E os homens podem entrar?

[nota: este post foi escrito e publicado pela primeira vez no dia 26/02/2015]

Alguma vez … (fragmento)

Alguma vez as mulheres nos importamos,  alguma vez as mulheres nos respeitamos, alguma vez as mulheres caminhamos juntas…

Alguma vez as mulheres nos encontramos e nos ouvimos…e fomos bruxas e fomos magas…Demos as mãos e misturamos luz da lua …. 

do livro  ” As Deusas em cada mulher”. Jean Shinoda Bolen – médica, psiquiatra, escritora e conferencistas contemporânea

Aida, só uma questão: os homens podem entrar e são bem-vindos na livraria, certo?

Fizeram-me esta pergunta na entrevista para o Jornal Público, na Rádio, nas apresentações da campanha, nas redes sociais, por email… e nos últimos 2 dias de maneira continua, penso que pela polémica da performance de activistas feministas na barbearia de Lisboa que não deixa entrar mulheres. Talvez me tenham perguntado mais insistentemente nos últimos dias na expectativa de encontrar mais um argumento para ir contra ao facto de muitas mulheres (e homens) acharem abusiva a política de dito estabelecimento comercial. Como que querendo encontrar um espaço onde é proibida a entrada a homens para contra atacar.

Pois bem, na Livraria Confraria Vermelha os homens serão bem-vindos e não, não existirá nenhuma tabuleta na porta a dizer “homem não entra”.

É uma Livraria DE Mulheres. Ou seja, será uma livraria gerida por mulher(es), especializada em escritoras e em literatura com perspectiva de género. Uma livraria especializada na escrita de mulheres que escrevem sobre a sua natureza, sobre sua sensibilidade , sobre o seu prazer, sobre a sua maneira de olhar o mundo…

O que é para ti uma livraria de mulheres?* 
“Um espaço que promova a escrita feminina e que dê aos leitores uma ampla gama de histórias de mulheres, histórias diversas de vidas e interesses. Um espaço de educação e novos paradigmas!Um ponto de informação e culminar de sinergias.” Ângela Gonçalves

IMG_8326 BA Livraria Confraria Vermelha nasceu (sem eu dar conta) quando eu tinha três anos e a minha avó me contou a verdadeira história da Capuchinha Vermelha mas é só no ano 2008 que toma forma na minha cabeça e que começa a desenhar-se como projecto de vida, tal como vos conto nesta entrevista.

2008 é um ano de mudança para mim, a todos os níveis. Depois de mais um desafio que me proponho a mim mesma e de concluir por mim (lendo e investigando a vida e obra de mulheres e escritoras) que no mundo das letras as mulheres e escritoras estiveram escondidas durante séculos e os homens disseram e ditaram as leis e as normas e os dogmas… e assim as mulheres leram e até escreveram o que os homens disseram sobre elas, nasce a livraria Confraria Vermelha como projecto. Uma livraria que pretende resgatar as mulheres e as escritoras que ficaram silenciadas e as que actualmente ficam marginalizadas do mainstream… Quero dar a palavra as psiquiatrAs, escritorAs, médicAs, filosofAs, teólogAs, cientistAs e antropólogAs para que assim sejamos nós, as mulheres também, as que designemos o que é importante na vida dos povos e das mulheres…

O que é para ti uma livraria de mulheres?*
“Uma livraria onde é possível o encontro de obras de literatura produzida por mulheres; um lugar de encontro com a voz feminina, através da palavra escrita; uma forma de aceder ao universo feminino, com um livro na mão e uma curiosidade desmedida por todas que ousaram partilhar a sua criatividade pessoal” Carla Cunha

Em 2008 concluí por mim mesma (mais uma vez, pois já o tinha feito aos 13 anos quando li O Diário de Anne Frank e aos 23 quando li Virginia Woolf), que até então tinha lido o que eles escreveram sobre o que eu sentia e queria (ou melhor, o que nós sentimos e queremos ou então nem sequer sabem o que nós queremos) e sobre a minha sensualidade/sexualidade… eles determinaram o que eu devia ou não fazer, se era mãe ou prostituta… etc. Eles tinham a palavra em exclusivo, a mulher essa foi votada ao descrédito por Apolo até Lacan, nunca as mulheres tiveram voz… ou palavra… remetidas ao silêncio.

Uma livraria de mulheres nasce para quebrar esse silêncio.

Então… Aida, a livraria Confraria Vermelha é uma livraria feminista? 

Acima de tudo é uma livraria de mulheres.

Ou seja…

… é uma livraria de mulheres feministas e que se sentem feministas,

… é uma livraria de mulheres feministas e que não sabem o que é o feminismo,

… é uma livraria de mulheres que foram feminista e que agora não o são,

… é uma livraria de mulheres que não são feministas.

… é uma livraria de mulheres que não nasceram mulheres mas se sentem mulheres,

… é uma livraria de mulheres que nasceram mulheres e que  não se sentem mulheres.

Em suma é uma livraria de mulheres, simplesmente mulheres. 
Sem nenhum adjectivo exterior. O QUE SÓ POR SI É MUITO. 

Para desenhar o projecto da Livraria Confraria Vermelha, tive várias musas entre elas Simone de Beauvoir, que justamente por ter uma lógica própria de se colocar no mundo, escreveu “O Segundo Sexo” ao perceber que nunca se tinha perguntado: o que é ser mulher?

Esta continua a ser uma pergunta actual, que deve ser feita por todas nós em algum momento da nossa vida. Por isso a livraria Confraria Vermelha é uma livraria de mulheres, de todas as mulheres, sejamos ou não feministas, sejamos isto ou aquilo.

É uma livraria especialmente para mulheres (e homens) 
que acreditam que #juntasfazemosacontecer

Para quem não acredita que podemos ter o nosso Quarto Próprio Colectivo de Mulheres, aconselho-vos a ler/ouvir o discurso de Chimamanda Ngozi Adichie “Sejamos todos feministas”, lançado em e-book pela Companhia das Letras, a escritora nigeriana conta que foi definida como “feminista” pela primeira vez numa discussão com um amigo. E não foi um elogio. Durante a sua vida, tinha ouvido que as feministas eram infelizes, anti-africanas, anti-homens, anti-maquilhagem. Ela não se identificava com esses rótulos, mas identificava-se com a ideia contida no feminismo; por isso passou a se definir como “uma feminista feliz e africana que não odeia homens e usa batom para si mesma, não para os homens”.

O que eu quero dizer com isto é que tal como a escritora Chimamanda com a sua escrita, a livraria Confraria Vermelha, como projecto livreiro, procura desconstruir esta sociedade que nos ensina que homens são mais importantes do que mulheres. E que divide as mulheres em dois grupos, as boas e más, as feministas e as não feministas, as empoderadas e as submetidas, as santas e as putas, etc, etc…

Para sermos mulheres (cada uma a mulher que deseja ser) precisamos comunidade… tribo. E é nesse sentido que a Confraria Vermelha é uma livraria de mulheres. Uma livraria onde cada uma tenha o seu quarto próprio mais uma sala comum para todas nós.

Um espaço onde…

A livraria Confraria Vermelha pretende ser um espaço onde se tem em conta a perspectiva de género como transversal a todas as obras que se podem encontrar na livraria, onde a mulher não se sinta oprimida por estereótipos relativos à sua aparência, forma de ser, sexualidade, etc.

Um espaço onde se podem encontrar livros/objectos que não são frequentemente expostos ou promovidos noutros espaços comerciais, que geralmente publicitam o best-seller do momento.

Um espaço que possa servir também para tertúlias, apresentação de livros, conferências…A Confraria Vermelha pretende ser um espaço onde encontrar escritoras que buscam a essência perdida…A livraria Confraria Vermelha será um lugar onde as mulheres se sintam em casa… um lugar onde as mulheres (e todas as pessoas) podemos encontrar livros que nos libertam das ideias alheias das filosofias de doutores e professores que disseram e escreveram e ditaram os comportamentos que nos condicionaram e fizeram esquecer a nossa intuição, a nossa capacidade de sentir e nos desviaram da nossa sabedoria interna.

O que é para ti uma livraria de mulheres?*
Será que está interdita a entrada a homens? Me perguntei. Não, penso eu, porque parece-me que o objectivo é abordar temas ligados ao feminino que noutros locais não têm lugar, 
mas não excluir homens interessados! Sílvia Isabel

A Livraria Confraria Vermelha é uma livraria de mulheres para mulheres (leia-se também pessoas) que se pensam e se sentem desde diferentes culturas, crenças, idades, profissões… Uma livraria para aproximar as mulheres porque “a distância mais longa do mundo são os 35 centímetros entre a mente e o coração”. Uma confraria para desenvolver a sororidade, esse pacto entre mulheres que se reconhecem interlocutoras. Onde não há hierarquia mas sim o reconhecimento do valor individual de cada uma. 

Uma confraria de sororidade, como gosto de chamar, baseada na equivalência humana, igual valor entre todas as pessoas, ou seja o mesmo valor entre todas as pessoas porque se o teu valor é diminuído por efeito de género, também é diminuído o género em si.

E quando valorizamos uma pessoa pelo que ela é, deixamos de estar condicionadas pelas questões de género e somos mais livres. Ao hierarquizar ou obstaculizar uma pessoa, perdemos todas e todos.

A Confraria Vermelha – Livraria de Mulheres tal como a sororidade tem como principio a reciprocidade que potencia a diversidade. Implica partilhar recursos, saberes, tarefas, acções… e é nesse sentido que serão escolhidos os livros que povoarão as estantes assim como as actividades e eventos que darão expressão a livraria.

A Confraria Vermelha apresenta-se como uma livraria de mulheres (de e sobre todas as mulheres e para todas as pessoas), porque pretende ser um espaço para dar a conhecer as aportações das mulheres para construir a valoração não só da condição humana mas sim dos factos. E a chave disto não se encontra no “como nos queremos” mas sim, em como nos respeitemos, algo difícil pois não estamos educadas no respeito pelas mulheres. A Livraria Confraria Vermelha é um projecto que visa enfrentar a misoginia, grave problema na nossa sociedade.

Através de livros, actividades e eventos procurar rever essa misoginia e principalmente rever a nossa própria misoginia, cada uma tem de ir descobrindo onde, como lhe aparece essa misoginia em si, e como nos legitima a ferir outras mulheres (o que também é violência) e por isso a Confraria Vermelha ser uma livraria de mulheres porque o centro será sempre a mulher.

Mantendo a mulher no centro deste projecto assim como aquilo que defino como “confraria da sororidade”, a Confraria Vermelha é uma livraria que pretende através dos livros, das actividades e eventos que dinamize desconstruir a misoginia, pois, na minha opinião, esta desconstrução me parece uma acção básica para o empoderamento das mulheres e para a construção da igualdade que respeita a diferença, sem hierarquias nem dominação.

Livraria de mulheres…

Quando sonhei a Confraria Vermelha, imaginei-a como um lugar, um quarto próprio, para todas nós… “todas diferentes, todas iguais” mas…

Como conseguir a sinergia entre mulheres diferentes que reconhecem que a diversidade é um valor positivo, que se unem para universalizar os direitos e para contribuir para a valorização dos direitos, do respeito e da sacralização das mulheres no mundo? E como consegui-lo com uma livraria?

A “confraria da sororidade” é possível como um processo, a livraria Confraria Vermelha como espaço físico, aberto a todas as mulheres (leia-se também a todas pessoas) onde poder encontrar livros que nos levam a encontros, conversas, actividades, PARTILHAS onde cada uma se vai construindo a si própria desde aquilo que realmente deseja ser e sendo respeitada e aceite por isso… A livraria Confraria Vermelha pretende ser um espaço para que individual e colectivamente as mulheres assumam a construção de si mesmas como sujeitos.

Mas,Aida, não tens medo que os homens se sintam excluídos?

O que os homens (e não estou a generalizar) não aceitam não é a sua exclusão, mas sim a nossa união. Minto, aceitam-na para rezar, trocar receitas ou para fazer footing mas não para nos identificarmos umas com as outras nem para conseguirmos alcançar cumplicidade entre nós (é sabido que somos rivais umas das outras). Calculo que fiquem assustados pois como diz o refrão “pensa o ladrão que são todos da sua condição”, digo isto tendo em consideração que quando eles se reúnem tem sido para a nossa exclusão e pensam que nós vamos fazer a mesma coisa. O certo, é que as mulheres, não só temos sido excluídas como separadas e por isso uma livraria de mulheres, de todas as mulheres.

O que é para ti uma livraria de mulheres?*
"Uma livraria para mulheres, cujo propósito seja promover a escrita de autoras femininas e dar a conhecer livros que promovam a reflexão na vida complexa e diversa das mulheres, bem como os seus interesses. É assim que imagino uma livraria para mulheres." Sara Vale

* “O que é para ti uma livraria de mulheres?” pergunta lançada no facebook no inicio da campanha.

#JUNTASCONTINUAMOSAFAZERACONTECER

Um abraço da vossa livreira vermelha,

Image and video hosting by TinyPic

 

Anúncios

A tua opinião é importante

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s