Obrigada McBride!

Há leituras que surgem para nos inquietar, para nos angustiar, para abalar todos os nossos fundamentos.

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A Girl is a Half-formed Thing/ Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada de Eimear McBride é uma leitura deste tipo. Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada é um livro que incomoda, que causa desconforto e desassossego. O que torna a sua leitura maravilhosa!

Li algures que foi recusado pelas editoras durante nove anos até que uma pequena editora resolveu arriscar publicá-lo. Ainda bem que há projectos com coragem!

Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada tem um estilo inventivo. A obra é um “fluxo de consciência” que desconstrói de uma maneira particular a linguagem.

«Eu acho o teu rosto o melhor que há. Quando éramos nós éramos nós éramos novos.Quando eras pequenino e eu uma menina. Era uma vez. Vou lembrar-te lembra-te bem. Agora. Não nessa altura. E eu ajoelho-me sobre a tua cama tranquila. Beijo a tua cara. Saio do quarto. Eu vou. Dormir. Tal como tu.»

A história revolve e envolve em torno do “eu”, do “tu”, isto é, o irmão dela, e da mãe deles. É uma relação conturbada, de amor e de ódio, mas principalmente de incompreensão.

Enquanto o enredo se desenvolve, o estilo de McBride torna-se mais inteligível, porém, Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada jamais se torna um livro convencional. Tanto a crueza das experiências relatadas, como a perda da virgindade da protagonista aos trezes anos, por exemplo, quanto a linguagem utilizada o distinguem.

Para mim, a escrita e a edição, deste livro são dois actos de ousadia tremendos num mundo dominado por best-sellers de consumo rápido; Um grito de liberdade para aqueles que ousam fugir do cânon literário.

Já se fizerem comparações com as obras de James Joyce e Samuel Beckett, outros nomes irlandeses da literatura e eu até compreendo está comparação. Joyce, por exemplo, era a plenitude, um autor que quis abarcar toda a essência humana. Beckett era a negação, o esvaziamento completo. McBride é uma negação positiva, se é que estes opostos podem conviver em harmonia.

Autora desarma a concepção de literatura, de um modo duro e violento, mas, ao mesmo tempo, parece haver uma faísca de esperança e redenção pairando sobre toda a narrativa. É difícil saber se ela deseja acreditar na salvação, ou se somente não criou coragem ainda para mergulhar no nada.

Sei que pode parecer precipitado mas que se lixe!! McBride é uma génia  e Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada um livro revolucionário .

Dito isto, a voz resmungona  não tarda em aparecer e sussurrar-me: “agora a missão de Eimear McBride será provar ao mundo se este seu primeiro romance foi apenas um fortuito vislumbre de revolução, ou se terá algum poder transformativo no futuro.”

Pois, pois…

De qualquer modo, a Literatura e eu agradecemos este sopro de ousadia.

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