A vida de Janie é narrada através das relações com os diferentes homens da sua vida. Obrigada a casar aos 16 anos foge desse casamento e do primeiro marido por amor mas vemos como a sua personalidade rebelde é domesticada pelo segundo marido. A morte dele supõe para ela uma libertação e assim surge uma mulher que vence o medo imposto (herdado) pela avó de ficar sozinha, sem a protecção de um homem e assim, libertar-se de uma sociedade patriarcal que a prende sem correntes.

A sociedade que julga a Janie é completamente negra. As personagens brancas ficam na margem e não aparecem na história mas sim mencionadas como terceiras pessoas em relação com as personagens afroamericanas. Contudo, o racismo é um tema presente neste romance de Hurston, especialmente evidente na personagem da senhora Turner, uma mulher afroamericana de pele mais clara e que despreza os seus vizinhos pelo tom da sua pele e tenta convencer a Janie de que existem graus na escala da identidade negra.

O romance De Olhos Pousados em Deus é principalmente um reflexo da luta quotidiana de uma mulher nos Estados Unido no fim do século XIX e princípios do século XX. E o mais importante, é narrado desde uma perspectiva própria e quase sempre silenciada na história estadounidense, a das mulheres afroamericanas. Esta é uma das razões pelas quais a história de Janie e tão relevante na literatura escrita por mulheres porque a valentia e a criatividade de Zora Neale Hurston nascem da necessidade de explicar o mundo desde outra perspectiva.

“De Olhos Pousados em Deus”  está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres 

Tentar dar um sentido ao mundo que não joga a nosso favor.

 

Uma história de mulheres inverosímeis, envolvidas em circunstância que vão além do seu controlo e que tentam dar um sentido ao mundo que não joga a seu favor.

Antes de começar a falar sobre este livro, tenho que fazer um aviso, “Estamos Todos Completamente Fora de Nós” tem um segredo que não pode ser revelado. Alerto sobre isto caso tenham como hábito (eu tenho) de ler a última página do livro quer seja ao começar quer seja quando vão pela metade porque não conseguem controlar a vontade de saber o que vai acontecer as personagens. Sei que este hábito pode parecer estranho mas quem o tem, afirma que não lhe retira o prazer da leitura dos acontecimentos anteriores ao final. Cada uma com seu hábito de leitura ;)

Contudo é um hábito arriscado que pode não funcionar com todos os livros. Com “Estamos Todos Completamente Fora de Nós” não funciona, por isso se têm o mesmo hábito do que eu, não o façam. E também não leiam as sinopses porque correm o mesmo risco.

É necessário, começar a leitura completamente às cegas, ignorando por completo o que vai acontecer ao longo das suas páginas. Insisto, é completamente necessário controlar a curiosidade de saber o desfecho para poder compreender o que Karen Joy Fower nos querer contar. Por isso vou continuar este texto tentando não desvendar (spoilar) nenhum acontecimento, mesmo assim, considero necessário deixar claro que continuar a leitura deste texto é uma responsabilidade unicamente vossa.

As personagens deste romance são um exemplo cru das relações entre irmãs e de como a sociedade valoriza de forma diferente as nossas vidas, categorizando-nos em diferentes grupos e dizendo-nos o que é e o que não é correcto para nós.

O livro de Fowler é uma obra cujo título não sei se é o mais acertado mas não me vou centrar nisso agora. A universitária Rosemary é a protagonista de “Estamos Todos Completamente Fora de Nós”, é uma jovem que fala pouco e que a partir de um primeiro incidente que envolve a polícia, nos desvela a história da sua particular família. “Estamos Todos Completamente Fora de Nós” é uma história de mulheres inverosímeis, envolvidas em circunstância que vão além do seu controlo e que tentam dar um sentido ao mundo que não joga a seu favor.

As personagens deste romance são um exemplo cru das relações entre irmãs e de como a sociedade valoriza de forma diferente as nossas vidas, categorizando-nos em diferentes grupos e dizendo-nos o que é e o que não é correcto para nós, com base em características que fogem totalmente ao nosso controlo. A hipocrisia deste mundo e a luta de Rosemary por (sobre)viver fazem com que a leitora e o leitor que chegue ao fim deste romance repense a sua própria (forma de)  vida.

Não somos a Rosemary, e não somos a Fern, mas elas são cada uma de nós cada vez que estivemos atrapadas em circunstâncias injustas, elas representam o desespero de uma vida escolhida por pessoas completamente alheias as suas circunstâncias. A mensagem do livro… ufff! É impossível falar dela sem escorregar no temido spoiler mas vai permanecer em vocês muito depois de terem virado a última página. Este romance é daqueles que só comentamos e falamos sobre ele tempo depois de o ter lido, depois de termina-lo precisamos de tempo para integrar a sua leitura e perceber o impacto que teve em nós e quando percebemos esse impacto percebemos também que começamos a olhar as outras vidas como o que elas realmente são.

A sua leitura é altamente recomendável se não tivermos medo de começar a olhar para o mundo como ele é realmente.

 ✄ “Estamos Todos Completamente Fora de Nós”  está disponível na LIVRARIA da Confraria Vermelha Livraria de Mulheres caso o meu texto tenha despertado o teu interesse, deixo-te um pequeno presente, um desconto 5%  e portes gratuitos ♥