Manual para Mulheres de Limpeza de Lucia Berlin

Chamam-se Dolores, Eloise ou Lu (isso as que têm nome, muitas delas não foram baptizadas). Todas partilham características comuns: têm filhos (dois ou quatro); arrastam casamentos fracassados; acumulam trabalhos como enfermeiras, empregadas domésticas, professoras, combatem o alcoolismo, a dor de costas e as lembranças de uma infância bastante escura; estão obcecadas com as lavandarias, os rituais católicos e o espanhol. Têm o mesmo humor cáustico e a mesma ternura. São personagens de Lucia Berlim (1936-2004) e ao mesmo tempo todas elas são a Lucia Berlim.

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Manual para Mulheres de Limpeza de Lucia Berlin

Lucia Berlin

Não sei se conhecem a Lucia Berlim, eu confesso que fiquei presa a ela quando a vi numa foto tirada por Buddy Berlin, o seu terceiro marido, uma na qual está a fumar. Fez-me lembrar Kim Novak em Bell, book and candle: o corte de cabelo, as sobrancelhas marcadas e esse olhar distante e profundo, etérea e misteriosa que cria um magnetismo singular. Dizem que Lucia Berlim foi um dos segredos melhor guardados da literatura norte-americana dos últimos anos. Por vezes estes chavões podem criar expectativas que depois são impossíveis de salvar mas no caso de Berlin posso afirmar que não é nada exagerado. Tem uma prosa sensorial e intelectual que apaixona.

Manual para Mulheres de Limpeza

Vou na loucura de recém-acabada a leitura e com todas as emoções à flor da pele, afirmar que:  Manual para Mulheres de Limpeza é um verdadeiro clássico moderno, uma experiência que qualquer leitora/o devia ter. Leiam, estou certa que não se vão arrepender :)

Os relatos de Lucia Berlin não surgem da imaginação mas sim da memória. Todos eles são pedaços de uma vida, da sua. Relações sentimentais, paixões desbocadas e devaneios com o álcool; o amor pela arte, por homens boémios, pelo sublime no plano intelectual; o seu caracter visceral e autêntico, luz e sombra. Na primeira pessoa ou com um nome fictício, a autora relata neste livro passagens maravilhosas e dolorosas da sua existência. Livre de imposturas ou no mínimo de mentiras. É um livro cheio de realidade e de lembranças.

As suas histórias desprendem uma luz diáfana e cheia de nuances. Com uma dose de sentido de humor precisa e uma capacidade inata para descrição. A sua prosa é orgânica, cheia de sensações. É impossível, não nos deixarmos levar, pela vivacidade dos seus relatos, comover-se a cada página.

A sua escrita é livre e nos surpreende, talvez porque Berlim viveu sempre nas margens, longe das editoras, do cânon literário. Da preocupação com a crítica. Longe do julgamento. Berlim é uma escritora que se preocupou mais com viver a vida: casou três vezes, criou os seus filhos/as, fez várias reabilitações, fez a compra e cuidou da casa, fez amizade com mulheres de várias nacionalidades, chilenas, mexicanas… trabalhou arduamente em profissões intelectuais. Berlim viveu e misturou-se com a vida das pessoas em seu redor.

Tal como na vida, os relatos de Berlin recolhem e reflectem, não têm uma temática nem uma trama clara; mas tal como a vida, o seu significado chega-nos de forma intuitiva, através de revelações em forma de frases curtas e ambíguas, através de uma atmosfera. Mas como nos diz Lydia Davis, algumas destas histórias eram completamente inventadas e “não podemos pensar que já a conhecemos só por ler os seus relatos”. A realidade era para Lucia Berlim mais uma ferramenta para a sua escrita, um estado com o que negociar.

Temos relatos cheios de beleza e amor e outros mandam à fava as expectativas e os ideais amorosos de um casal de adolescentes. Há relatos que relembram sensações já vividas e outros relatam a conivência com homens semidesconhecidos. Encontramos relatos devastadores e outros sublimes.

Não há como não recomendar este livro. Lê-lo supõe amar a sua autora sem reservas, tal como ela fazia com a vida. Página a página, mergulhamos na vida e na vida da autora, revivemos encontros, recordamos relações e amores e é, inevitável não transcender o plano de simples leitora e desejar ir mais além. A cada página viajamos até ao México, até Oakland ou a uma lavandeira. A cada parágrafo entramos dentro da sua vida, da sua mente, do seu coração. Muitas vidas podem ser contadas, algumas merecem ser recordadas e poucas devem ser invocadas como aquilo que foram realmente: experiências vitais alheias a impostura, sentimentos marcados por um coração que bateu, amou e que se extinguiu mas permanece na lembrança de cada leitora/o.

LER Manual para Mulheres de Limpeza»»

Boa leitura e muita sororidade

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