Di Prima e a sua Geração Beat

Estava aqui sentada na lavandaria a ver  a roupa girar na máquina quando… Olho para o lado e encontro junto das revista um exemplar do livro On the Road do Jack Kerouac.

Peguei no livro, folhei-o e lembrei-me da meia dúzia de exemplares que já me passaram pelas mãos e que sempre acabei por oferecer.

Tenho uma confissão a fazer: Nunca terminei o livro (que tantos amigos meus adoram e por isso me foi oferecido em várias ocasiões) e tenho um certo problema com ele, nunca me acabou de agradar. Brevemente vou ver o filme e ver se quebro a maldição Jack Kerouac.

Acho que o cenário de amigos, drogas, sexo e poesia me pareceu sempre desinteressante por ser demasiado masculino, o que fez com que nunca terminasse de ler o livro. Lembro-me de pensar da primeira vez que me o ofereceram e que o comecei a ler: E se a personagem fosse uma mulher? Toda esta viagem seria possível?

Claro que sim, pensei. Mas será que levantaria tanto interesse e tornaria o livro num livro de culto como é o On the Road”?

PARA COLOCAR EM CONTEXTO A GERAÇÃO BEAT E A PRESENÇA OU “AUSÊNCIA” DAS MULHERES NO MOVIMENTO 

Não há como falar da Geração Beat e não associar o termo a nomes como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs. As mais familiarizadas incluirão Gregory Corso, Neil Cassady e Lucien Carr. Mas é a santíssima trindade masculina, que citei primeiro, que sempre deu o tom ao movimento contracultural, um dos mais significativos da primeira metade do século XX. Uma geração cansada do American Way of Life, louca para se fazer a estrada, viver sem regras impostas, experimentar todas as sensações que o corpo pode ter, seja com sexo, drogas ou qualquer tipo de prática necessária. Como diria o próprio Kerouac num trecho famoso do livro On The Road, eles queriam arder e queriam conviver com mentes e corpos que fizessem jus à essa filosofia.

Voltando às mulheres ou a falta delas na Geração Beat, claro que elas estiveram lá mas estiveram à sombra dos grandes nomes do movimento. Li algures uma citação de Gregory Corso que, quando questionado sobre a falta de mulheres na Geração Beat, disse:

“Houve mulheres, estiveram lá, eu conheci-as, conheci as suas famílias que as internaram, elas receberam choques eléctricos. Nos anos de 1950, se fosses homem, podias ser rebelde, mas se fosses mulher, a tua família mandava-te trancar. Houve casos, eu conheci-as, algum dia alguém escreverá a respeito.”

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Não voltei a pensar nisto, nem nas possíveis razões que me levavam a desistir de o ler até encontrar Memoirs Of A Beatnik de Diane Di Prima.

‘Memórias de uma Beatnik’ é o ponto de vista feminino dessa época, tão masculina, da literatura.

Diane di Prima, tem uma escrita ágil e envolvente, escancara a sua entrada no movimento literário Geração Beat, maioritariamente composto por homens, como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs. Ambientado na década de 1950, Di Prima não economiza no sexo, na arte e na rebeldia durante o seu crescimento.

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O contexto histórico do fim dos anos 40 e início dos anos 50 não era fácil para as mulheres que, apesar de serem coadjuvantes relevantes e intermitentes nos romances de Jack Kerouac, por exemplo, eram relegadas apenas a esse tipo de papel: mães, amantes ou esposas histéricas.

“Memórias de uma Beatnik” é um romance por encomenda. No fim dos anos 60 o editor Maurice Girondias encomenda à Di Prima este romance. E Di Prima escreve uma memória autobiográfica erótica na qual descreve entre outras aventuras sexuais, uma curiosa experiência numa orgia – para mim pouco excitante – que envolve Ginsberg e Kerouac entre outros.

Mas, na minha opinião, acima de tudoMemórias de uma Beatnik desempenha dois papéis que considero importantes: o primeiro é o de revelar a vida das jovens que em plena década de 50, uma época marcada pela chamada geração silenciosa e o retorno ao conservadorismo, saíam das casas deixando para trás as suas famílias e religiões, abandonando a universidade, que apesar de oferecer uma formação, ainda as reprimia e seguiam as suas próprias intuições. O segundo papel, que considero neste caso o principal, é o de tratar da sexualidade feminina de uma forma simples, erótica e sem a imposição de um único género de uma relação heteronormativa.

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Diane di Prima foi uma das poetas (ou poetisa como preferirem) mais activas do seu tempo; na segunda metade dos anos 70 atravessou os Estados Unidos para fazer parte de diversos eventos contraculturais. A sua obra abarca mais de 5 décadas e é uma escritora importante da Geração Beat que não pode ficar na sombra.

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BEAT ATITUDE, o uivo feminino das ‘BEATNICKS’

“Beat Atitude” é uma antologia de poemas que resgatam do esquecimento 10 mulheres que foram companheiras de viagem da Geração Beat, apesar de que durante décadas ficaram eclipsadas pelas lendas dos homens do movimento.

Neste livro podemos encontrar poemas de: Denise Levertov, Leonore Kandel, Elise Cowen, Diane di Prima, Hettie Jones, Joanne Kyger, Ruth Weiss, Janine Pommy Vega, Mary Norbert Körte e Anne Waldman.

Muitas artistas da Geração Beat foram mulheres atribuladas que se viram obrigadas a lutar contra as restrições da cultura, das famílias e da educação ao mesmo tempo que tentavam desenvolver o seu talento artístico à sombra de alguns dos mais emblemáticos autores do movimento.

Nestas mulheres existiu um instinto de liberdade muito firme e pelo qual lutaram com garra.

 Boa leitura e muita sororidade
Sem Título

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