Voltei a ler Mulherzinhas pt.3 : Eu também me chamo March

transferir-1Na minha partilha anterior, sobre a minha leitura do livro Mulherzinhas no clube de leitura – As Leitoras de Pandora, partilhei a minha ideia de que Marmee, a mãe das irmãs March, é na minha opinião a chave para compreender tudo o que fervilhava na cabeça da Alcott adulta: algumas vezes apoia a rebeldia da sua filha Jo e outras vezes o convencionalismo da Meg. Nunca sabemos se Marmee é uma rebelde silenciosa ou uma mulher cheia de contradições: provavelmente ambas coisas tal como Alcott.

Através de Marmee temos um mapa para nos aproximarmos da Alcott adulta, e através das quatro irmãs adolescentes podemos aproximar-nos da infância e adolescência de Alcott e desemaranha as partes positivas, assim como as desagradáveis dessa época.

 O que há de interessante nas quatro obedientes e doces jovens March

Para começo de viagem literária, temos a guerra como cenário perfeito para que os homens desapareçam de cena. O señor March permanece ausente até mesmo quando regressa do combate, e elas (assim como as leitoras e leitores) não precisam dele para coisa alguma, pois é Marmee, Meg e Jo quem trabalham e trazem dinheiro para casa. Isto podia ser empoderador, por isso temos que fazer com que não pareça emancipatório: para isso, temos as cartas do pai, onde este escreve as suas filhas e lhes diz o que espera delas.

Depois temos a rebelde Jo e o fato de mulher que não lhe acaba de servir. Para que o pai possa regressar Jo corta o seu longo e bonito cabelo. A característica da sua feminidade, todas as personagens elogiam a sua cabeleira… mas Jo querer fazer acontecer, querer ter a iniciativa, a voz, a palavra, querer ajudar a família por isso decide vender o seu cabelo. Mas este ato não é apenas uma atitude sacrificada e bondosa por parte de Jo é também a forma que ela encontra de cortar com os convencionalismo da feminidade. Desvinculando-se assim da única qualidade feminina que a caracterizava pois Jo é a única personagem puramente rebelde. O corte de cabelo é algo que o pai não aprova, apesar de ser ele a razão indireta para que Jo tome a decisão. Uma no cravo e outra na ferradura: Jo consegue cortar o cabelo sem chamar muito atenção, transformando o seu ato de rebeldia numa ação heróica contudo o pai não aceita totalmente a mudança.

O lar e as March

As tarefas domésticas, que parecem ser super fáceis e naturais para as mulheres ficam em evidência. As quatro irmãs não sentem qualquer interesse por passar a vida a limpar. As quatro irmãs mostram-nos que não nasceram com nenhuma predisposição natural para as tarefas domésticas e não possuem qualquer poder divino para as desenvolver. Confirmamos então que as mulheres não nascem com um chip especial para as tarefas domésticas e que apenas as desenvolvem com alguma destreza  porque lhes foram impostas socialmente. Água mole em pedra dura…

Claro que em 1868 Alcott não podia deixar que quatro jovens fossem simplesmente preguiçosas sem lhes cair o carmo e a trindade em cima, por isso, Marmee chama a tenção das jovens para o facto de que se deixam de limpar e arrumar a casa fica um caos. Depois do pequeno sermão as irmãs voltam a cumprir com as suas tarefas. Contudo, mesmo corrigindo a suposta preguiça da jovens com uma reprimenda materna, Alcott montra-nos que por trás da preguiça das mulheres em realizar as tarefas doméstica pode estar, e está muitas vezes, o esforço que uma mulher faz para cumprir (também) com os trabalhos domésticos.

Marmee é uma personagem que me faz pensar e observar. Marmee é uma mulher obediente, serviçal, boa. Um sonho para o patriarcado. Mas há um momento no qual se confessa e nos mostra que não é perfeita. Ela desabafa com Jo mostrando-lhe que sente e pensa como a filha em muitos pontos mas não conseguiu soltar totalmente o espartilho social que lhe vestiram quando nasceu e gritaram: é menina. O espartilho, neste momento da história,  é representado pelo pai/esposo que está sempre a pedir moderação as suas filhas e a sua esposa. Penso que a personagem de Jo de certo modo dá continuidade as pequenas conquistas quotidianas de Marmee, talvez por isso mesmo, a mãe valorize tanto a educação das filhas, especialmente a da Jo, com a esperança que seja o caminho para outras possibilidades.

A maternidade e o casamento

Jo é sem dúvida a irmã e a personagem, mais efusiva e atractiva. Alcott reservou para ela a capacidade intelectual. Das quatro irmãs é a que questiona, a que argumenta, a que não aceita nada a primeira. Jo não querer ser mãe, não querer ser esposa, muitas vezes não é uma boa irmã e esforçasse muito para ser uma boa filha. Jo não aceita todos os deveres e direitos que estão associados ao feminino, por isso, como ato de rebeldia masculiniza o seu nome: Jo, de Josephine ( tal como autora faz com o seu: Lou, de Lousia); corta o cabelo, querer ir para a universidade (como Laurie), anseia ser escritora, viajar.. Tem como referente Shakespeare o que nos mostra a rebeldia e a ambição do seu carácter, através das brincadeiras de teatro familiar Jo é sempre a personagem masculina revelando-nos o seu carácter passional inusual  nas mulheres da época.

Quando penso em Jo, penso nos milhares de jovens mulheres que leram Mulherzinhas e ficaram fascinadas com Jo, tomando-a num referente mesmo sendo das irmãs a que causa mais controvérsia e  a que mais vezes é castigada. Mas é em Jo na qual todas confiamos, até a própria Alcott. Atrevo-me a dizer que Alcott para ser mais honesta com a realidade e a sociedade em que viveu atribui as restantes irmãs os convencionalismos da época e à mãe a confusão e a dúvida para libertar assim a Jo. Como se Meg, Amy e Beth fossem o que existe (passado) e Jo o que pode existir (futuro) e Marmee está no meio (presente) tentando conciliar e (r)exitir.

Ler Mulherzinhas hoje

Para entender este lado rebelde, empoderador e feminista de Mulherzinhas temos que esquecer a sociedade atual, que mesmo arrastando certas heranças já avançou imenso desde a sociedade das irmãs March. Há que colocar a família March no contexto e compreender que a mãe imperfeita e a filha rebelde que Alcott descreve não eram  comuns em 1868. As donas de casa não se mostravam imperfeitas e as jovens não eram rebeldes perguntadeiras de tudo.

Ler Mulherzinhas, no momento certo faz-nos sonhar com ser Jo March, se lermos fora de tempo e sem o distanciamento necessário vamos irritar-nos com Jo e com todas as personagens e nunca vamos perdoar a Marmee por algumas das suas contradições. Por isso, é necessário ler Mulherzinhas com distanciamento da nossa época e empatia com as mulheres 1868, que viviam num sociedade bizarra, onde a mentalidade era cheia de injustiças e desigualdades.

Alcott tinha o seu ás de rebeldia e empoderamento em Jo. Mas não podia ser injusta e esquecer todas as Megs que tinha ao seu redor, nem todas as mães que tentavam domar o seu carácter nem o perfil angelical das Beths. E em 1868 a mulher tinha de ser boa, se assim não fosse as punições podiam ser infinitas, Alcott não podia ignorar isso, talvez por isso as personagens de Mulherzinhas são doces e meigas e por vezes desesperadamente moderadas, subtis na sua revolução mas não menos cativantes.

Espero por vocês no clube de Dezembro e com as vossas Mulherzinhas.

Voltei a ler Mulherzinhas pt.1: Feminismo e rebeldia

Voltei a ler Mulherzinhas pt.2: As influências de Louise May Alcott

Voltei a ler Mulherzinhas pt.4: Pickwick Club: Mulherzinhas foi um livro censurado

 

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