O Futuro pt.1: Kallocaína

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“Dos pensamentos e sentimentos nascem palavras e acções.
Assim sendo, como poderiam os pensamentos e os sentimentos ser um assunto privado?”

Kallocaína de Karin Boye é uma distopia publicada em 1940, durante a segunda guerra mundial. Absorveu o mundo em que a autora a escreveu, um mundo de guerra e de estados totalitários, e previu muitas das consequências que esse tempo teve nos anos futuros.

O livro é um relato da vida de Leo Kall escrito por ele próprio e segue o desenvolvimento da sua consciência acerca da sociedade em que nasceu, o Estado Mundial. Tornando-se também um relato de conformidade com essa sociedade, de aceitação e de submissão a um pensamento coletivo. Porque Kallocaína não é apenas um presságio, não é apenas a descrição de uma distopia, nem um aviso para a sua prevenção na realidade: é acima de tudo uma espiral de questões, um despertar para uma realidade que esteve sempre à nossa volta, mas que esteve sempre contra nós. Onde nos cabe a nós encontrar no nosso próprio pensamento.

No início Kall não questiona a sua identidade nem a sua individualidade. No Estado Mundial não há espaço para o ser individual: o sistema coletivo impõem-se como forma de vida. O ser humano é cortado daquilo que o fez humano ao longo do tempo: não há consciência própria, não há comunicação com o outro, não há intimidade, não há empatia. Habitando uma coletividade de solidão; uma solidão que habita dentro de cada ser que não sabe que está sozinho. Um ser que deve confiar no estado antes de qualquer outra entidade, ao qual deve entregar as suas escolhas, a sua privacidade, ao qual deve a total devoção da sua vida externa e interna.

 Kallocaína mostra-nos o perigo de não unirmos a nossa realidade à dos outros.
O perigo de não ouvir, de não tocar, de não comunicar.

Boye visitou a Alemanha Nazi e a sua oposição ao fascismo está nas páginas deste livro, deste mundo dividido pelo medo do desconhecido do outro lado. Onde toda a gente deve pensar e viver da mesma forma, deve forçar-se a si e aos outros a encaixar no mesmo molde, a ser apenas parte de uma engrenagem. Para que triunfe algo que limita a possibilidade do que o ser humano pode ser. Para que triunfe uma sociedade onde o ser humano perdeu a humanidade e se tornou apenas uma peça de reprodução sem capacidade de criação.

São ainda atuais as questões levantadas por Boye neste livro, assim como é ainda atual o percurso de Kall. Vivemos também num mundo onde a informação nos é escondida, onde é manipulada, onde nos é ensinado desde cedo que há uma verdade única. Onde há apenas uma forma correta de ser e de viver. Levando a que seja necessário, como Kall, aprender a empatizar, a questionar, a pensar de dentro sobre a realidade de fora.

Kallocaína mostra-nos o perigo de não unirmos a nossa realidade à dos outros. O perigo de não ouvir, de não tocar, de não comunicar. De não tentarmos descobrir a verdade dentro de nós e de não ouvir a partilha da verdade do outro. Não é uma distopia de um futuro totalitário, violento ou repressivo. É uma distopia do não saber sentir, não saber entender. É uma distopia do nosso presente; do medo daquilo que fica do outro lado da nossa verdade.

“Nós queremos ser… Queremos tornar-nos… Outra coisa…”

 Este texto teve o apoio da Antígona Editores Refractários. As opiniões são minhas.

Agradecemos também o exemplar oferecido à Biblioteca da Confraria Vermelha.

O Futuro pt.2: A História de uma Serva (24 de Novembro)

O Futuro pt.3: The Core of the Sun (1 de Dezembro)

O Futuro pt.4: As Filhas de Eva (8 de Dezembro)

O Futuro pt.5: Regresso ao Admirável Mundo Novo (15 de Dezembro)

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6 thoughts on “O Futuro pt.1: Kallocaína

  1. Helena Ferreira

    Desta vez fiquei um bocadinho (só mesmo um bocadinho) furiosa! Vou começar agora a ler este livro e inevitavelmente vou ficar agarrada às tuas palavras! :)
    Gosto sempre (muito) do que escreves!

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