A Casa pt. 1: Sempre Vivemos no Castelo

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“Há muito que não se ouviam tantas palavras na nossa casa, e ia demorar algum tempo a limpá-las todas.”

Sempre Vivemos no Castelo de Shirley Jackson é um livro de difícil categorização. Normalmente descrito como gótico, horror e mistério, nunca pertence a essas categorias sem que seja necessário explicar que não lhes pertence. Sem, no entanto, pertencer a outras que melhor o descrevam.

Eu descrevo-o ainda de outra forma; de uma forma talvez ainda mais difícil de categorizar: como um livro que gostava de ter escrito.

Li-o apenas num dia, fechada na magia das palavras com que Merricat Blackwood, a narradora, quer fechar a narrativa da sua vida. Se ninguém pronunciar as suas palavras mágicas nada mudará, nada prosseguirá e os dias futuros serão iguais aos dias passados. Num círculo que se repete apenas com palavras por ela autorizadas.

Porque Merricat deve ser mais amável com o tio Julian; porque Merricat quer viver na lua; porque planta tesouros no chão; porque os prega nas árvores. Porque me preencheu com as suas palavras e me fechou nelas até a sua razão ser a minha. Até eu entender que uma janela é partida para mostrar um caminho e que as palavras são limpas como os quartos.

Não há em Sempre Vivemos no Castelo momentos de horror que não sejam humanos.
Sem sustos, sem fantasmas,
sem medos para além do medo de estarmos também fechadas naquela casa.
Numa vida como a daquela casa.

Da casa onde misteriosamente morreu envenenada toda a família Blackwood, com excepção de Merricat, da sua irmã Constance e do seu tio Julian, emana um mal que corrói toda a vila e os seus habitantes, que veem na casa e nos restos da família que nela habitou a materialização do ódio que os consome. No entanto, Shirley Jackson não deu outra natureza a este livro que não a humana. Não há em Sempre Vivemos no Castelo momentos de horror que não sejam humanos. Sem sustos, sem fantasmas, sem medos para além do medo de estarmos também fechadas naquela casa. Numa vida como a daquela casa.

E o meu medo foi o de viver numa vida como a de Constance Blackwood, irmã mais velha de Merricat. Constance foi acusada e julgada pelo envenenamento da sua família e, voltando à casa, não consegue dela sair. Porque dentro da casa as irmãs mantêm-se presas, agarradas às palavras com que fazem imutáveis os seus dias: agarradas à necessidade dessa imutabilidade que lhes preenche os dias e lhes suspende os medos.

Tal como Constance, também Shirley Jackson sofria de agorafobia. E também Shirley Jackson habitou uma vila muito semelhante a esta onde vivi neste livro; pensa-se que dessa vila tenha emanado o horror psicológico com que deu forma à sua obra. A forma como nas vilas se criam formas de viver onde a conformidade se sobrepõe à vontade individual foi uma realidade que da sua vida passou para os seus livros. Escrevia com as palavras que ouvia e nas suas páginas deixou-as como representação do horror que é existir num lugar onde não cabemos.

Sempre Vivemos no Castelo deu-me um mistério em palavras. Porque li as palavras que são ditas como li as que não são ditas, escondidas naquelas que li. E essas são as palavras que me vão demorar muito tempo a limpar.

A Casa pt. 2: Rebecca

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3 thoughts on “A Casa pt. 1: Sempre Vivemos no Castelo

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  2. Pingback: A Casa pt. 3: O Monte dos Vendavais | Confraria Vermelha Livraria de Mulheres

  3. Helena Carla Gonçalo Ferreira

    Que lindo texto! Ainda não li este livro e fiquei com uma enorme vontade de o ler! Já está na lista dos livros que quero ler, porque quero mesmo entrar neste castelo.

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