Voltei a ler Mulherzinhas pt.1: Feminismo e rebeldia

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Um clube de leitura para quem gosta de ler, comer e conviver. Esperamos por ti :)

As quatro irmãs March —Meg, Amy, Jo y Beth— são perfeitas que até metem raiva. Há quem diga que a idade perfeita para ler Mulherzinhas é aos treze, catorze anos de idade. Eu concordo e discordo por muitas razões mas não me apetece falar delas agora, talvez outro dia.

Voltando as irmãs March… Elas são ingénuas, sensíveis, responsáveis e sensatas até nos levarem a loucura. Todas as ações equivocadas são corrigidas e toda a conduta duvidosa é colocada em quarentena por alguma das personagens secundárias.

O clube de leitura e o meu regresso à casa da família March

Li Mulherzinhas quando tinha 14 anos, depois voltei a ler quando tinha 23 e agora aos 35 volto a elas, as irmãs March. Ler aos 35 anos permitiu-me me fixar em lugares nos quais passei sem olhar quando tinha 14 e ao de leve quando tinha 23. A leitura adolescente não me deixou parar em certos lugares, como por exemplo, no feminismo.

É verdade, que  todas as mulheres deste livro são repugnantemente dóceis e respeitáveis, socialmente falando. A submissão feminina está marcada e presente na casa da família March contudo podemos constatar que a autora, Louise May Alcott, traçou uma personagem e certas atitudes reservadas para o feminino que ajudaram a  abrir espaço a uma pequena revolução dentro da sua realidade e da sua época.

Se já leram Mulherzinhas, devem estar a pensar que estou a falar de jovem Jo March, que combate o sistema patriarcal normalizado, com a sua rebeldia e constante questionamento mas não só a Jo luta contra o patriarcado com as armas que dispõe e da forma que a época lhe permite (séc. XIX). A mãe das jovens March, Marmee,  também tem atitudes elogiáveis. Atrevo-me a dizer que a mãe das jovens espelha uma parte da faceta ativista de Alcott que participou em movimentos reformistas que defendia a abolição da escravidão e apoiava a luta pelos direitos da mulheres e a reforma educativa.

Em Mulherzinhas vemos uma Alcott, que desejava a alfabetização feminina,
 a solicitação do divorcio por parte das esposas,
a diminuição da taxa de natalidade
e a defesa da igualdade intelectual entre homens e mulheres. 

Alcott: profissão escritora

Alcott não só era menosprezada por ser escritora num mundo no qual a literatura é um espaço de homens como também se teve de defender por escrever relatos ou literatura juvenil. Atrevo-me a dizer que certos preconceitos ainda existem nos dias de hoje!

Escrever um livro como Mulherzinhas é, muitas vezes, considerado um trabalho pouco sério. Alcott escreveu ao longo da sua vida vários contos para adultos nos quais há mistério, narcóticos, lutas de poder, assassinatos… E nos quais, apesar de não ser comum na época, as mulheres sempre saiam vitoriosas. Contudo, a grande maioria destes escritos, foram publicados com pseudónimo, devo salientar que o seu feminismo pessoal, o da Alcott individual, é muito mais notório nas obras que não assina com o seu nome. Pois quando não se refugiava no anonimato era-lhe mais difícil mostrar as suas ideias, por isso elas apareciam veladas, é o caso da obra Mulherzinhas.

Em Mulherzinhas vemos uma Alcott (vemos a sua pegada feminista), que desejava a alfabetização feminina, a solicitação do divorcio por parte das esposas, a diminuição da taxa de natalidade e a defesa da igualdade intelectual entre homens e mulheres.

Feminismo e rebeldia

Em certas épocas da histórias as mulheres pensaram que a melhor revolução é a que não parece uma revolução. A época na qual cresce Alcott (Filadélfia, 29 de Novembro de 1832 — Boston, 6 de Março de 1888) é uma dessas épocas. Cheia de subtilezas, na qual o feminismo é forte e efetivo mas silencioso. Republican Mother é uma invenção das mulheres e das mães da época de Alcott para se abrirem caminho num mundo de homens. Um dos pontos de luta da Republican Mother era a educação. Se a maternagem  e o futuro das novas gerações passava pelas suas mãos, elas, as mães, ou seja as mulheres, deviam ter uma boa educação. Claro que travar uma revolução sem que pareça uma revolução é uma faca de dois gumes mas era a arma que as mulheres tinham nesse momento e se para continuar a caminhar em direção a uma autonomia e a um conjunto de direitos, a tinham de a usar, usavam-na.

Sabiam que ao mesmo tempo que era uma estratégia também podia ser uma armadilha, uma armadilha com duas perspectivas e ambas perigosas: por um lado , o homem não podia negar-se, era algo respeitável e favorecia os varões; por outro lado, este argumento, continuaria a a projetar a mulher a partir do homem e para satisfazê-lo. Mas em cada época as mulheres lutaram com as armas que tinham e na época de Alcott a melhor arma para as mulheres, era fazer uma revolução sem que parecesse uma revolução. Ou isso acharam as nossas antecessoras. Eu desde as minhas liberdades muito lhes agradeço pelo conquistado e pela força e inspiração que nos legaram para continuar a lutar pela equidade e pelos direitos das mulheres.

Com a introdução das máquinas a mulher deixou de ser produtora, já não era necessária como mão de obra, por isso regressou (mandaram-na de volta) ao lar, a imobilidade. Quando as máquinas não existiam as mulheres eram necessárias. A mulher era consumidora mas também produtora, mas com a chegada das máquinas, as mulheres foram transformadas em seres dependentes do homem. Então as mulheres pensaram: O que é que nos permite sair de casa sem parecermos suspeitas? A igreja.

A religião ajudou a muitas mulheres a relacionar-se entre si, com a desculpa de rezar e fazer o bem. Sair para estas atividades permitiu a muitas mulheres saírem de casa sem ter de se justificar. Claro que era uma liberdade condicionada e a condição era a igreja.

A autonomia da mulher era conseguida em três situações, a morte do pai, ser solteira ou a viuvez. A menor de idade e a casada eram  femme covert; as restantes eram femme sole, ao segundo grupo, eram-lhes concedidos alguns direitos reservados aos homens: firmar contratos, fazer testamento… Sim, ser órfã ou viúva concedia direitos sociais e legais as mulheres que nunca usufruiriam se estivessem ao amparo de um homem. É nesta sociedade sem sentido e neste círculo macabro de direitos e liberdades no qual cresce Alcott.

Assim descobrimos através da obra de Alcott – Mulherzinas e Boas Esposas – uma época na qual só existem duas esferas: a masculina, que é pública e a feminina, que é privada. A maternagem, o doméstico, o quotidiano… tudo isto é o ambiente da mulher. Ou seja, true womanhood, o verdadeiro culto da feminidade – como se existisse uma falsa feminidade, que naquela época existia -.

Para se ser uma verdadeira mulher os requisitos eram simples: ser uma boa filha, uma boa irmã e principalmente uma boa esposa e mãe. O objetivo máximo era satisfazer o homem. Esta mentalidade é a que desenha os dois tipos de mulher na época: a mulher-anjo e a mulher-demónio. A Virgem Maria e Maria Madalena. E foi religião que na época permitiu que as mulheres saíssem das suas casa e das sua esfera privada! Estranhas contradições!

Mas é dentro desta pequena revolução que não parece uma revolução, que começa a melhorar a educação de mulheres e meninas. Porque se elas acedem a uma educação melhor, a uma educação igual a dos homens e meninos, podiam se transformar não só em melhores mães, responsáveis pela educação das suas crias, das futuras gerações do país, como também, em melhores esposas! Pensando nisto, os homens aceitaram, claro! Nenhum homem se podia recusar a ter uma esposa melhor, uma esposa a sua altura! Mas esqueceram-se de pensar que a educação faz dos seres humanos livres pensadores. As mulheres usaram a educação não só para saber ler e escrever mas principalmente para pensar por si mesmas não só na esfera privada mas também na esfera pública. O privado e o público começam a ser um só na vida das mulheres.

...com uma pequena revolução que não parecia uma revolução as mulheres
começaram a despertar e as coisas começaram a mudar.

Usaram a educação para pensar nessa divisão que faziam do coletivo, de um lado as esposas/mães e do outro as prostitutas/perdidas, e perceberam que as outras não eram o inimigo, todas eram vítimas do mesmo sistema que as invisibilizava e usava estivessem do lado que estivessem. As mulheres começaram a perceber que, mulheres e escravos são vítimas do mesmo homem branco, por isso não era difícil encontrar mulheres que defendiam o fim da escravatura. Defender a igualdade de raças, pensaram, estava intimamente ligado a igualdade de géneros, a educação permitiu que as mulheres intuíssem esta relação. Contudo, o sufrágio do homem negro chegou primeiro que o das mulheres brancas, negras ou de outra raça.

E assim, com uma pequena revolução que não parecia uma revolução as mulheres começaram a despertar e as coisas começaram a mudar. Alcott nasce nesta sociedade e cresce dentro desta revolução invisível mas palpável e a o registo disso podemos tê-lo , lê-lo e desfruta-lo em Mulherzinhas.

            to be continued…

Brevemente

  • Voltei a ler Mulherzinhas pt.3: Eu também me chamo March
  • Voltei a ler Mulherzinhas pt.4 :Pickwick Club: Mulherzinhas foi um livro censurado

 

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2 thoughts on “Voltei a ler Mulherzinhas pt.1: Feminismo e rebeldia

  1. Pingback: Voltei a ler Mulherzinhas pt.4 : Eu também me chamo March | Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

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