Qual o significado da palavra «antepassada» para as novas gerações?

No contexto deste livro “antepassadas” não faz referência simplesmente as pessoas que nasceram antes de nós, mas sim, as pessoas do género feminino que contribuíram de uma forma essencial para o desenvolvimento científico, tecnológico e cultural. Este livro está destinado principalmente a ser um referente para as novas gerações e para mim (e espero que para ti) um agradecimento às gerações passadas que nos abriram caminho. Não me canso de repetir (para não me esquecer) que ‘porque foram somos e porque somos serão’.

As Cientistas de Rachel Ignotofsky (2018, Bertrand Editora) é o que eu gosto de chamar de livro-memória, um livro que nos ajuda a todas (e a todos) a ser conscientes (e a não esquecer) as contribuições, neste caso científicas, que fizeram as nossas antepassadas desde os séculos antes da era cristã até ao século XXI. Numa época histórica na qual pertencer ao género feminino se vê como um impedimento para qualquer tipo de desenvolvimento intelectual. Conjugo no presente porque como disse Audre Lorde, “Eu não serei livre enquanto houver mulheres que não são, mesmo que as suas algemas sejam muito diferentes das minhas”, mesmo estando no século XXI muitas irmãs não têm as mesmas oportunidades nem direitos do que eu a aceder a uma educação justa e livre, por isso vou continuar a conjugar a desigualdade no presente do indicativo.

Durante séculos as mulheres estivemos excluídas.

No passado as que destacavam pela sua sabedoria eram consideradas bruxas e eram queimadas na fogueira, mesmo quando se aboliu esta persecução, tão feroz como absurda, os filósofos e cientistas, incluídos os conhecidos como «ilustrados», continuaram a alimentar o mito da absoluta superioridade intelectual masculina. Na maioria dos casos não se reconhecia o contributo das mulheres e muitas vezes quando se admitia considerava-se que tinham tido a influência dos pais, irmãos ou maridos: ou seja, figuras sempre pertencentes ao género masculino.

Na realidade, ao longo da história assim como na época atual as mulheres temos contribuído para o desenvolvimento da ciência tal como o homem, contudo foi-nos exigido mais, nomeadamente conciliar as nossas carreiras com o papel de género de mulher e de mãe, em resumo de cuidadoras. Outro dos obstáculos que tivemos que ultrapassar durante milénios foi o impedimento a termos acesso ao conhecimento e a educação, justificando esta proibição com o facto de apresentarmos, geralmente, menor força física (sermos seres frágeis) como se existisse uma correlação com a força física e as capacidades intelectuais.

As personalidades femininas contempladas neste livro confirmam que as suas capacidades intelectuais não são monopólio do género masculino e podemos também constatar que as mulheres também apresentam uma excelente capacidade de adaptação às condições ambientais. As mulheres conseguimos desenhar o nosso próprio caminho no universo das ciências, como em todos os outros, um universo que pertencia a uma elite sociocultural e de género que podia contar com tutores e apoios vários.

Maria Rouco lê o texto de uma jovem cientista. Obrigada à Maria Rouvisco Monteiro por ter partilhado desde a Antártida o seu testumunho como mulher cientista.

As mulheres que descobrimos neste livro alcançaram grandes feitos assim como muitas outras mas só um número reduzido alcançou o reconhecimento internacional como por exemplo, receber o prémio Nobel, criado em 1901 e que só um 4% dos premiados na área das ciências são mulheres. Este reduzido reconhecimento coloca em evidência o desconhecimento e a reduzida valorização das contribuições das mulheres nos diferentes âmbitos da ciência.

No contexto da Conferência Mundial sobre a Ciência (1999), os estados participantes manifestaram a urgência de garantir a igualdade ao acesso a educação que ainda hoje não é real nem sequer nos países que apresentam um notável desenvolvimento cultural.

O manifesto apresentado alertava que: “Se desejamos que a ciência seja orientada verdadeiramente de forma a satisfazer as necessidades reais da humanidade, é urgente alcançar um equilíbrio na participação de ambos géneros nos diferentes âmbitos da ciência e no seu progresso.” Hoje a presença das mulheres confirma que a capacidade de produzir ciência é um contributo próprio da espécie humana sem distinção de género, classe ou raça sempre que todas e todos tenhamos as mesmas oportunidades de acesso ao conhecimento.

Com este livro-memória e com muitas outras acções para a igualdade desejo que as novas gerações desfrutem do direito, independentemente do seu género, classe ou raça, a utilizar com liberdade as suas próprias capacidades intelectuais.

Um direito que foi negado às nossas antepassadas.

Queria terminar esta partilha agradecendo a presença (da direita à esquerda) da Aline Flor, Jornalista, da Maria Rouco, Contadora de Histórias e da Helena Ferreira, colaboradora do blog Cientistas Feministas nesta tarde de sábado do mês de Abril. Obrigada por terem partilhado com todas as pessoas presentes a vossa leitura de as As Cientistas de Rachel Ignotofsky e obrigada a editora Bertrand por ter traduzido e publicado este livro-memória para que todas e todos o possamos desfrutar.

 

Texto escrito:

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