Xerazade – A Última Noite de Manuela Gonzaga

Manuela Gonzaga é entre muitas outras coisas historiadora, escritora e ex-jornalista, mãe de quatro filhos, natural do Porto, mas viveu também em Moçambique e Angola, onde estão as MEMÓRIAS que tanto inspiram a sua obra.  Tive o prazer de conversar com ela e falarmos do seu último livro, xerazade– A Última Noite.

198289_5160243151_5765_n
Foto pessoal de Manuela Gonzaga
Querida Manuela, fale-nos um pouco sobre si, os seus gostos e o que é que faz actualmente para além da escrita. 

Partilho a paixão da escrita com a investigação. Estou ligada ao Centro de História de Além-Mar {CHAM) da Universidade Nova, onde fiz mestrado. Não é por acaso que parte dos meus livros são biografias científicas, no sentido formal da palavra. Além disso sou activista. Filiada, pela primeira vez na vida, num partido político. PAN – Pessoas, Animais, Natureza.

A mim, como creio que há muitas das Confreiras que nos lêem, na (pré) adolescência nos ofereceram um Diário e durante algum (ou até hoje) tempo fomos diaristas, a Manuela também teve ou têm o seu diário?

Aí pelos 13, 14 anos, tive um diário. Mas a certa altura dava por mim a escrever preferencialmente contos, prosas soltas, peças de teatro, coisas assim.

1O que é que lhe impeliu a começar a escrever? O que é que lhe fascina mais ao contar as suas histórias?

A palavra é mágica, e isso percebi muito cedo e com tamanha intensidade que decidi ser escritora assim que comecei a ler e a juntar frases. Contar histórias é criar mundos. É esquecermo-nos de nós e alargar a esfera de consciência por tempos, espaços e modos de uma maneira indizível. Cada livro, cada história, cada poema, é uma viagem.

Boa parte das suas obras são autobiográficas, casualidade ou necessidade?

O único livro meu (dos 14 já publicados) que cai sob a alçada da biografia é o livro que escrevi dedicado à minha mãe, privada da memória, a fim de mitigar a sua solidão com registos da nossa vivência em Moçambique.. não pensava publicá-lo até ela mo pedir com tamanha veemência que tive de fazê-lo.

Então, “Moçambique, para a mãe lembrar como foi” é, talvez, o livro mais íntimo, no sentido em que foi escrito quando tinha a sua mãe muito doente. Foi um livro difícil de escrever?

Foi muito difícil, mas, ao mesmo tempo, muito útil e esclarecedor… ajudou-me, finalmente, a reconstruir o puzzle da minha e das nossas vidas. Porque se ia para África? Quem ia? Como eram os quotidianos ultramarinos, à luz das memórias da menina e da jovem que fui, e do enquadramento que a historiadora que sou ajudou a completar? Além disso, este livro levou-me a memórias que me encheram de alegria, mas também de angústia. Voltei à guerra. Às pequenas guerras pessoais. E, de relance, ao regresso quando tudo era tão diferente que percebi que Portugal se tornara terra estrangeira e foram precisos muitos anos para reconquistar a minha cidadania interior.

Por fim, devolveu-me a e a muitos de nós, a memória viva dos nossos dias de ontem. Mesmo junto de moçambicanos da novíssima geração que, sem complexos, descobrem «o fogo sob as cinzas» para usar uma expressão lindíssima do poeta premiado Jaime Rafael Munguambe Junior que lhe dedicou uma crítica esplendorosa.

xeraEntretanto, surgiu Xerazade, uma obra soberba. eu não pude estar na apresentação e algumas das Confreiras também não, fale-nos um pouco sobre como foi surgindo este enredo?

Este enredo surgiu de repente e de surpresa: frases poéticas, num encadeado quase torrencial, que ao fim de algum tempo me permitiram perceber que estava de volta ao romance.


BANNER comprar 10
Como é o seu processo de escrever, enquanto mulher? Teve momentos de bloqueio? Se sim, como é que foi lidando com eles?

Quando escrevo sou acima de tudo pessoa. Evidentemente, pessoa de género feminino.. Quando escrevo sou tudo e todos os que me utilizam para se expressarem. Aí se inclui a paisagem. Por outro lado, não ligo muito aos bloqueios. Uma grande parte da escrita é oficinal. A inspiração é um sopro sagrado que nos abençoa tanto mais quanto mais ao serviço da palavra nos encontrarmos.

Sente que há diferenças entre homens e mulheres no que diz respeito às possibilidades de edição, de reconhecimento… ?

Não sei responder a isto. Eu nunca tive dificuldade em arranjar editor. A minha dificuldade foi encontrar o editor certo. O reconhecimento público alargado já terá mais a ver com o valor específico de cada escritor mas um ou uma grande escritora pode não colher necessariamente os louros da sua obra, em vida. Eça de Queiroz, quando morreu, não tinha sequer esgotado a primeira edição de Os Maias. Quase todos os seus supostos «pares» o desvalorizaram e atacaram. Acusaram-no de muita coisa, até de plágio. Uma vergonha que ilustra mentalidades que ainda persistem, de forma mais encapotada, embora. Felizmente, os mecanismos censórios já não prevêem a reclusão e a destruição das obras «danadas».

2Deixe-me perguntar-lhe coisas agora mais generalistas… Que escritoras a têm inspirado ao longo da sua vida?

Margarite Yourcenar, Virginia Woolf, Lygia Fagundes Telles Sofia de Mello Breyner… mas também Karen Blixen, Augustina Bessa Luis. E Emily Brontë!! Estou a ser injusta porque há muitas mais. Em todo o caso, para mim a literatura não tem género nem orientação de género. Acresce que, para começarem a ser reconhecidas enquanto escritoras, as mulheres lutaram contra muitos preconceitos de género. Hoje em dia, não há motivos para temer nesse campo. O único temor é a grande ignorância e a passividade. E a falta de memória.

Qual a obra que lhe marcou mais até hoje. É a mesma que aconselharias os seus leitoras/es a ler “obrigatoriamente”?

Não consigo responder!! É que os livros são como as companhias. As vezes, apetece-nos estar mais com aquela grande amiga, outras vezes mudamos de círculo. Mas quando gostamos de alguém, esse alguém vai connosco para a vida, mesmo quando deixamos de nos ver por longos períodos. Acima de tudo, acho que toda a gente devia ler, na infância (que dura a vida toda) histórias de encantar, não as versões Disney, de pacotilha e sem alma, mas os verdadeiros. Os contos tradicionais. Além disso, acho que toda a gente, toda a gente mesmo, devia ler o Principezinho várias vezes ao longo da vida.

Por fim, novos projectos de Manuela Gonzaga?

Pois… podemos falar disso daqui a umas semanas?*

_____________________________________________________________________________

NOTA

*Esta entrevista foi realizada no passado mês de Junho e um destes novos projectos que então a Manuela Gonzaga ainda não podia partilhar connosco era a sua candidatura as Presidenciais 2016 com o apoio do Partido PAN – Pessoas-Animais-Natureza sob o lema “liberdade incondicional” para todos.

Se quiserem estar a par das andanças da Manuela Gonzaga podem acompanha-la no seu blog e no facebook.

Um abraço da vossa livreira vermelha e até a próxima entrevista :)

Image and video hosting by TinyPic

Anúncios

One thought on “Xerazade – A Última Noite de Manuela Gonzaga

  1. Pingback: NOTÍCIAS |

A tua opinião é importante

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s