O olhar que Toni Morrison tem do mundo é intenso como o é a sua literatura

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“A culpa não é minha. Portanto não podem acusar-me. (…) Não demorou sequer uma hora depois de a terem puxado de entre as minhas pernas para se constatar que havia alguma coisa errada. Francamente errada. Ela era tão negra que me assustou.(…)”

Lula Ann é filha de uma negra de pele clara, que podia passar por branca; essa mulher é Sweetness, decide que a menina está marcada e decide protege-la escondendo a negritude de Lula, obrigando-a a passar desapercebida para que a menina não sofra.

Anos depois, essa menina, complexada é uma mulher negra espampanante, que triunfa como empresária de cosmética e como beleza exótica e “autobaptizou-se” de Bride.

Um dia Bride, decide visitar e levar uns presentes à mulher passou 15 anos na prisão graças ao seu testemunho (quando Lula era uma criança); Quando Bride se apresenta perante ela, a mulher agride-a e Bride acaba seriamente ferida no hospital. Ao mesmo tempo o seu amante, deixa-a dizendo-lhe apenas: “Não és a mulher que quero”.  Bride perde o chão e a autoestima dissipa-se, só lhe resta a “amizade” de Brooklyn, a sua mão direita na empresa e que não pensaria duas vezes em substituí-la.

Deus ajude a criança tem um começo simples, Toni Morrison tece um história que, que como em outros livros, é breve mas certeira. É o primeiro livro que leio da escritora e senti que a escrita de Toni Morrison é clara, esse tipo de escrita que consegue ir ao essencial de uma cena dramática sem necessidade de perder tempo com embelezamentos.

Uma escrita afinada com essa perícia que só encontramos nas escritoras essencialistas na sua busca de claridade através da depuração de seu estilo; e não há nada mais escuro e substancial ao mesmo tempo do que a claridade. Ao ler Deus ajude a criança  senti que a escrita de Toni Morrison é limpa como a chuva. A fórmula é simples: seleciona os únicos momentos que têm sentido, define-os com uma precisão rara e os motivos selecionados (sentimentos, lembranças, dor, abandono, etc.) são escolhidos pela sua capacidade de ser significativos.

A história é a do reencontro com os fantasmas da infância, aqueles que condicionam uma vida até que a personalidade e o carácter se unem para tomar uma decisão, consciente ou semiconsciente, mas corajosa, de superação. Lula-Bride só encontra paz (ou seja, a ela mesma) quando consegue olhar a sua infância, a falta da sua infância, uma falta que cometeu para pedir amor mas que teve consequências graves em pessoas alheias.

Deus ajude a criança é um romance pleno: desde a forma como Sweetness abre e fecha a história, ou a forma como Brooklyn acompanha Bride ou a forma como Queen Olive a recebe como sendo uma representação da vida. Toni Morrison tem um descarado e maravilhoso uso dos símbolos (as mamas e os furos das orelhas, o pelo púbico que desaparece misteriosamente quando Bride volta a ser a menina Lula Ann e que reaparecem quando ela se descobre a si mesma). E o que dizer do encontro fantástico com a menina Rain, que vive na rua:

“Ao ouvir aquela miúda que não perdia tempo com autocomiserações, sentiu uma camaradagem surpreendentemente livre de inveja.” (pág.95)

O olhar que Toni Morrison tem do mundo é intenso como o é a sua literatura.

Deus ajude a criança é uma boa sugestão para o mês de Janeiro do desafio de leitura 2017 Mulheres de Palavra.

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O clube de leitura As Leitoras de Pandora atravessou o meu 2016

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O clube de leitura As Leitoras de Pandora atravessou o meu 2016. As Pandoras não só me ofereceram a companhia de pessoas que gostam de ler, mas também uma forma de aprofundar a compreensão dos livros que partilhamos ao longo de 2016.

É fantástico encontrar-nos mês a mês e perceber que existiram momentos, dependendo da forma como li ou onde me encontrava quando estava a ler, em que estava focada numa parte do livro, enquanto outra pessoa notou algo que a mim me passou despercebido.

A experiência das As Leitoras de Pandora tem sido tão enriquecedora que motivou o nascimento do Círculo de Leitura &Tertúlia online, um grupo de discussão online onde será possível partilhar ideias sobre livros com pessoas que de outra forma nunca se poderiam encontrar no mesmo espaço periodicamente.

Ao longo dos meses de 2016, a cada encontro, fui percebendo como algo íntimo como a leitura é ao mesmo tempo algo exposto. Todas as pessoas que gostamos de ler, em algum momento, imaginamos pertencer a um clube de leitura… Imaginamos os encontros, os livros que vamos ler, as partilhas que vamos realizar, cada detalhe. O que eu não imaginava era que cada encontro terminasse por ser tão emocional, que existisse uma verdadeira relação entre as pessoas que gostam de ler, e que os livros acabassem por ser muito especiais e pessoais para cada leitora/Pandora.

Sem dúvida ler é uma experiência pessoal, mas também é um acto de comunicação com palavras partilhadas/públicas.

Acho que é isso o que torna um clube de leitura tão poderoso e especial: ler é algo íntimo e exposto ao mesmo tempo. Ler pode ser uma forma de escape ou uma fonte de conforto. Há livros que me acompanharam em momentos difíceis e outros foram companheiros de momentos hilariantes.  A leitura pode, de facto, mudar a nossa vida, logo um clube de leitura também pode fazer parte dessa mudança.

A quem nunca participou num clube de leitura, dizer-vos que depois de participar num encontro, é muito improvável que o clube tenha qualquer influência sobre vocês num primeiro encontro.  Nesse sentido, ofereçam-se a vocês mesmas a possibilidade de participar em mais algumas sessões/leituras para ver o que vos pode dar. Em cada livro/encontro existe um mundo para explorar, no qual poderão encontrar pessoas e ideias que nunca entrariam na vossa vida de outra forma.

O mais valioso que As Leitoras de Pandora me ofereceram ao longo de 2016 foi sair de cada leitura/encontro com o cérebro mais aguçado,  os instintos emocionais fortalecidos e pronta para lidar com o mundo real e com o que ele tem para dar.

LIVROS 2016 das LEITORAS DE PANDORA

Pandoras: 
Qual foi o livro que mais gostaram? 
O que menos gostaram? 
Qual a personagem com quem mais se identificaram?

Vou adorar ler-vos nos comentários :)

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Voltei a ler Mulherzinhas pt.3 : Eu também me chamo March

transferir-1Na minha partilha anterior, sobre a minha leitura do livro Mulherzinhas no clube de leitura – As Leitoras de Pandora, partilhei a minha ideia de que Marmee, a mãe das irmãs March, é na minha opinião a chave para compreender tudo o que fervilhava na cabeça da Alcott adulta: algumas vezes apoia a rebeldia da sua filha Jo e outras vezes o convencionalismo da Meg. Nunca sabemos se Marmee é uma rebelde silenciosa ou uma mulher cheia de contradições: provavelmente ambas coisas tal como Alcott.

Através de Marmee temos um mapa para nos aproximarmos da Alcott adulta, e através das quatro irmãs adolescentes podemos aproximar-nos da infância e adolescência de Alcott e desemaranha as partes positivas, assim como as desagradáveis dessa época.

 O que há de interessante nas quatro obedientes e doces jovens March

Para começo de viagem literária, temos a guerra como cenário perfeito para que os homens desapareçam de cena. O señor March permanece ausente até mesmo quando regressa do combate, e elas (assim como as leitoras e leitores) não precisam dele para coisa alguma, pois é Marmee, Meg e Jo quem trabalham e trazem dinheiro para casa. Isto podia ser empoderador, por isso temos que fazer com que não pareça emancipatório: para isso, temos as cartas do pai, onde este escreve as suas filhas e lhes diz o que espera delas.

Depois temos a rebelde Jo e o fato de mulher que não lhe acaba de servir. Para que o pai possa regressar Jo corta o seu longo e bonito cabelo. A característica da sua feminidade, todas as personagens elogiam a sua cabeleira… mas Jo querer fazer acontecer, querer ter a iniciativa, a voz, a palavra, querer ajudar a família por isso decide vender o seu cabelo. Mas este ato não é apenas uma atitude sacrificada e bondosa por parte de Jo é também a forma que ela encontra de cortar com os convencionalismo da feminidade. Desvinculando-se assim da única qualidade feminina que a caracterizava pois Jo é a única personagem puramente rebelde. O corte de cabelo é algo que o pai não aprova, apesar de ser ele a razão indireta para que Jo tome a decisão. Uma no cravo e outra na ferradura: Jo consegue cortar o cabelo sem chamar muito atenção, transformando o seu ato de rebeldia numa ação heróica contudo o pai não aceita totalmente a mudança.

O lar e as March

As tarefas domésticas, que parecem ser super fáceis e naturais para as mulheres ficam em evidência. As quatro irmãs não sentem qualquer interesse por passar a vida a limpar. As quatro irmãs mostram-nos que não nasceram com nenhuma predisposição natural para as tarefas domésticas e não possuem qualquer poder divino para as desenvolver. Confirmamos então que as mulheres não nascem com um chip especial para as tarefas domésticas e que apenas as desenvolvem com alguma destreza  porque lhes foram impostas socialmente. Água mole em pedra dura…

Claro que em 1868 Alcott não podia deixar que quatro jovens fossem simplesmente preguiçosas sem lhes cair o carmo e a trindade em cima, por isso, Marmee chama a tenção das jovens para o facto de que se deixam de limpar e arrumar a casa fica um caos. Depois do pequeno sermão as irmãs voltam a cumprir com as suas tarefas. Contudo, mesmo corrigindo a suposta preguiça da jovens com uma reprimenda materna, Alcott montra-nos que por trás da preguiça das mulheres em realizar as tarefas doméstica pode estar, e está muitas vezes, o esforço que uma mulher faz para cumprir (também) com os trabalhos domésticos.

Marmee é uma personagem que me faz pensar e observar. Marmee é uma mulher obediente, serviçal, boa. Um sonho para o patriarcado. Mas há um momento no qual se confessa e nos mostra que não é perfeita. Ela desabafa com Jo mostrando-lhe que sente e pensa como a filha em muitos pontos mas não conseguiu soltar totalmente o espartilho social que lhe vestiram quando nasceu e gritaram: é menina. O espartilho, neste momento da história,  é representado pelo pai/esposo que está sempre a pedir moderação as suas filhas e a sua esposa. Penso que a personagem de Jo de certo modo dá continuidade as pequenas conquistas quotidianas de Marmee, talvez por isso mesmo, a mãe valorize tanto a educação das filhas, especialmente a da Jo, com a esperança que seja o caminho para outras possibilidades.

A maternidade e o casamento

Jo é sem dúvida a irmã e a personagem, mais efusiva e atractiva. Alcott reservou para ela a capacidade intelectual. Das quatro irmãs é a que questiona, a que argumenta, a que não aceita nada a primeira. Jo não querer ser mãe, não querer ser esposa, muitas vezes não é uma boa irmã e esforçasse muito para ser uma boa filha. Jo não aceita todos os deveres e direitos que estão associados ao feminino, por isso, como ato de rebeldia masculiniza o seu nome: Jo, de Josephine ( tal como autora faz com o seu: Lou, de Lousia); corta o cabelo, querer ir para a universidade (como Laurie), anseia ser escritora, viajar.. Tem como referente Shakespeare o que nos mostra a rebeldia e a ambição do seu carácter, através das brincadeiras de teatro familiar Jo é sempre a personagem masculina revelando-nos o seu carácter passional inusual  nas mulheres da época.

Quando penso em Jo, penso nos milhares de jovens mulheres que leram Mulherzinhas e ficaram fascinadas com Jo, tomando-a num referente mesmo sendo das irmãs a que causa mais controvérsia e  a que mais vezes é castigada. Mas é em Jo na qual todas confiamos, até a própria Alcott. Atrevo-me a dizer que Alcott para ser mais honesta com a realidade e a sociedade em que viveu atribui as restantes irmãs os convencionalismos da época e à mãe a confusão e a dúvida para libertar assim a Jo. Como se Meg, Amy e Beth fossem o que existe (passado) e Jo o que pode existir (futuro) e Marmee está no meio (presente) tentando conciliar e (r)exitir.

Ler Mulherzinhas hoje

Para entender este lado rebelde, empoderador e feminista de Mulherzinhas temos que esquecer a sociedade atual, que mesmo arrastando certas heranças já avançou imenso desde a sociedade das irmãs March. Há que colocar a família March no contexto e compreender que a mãe imperfeita e a filha rebelde que Alcott descreve não eram  comuns em 1868. As donas de casa não se mostravam imperfeitas e as jovens não eram rebeldes perguntadeiras de tudo.

Ler Mulherzinhas, no momento certo faz-nos sonhar com ser Jo March, se lermos fora de tempo e sem o distanciamento necessário vamos irritar-nos com Jo e com todas as personagens e nunca vamos perdoar a Marmee por algumas das suas contradições. Por isso, é necessário ler Mulherzinhas com distanciamento da nossa época e empatia com as mulheres 1868, que viviam num sociedade bizarra, onde a mentalidade era cheia de injustiças e desigualdades.

Alcott tinha o seu ás de rebeldia e empoderamento em Jo. Mas não podia ser injusta e esquecer todas as Megs que tinha ao seu redor, nem todas as mães que tentavam domar o seu carácter nem o perfil angelical das Beths. E em 1868 a mulher tinha de ser boa, se assim não fosse as punições podiam ser infinitas, Alcott não podia ignorar isso, talvez por isso as personagens de Mulherzinhas são doces e meigas e por vezes desesperadamente moderadas, subtis na sua revolução mas não menos cativantes.

Espero por vocês no clube de Dezembro e com as vossas Mulherzinhas.

Voltei a ler Mulherzinhas pt.1: Feminismo e rebeldia

Voltei a ler Mulherzinhas pt.2: As influências de Louise May Alcott

Voltei a ler Mulherzinhas pt.4: Pickwick Club: Mulherzinhas foi um livro censurado

 

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Voltei a ler Mulherzinhas pt.2: As influências de Louise May Alcott

Eu cresci tal como Alcott, rodeada por mulheres. E entre as mulheres que nos rodeiam há aquelas que sobressaem para nós. Na vida de Alcott a mulher que sobressaiu e que para Alcott é um referente chama-se: Margaret Fuller

Louisa May Alcott, vê em Margaret Fuller  um exemplo a seguir, uma mãe, uma mentora. Fuller defende  principalmente a sua individualidade como ser humano. Uma mulher não precisa um pai-irmão-marido. A esfera doméstica combinada com os restantes aspetos da vida é o que Fuller querer para a sua vida e para todas as mulheres.  Desejava que a vida familiar e a vida pública se unissem para abrir caminho a uma cidadania da qual as mulheres fizessem parte. Também desejava que as mulheres fizessem parte da esfera artística com a mesma igualdade de oportunidades e reconhecimento. Fuler e Alcott tiveram uma formação masculina: tiveram acesso a todos os livros, a toda a cultura mas ninguém as advertiu que depois não podiam usá-las para nada.

Fuller ficava entediada com os transcendentalistas, que permitiam o desenvolvimento pessoal da mulher com o único objetivo de agradar aos homens da sua vida. Para Fuller a mulher deveria procurar o desenvolvimento pessoal para si mesma, para sua própria riqueza, ela achava que as mazelas na saúde física e emocional das mulheres eram o resultado da depressão e da falta de vida própria e ativa. Todo este olhar feminista de Fuller foi se colando na pele de Alcott que não hesitou em adotar todos esses conhecimentos e fazê-los seus.

Ambas nasceram no seio de uma casamento pouco feliz (ou nada), com um pai dominante e uma mãe branda. Foram educadas para ser ‘filhas do pai’, por isso não o queriam defraudar mas também não se queriam submeter, contudo não tinham as ferramentas sociais necessárias para este equilíbrio e autonomia.  Tinham de trabalhar como um homem mas não podiam ter os benefícios e direitos dos homens. Por outro lado, e aumentando ainda mais a tónica destas contradições, elas próprias não se identificavam com a definição de (boa) mulher que existia. O vestido de mulher que lhes queriam vestir não lhes assentava na pele. Elas queriam outro.

Abba, a mãe de Alcoot, transmitiu-lhe a ideia de que o homem era um ser egoísta no qual não se podia confiar. Podemos perceber, através dos seus diários  por exemplo, que Alcott tinha certa aversão sexual, e que ao mesmo tempo que os ensinamentos de Fuller brotam nela, a vida cinzenta de Abba, também deixava a sua marca. Abba teve 8 gestações, quatro foram raparigas (uma delas Louisa May Alcoot). Na época ter ou não filhos raramente era uma decisão da mulher, havia gestações difíceis – muitas eram causa de morte – e partos complicados devido as condições de saúde da época. Demasiadas vezes o sexo e o prazer feminino se transformavam em dor ou confusão. O casamento era sinónimo, demasiadas vezes, de escravidão, desilusão e morte.

Venceu o lado feminista 

A Lou May Alcott adulta, foi em 1878 a primeira mulher de Concord em se inscrever no censo eleitoral, e por isso, foi escolhida como secretária do comité das sufragistas. Todas estas vivências, como se pode intuir, foram colocadas na sua escrita. Contudo estas ideias e sentimentos não podiam aparecer livremente, nem sequer nos seus diários pessoais Alcott expressava tudo com pura claridade, pois estes eram sistematicamente revistos pelos seus pais. Alcott habituou-se desde cedo a velar pela sua intimidade e a camuflar-se entre o pensamento formal da época, é por isso que pode ser difícil encontrar numa primeira leitura o discurso feminista em Mulherzinhas.

A harmonia existe tanto nas diferenças quanto nas semelhanças,
se ao menos a mesma tónica governar as duas partes.
                                   Margaret-Fuller

Marmee, a mãe das irmãs March, é na minha opinião a chave para compreender tudo o que fervilhava na cabeça de Alcott: algumas vezes apoia a rebeldia da sua filha Jo e outras vezes o convencionalismo da Meg. Nunca sabemos se Marmee é uma rebelde silenciosa ou uma mulher cheia de contradições: provavelmente ambas coisas tal como Alcott.  E é, esta humanidade contraditória o que mais me cativa em Mulherzinhas.

Brevemente

  • Voltei a ler Mulherzinhas pt.3: Eu também me chamo March
  • Voltei a ler Mulherzinhas pt.4 : Pickwick Club: Mulherzinhas foi um livro censurado 

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Voltei a ler Mulherzinhas pt.1: Feminismo e rebeldia

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Um clube de leitura para quem gosta de ler, comer e conviver. Esperamos por ti :)

As quatro irmãs March —Meg, Amy, Jo y Beth— são perfeitas que até metem raiva. Há quem diga que a idade perfeita para ler Mulherzinhas é aos treze, catorze anos de idade. Eu concordo e discordo por muitas razões mas não me apetece falar delas agora, talvez outro dia.

Voltando as irmãs March… Elas são ingénuas, sensíveis, responsáveis e sensatas até nos levarem a loucura. Todas as ações equivocadas são corrigidas e toda a conduta duvidosa é colocada em quarentena por alguma das personagens secundárias.

O clube de leitura e o meu regresso à casa da família March

Li Mulherzinhas quando tinha 14 anos, depois voltei a ler quando tinha 23 e agora aos 35 volto a elas, as irmãs March. Ler aos 35 anos permitiu-me me fixar em lugares nos quais passei sem olhar quando tinha 14 e ao de leve quando tinha 23. A leitura adolescente não me deixou parar em certos lugares, como por exemplo, no feminismo.

É verdade, que  todas as mulheres deste livro são repugnantemente dóceis e respeitáveis, socialmente falando. A submissão feminina está marcada e presente na casa da família March contudo podemos constatar que a autora, Louise May Alcott, traçou uma personagem e certas atitudes reservadas para o feminino que ajudaram a  abrir espaço a uma pequena revolução dentro da sua realidade e da sua época.

Se já leram Mulherzinhas, devem estar a pensar que estou a falar de jovem Jo March, que combate o sistema patriarcal normalizado, com a sua rebeldia e constante questionamento mas não só a Jo luta contra o patriarcado com as armas que dispõe e da forma que a época lhe permite (séc. XIX). A mãe das jovens March, Marmee,  também tem atitudes elogiáveis. Atrevo-me a dizer que a mãe das jovens espelha uma parte da faceta ativista de Alcott que participou em movimentos reformistas que defendia a abolição da escravidão e apoiava a luta pelos direitos da mulheres e a reforma educativa.

Em Mulherzinhas vemos uma Alcott, que desejava a alfabetização feminina,
 a solicitação do divorcio por parte das esposas,
a diminuição da taxa de natalidade
e a defesa da igualdade intelectual entre homens e mulheres. 

Alcott: profissão escritora

Alcott não só era menosprezada por ser escritora num mundo no qual a literatura é um espaço de homens como também se teve de defender por escrever relatos ou literatura juvenil. Atrevo-me a dizer que certos preconceitos ainda existem nos dias de hoje!

Escrever um livro como Mulherzinhas é, muitas vezes, considerado um trabalho pouco sério. Alcott escreveu ao longo da sua vida vários contos para adultos nos quais há mistério, narcóticos, lutas de poder, assassinatos… E nos quais, apesar de não ser comum na época, as mulheres sempre saiam vitoriosas. Contudo, a grande maioria destes escritos, foram publicados com pseudónimo, devo salientar que o seu feminismo pessoal, o da Alcott individual, é muito mais notório nas obras que não assina com o seu nome. Pois quando não se refugiava no anonimato era-lhe mais difícil mostrar as suas ideias, por isso elas apareciam veladas, é o caso da obra Mulherzinhas.

Em Mulherzinhas vemos uma Alcott (vemos a sua pegada feminista), que desejava a alfabetização feminina, a solicitação do divorcio por parte das esposas, a diminuição da taxa de natalidade e a defesa da igualdade intelectual entre homens e mulheres.

Feminismo e rebeldia

Em certas épocas da histórias as mulheres pensaram que a melhor revolução é a que não parece uma revolução. A época na qual cresce Alcott (Filadélfia, 29 de Novembro de 1832 — Boston, 6 de Março de 1888) é uma dessas épocas. Cheia de subtilezas, na qual o feminismo é forte e efetivo mas silencioso. Republican Mother é uma invenção das mulheres e das mães da época de Alcott para se abrirem caminho num mundo de homens. Um dos pontos de luta da Republican Mother era a educação. Se a maternagem  e o futuro das novas gerações passava pelas suas mãos, elas, as mães, ou seja as mulheres, deviam ter uma boa educação. Claro que travar uma revolução sem que pareça uma revolução é uma faca de dois gumes mas era a arma que as mulheres tinham nesse momento e se para continuar a caminhar em direção a uma autonomia e a um conjunto de direitos, a tinham de a usar, usavam-na.

Sabiam que ao mesmo tempo que era uma estratégia também podia ser uma armadilha, uma armadilha com duas perspectivas e ambas perigosas: por um lado , o homem não podia negar-se, era algo respeitável e favorecia os varões; por outro lado, este argumento, continuaria a a projetar a mulher a partir do homem e para satisfazê-lo. Mas em cada época as mulheres lutaram com as armas que tinham e na época de Alcott a melhor arma para as mulheres, era fazer uma revolução sem que parecesse uma revolução. Ou isso acharam as nossas antecessoras. Eu desde as minhas liberdades muito lhes agradeço pelo conquistado e pela força e inspiração que nos legaram para continuar a lutar pela equidade e pelos direitos das mulheres.

Com a introdução das máquinas a mulher deixou de ser produtora, já não era necessária como mão de obra, por isso regressou (mandaram-na de volta) ao lar, a imobilidade. Quando as máquinas não existiam as mulheres eram necessárias. A mulher era consumidora mas também produtora, mas com a chegada das máquinas, as mulheres foram transformadas em seres dependentes do homem. Então as mulheres pensaram: O que é que nos permite sair de casa sem parecermos suspeitas? A igreja.

A religião ajudou a muitas mulheres a relacionar-se entre si, com a desculpa de rezar e fazer o bem. Sair para estas atividades permitiu a muitas mulheres saírem de casa sem ter de se justificar. Claro que era uma liberdade condicionada e a condição era a igreja.

A autonomia da mulher era conseguida em três situações, a morte do pai, ser solteira ou a viuvez. A menor de idade e a casada eram  femme covert; as restantes eram femme sole, ao segundo grupo, eram-lhes concedidos alguns direitos reservados aos homens: firmar contratos, fazer testamento… Sim, ser órfã ou viúva concedia direitos sociais e legais as mulheres que nunca usufruiriam se estivessem ao amparo de um homem. É nesta sociedade sem sentido e neste círculo macabro de direitos e liberdades no qual cresce Alcott.

Assim descobrimos através da obra de Alcott – Mulherzinas e Boas Esposas – uma época na qual só existem duas esferas: a masculina, que é pública e a feminina, que é privada. A maternagem, o doméstico, o quotidiano… tudo isto é o ambiente da mulher. Ou seja, true womanhood, o verdadeiro culto da feminidade – como se existisse uma falsa feminidade, que naquela época existia -.

Para se ser uma verdadeira mulher os requisitos eram simples: ser uma boa filha, uma boa irmã e principalmente uma boa esposa e mãe. O objetivo máximo era satisfazer o homem. Esta mentalidade é a que desenha os dois tipos de mulher na época: a mulher-anjo e a mulher-demónio. A Virgem Maria e Maria Madalena. E foi religião que na época permitiu que as mulheres saíssem das suas casa e das sua esfera privada! Estranhas contradições!

Mas é dentro desta pequena revolução que não parece uma revolução, que começa a melhorar a educação de mulheres e meninas. Porque se elas acedem a uma educação melhor, a uma educação igual a dos homens e meninos, podiam se transformar não só em melhores mães, responsáveis pela educação das suas crias, das futuras gerações do país, como também, em melhores esposas! Pensando nisto, os homens aceitaram, claro! Nenhum homem se podia recusar a ter uma esposa melhor, uma esposa a sua altura! Mas esqueceram-se de pensar que a educação faz dos seres humanos livres pensadores. As mulheres usaram a educação não só para saber ler e escrever mas principalmente para pensar por si mesmas não só na esfera privada mas também na esfera pública. O privado e o público começam a ser um só na vida das mulheres.

...com uma pequena revolução que não parecia uma revolução as mulheres
começaram a despertar e as coisas começaram a mudar.

Usaram a educação para pensar nessa divisão que faziam do coletivo, de um lado as esposas/mães e do outro as prostitutas/perdidas, e perceberam que as outras não eram o inimigo, todas eram vítimas do mesmo sistema que as invisibilizava e usava estivessem do lado que estivessem. As mulheres começaram a perceber que, mulheres e escravos são vítimas do mesmo homem branco, por isso não era difícil encontrar mulheres que defendiam o fim da escravatura. Defender a igualdade de raças, pensaram, estava intimamente ligado a igualdade de géneros, a educação permitiu que as mulheres intuíssem esta relação. Contudo, o sufrágio do homem negro chegou primeiro que o das mulheres brancas, negras ou de outra raça.

E assim, com uma pequena revolução que não parecia uma revolução as mulheres começaram a despertar e as coisas começaram a mudar. Alcott nasce nesta sociedade e cresce dentro desta revolução invisível mas palpável e a o registo disso podemos tê-lo , lê-lo e desfruta-lo em Mulherzinhas.

            to be continued…

Brevemente

  • Voltei a ler Mulherzinhas pt.3: Eu também me chamo March
  • Voltei a ler Mulherzinhas pt.4 :Pickwick Club: Mulherzinhas foi um livro censurado

 

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