As Raparigas de Emma Cline

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Por onde começar a escrever sobre este livro!?!?

Podia partilhar, por exemplo, o quanto achei interessante a beleza que reside no facto de narrar uma história desde a periferia, desde o olhar das personagens secundárias, das raparigas e não do Manson, as mulheres e não os homens. Ou da decisão política implícita no gesto: de não haver uma historia central. Tudo é margem.

Mas vou optar por escrever sobre o amor em As Raparigas. Na verdade, quero escrever sobre a ténue fronteira entre amor e erotismo, ou sobre a perigosa concepção do amor como entrega.

Emma Cline tece delicadamente a voz de Evie, uma jovem de 14 anos, uma personagem fictícia colocada na comuna da família Manson em 1969, antes e durante os assassinatos. Do outro lado encontramos a voz mais velha de Evie, afastada do fervor hippie dos 70’s e de um destino de reclusão mas com as marcas de um passado que não se pode esquecer.

Evie conhece na sua adolescência, por mera coincidência, as raparigas. Mas é Suzanne, a que provoca nela uma fascinação luminosa e cega. Tão cega como a que Russel (talvez a personificação de Manson) provoca no seu séquito: “É diferente de toda a gente. À serio. Estar com ele é como uma trip natural sem químicos. Como o sol ou parecido. Assim uma cena grande e certa.”

Em As Raparigas de Emma Cline mostra-nos como o ser humano é descontínuo e como de alguma maneira, através do erotismo aspira à continuidade. É a existência da proibição e das suas consequentes transgressões o que confere à sexualidade humana a particularidade do erotismo. O erotismo como gosto pela transgressão. Neste sentido, a violência, ou mais concretamente a morte, como transgressão última, é um campo fértil para suscitar fascinação. O espaço idóneo para a projecção do ser na continuidade.

As Raparigas fala sobre a força erótica, Russel atrai as suas aduladoras, Suzanne atrai Evie, Evie atrai a seu púbere vizinho… Fala sobre a escuridão insondável sobre a qual gravita a força de vontade dos que desejam. O magnetismo sinistro do mistério, aquilo que apenas se vê, o impossível ao alcance da mão. Um livro de profundidade erótica mas não profundamente erótico.

Suzanne é, para Evie, um buraco negro. Suzanne tem um papel fundamental, quer por ser o motivo e a causa pela qual Evie se aproxima da quinta e permanece nela até aos fatídicos acontecimentos (é possível que Suzanne esteja inspirada em Susan Atkins), contudo Suzanne não é uma personagem inacabada, Cline não a desenvolve e fiquei com a sensação de me faltar alguma coisa. Nunca chegas a ver as personagens na sua totalidade. O seu lado oculto funciona, acima de tudo, como um campo velado que me suscita, até certo ponto, uma atracção erótica.

Página a página o erotismo como força escura que utilizam – Russell, Suzanne – como forma para exercer, junto com o medo, poder sobre os seus amantes. Eles são, para os seduzidos, limites móveis, e é nesta dinâmica, que os sujeitos amados tecem fios de poder sobre os seduzidos.

O declive do eu como forma de dar continuidade ao ser. Ou como estes personagens o entendem: a dissolução do eu individual para dar espaço ao colectivo, na entrega total e absoluta como acto de amor. A dissolução da culpa no grupo. O leve peso do mal.

A protagonista, uma jovem em pleno processo de exploração, de abertura. Na idade na qual nos distanciamos das amizades da infância, na idade que desmitificamos os nossos pais e na qual se procura, desesperadamente, referentes no exterior. Num mundo aberto. Longe dos limitados papéis de menina que nos são atribuídos. Evie, longe da pulcritude do seu quarto, da sua casa, da sua trivial amiga Connie, abre-se. E no mundo, no qual Evie, tenta construir a sua identidade de mulher, de adulta, onde todas as possibilidades parecem possíveis, ela abre-se sem limites: “Eu queria isso. (…) Queria esse mundo sem fim”.

Emma Cline, consegue em As Raparigas uma estrutura limpa, um estilo impregnado de imagens poéticas. A narrativa tem um esqueleto de partes perfeitamente orquestradas, com o cenário de fundo dos assassinatos que funciona como data dramática mas que não chegam a ser expostos nem usados para contar a história das personagens, funciona apenas, como a pedra que nos mantém em tensão aberta até as ultimas páginas.

A recriação da cena da morte na casa de Sharon Tate é o fim do trance de amor, talvez para Evie mas não para as raparigas, mas não se torna objeto da narrativa. Cline não se detém para dar mais detalhes nem para desenvolver morbidamente as violentas execuções, na verdade, já foram descritas na cultura popular norte-americana montes de vezes.

A personagem de Evie não assiste, não vê os detalhes do horror, porque o horror acontece à margem. Ela apenas evoca ou imagina os motivos que sua adorada Suzanne tem no momento de negritude final hasteando a faca. A dilatação do ódio. A insistência da faca nos corpos. A transgressão da última proibição. Matar. Matar para dar continuidade ao ser conjuntamente com os outros. Mais que uma ampliação de ódio, para eles, era uma oferenda de amor radical. Tão terrível como podia ter sido o que a protagonista podia ter feito se tivesse tido a oportunidade. É exactamente disto que fala As Raparigas de Emma Cline, das perversas práticas do amor como entrega do ser.

As Raparigas de Emma Cline está disponível na LIVRARIA»» caso alguém tenha interesse em comprar por lá deixo-vos um pequeno presente: Código de desconto: coração adolescente

Texto publicado no blog Compreende o teu ciclo

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