O Futuro pt.2: A História de uma Serva

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“Melhor nunca significa melhor para toda a gente.
Quer sempre dizer pior para alguns.”

A História de uma Serva de Margaret Atwood é uma distopia definida pela autora como ficção especulativa, baseada em sociedades do passado que podem voltar no futuro. Publicada em 1985, teve como base uma época em que muitas das conquistas sociais feitas nas décadas anteriores foram postas em causa por governos conservadores na Europa e na América do Norte. Ainda vivemos as consequências dessa época, e ainda vivemos a possibilidade deste livro.

O livro é um relato deixado por uma mulher a quem chamam Offred no texto original em inglês e Defred na tradução portuguesa. O seu nome nunca é revelado, a República de Gileade tirou-lhe o nome para que a sua denominação seja a do homem a quem pertence. Mas A História de uma Serva não cria um mundo distópico apenas para as mulheres: a construção social inclui divisões hierárquicas onde todos são peças de lucro para apenas alguns. Contando a história de uma mulher nesse mundo, Atwood foca-se em quem vive no fundo dessa hierarquia.

Muitas distopias escritas anteriormente usavam as suas personagens femininas para ilustrar formas de repressão que iam além daquelas que viviam as personagens masculinas: o controlo da sexualidade, da fertilidade e da maternidade foram temas com que vários autores delinearam as mais simples formas de controlo sem, no entanto, colocarem esses temas no centro. Mas Atwood coloca Defred no centro: esta é a sua história, o seu relato. E a sua limitação de conhecimento neste mundo é a nossa; a sua exploração também.

A história de Defred não foi sempre a de uma serva.
Ela foi como nós, ela existiu como existimos hoje.
A sua história é a da passagem do nosso mundo para o deste livro.

Na República de Gileade há várias formas de ser mulher. Formas definidas pelos homens no topo da hierarquia para as separar da multiplicidade possível à sua identidade. Criar uma repressão, criar uma raiva específica a cada uma. Mantê-las afastadas umas das outras para que não se completem, para que não se unam. Para que só vejam na vida das outras aquilo que não têm nas suas. E limitam a mulher apenas ao seu corpo, fecham-na apenas no seu corpo; afastadas do mundo fora de casa, afastadas de livros e de letras. Para que esqueçam a capacidade de ler, a capacidade de aprender.

Mas a história de Defred não foi sempre a de uma serva. Ela foi como nós, ela existiu como existimos hoje. Teve uma mãe, uma filha, um marido. A sua história é a da passagem do nosso mundo para o deste livro. Alerta-nos para uma realidade que é a que vivemos, para as formas como estes governos são criados no nosso mundo. Para as formas como a apatia e a normalização do ódio e do fundamentalismo pode levar a que nos tirem tudo; até o nosso corpo, até o nosso nome.

O corpo da mulher é constantemente dividido, limitado, controlado. É constantemente regulamentado e legislado como se pertencesse primeiro a um governo e só depois a ela própria. A sexualidade, a fertilidade, a maternidade são temas que a nossa sociedade ainda não entendeu como vividos dentro de um corpo que está vivo, que é humano, que pertence apenas a si. Tal como em 1985, ainda estamos perto de existir numa sociedade como a de A História de uma Serva. Ou talvez estejamos ainda mais próximos dela. Enquanto continuarmos a acreditar na liberdade de sermos controlados.

“Vivíamos nos espaços em branco nas margens das páginas impressas.
Vivíamos nos espaços entre as histórias.”

O Futuro pt.1: Kallocaína

O Futuro pt.3: The Core of the Sun (1 de Dezembro)

O Futuro pt.4: As Filhas de Eva (8 de Dezembro)

O Futuro pt.5: Regresso ao Admirável Mundo Novo (15 de Dezembro)

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4 thoughts on “O Futuro pt.2: A História de uma Serva

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