Diário de Uma Dona de Casa Desesperada de Sue Kaufman

Arquivo de Personagens Femininas

Personagem:  Tina
Livro: Diário de Uma Dona de Casa Desesperada
Autora:  Sue Kaufman

Romances sobre perdedores temos as dúzias; na literatura norteamericana até podíamos considerar que constiui um subgénero em si mesmo. Mas o que não abundam são as histórias sobre perdedoras, sobre mulheres que afrontam a sua existência como um inevitável caminho de renúncia e obstinação. Diário de Uma Dona de Casa Desesperada de Sue Kaufman, é uma dessas histórias, por isso a resgato do limbo literário para quem quiser descobrir uma escritora e um livro com uma narrativa sólida e personagens complexas.

Tina é uma dona de casa bem posicionada, casada com um advogado de prestígio, duas filhas e um cão. Uma vida, aparentemente idílica, mas que na verdade é um poço de obsessões, terrores e problemas, Tina arrasta uma neurose alguns anos e, é incapaz de fazer frente as suas obrigações sem cair na depressão. Um romance estruturado em forma de diário no qual Tina escreve, em segredo, para tentar acalmar e colocar por escrito os seus pensamentos. Sue Kaufman acerta em pleno, a voz da narradora alcança uma intimidade louvável: não vos nego que o formato diário pessoal é por vezes artificial (em certas passagens a narrativa é tradicional e a primeira pessoa não é tão credivél) mas no seu todo o resultado deste romance é de uma intimidade e proximidade notáveis.

Sue Kaufman, romancista americana nasceu a 7 de Agosto de 1926 em Long Isaland, Nova Iorque. Diplomada pela Vassar College em 1947, começou a trabalhar como assistente editorial. Faleceu a 25 de Junho de 1977, em Nova Iorque. Em sua homenagem anualmente é atribuído o prémio literário Sue Kaufman pela Academia Americana de Artes e Letras.

A intimidade e aproximidade da narrativa é conseguida através da profundidade com que é criada a personagem de Tina. Kaufman retrata uma mulher frágil, doentiamente débil, mas com uma resolução que vai crescendo a cada revés emocional que vivencia.  Diário de Uma Dona de Casa Desesperada mostra-nos o solitária que pode ser a vida de aparência feliz: como os problemas que se vivem no dia a dia se podem transformar em pesadelos dos quais não se consegue sair, até a sua cadela a consegue transtornar ao ponto de perder o controlo de si mesma. Isto pode fazer-nos pensar que Tina Balser é uma percusora de Bridget Jones mas longe disso: a protagonista é uma mulher descontente e de personalidade neurótica mas Kaufman não constrói uma personagem amável com a qual empatizamos ou com a qual podemos rir; Tina é uma mulher inteligente que, apesar da sua fragilidade psicológica, é capaz de transformar a sua vida num espectáculo para se tornar respeitável.

A angustia da protagonista é demasiado próxima como para não nos identificarmos com aquilo que lhe sucede. A normalidade de uma vida programada pelos outros, a pressão que impõe uma sociedade que vive da imagem que se projeta, o desconsolo de não sermos donas/os das nossas próprias existências… tudo é demasiado familiar e são características que se enraízam com o passar do tempo. O golpe final da autora está no mostrar a dualidade de Tina: vítima e carrasca, débil e autoritária. Não é uma mulher resignada que se rende perante o marido egocêntrico nem é uma heroína que faz frente a todos os contratempos que lhe surgem: é, simplesmente, um ser humano dividido entre as suas debilidades e as suas vilezas, uma pessoa tão capaz de sofrer como de ferir. Razão pela qual, esta personagem é tão real e complexa, mesmo que a narrativa esteja condicionada pela sua parcialidade.

Diário de Uma Dona de Casa Desesperada é um romance complexo e sugerente, com momentos divertido e de uma profundida subtil. Como disse no início é um livro que nos fala de uma perdedora mas Sue Kaufman oferece-nos um outro conceito de perdedora, vale a pena descobri-lo!

 

Diário de Uma Dona de Casa Desesperada
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Este livro foi publicado originalmente em 1967 e é considerado um dos romances fundacionais e mais representativos da nova consciência feminina a meados do século XX nos Estados Unidos. Diário de Uma Dona de Casa Desesperada de Sue Kaufman é um divertido e inteligente relato sobre o sentimento de angustia ao que todas as pessoas nos enfentamos alguma vez na vida.

A Capa do livro é muito importante

Quando vi a edição portuguesa confesso que a capa não me seduziu e fiquei com dúvidas de ler ou não ler… até que a ficha caiu! Não posso julgar o livro pela capa…

Tinha lido sobre Sue Kaufman e queria conhecer esta escritora por isso afastei o julgamento do livro pela capa e mergulhei na leitura. Não me decepcionou!

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Texto escrito

Paulina Chiziane – contadora de histórias e memórias

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«José percorre a magia luminosa das aparências. Na cegueira perseguindo os caminhos do abismo. Colonizar é mesmo isto.»

O alegre canto da perdiz, Paulina Chiziane

Quando entrevistada, Paulina Chiziane apresenta-se frequentemente como contadora de histórias. Essa é a classificação que aceita e que lhe assenta.

«Sem sangue o império é anémico, sem vida nem grandeza. O sangue se bebe e rejuvenesce. Quando não se bebe canta-se. O hino nacional.»

O alegre canto da perdiz, Paulina Chiziane

No capítulo III do Decreto-Lei nº 39 666, do Ministério do Ultramar, datado de 20 de Maio de 1954, “Da extinção da condição indígena e da aquisição da cidadania”, o artigo 56.º estabelece as condições para a aquisição da cidadania pelos indígenas, estabelecendo que o indivíduo, entre condições de idade e “bom comportamento e ter adquirido a ilustração e os hábitos pressupostos”, deve, alínea b, “falar correctamente a língua portuguesa” (sublinhado meu).

Falar corretamente a língua portuguesa

Mais do que na escrita, é na oralidade que subjaz a garantia da metamorfose do indigenato para a cidadania. Aos olhos do Estado português, o indígena, objeto delimitado e de desconfiança, torna-se sujeito pela fala, pelo uso do português – não um português qualquer, o português correto. Ainda hoje, o acesso à cidadania portuguesa por cidadãos estrangeiros assenta na capacidade de fazer uso da língua portuguesa em moldes determinados. Para o Estado Novo, os indígenas – pessoas negras e mestiças naturais dos territórios africanos colonizados – não eram estrangeiros, mas uma espécie de produto da terra, tornados cidadãos portugueses pela performance de costumes preconizados, acompanhada de uma língua civilizada – a língua portuguesa.

N’O alegre canto da perdiz a sombra da assimilação ao mundo do português branco vai preencher grande parte da narrativa.
«Pediu ao pai para ser assimilado, a fim de ter acesso à escola oficial, onde as professoras eram mulheres normais e não freiras esquizofrénicas. Mas o pai disse que não. Porque os assimilados eram assassinos. O pai de Delfina disse que não à assimilação, sem saber que a libertação da pátria seria na língua dos brancos e sem imaginar que os filhos dos assimilados iriam assumir o protagonismo da História.» (p. 78).

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Chiziane refere que “A literatura pode funcionar como catarse coletiva e também como registo da memória. A nova geração tem de saber o que se passou ontem, mas infelizmente há muito poucos relatos.” O livro que escreveu traz à tona várias vozes duma história a que os ouvidos portugueses são avessos. «Não vimos, não sabemos, nunca ouvimos falar, não demos por nada.» escreve Isabela Figueiredo, na introdução do seu Cadernos de memórias coloniais. Também para Paulina Chiziane, que prefaciou essa obra, as palavras estão aí para nomear, são destemidas e não evitam feridas pessoais e coletivas. «Quem não se ajoelha perante o poder do império não poderá ascender ao estatuto de cidadão. Se não conhece as palavras da nova fala jamais se poderá afirmar. Vamos, jura por tudo que não dirás mais uma palavra nessa língua bárbara. Jura, renuncia, mata tudo, para nasceres outra vez. Mata a tua língua, a tua tribo, a tua crença.» (p. 117).
Mata-te. Em tempos coloniais falar português era afirmação de uma renúncia a todas as outras formas de ser.

Demorei muito tempo a terminar este livro e percebi que foi uma exigência da cadência das palavras. O português é instrumento de escrita, é tradução de estados de alma alheios e não configurados por esta língua e é uma longa homenagem à literatura de tradição oral. As palavras estão escritas mas são sobretudo voz. Vozes contraditórias, por vezes difíceis de digerir.

“A minha relação é de conflito. Não há dúvida que eu aprendi a ler e a escrever em português, socializei-me com a literatura de língua portuguesa. Mas existem alguns aspetos culturais que a língua portuguesa não tem capacidade para cobrir. Para além de que, sendo uma língua de dominação, a língua portuguesa é também uma língua de segregação. Quando escrevo e vou pegando das palavras, de vez em quando fico chocada: os curandeiros são o centro do saber africano. Mas o que é um curandeiro na língua portuguesa? Vai ver no dicionário e a explicação que vai achar é redutora e simplista e serve simplesmente para colocar o curandeiro de lado. Para eles, é um indivíduo que deve ser banido e eliminado.”

curandeiro | s. m.
cu·ran·dei·ro
1. Pessoa que trata de doenças sem título legal.
2. [Figurado]  Charlatão; impostor.

O português vai pedir emprestado às demais línguas locais palavras para descrever o que não conhece. A escritora vai fazer uso de um língua de dominação para contar histórias que os falantes e ouvintes dessa língua precisam conhecer. O dicionário continua a atribuir um lugar central ao português correto, em que certas palavras, certas vivências, não têm lugar.

“Como aliar a pobreza a uma raça? Encontro vários aspetos de supremacia de uma cultura sobre a outra. As palavras no dicionário são alguns. Algumas vezes que eu quero retratar uma realidade (eu falo do Sul), quero escrever um ditado e uma forma de pensar, mas tenho de fazer uma tradução e uma aproximação de significado. O que vai resultar não é propriamente a identidade deste povo, mas é uma construção, e as coisas não chegam a ser realmente como deviam ser. Mas os próprios escritores atuais ainda não fizeram muito exercício cultural. Eu penso que talvez com tempo vamos dar um espaço àquilo que é a nossa própria cultura. É lógico que vamos servir-nos da língua portuguesa por muito tempo, porque é a língua através da qual comunicamos.”

O português não é a língua da realidade desta escrita, é tradução.

«Homem não, Delfina. Que Deus nos dê, sim, a benção de um filho mulher.» Não é filha, é filho mulher, porque a experiência recriada é uma realidade bantu.

Prevê-se que dentro de algumas décadas a quantidade de falantes de português em Angola e Moçambique ultrapasse o número de falantes em qualquer outra região do globo (Oliveira, 2016). O português será uma língua africana. Este português falado por milhões de africanos não poderá ser o português correto da cidadania de outros tempos, nem o português que declara que uma vivência africana culturalmente significativa é, sem delongas, impostura.

Franco, leal, apesar de rude

Segundo Maria Helena Mira Mateus (2003) «(…) o termo “Português”, que cobre as variedades sociolectais, dialectais e nacionais que convivem em Portugal e no Brasil, deve ser entendido como importante instrumento de coesão entre povos e como afirmação política e económica num contexto envolvente transnacional. A presença nestes ambientes de grupos de interesses unidos por falarem “a mesma língua” potencia a tomada de posição desses grupos, sobretudo quando se trata de comunidades de menor força no campo económico.». E acrescenta, «É na realidade um factor de identificação cultural, mas no uso, e pelo uso, que dela faz o indivíduo e não apenas por pertencer a uma das várias comunidades que a utilizam como materna.»

O português torna-se pluricêntrico pelo uso. Aceitar esse pluricentrismo implica abrir caminho a uma reapropriação da língua, uma combinação de referências, de sonoridades.

português | adj. | s. m. por·tu·guês (latim tardio portucalensis, -e, de Portucale, topónimo, Portugal)
1. Relativo ou pertencente a Portugal. = LUSITANO, LUSO
2. []  Relativo ao português enquanto sistema linguístico.
3. [Figurado]  Franco, leal, apesar de rude.
4. Natural, habitante ou cidadão de Portugal. = LUSITANO, LUSO
5. []  Língua de origem românica, que é a língua oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e da Região Administrativa Especial de Macau.
6. []  Antiga moeda de ouro.
Feminino: portuguesa. Plural: portugueses.

É me hoje difícil pensar sem interferências do inglês, a querer intrometer-se até na sintaxe. Da mesma forma, o meu português de lusa está saturado de influências do português do Brasil que ouço. Vou recorrendo ao dicionário para descobrir se ainda falo português correto. Agrada-me ver que o meu português se expande na medida das kizombas, telenovelas e toda a rápida circulação de palavras. O Brasil dos memes da internet. Novas formas de reclamar a língua.
A língua está viva e a construir o mundo.

A escrita de Paulina Chiziane empurra-nos, com mestria, para lugares que precisamos de visitar: que memória é a desta língua partilhada? Uma memória de violências mas também de vida. Que palavras ainda não cabem no nosso dicionário?

Falta-nos ouvir mais e melhor.
“Fora escrever e pensar em novos projetos, o que é que você gosta de fazer? Sentar na minha varanda, olhar o vazio e tomar o meu copo de cerveja. (Risos).
Ao ritmo certo.

✄ O alegre canto da perdiz  estão disponíveis na LIVRARIA. 

…………………………………………………………………………………………………[1] http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/os-anjos-de-deus-sao-brancos-ate-hoje-entrevista-a-paulina-chiziane
[2] http://www.buala.org/pt/cara-a-cara/os-anjos-de-deus-sao-brancos-ate-hoje-entrevista-a-paulina-chiziane
[3] “curandeiro”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/curandeiro [consultado em 26-12-2017].
[4] “português”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/portugu%C3%AAs [consultado em 26-12-2017].
[5] Entrevista à revista Bastião #18 https://issuu.com/revistabastiao/docs/bastiao18issu

Últimos ritos de Hannah Kent

Últimos Ritos, Saída de Emergência, Hannah Kent

Acho que não vai ser difícil escrever este texto sobre os Últimos ritos de Hannah Kent porque sei exactamente o que gostei e o que não gostei tanto nesta leitura.

Vou centrar o meu texto apenas no que gostei porque quando fechei por última vez o livro, foi o que pesou mais na balança.

Estão preparadas/os para esta viagem? Sim, para uma viagem! Últimos Ritos é uma viagem, uma viagem ao ano de 1828 para conhecer pessoalmente a história de Agnes Magnúsdóttir, a última mulher decapitada na Islândia do século XIX.

Sobre a escritora…
Hannah Kent
nasceu em Adelaide, Austrália, em 1985. Em jovem viajou até à Islândia num intercâmbio do Rotary Club, onde primeiro conheceu a história de Agnes Magnúsdóttir. Hannah é a cofundadora e editora do jornal literário australiano Kill Your Darlings, e encontra-se a completar o doutoramento na Flinders University. Em 2011 ganhou o primeiro Escrever a Austrália – Melhor Manuscrito Não Publicado (Writing Australia Unpublished Manuscript Award).Últimos Ritos é o seu primeiro romance.

Com base em acontecimentos reais, Hannah Kent conta-nos a história de Agnes Magúsdóttir, Fridrik Sigurdsson e Sigrídur Gudmundsdóttir, que foram acusados pelos assassinatos de Natan Ketilsson e Pétur Jónsson em 1828 em Illugastadir, Islândia. É a própria Agnes quem dá voz e desconstrói todo o mistério em redor desta história.

Depois de passar alguns meses em Stóra-Borg, muda-se a Kornsá, com a família do polícia que tem de a vigiar até ao dia da execução. E nesse lugar entre o fumo da badstofa, o trabalho da quinta, a hostilidade dos seus habitantes e um clima gelado e adverso,  onde Agnes nos conta o seu relato perante o olhar atento do reverendo Tóti e a família Jónsdóttir

É possível mudar os preconceitos adquiridos sobre uma pessoa? 

O importante em os Últimos ritos de Hannah Kent não é a história em si, mas sim em como esta é contada e o que a autora nos querer transmitir com ela.

Para mim, o mais fascinante neste livro e o que mais desfrutei foi a sua ambientação. Uma descrição totalmente evocadora de uma Islândia fria, solitária e hostil que não deixa de ser um reflexo fiel de tudo o que a protagonista sente.

A solidão, medo, incerteza, culpa, dor… são constantes nesta leitura, quer em Agnes, quer nas outras personagens secundárias que a rodeiam.

A atmosfera claustrofóbica tenta fazer com que a leitora/o se sinta incómoda/o enquanto lê, que sinta a mesma angustia que sente a protagonista. De certa maneira, é como se a dureza do entorno a estivesse a curtir e a preparar para o que vai acontecer, apesar de que nem Agnes nem a leitora/o estão preparados para chegar ao fim, por muito tempo que se tenha para tomar consciência e aceitar a ideia. A fragilidade por vezes, é um sentimento difícil de se mostrar e mesmo assim, acho que este livro consegue que a vejamos em todas e em cada uma das suas personagens.

Últimos Ritos é uma leitura triste que nasce da impotência e da raiva por não conseguir mudar as coisas, de ter que aceitar as circunstâncias que advém enquanto te resistes ao destino imposto. E mesmo com todo esse desconsolo, há beleza, compreensão e uma espécie de redenção em tudo, o que transforma este livro numa leitura cheia de emotividade e sentimento.

As últimas páginas conseguiram fazer-me chorar intensamente. Se há uma coisa que o final nos transmite é compaixão e empatia. Estes dois sentimentos independentemente daquilo que a pessoa tenha feito, e senti-los faz-nos mais humanos, e na minha opinião, melhores pessoas.

Foi este desfecho que conseguiu surpreender-me, emocionar-me e esquecer-me das coisas que não gostei tanto.

Claro que neste mundo louco em que vivemos e com as atrocidades que se cometem, nem todas as pessoas merecem receber indulgência mas também é certo que tê-la de alguma forma nos ajuda a não ser como essas pessoas, a diferenciar, a criticar e a defender valores que escasseiam.

Por desgraça no passado e no presente existem muitas e muitos Agnes Magnúsdóttir, uns mais culpados do que outros. Merecia o trato que recebeu e uma sentença de morte? A minha resposta é Não, um Não rotundo. Ninguém, no meu entender merece morrer (nem ser torturado) deliberadamente a mãos de outro ser humano, não estou a falar em defesa própria mas sim em assassinar, algo que acho que em nenhuma situação está justificado, nem sequer quando nos amparamos na lei. Sim, sou contra a pena de morte. Não vos parece absurdo impor como pena o mesmo acto que está a ser julgado como delito? Atravessar essa linha acho que nos transforma naquilo que rejeitamos, em assassinas/os.

Mas…
Agnes era culpada? Bem, eu tenho as minhas teorias e uma mão cheia de argumentos que me permitiriam defende-la num julgamento mas não vou partilhar nenhum, o veredicto têm de ser vocês a desvenda-lo lendo este livro até ao fim.

É verdade que houve coisas que gostei menos mas como são tão subjectivas prefiro não comenta-las para não influenciar a vossa decisão de ler ou não este Últimos Ritos de Hannah Kent, estou certa que não vos vai deixar indiferentes e que merece muito a pena conhecer a frialdade que transmite a Islândia de 1828, a pequena badstofa de Kornsá onde Agnes Magnúsdóttir consegui sentir, por primeira vez, que a humanidade e a empatia não eram emoções perdidas.

texto escrito

O humor e a dor das vidas comuns

Mulheres Excelentes é um elogio a todas essas mulheres que passaram, que passam e que passarão (ainda temos muita luta pela frente) imerecidamente inadvertidas.

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Se clicares nas palavras que encontras a vermelho encontrarás curiosidades, textos relacionados, novas ou revistadas leituras 📚🦊

Vou começar este texto comentando coisas sem interesse aparente. Primeiro: a crítica inglesa diz que Barbara Pym é a Jane Austen do século XX. Segundo: os seus romances podem estar numa estante nomeada de “alta comédia”, seja lá o que isso for. Ditas estas duas coisas que são uma meia verdade, posso continuar ou começar, o meu texto sobre Barbara Pym.

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Barbara Pym (1913-1980), que foi contemporânea das escritoras Muriel Spark, Jean Rhys ou Iris Murdoch é, na minha opinião, uma escritora inteligente. O seu universo circunscreve-se a classe media inglesa de Londres (em todas as suas esferas e escalões), quer a citadina, quer a periférica e até a rural. Está povoado por clérigos, funcionários de escritório, intelectuais sem muito destaque e um ou outro político, esposas, solteironas caseiras ou que trabalham… ou seja, um mundo habitado por seres normais e quotidianos com vidas que não destacam pela sua singularidade mas sim pela sua convencionalidade;  não pela sua temeridade mas pelas suas ponderações; não pelas suas acções mas pelas suas satisfações quotidianas.

Até é verdade que podemos comparar Pym com a Jane Austen, se considerarmos que ambas escreveram admiráveis quadros de costumes. Mas a diferença é marcada pelo tempo; enquanto Jane Austen retrata a gentry que cresceu graças a reforma agrícola, uma Inglaterra que caminhava para se transformar num Império moderno que chegou ao seu esplendor das mãos da rainha Vitória e da Revolução Industrial, uma revolução que iria acabar com o mundo de Jane Austen. Ao contrário, Barbara Pym, encontra-se num Império em liquidação que decide apertar o cinto e a estar contente com a lembrança daquilo que foi um dia. Desta maneira, o que numa escritora é um retrato de uma classe e uma ordem social que se eleva até uma categoria moral e histórica, na outra há uma aguda exposição das formas que mantém uma classe média de um país que deglute pragmaticamente a sua inevitável decadência.

…o humor de Pym é encantadoramente ácido, que se passeia com simplicidade pelos seus romances mas sem nenhuma ternura ou piedade.

O segundo aspecto que une estas duas escritoras é o sentido de humor. Mais cândido – apesar do olhar perspicaz- e intenso na literatura de Austen. E mais pérfido e implacável na literatura de Pym. Nos romances de Pym tudo é boas maneiras e bons costumes, mas quando ela vai retirando as máscaras das boas maneiras e dos bons costumes, o que encontramos por baixo é uma mistura de vazio, superficialidade e frustração escondidas por baixo de um lindo tecido que a leitora/o vai acariciando e que ao fim de um tempo vai sentido como lhe corta as mãos. Devo dizer-vos que o humor de Pym é encantadoramente ácido, passeia-se com simplicidade pelos seus romances mas sem nenhuma ternura ou piedade.

Mulheres Excelentes

Escrever sobre o livro Mulheres Excelentes é um óptima ideia para despedir 2017 e dar as boas-vindas a 2018 no blog de uma livraria dedicada a literatura escrita por mulheres, porque Mulheres Excelentes é um elogio a todas essas mulheres que passaram, que passam e que passarão (ainda temos muita luta pela frente) imerecidamente inadvertidas.

É um romance fascinante, como um suspiro profundo, não pela trama excitante mas pelas suas personagens inesquecíveis. Seria injusto esperar um enredo aditivo e um ritmo vertiginoso numa comédia de costumes, género no qual se costuma descrever com certa ironia e agudeza a vida quotidiana de uma época.

Não quero que pensem que com isto estou a dizer que o enredo de Mulheres Excelentes é descuidado ou tem pouco interesse para a leitora/o. Pelo contrário, o que quero dizer é que o enredo se desenvolve com base nas relações e/ou acções das suas personagens. Já vos disse que as personagens são maravilhosas?!?! 😊

Entre as personagens de Mulheres Excelentes destaco a protagonista e narradora Mildred Lathbury, uma “solteirona” londinense de trinta e poucos anos com uma vida dedicada aos outros: ajuda nas tarefas da paroquia, ouve e resolve os problemas das suas amizades e por norma satisfaz as necessidades alheias e descuida as próprias.

Mildred tem um olhar clínico na hora de analisar as vidas alheias, mas um comportamento excessivamente obediente e sempre inadvertido e ingrato por parte das outras pessoas, coisa que só a leitora-o sabe. Ao fim das contas Mildred é apenas mais uma das tantas mulheres “solteironas” de uma sombria Europa dos anos de pós-guerra (Segunda Guerra Mundial), onde milhares de homens casadoiros perderam a vida.

É verdade que Mulheres Excelentes é um romance amável, mas Pym, como boa britânica não dúvida, nem por um instante, em denunciar (as vezes subtilmente outras acidamente) a situação das mulheres, que “não tinham nada melhor para fazer” do que servir e ajudar os seus compatriotas, para além de agradecerem essa oportunidade que lhes era concedida de serem úteis.

E assim Mildred, apesar de ter um forte compromisso em ser uma “mulher excelente”, reflecte sobre dita situação, transformando a leitora-o em testemunha de uma personagem que sofre as contradições que afloram quando os convencionalismos de uma sociedade colidem com os sentimentos pessoais.

Acho que é neste ponto que o romance de Pym ganha a sua força, nessa crítica, ao jeito british, de uma sociedade injusta com as mulheres excelentes da época.  Mildred é adorável e encantadora, mas também é dotada de uma ironia e autocrítica fantásticas. A sua extraordinária capacidade de observação fazem com que seja consciente das contradições entre o discurso interno e o comportamento exterior.

Mas a leitora-o, que é quem conhece esse lado crítico e irónico de Mildred, é que percebe que Mildred é na verdade uma mulher excelente, uma mulher excelente sem aspas, uma amiga entregada (o que por vezes leva a mal entendidos), uma mulher agradável sempre disposta ajudar, mas consciente da injustiça que é acreditar que dita entrega é uma bênção para ela e não para os outros.

São estas pequenas nuaces que transformam este romance não só num romance divertido, que o é, mas também uma homenagem a todas as mulheres e um trato burlesco dos convencionalismos que tanto mal têm feito. Resumindo: uma escrita elegante, um humor ajustado e um franco uso de elipses; Barbara Pym é uma maliciosa e fascinante criadora de vidas quotidianas.

Aviso 1: anglófobos abster-se. Aviso 2: Leitoras/os seguidoras da obra de Jane Austen, das irmãs Brönte, de Elena Ferrante, Lucia Berlin ou de Meg Wolitzer, por exemplo, há grandes probabilidades de adorarem este romance.

Outra coisa que prendeu a minha leitura é a inteligência intrapessoal e interpessoal da protagonista. Mildred é super consciente de si mesma e no fim do romance deixa entrever que talvez não vale a pena ser tão firme no papel de “mulher excelente” com aspas. E como leitora essa foi a minha grande alegria, conhecer uma Mildred divertida, inteligente, independente e amável desde o princípio, e que sabe o injusto que seria ignorar o excelente que é.

Também acho injusto que não aproveitem a próxima oportunidade que tenham para ler este romance e descobrir a vossa própria excelência, o que vos parece??!?! :)

Texto escrito

O espírito nómada de Annemarie Schwarzenbach

 

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Annemarie Schwarzenbach e Ella Maillart, fotografia de Marianne Breslauer | mais fotos aqui

“History doesn’t repeat itself, but it does rhyme.”                                Mark Twain

 

Existem outras viajantes mais indómitas, audaces, perspicazes até mais comprometidas mas nenhuma tão triste como Annemarie Schwarzenbach.

A tristeza flui na sua escrita comovedora, O Vale Feliz consagrado “ à vida errante e a ausência de esperança”, só é comparável à melancolia que infundem as suas fotografias, especialmente os próprios (auto)retratos da viajante. Fotógrafa e escritora, um “rosto de anjo inconsolável”  como disse Roger Martin du Gard, um dos seus grandes admiradores.

Entre as admiradoras e admiradores encontramos a também escritora Carson McCullers, tal era o fascínio que tinha por Schwarzenbach que lhe dedicou o romance Reflexos Num Olho Dourado.

mais info sobre o livro aqui

Annemarie Schwarzenbach (1908-1942) o ser inconformado de uma família de ricos industriais têxteis de Zurique, morfinodependente, íntima dos malditos Klaus e Erika Mann, suicida em potência (contudo morreu de uma queda de bicicleta), reporte, arqueóloga, escritora de atormentada exigência, lésbica, sucumbiu ao lado negro da vida num naufrágio existencial doloroso que nos deixou páginas belíssimas. A sua biografia com a procura desesperada do amor, as fugas, as dependências, a sua difícil relação familiar (nunca conseguiu escapar ao domínio da sua marcial mãe, filha de um general e de uma Bismarck, que acabou por destruir, após a morte de Schwarzenbach grande parte dos seus escritos) é das que nos deixa o coração endurecido.

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Annemarie Schwarzenbach de Dominique Grente e Nicole Müller, Circe, 1991

“Escolheu o caminho complicado, a senda do inferno” escreve a sua compatriota e viajante Ella Maillart, com a qual viajou em 1939 de carro desde a Suíça até ao Afeganistão, ambas ansiosas por respostas vitais, como duas Dorothy’s à procura de um inexequível mago de Oz do Hindu Kush.

 

Schwarzenbach é inesquesível

Cristina a personagem de La voie cruelle (A Via Cruel na edição portuguesa), livro no qual Maillart recolhe a experiência do erradio pré.hippy em direcção a Kabul e que se transformou num clássico da literatura de viagem e que até deu espaço para um filme. “Acreditava no sofrimento. Venerava-o como fonte de toda grandeza”, aponta Maillart, que mudou o nome da sua frágil companheira, a qual muitos confundiam com um rapaz pelo seu aspecto andrógeno, em consideração por ela, pois o seu relato tem dados íntimos que expõe. Ella Maillart terminou cansada da sua desequilibrante acompanhante, do demónio que a percorria, da sua inesgotável sede do absoluto, das suas crises, das suas recaídas com a droga, da sua desmesurada sensibilidade. Mas nunca deixou de se sentir atraída pelo seu encanto e a sua fecunda vulnerabilidade. Schwarzenbach narra esta mesma viagem em vários relatos reunidos em  Alle wege sind offen. Die reise nach Afganistán, 1939-1940.

Ver livro

 

 

 

 

 

 

 

 

Voltemos ao O Vale Feliz, no qual a autora mistura crónicas de viagem, diário pessoal, autobiografia e ficção…  tornando-o num “texto híbrido” como menciona Gonçalo Vilas-Boas no pósfacio (edição Teodolito), ” onde a escritora se sobrepõe à viajante, encontrando, no ato da escrita, na palavra  e na criação uma nova linguagem uma liberdade que não encontra na realidade”. 

A velha Pérsia era para Schwarzenbach um lugar propício no qual emoldurar a sua angústia, os seus medos e obsessões. “O que procuras na Pérsia?” Perguntou-lhe Malraux. Ela procurava materializar a sua inquietação. Encontrou uma terra baldia e elementar na qual projectou o seu sofrimento, um país que lhe oferecia ao mesmo tempo um território de escassez e inominadas tentações (para a sua adição, para as suas crises mentais e para os seus amores lésbicos).

A tristeza da Pérsia, a sua beleza letal é um dos temas de O Vale Feliz, do qual emanam imagens inesquecíveis como as dunas transformadas em ondas mortas ou a caravana fúnebre com camelos… As ruínas de Persépolis, os fragmentos das civilizações esquecidas, o trote dos nómadas, as tempestades de areia, Mazandaran, paradigma da melancolia… tudo é escrito/descrito através do prisma da dor e só através dessa perspectiva é que faz sentido. Como se o Irão por completo existisse apenas para sumir a escritora numa frutífera e desoladora “depressão persa”, como ela própria descreveu o mórbido estado no qual se encontrava em 1939, foi durante uma cura de desintoxicação que escreve e rescreve O Vale Feliz (O  Vale Feliz surge da reescrita do texto anterior Morte na Pérsia mas ao contrário do que podem estar a pensar não estamos perante duas versões da mesma obra e sim, de duas obras com pontos em comum).

Os diferentes episódios evocam restos da sua biografia: a sua relação amorosa com uma mulher do Teerão (a filha do embaixador turco), o seu breve casamento com um diplomata francês para esconder a sua lesbiandade, as escavações em Rhages, a sua tortuosa necessidade de se comprometer na luta contra o nazismo, as febris e chorosas excursões ao vale de Lahr, a procura da pureza, os cachimbos de haxixe e a vodka das noites arqueológicas…

O Vale Feliz de Annemarie Schwarzenbach

A parte mais intensa e lírica

O Vale Feliz, é a enlouquecida descrição que a autora faz do seu encontro com o seu anjo, uma figura que surge das profundezas da psique de Schwarzenbach e da memória ancestral do país. Na antiga escatologia iraniana, quer no mazdeísmo quer no maniqueísmo, o anjo é uma presença recorrente e era tido como um duplo celestial e uma presença tutelar (as fravartis guardiãs ou as daenas, jovens que ajudam a alma na batalha contra os demónios que as assaltam).

A imagem da perfeita viajante solitária debatendo-se com o seu anjo nu, que tem as suas mesmas feições, junto à pirâmide nevada do monte Demavend, resulta uma metáfora esmagadora da vida e da paixão de Annemarie Schwarzenbach. Uma existência que ela mesma resumiu num grito pungente: “Deixem-me sofrer!”

Texto escrito

________LIVRO em DESTAQUE na LIVRARIA________

Para celebrar o segundo aniversário da Confraria propusemo-nos o desafio de editar, alternadamente, jovens escritoras e resgatar autoras clássicas, um livro por ano.

Continuamos fiéis ao nosso lema #juntas fazemos acontecer, por isso lançamos uma campanha de pré-venda/edição coletiva, para que te juntes a nós na edição deste livro e nos ajudes a construir o quarto próprio de uma nova escritora.

Vamos a isso?

O Interior Profundo de Diana Fontão é um livro que nos acompanha no caminho que seguimos e explora connosco as possibilidades em que nos vamos fragmentando nesse caminho.

A leitura torna-se uma viagem ao interior do ser humano, onde este se perde e reencontra várias vezes nos pensamentos sobre a vida, a morte, e sobretudo sobre as minudências e grandezas da humanidade.

O Interior Profundo é um livro onde a palavra órfã se torna carne e onde a escrita circula livremente.

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Sensibilidade e Bom Senso e o Patriarcado – Jane Austen parte II

Se clicares nas palavras que encontras a vermelho encontrarás novas ou revistadas leituras 📚🦊

Sensibilidade e bom senso  é escrita, ou sendo mais rigorosa, é esboçada no ano de 1797, com o título de Elinor e Marianne (que sem dúvida nenhuma é um romance epistolar), e é revista posteriormente em 1809 com a finalidade da sua publicação. Que tem lugar em 1811, mantendo o anonimato da escritora.

Neste romance Jane Austen coloca em cena duas heroínas com personalidades opostas: por um lado esta Elinor, jovem inteligente, um verdadeiro modelo de paciência, autocontrolo e moderação, do outro lado temos a sua irmã Marianne, uma romântica impertinente dotada de uma grande sensibilidade. A primeira esconde os seus sentimentos por Edward Ferras e a segunda aparece em público sem pudor algum na companhia de John Willoughby, um jovem sedutor e carente de moral.

Juntas experimentam as suas primeiras emoções amorosas quando descobrem que as duas pessoas por quem se apaixonaram estão comprometidas com outras mulheres. Marianne entregasse à pena e adoece. Contudo recupera e acaba por conhecer outro jovem que se apaixona por ela e com quem termina por casar tempo depois. Elianor mantém a sua dignidade até ao fim e para surpresa dela Eduard pede-lhe em casamento. Até aqui parece que vamos ler as histórias românticas das suas protagonistas mas…

Sempre há um ‘mas’ nos romances de Jane Austem! 

Sensibilidade e Bom Senso e o Patriarcado

Neste romance de Jane Austen podemos ver como há uma ausência total do patriarcado, que toma forma (ou não) no patriarca da família, as protagonistas crescem sem pai.

É interessante ver neste romance a morte do patriarcado e a posterior negação do seu sucessor em assumir o seu lugar.

Após a morte do Srª Daswood, Elinor, Marianne e Margaret ficam sem protector e o ser meio-irmão não serve para as proteger ou zelar pelo seu bem-estar. A tal ponto, que as protagonistas têm de abandonar o lar para que seu meio-irmão e a sua esposa o ocupem. É interessante ver neste romance a morte do patriarcado e a posterior negação do seu sucessor em assumir o seu lugar.

A autora expõe bem os problemas que surgem da falta de um patriarcado/patriarca em mentes mais sensíveis, como a de Marianne ou mostra como quase não afecta quando se tem uma mente prática e racional como a de Elinor. Colocando assim em evidência a educação recebida pelas mulheres. Isto acontece porque o Srº Dashwood deu uma educação racional, prática tornando-a numa adulta capaz de pensar e gerir a sua própria vida, a filha mais velha, Elinor. O mesmo não aconteceu com Marianne que teve uma educação conservadora acorde com os valores época.

Nas primeiras páginas do romance Jane Austen deixa claro esta diferença de carácteres e vemos como Elinor, perante a ausência do pai, assume o papel de cabeça de família. Vemos como esta personagem coloca em causa os comportamentos excessivamente sensíveis e apaixonados da irmã pois estes roubam-lhe a liberdade e a autodeterminação. Elianor não rejeita o amor ou apaixonar-se mas tenta que isso não lhe retire a sua autodeterminação de gerir a sua própria vida. Marianne perde o rumo e a saúde por entregar tudo em mãos do amor, percebendo após a doença que o amor não é perdesse a si mesma e sim encontrasse.

Austen tenta neste romance difundir ideias através das quais as suas personagens, em aparência conservadoras, promovam, com a sua atitude e raciocíno, uma mudança na vida das mulheres.

Seguindo as premissas que Wollstonecraft expõe em Uma Vindicação Dos Direitos Da Mulher, Austen reclama a eliminação do patriarcado que confinava a mulher ao espaço privado e de submissão. Através de uma boa educação que procura fortalecer o corpo e instruir o coração, de maturidade, de racionalidade e independência, a autora consegue que as suas heroínas cresçam, e se desenvolvam longe da autoridade parental alcançando a sua autorealização pessoal, evitando que simplesmente passem da tutela de um pai para a tutela de um marido.

Tal como Wollstonecraft, Austen não acredita em heroínas com poder ou autoridade sobre os homens mas sim sobre elas mesmas para que tenham a capacidade de escolher o seu próprio destino, rejeitando o patriarcado que obriga a mulher à subordinação e ao nulo desenvolvimento intelectual e social.

Texto escrito

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Para celebrar o segundo aniversário da Confraria propusemo-nos o desafio de editar, alternadamente, jovens escritoras e resgatar autoras clássicas, um livro por ano.

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Vamos a isso?

O Interior Profundo de Diana Fontão é um livro que nos acompanha no caminho que seguimos e explora connosco as possibilidades em que nos vamos fragmentando nesse caminho.

A leitura torna-se uma viagem ao interior do ser humano, onde este se perde e reencontra várias vezes nos pensamentos sobre a vida, a morte, e sobretudo sobre as minudências e grandezas da humanidade.

O Interior Profundo é um livro onde a palavra órfã se torna carne e onde a escrita circula livremente.

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CICLO “25 DE ABRIL, 25 MULHERES, 25 LIVROS” (Dia #2)

Sou uma princesa do pior e tu?

Quando era pequena aborrecia-me imenso, tal como a Mérida,  com as histórias tradicionais de princesas (só para situar, cresci na década de 80) . Mas a minha mãe, que tinha algo de bruxa e algo de fada (por isso fazia magia como ninguém), acabava com ao meu tédio contando-me histórias com o “pano de cozinha mágico” (era um pano de cozinha com vocação de tapete de histórias).

Naquele pano de cozinha, que tão bem guardo na memória do coração, habitavam “princesas” que voavam em dragões, que viajavam em submarinos e davam a volta ao mundo num balão.

A minha mãe sabia das coisas! :)

Eu adorava essas princesas que habitavam o pano de cozinha da minha mãe, elas como eu, adoravam vestidos cor-de-rosa (costurados pelas avós), esmurrar os joelhos a andar de skate e a descer rampas, na máxima velocidade que as pernas permitissem, em bicicleta.

Elas, como eu, ficavam danadas da vida quando lhes diziam que eram umas “Princesas do Pior” só porque adoravam brincar aos berlindes (eu ainda guardo uma pequena colecção) e ao pião (o meu era todo colorido)… Também detestavam, tanto quanto eu, esse olhar moralista sobre elas, por terem o lindo vestido sujo de brincar nas pistas espectaculares de carros. “É tão Maria rapaz!”, diziam como se não estivéssemos a ouvir!

Nem elas, nem eu éramos Marias rapazes. O que isso de ser Maria rapaz?!!!

As Marias rapazes e os Mariquinhas (a versão de insulto para rapazes que não são pestes e que também gostam de brincar com bonecas) não existem!!!!!

Caso fossemos (ou sejamos) alguma coisa, as minhas princesas e eu, seriamos Marias Capazes como diz a canção da Capicua (não sei vocês mas eu a d o r o a Capicua!) ou meninas aventureiras, que é o que minha mãe me dizia (e diz) para me reconfortar das “bocas” despropositadas dos adultos cinzentos (leia-se: adultos sem noção).

Já deu para reparar que eu não gosto nada, mesmo nada, de o adjectivo (des)qualificativo Maria rapaz!?!?!

Mas gosto muito, muito do Livro do Dia de hoje porque narra a história de uma princesa como as princesas da cozinha (era lá que se cozinhavam os meus contos favoritos) da minha infância. Só não gosto muito do título, apesar de perceber a ironia do mesmo: “Uma princesa do Pior”. Gostava mais que o tivessem traduzido como na versão espanhola: “Uma princesa Rebelde”.

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Foto: Nuno Fangueiro

Somos Marias rapazes, Princesas rebeldes ou Princesas do pior, como a Pipi das Meias Altas, a Ana dos Cabelos Ruivos, a Jo das Mulherzinhas ou a Maria (personagem do livro de hoje) todas as meninas e todas mulheres que queremos viver aventuras como o Tom Sawyer ou ser as capitãs de submarino ou dar a volta ao mundo sem Willy Fog…

Queremos e fazemos, e por fazer somos Marias rapazes do pior.  Pois então, digo e repito (todas as vezes que for necessário) o que nós somos ( se é que temos de ser algo) é  c a p a z e s.

Capazes, como a Maria do livro “Uma Princesa do Pior”, de viver a vida que queremos para nós e não a que nos querem impor. A Maria, como eu (e como muitas de vocês), veste vestidos rosas, roxos, amarelos, verdes e de todas as cores mas também esmurra os joelhos vivendo as 1001 aventuras que a vida tem para ela.

A Maria é a princesa que eu queria encontrar 
quando de pequena folheava os livros de contos de fadas. 

Por isso, este conto não é apenas para as pequenas Confreiras que estão fartas das princesas normais. Ou para as que estão cansadas das histórias tradicionais das princesas que encontram o seu príncipe ou para as que procuram uma princesa com mais “sal e pimenta”.

É também para as Confreiras adultas, que como eu, sentiram falta de mais Marias Capazes nos contos da sua infância e que sabiam que as Marias rapazes são ainda mais mitológicas que os unicórnios.

O que me dizem… vamos esquecer, pequenas e adultas confreiras, a preocupação por ser a mais bonita do baile (pode ler-se: da escola, do grupo de amigas, do ginásio…)? Ou de ter o maior número de vestidos (ou de sapatos)? Ou de ter um casamento de contos de fadas e ir aos grandes bailes?

Com a Princesa Maria só há aventura, malandragem 
e amig@s estranh@s. Ela é mesmo uma princesa do pior! 
Já estas com vontade de ler o livro? 

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Afinal, quem é que não quer ter um dragão que voa (eu também gostava de ter um macaco como o da Pipi ou um cavalo as pintas) como companheiro de aventuras?!

A Princesa Maria, tem ideias muito próprias sobre o que quer na vida e sobre como o obter. Sabe também que quer viver feliz para sempre e que não é um príncipe de nariz empinado que a vai impedir!

Numa linguagem feminista mas muito encantada o livro “Uma Princesa do Pior”de Sara Ogilvie e ilustrado por Anna Kemp vai levar-vos a explorar uma ideia diferente dentro de uma história conhecida.

E como diz a poetisa Regina Guimarães no poema-canção dos Clã :

Viva a Maria Rapaz 
E o rapaz que não é peste
Viva a roupa que baralha
O sexo de quem a veste 

Viva todo o arco-íris
E a cor que se mistura
Sete quintas, meias tintas
Viva a fúria e a doçura

E agora vamos ler o livro? :)

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#JUNTASCONTINUAMOSAFAZERACONTECER

Um abraço da vossa livreira vermelha,

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“Quem te ama não te agride!”

Nestes dias as redes sociais têm sido invadidas pela frase “Quem te ama não te agride!”. Mote da nova campanha contra a violência no namoro.

Infelizmente, no nosso país e nos dias que correm, ainda temos de suportar a lacra da violência em nome do amor (violência machista), quer seja física e/ou psicológica. E esta campanha torna visível que este comportamento violento em nome do amor, começa logo no namoro.

São muitas as mulheres (neste post vou só falar das mulheres que são vitimas, não negando que existem homens que são vítimas deste tipo de violência mas  para essas situações prometo trazer outras recomendações literárias) que padeceram e padecem violência nas suas relações afectivo-sexuais e muitas, as que por medo, não se atrevem a conta-lo. Por e para elas, a sociedade continuam a encontrar caminhos para erradicar de forma definitiva este tipo de violência.

Os livros também podem ajudar a combater estas situações por isso, aqui fica a minha (primeira*) recomendação literária para as mulheres (especialmente para as adolescentes e jovens) que procuram o verdadeiro amor: O Amor Próprio.

Um livro que pode ser inspirador e acompanhar no caminho da auto*descoberta que apela à reflexão sobre as fronteiras do sonho e da realidade, da infância e da maturidade.

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Idade recomendada para a sua leitura: qualquer idade, especialmente os 14 e 15 anos.

“A Princesa que não acreditava em contos de Fadas”

Li este conto quando tinha uns 17 anos e com essa idade confesso que me fez ver o meu pequeno mundo desde outra perspectiva.

O livro narra as aventuras da Victoria, uma princesa educada por uns pais rígidos e pouco permissivos. Criada neste ambiente conservador, Victoria deseja sair do seu núcleo familiar e construir a sua própria história com base nos contos de Fadas que lhe contavam de pequena.

Junto com ela temos a sua amiga imaginária Vicky (sempre tive fascínio pelos amigos imaginários, acho que tod@s devíamos conservar um), uma espécie de alter ego que a acompanha nas suas aventuras e lhe mostra o seu lado selvagem, rebelde e sincero.

Com o passar do tempo, a Victoria vai conhecer aquele que pensa ser o amor da vida dela, o seu príncipe azul, um homem idealizado pelos contos de fadas: atractivo, bondoso, carinhoso…. Mas após alguns anos de vida conjugal, a Victoria e a Vicky descobrem que o seu “Príncipe Azul” é mais do tipo Mister Hyde.

Assim sendo, começam uma trepidante aventura onde, junto com um grupo de personagens animadas que as guiam durante o seu percurso. Vão aprender a amar-se a si mesmas e descobrir que o verdadeiro amor é o amor por uma mesma; vão descobrir a força interior, a sua vitalidade e viver de forma independente.

Este conto (de fadas) recorda-nos que a felicidade nem sempre anda de mãos dadas com um “Príncipe azul”, mas é sempre trazida pela nossa própria mão quando sabemos dizer “basta”.

Espero que desfrutem da leitura ou possam recomenda-lo/oferece-lo alguma mulher da vossa via. Se estiverem interessadxs podem adquirir o livro aqui »»

Um abraço da vossa livreira vermelha ;)

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*PS: Este primeiro post é dedicado a M. que tem uma filha adolescente que “perdeu a sua amiga imaginária” porque ficou encantada por um “príncipe azul”, que afinal não era tão azul.   Agora ambas (mãe e filha) andam a tentar reencontrar a ‘amiga imaginária’, da jovem, para poderem resgatar o amor próprio da jovem.

© Confraria Vermelha – Livraria de Mulheres, 2015