O Futuro pt.4: As Filhas de Eva

Processed with VSCO

“Somos quem somos. Às vezes, por muito que queiramos,não podemos escapar a isso.”

As Filhas de Eva de Louise O’Neill é uma distopia feminista escrita para jovens leitoras. Publicada em 2014, leva-nos a um mundo onde as mulheres não nascem, sendo criadas artificialmente e educadas numa escola que as prepara para que um homem as escolha para acompanhantes ou concubinas. As que não são escolhidas passam a professoras, sem direito a manter a sua beleza.

Sem famílias, sem amigas, sem mentoras, as evas são ensinadas a competir, a manipular. São criadas sem que entre elas se gere carinho, afeto, sororidade. Isoladas em si mesmas num mundo que não as trata como pessoas. Porque uma eva não é considerada uma pessoa: a sua função é a de agradar e obedecer ao homem que escolhe o seu futuro. Devendo representar o papel a que é por ele submetida, de encaixar numa identidade pré-definida. Competindo sempre através da sua aparência física, a única característica pela qual é valorizada e pela qual é legitimada.

No centro da narrativa está freida. freida, como todas as evas, não tem um nome maiúsculo, não tem no seu nome uma propriedade própria. E freida não tem também uma identidade própria, ela depende do grupo e da valorização coletiva que o grupo lhe pode dar. O’Neil fecha a sua perspectiva em freida; a perspectiva asfixiada de um mundo hostil narrado pela voz de uma personagem sem voz própria.

As Filhas de Eva faz-nos olhar para o nosso passado e tentar perceber
que escolhas são feitas por nós e quais as que nos ensinaram a fazer.

Apesar de escrito para jovens o livro não é apenas para jovens nem apenas sobre jovens. Não é um livro apenas sobre um futuro, é um livro sobre o presente, sobre o passado. Ao ler este livro pensei em como é crescer rodeada de imagens que não me representam, como é crescer rodeada de vozes que querem limitar-me a identidade a uma imagem. Porque As Filhas de Eva não pretende prever o futuro; faz-nos olhar para o nosso passado e tentar perceber que escolhas são feitas por nós e quais as que nos ensinaram a fazer.

Crescer num mundo onde tudo parece definido e onde não nos deixam criar as nossas próprias definições é crescer no mesmo mundo que As Filhas de Eva. Louise O’Neill faz-nos olhar para dentro, para a forma como reproduzimos no presente definições forçadas à nossa identidade no passado. Faz-nos olhar para debaixo da aparência, para lá da padronização do impossível, da normalização da competição plástica. E lembra-nos que o futuro será composto pelas imagens que reproduzimos agora.

“Sonho com campos de alfazema, com rapazes e mães.
Sonho com coisas das quais nada sei.”

O Futuro pt.1: Kallocaína 

O Futuro pt.2: A História de uma Serva 

O Futuro pt.3: The Core of the Sun 

O Futuro pt.5: Regresso ao Admirável Mundo Novo (15 de Dezembro)

untitled

Anúncios

One thought on “O Futuro pt.4: As Filhas de Eva

  1. Pingback: O Futuro pt.5: Regresso ao Admirável Mundo Novo | Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

A tua opinião é importante

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s