Gostas de ler? Natália Borges Polesso

Na ocasião, lembro que estávamos indo bem, nunca tínhamos trocado um pneu, estávamos indo muito bem. Até que muitos caras começaram a nos rodear, rindo e dando palpite. Engraçado, nenhum se ofereceu realmente para ajudar, mas ficaram ali como varejeiras, fazendo um tipo de zumbido coletivo, praguejando nosso fracasso. Conseguimos, por fim, sem a ajuda não oferecida de nenhum deles. Na época, teria me ofendido até com a ajuda. Não estou dizendo que a zombaria não me ofendesse hoje, é claro que sim, mas eu aceitaria ajuda para trocar um pneu, visto que nunca na vida troquei um sozinha, fora essa vez em que ajudei a Michele.

Trecho de Amora, de Natalia Polesso (Porto Alegre: Não Editora, 2015)

Foto de Helena Topa.
Fonte da Foto

8 de ABRIL 2017 nas Conversas (já passaram alguns meses mas o livro ainda ressoa), a Helena Topa e o Matias Braga desafiaram-nos para mais uma incursão literária e o livro escolhido foi “Amora” (prémio Jabuti) de Natália Borges Polesso, a proposta foi lermos juntes o conto “VÓ, A SENHORA É LÉSBICA?”

À primeira vista, os 32 contos de AMORA (divididos em duas partes: Grandes e Sumarentas e Pequenas e Ácidas) têm o seu interesse maior nas relações homoafetivas entre mulheres, sob vários prismas, desde a curiosidade infantil, passando pela sedução passageira até as longas relações. Não é por acaso, que justamente na metade do livro aparece o delicioso e cruel “Diáspora lésbica”. Mas terminada a leitura e deixando que ela repouse em mim percebo que o tempo passa e livro ainda ressoa porque a escrita de Polesso representa o que existe e a forma como existe: a diversidade dentro da diversidade infinda.

Sara Barbosa: Eu gostei imenso do livro. É um conjunto de textos dos mais bem escritos que tenho lido. Espero dentro em breve publicar um texto sobre ele pois é mesmo um livro para ficar na história da literatura , lésbica, feminista, humana. 

Helena Topa Pareceu-me francamente bom, muito bem escrito, com histórias muito bem esgalhadas.

Para as amoras e amores…

…. aqui ficam as respostas que Natália Borges Polesso deu para a nossa secção Gostas de ler? 

Existe um livro que já leste várias vezes e vais continuar a reler?
Existem vários! Sou uma leitora que tem o hábito de voltar às páginas lidas. Posso citar dois: um poeta aqui da minha cidade, o Marco de Menezes, ele tem um livro chamado “Pequena madrugada antes da meia-noite”, sempre volto a este volume, sempre me sinto arrebatada. Atualmente, ando às voltas com Teoria King Kong, de Virginie Despentes.

Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Ai ai ai, deixe-me pensar um pouco. Vou confessar uma heresia! Nunca terminei “Crime e castigo”! Sou uma leitora muito atenta e chego a ler de setenta a oitenta livros por ano. Tento voltar ao Dostoiévski, mas simplesmente não vai. Preciso regularizar esta situação!

Que livro gostarias de ter lido mas que por algum motivo nunca leste?
Cocoon, de Zhang Yueran, uma autora chinesa que conheci no Festival Rota das Letras, em Macau. Não está traduzido do Chinês para qualquer língua. Triste.

Que livro leste e que cuja cena final jamais conseguiste esquecer?
Engraçado, não tenho essa memória específica, fiquei um tempão pensando para responder esta pergunta. Acho que não tenho tanto apego a cenas finais. De todo modo, posso citar a última cena de “Restos do carnaval”, um conto de Clarice Lispector, pelo qual tenho muito carinho. Uma menina, vestida de rosa, com restos papel crepom, desmanchada. Mas não vou contar nem como nem porquê, fica a curiosidade para ler.

Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se sim, qual os livros que lias?
Fui uma leitora um pouco tardia, creio. Não vim de uma família que tinha livros em casa. Lembro-me de um enciclopédia médica, com a qual meu irmão e eu nos divertíamos ao ver figuras de pulmões e outros órgãos. Isso é um pouco estranho, porque meus pais não são da área da saúde, então não sei bem como a enciclopédia foi parar lá em casa. Lembro também de uma coletânea de poesia, e de alguns poemas de Carlos Drummond de Andrade que eu gostava de saber de cor.

Indica alguns dos teus livros favoritos?
Com prazer:
Alice no país das maravilhas, Lewis Carrol
Histórias de cronópios e de famas, Julio Cortázar
Hibisco roxo, Chimamanda Adiche Ngozi
Felicidade clandestina, Clarice Lispector
Desesterro, Sheyla Smanioto
Gran cabaret demenzial, Veronica Stigger
O útero é do tamanho de um punho, Angélica Freitas
Insubmissas lágrimas de mulher, Conceição Evaristo

Em que línguas gostas de ler?
Gosto de ler em Português, espanhol (me encanta!), francês e inglês. Se soubesse mais línguas, por certo que iria gostar também.

Tens hábitos ou rituais de leitura?
Não. Mas agora pensando, acho que leio muito em voos e viagens. Porque não consigo dormir, então, sempre devoro alguns livros em aeroportos ou rodoviárias.

Tens conta no goodreads?
Tenho, mas não sou muito atenta às redes sociais.

Que livro estás a ler?
Nuestro cuerpo muerto, de Liliana Colanzi

Indica 10 escritoras que gostavas que respondessem a estas perguntas?
Sheyla Smaniotto
Moema Vilela
Cristina Judar
Maria Valéria Rezende
Gabriela Ribeiro
Maya Falks
Assionara Souza
Julia Dantas
Paulliny Gualberto TOrt
Lisa Alves

Esperamos que brevemente alguma editora portuguesa faça chegar a obra Natália Borges Polesso a este lado do 

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