flâneur, flâneuse, flâneuseando… O que é uma flâneuse?

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SUITE VÉNITIENNE (SUÍTE VENEZIANA), 1979, Sophie Calle

Uma das memórias mais vivas que tenho da minha infância, são os passeios com a minha mãe pelas ruas da cidade ao domingo de tarde. Passear pelas ruas em pausa, ver as montras das lojas em descanso, sentar-me na praça a ver as pombas ou comer um gelado nos domingos de verão, são recantos da memória construídos pelos meus pés.

A alegria de passear pela cidade na tranquilidade dos domingos de tarde na companhia da minha mãe é uma das memórias mais suaves e livres que tenho.

“Aspiro à liberdade de sair sozinha: ir, vir, sentar-me num banco do jardim de Tuileries e, principalmente, ir aos de Luxemburgo, apreciar as ornamentadas montras, entrar nas igrejas e nos museus e passear de tarde pelas velhas ruas. Isto é o que invejo. Sem esta liberdade, não é possível ser uma grande artista.”  

I Am the Most Interesting Book of All de Marie Bashkirtseff

Passear pelas ruas da cidade tornou-se um hábito que ainda cultivo.

Quando cheguei à adolescência queria experimentar caminhar sozinha pela cidade mas como muitas outras jovens, interiorizei as objeções culturais que ditam que as mulheres não devemos andar sozinhas. Eu sabia que eram objeções obsoletas e machistas mas tinham deixado em mim certos medos que são difíceis de desmascarar aos 15 ou 16 anos. Contudo e com medo, aventurei-me algumas vezes, caminhei por ruas que conhecia com detalhe o que me fazia sentir segurar mas esse não era o objetivo de deambular pelas ruas. Desejava descobrir recantos novos e não repetir os caminhos já explorados.

Não sei bem que idade tinha, suponho que uns 15 anos, quando convidei uma das minhas amigas para passear comigo, a A.
Ao início a  A. achava estranha a ideia de caminhar sem um motivo concreto parecia uma ocupação excêntrica, achava que era coisa de turista e nós não éramos turistas. Aos poucos a A. começou a achar graça e começamos a traçar percursos novos  a cada domingo.

Apesar de estarmos na década de 90’, e de homens e mulheres poderem passear e usufruir do espaço público em idêntica liberdade (já não precisávamos de nos vestir de homens como George Sand), uma mulher a deambular pelas ruas ainda conservava um elemento transgressor para duas jovens, acho que era isso o que mais agradava a A..
A absoluta liberdade que reside no acto de colocar um pé na frente do outro.

Wanderlust : A History of Walking de Rebecca Solnit
descobre este livro aqui

Em 1997 conheci o R., tinha vindo para o Porto estudar… numa tarde sentados num banco de jardim perto da escola onde estudávamos, partilhei com o R. a minha visão da cidade, uma cidade que memorizei com os pés. Todas as esquinas, ruelas e escadas têm a capacidade de estimular a minha imaginação. Pouco tempo depois dessa conversa de jardim, caminhávamos juntos pela cidade. Era o meu primeiro companheiro de passeio homem.

Nessa época cada passo que dava recordava-me que o dia me pertencia e não tinha motivo para permanecer num sítio que não desejasse estar. Mas também, foi nessa altura que compreendi as implicações de género no acto de caminhar pela cidade (pela natureza, pelo mundo…).

Na companhia de R. experimentei uma invisibilidade que não tinha experienciado na companhia da minha mãe ou de A..

O R. era invisível quando passeava e ao caminhar junto dele eu também me tornava invisível. Nunca tinha parado para pensar nestas questões de visibilidade mesmo tendo desejado muitas vezes ser invisível enquanto caminhava pelas ruas da cidade. Estávamos às portas de entrar num novo século mas uma mulher sozinha caminhando pelas ruas sem um motivo concreto ainda estava carregado de estereótipos que se acentuavam quando as ruas estavam meio vazias ou quando o fim do dia se aproximava.

Flaneuse : Women Walk the City in Paris, New York, Tokyo, Venice and London de Lauren Elkin
descobre este livro aqui

Comecei à procurar de referências e referentes de mulheres que passeavam pelas ruas das cidades, tinha a certeza que existiam mas antes de me encontrar com elas conheci vários flâneurs: Baudelaire, Balzac, Constantin Guys, Edgar Allan Poe, André Breton entre outros. Uma lista interminável de homens, parecia que tinham apagado as mulheres e tornava-se difícil entender o significado que tinha para uma mulher o acto de passear pelas de cidades (pela natureza, pelo mundo…). Foi quando compreendi que a solução não estava, nem está, em fazer que a mulher se ajuste a um conceito masculino (flâneur) mas sim redefinir o conceito em si. Foi assim que me encontrei com as Flâneuses:

  • Marieanne Breslauer
  • Laure Albinguillot
  • Ilse Bing
  • Germaine Krull
  • Georg Sand
  • Jean Rhys
  • Marie Bashkirtseff
  • Agnes Varda
  • Sophie Calle
  • Martha Gellhorn
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Marianne Breslauer. Fotografías 1927-1938 | Museu Nacional d’Art de Catalunya

E de uma recordação foi como hoje nasceu a estante Flâneuse – literatura de viagens e outros passeios. 

Flâneuse [flanne-euhze], substantivo, do francês. Forma feminina de flâneur [flanne-euhr], uma ociosa, uma observadora minuciosa, geralmente encontrada nas cidades. Na estante Flâneuse encontramos literatura de viagens e outros passeios.

Já seleccionamos alguns livros que podem ver na estante virtual e no decorrer dos próximos dias vamos acrescentando mais. Fiquem atentas/os!

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