Voltei a ler Mulherzinhas pt.2: As influências de Louise May Alcott

Eu cresci tal como Alcott, rodeada por mulheres. E entre as mulheres que nos rodeiam há aquelas que sobressaem para nós. Na vida de Alcott a mulher que sobressaiu e que para Alcott é um referente chama-se: Margaret Fuller

Louisa May Alcott, vê em Margaret Fuller  um exemplo a seguir, uma mãe, uma mentora. Fuller defende  principalmente a sua individualidade como ser humano. Uma mulher não precisa um pai-irmão-marido. A esfera doméstica combinada com os restantes aspetos da vida é o que Fuller querer para a sua vida e para todas as mulheres.  Desejava que a vida familiar e a vida pública se unissem para abrir caminho a uma cidadania da qual as mulheres fizessem parte. Também desejava que as mulheres fizessem parte da esfera artística com a mesma igualdade de oportunidades e reconhecimento. Fuler e Alcott tiveram uma formação masculina: tiveram acesso a todos os livros, a toda a cultura mas ninguém as advertiu que depois não podiam usá-las para nada.

Fuller ficava entediada com os transcendentalistas, que permitiam o desenvolvimento pessoal da mulher com o único objetivo de agradar aos homens da sua vida. Para Fuller a mulher deveria procurar o desenvolvimento pessoal para si mesma, para sua própria riqueza, ela achava que as mazelas na saúde física e emocional das mulheres eram o resultado da depressão e da falta de vida própria e ativa. Todo este olhar feminista de Fuller foi se colando na pele de Alcott que não hesitou em adotar todos esses conhecimentos e fazê-los seus.

Ambas nasceram no seio de uma casamento pouco feliz (ou nada), com um pai dominante e uma mãe branda. Foram educadas para ser ‘filhas do pai’, por isso não o queriam defraudar mas também não se queriam submeter, contudo não tinham as ferramentas sociais necessárias para este equilíbrio e autonomia.  Tinham de trabalhar como um homem mas não podiam ter os benefícios e direitos dos homens. Por outro lado, e aumentando ainda mais a tónica destas contradições, elas próprias não se identificavam com a definição de (boa) mulher que existia. O vestido de mulher que lhes queriam vestir não lhes assentava na pele. Elas queriam outro.

Abba, a mãe de Alcoot, transmitiu-lhe a ideia de que o homem era um ser egoísta no qual não se podia confiar. Podemos perceber, através dos seus diários  por exemplo, que Alcott tinha certa aversão sexual, e que ao mesmo tempo que os ensinamentos de Fuller brotam nela, a vida cinzenta de Abba, também deixava a sua marca. Abba teve 8 gestações, quatro foram raparigas (uma delas Louisa May Alcoot). Na época ter ou não filhos raramente era uma decisão da mulher, havia gestações difíceis – muitas eram causa de morte – e partos complicados devido as condições de saúde da época. Demasiadas vezes o sexo e o prazer feminino se transformavam em dor ou confusão. O casamento era sinónimo, demasiadas vezes, de escravidão, desilusão e morte.

Venceu o lado feminista 

A Lou May Alcott adulta, foi em 1878 a primeira mulher de Concord em se inscrever no censo eleitoral, e por isso, foi escolhida como secretária do comité das sufragistas. Todas estas vivências, como se pode intuir, foram colocadas na sua escrita. Contudo estas ideias e sentimentos não podiam aparecer livremente, nem sequer nos seus diários pessoais Alcott expressava tudo com pura claridade, pois estes eram sistematicamente revistos pelos seus pais. Alcott habituou-se desde cedo a velar pela sua intimidade e a camuflar-se entre o pensamento formal da época, é por isso que pode ser difícil encontrar numa primeira leitura o discurso feminista em Mulherzinhas.

A harmonia existe tanto nas diferenças quanto nas semelhanças,
se ao menos a mesma tónica governar as duas partes.
                                   Margaret-Fuller

Marmee, a mãe das irmãs March, é na minha opinião a chave para compreender tudo o que fervilhava na cabeça de Alcott: algumas vezes apoia a rebeldia da sua filha Jo e outras vezes o convencionalismo da Meg. Nunca sabemos se Marmee é uma rebelde silenciosa ou uma mulher cheia de contradições: provavelmente ambas coisas tal como Alcott.  E é, esta humanidade contraditória o que mais me cativa em Mulherzinhas.

Brevemente

  • Voltei a ler Mulherzinhas pt.3: Eu também me chamo March
  • Voltei a ler Mulherzinhas pt.4 : Pickwick Club: Mulherzinhas foi um livro censurado 

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2 thoughts on “Voltei a ler Mulherzinhas pt.2: As influências de Louise May Alcott

  1. Pingback: Voltei a ler Mulherzinhas pt.1: Feminismo e rebeldia | Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

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